Quinta-feira, 6 de Março de 2008

Críticas à teoria ética de Kant

Apresento aqui uma série de primeiras críticas à ética Kantiana. Os textos são da autoria de Luís Rodrigues e pertencem ao seu manual de Filosofia, para o 10º ano, publicado na Plátano sendo um dos melhores manuais disponíveis para ensinar e aprender filosofia. Agradeço ao autor a autorização para publicação destes excertos.


1 – As regras morais não são absolutas
Kant defende que para agirmos moralmente temos de respeitar de forma incondicional um conjunto de algumas regras morais (deveres ditados pela nossa razão). Para Kant, essas regras morais são absolutas, são para serem respeitadas de forma incondicional, sem excepções, em todas as situações do nosso quotidiano.
Uma dessas regras é o nosso “dever de não mentir”. Para Kant, não devemos mentir em toda e qualquer situação. Mas quererei eu que este princípio de acção se aplique universalmente a todos os casos possíveis de acção? Vamos ver um caso em que é preferível mentir a dizer a verdade, ou seja, em que é moralmente mais correcto mentir a dizer a verdade, sendo o caso de termos de mentir com vista a salvarmos a vida de uma pessoa (lembre-se de que Kant admitira que não existiam excepções para a violação ou desobediência a estas regras morais).
Imagine que vai na rua e de repente vê um rapaz a correr aflito na sua direcção, entrando, logo de seguida, numa casa abandonada que se encontrava ao seu lado. Poucos segundos depois, quando retomava o seu percurso, avista um homem com uma pistola na mão que lhe pergunta de relance se viu algum rapaz a correr, percebendo de imediato, naquele momento, que o homem teria a intenção de disparar contra o rapaz e, provavelmente, de matá-lo. O que diz ao homem? Tem duas possibilidades de acção.
Uma das possibilidades é dizer a verdade ao homem, dizendo-lhe que o rapaz se encontra mesmo ali ao vosso lado, no interior da casa abandonada, sabendo que as consequências do que afirmou poderão eventualmente resultar na morte do rapaz.
A outra das possibilidades é mentir, dizendo ao homem que o rapaz seguiu em frente. Mentir? Mas isso Kant não o permitiria, diria. Exacto, não o permitiria. Mas o que é que para si é moralmente mais correcto, dizer a verdade e pôr em causa a vida de uma pessoa ou mentir e provavelmente salvar a vida de uma pessoa? De acordo com uma das formulações do imperativo categórico de Kant, como irias querer que todas as pessoas agissem quando confrontadas com essa situação:
1 – Que mentissem e não pusessem em causa a vida de um jovem
2 – Que dissessem a verdade e pusessem em causa a vida de um jovem.
Vamos colocar as duas na balança da decisão ética. Tenho a certeza de que a maioria das pessoas concordaria com a primeira das hipóteses.
É claro que Kant iria afirmar que, dizendo a verdade ou pura e simplesmente mentindo, as consequências são imprevisíveis. Portanto, o melhor é sempre dizermos a verdade, aquilo que a nossa razão nos ordena. Mas isto é absurdo, porque um caso como este põe em causa a vida de uma pessoa e, neste sentido, podemos dizer que as consequências daquilo que afirmamos poderão provavelmente resultar na morte de um jovem.
Ora, este exemplo revela que nem sempre é moralmente correcto termos de respeitar de forma incondicional as regras morais da nossa consciência racional, tal como Kant nos tinha dito. Logo, concluímos que as regras morais não são absolutas.
 
 
2 – A situação dos casos de conflito
Uma certa pessoa tem de optar entre duas possibilidades de acção (fazer A ou fazer B). Verifica-se que fazer A é moralmente incorrecto e fazer B é moralmente incorrecto. O que faria o defensor da teoria ética de Kant perante esta situação?
Atente na seguinte situação: “Durante a Segunda Guerra Mundial, os pescadores holandeses transportavam, secretamente nos seus barcos, refugiados judeus para Inglaterra e os barcos de pesca com refugiados a bordo eram por vezes interceptados por barcos patrulha nazis. O capitão nazi perguntava então ao capitão holandês qual o seu destino, quem estava a bordo, e assim por diante. Os pescadores mentiam e obtinham permissão de passagem. Ora, é claro que os pescadores tinham apenas duas alternativas, mentir ou permitir que os seus passageiros (e eles mesmos) fossem apanhados e executados. Não havia terceira alternativa.”
Os pescadores holandeses encontravam-se então na seguinte situação: ou “mentimos” ou “permitimos o homicídio de pessoas inocentes”. Os pescadores teriam de escolher uma dessas opções. De acordo com Kant, qualquer uma delas é errada, na medida em que as regras morais “não devemos mentir” e “não devemos matar” (ou permitir o assassínio de inocentes, no caso do exemplo dado) são absolutas. O que fazer então?
Verificamos que a teoria ética de Kant não saberia responder perante uma situação de conflito, porque proíbe ambas as possibilidades de acção por estas se revelarem moralmente incorrectas. Mas a verdade é que, perante uma situação destas, a qual por acaso se passou na realidade, teríamos de optar por uma dessas duas possibilidades. Se a teoria ética de Kant nos proíbe de optar por uma delas, mas na realidade somos forçados a optar por uma, a teoria ética de Kant revela-se incoerente. Incoerente porque aquilo que concluímos (existem casos em que temos de mentir) contradiz aquilo que Kant defende (não devemos mentir nunca e em qualquer situação e isto porque para Kant as regras morais são absolutas).
 


publicado por rolandoa às 14:45

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7 comentários:
De Margarida a 24 de Julho de 2009 às 01:18

Antes de mais queria agradecer a disponibilidade que teve em ler.


Durante o ano lectivo surgiu-me uma dúvida um pouco caótica ao estudar as diferentes éticas dos diferentes filósofos nomeadamente Stuart Mill e Kant. Surgiu-me a ideia de colocar aminha dúvida pois acredito que será capaz de ma esclarecer.


A ética de Kant defende que os juízos morais da acção humana não têm como justificação a obtenção de bons resultados ou a sua utilidade avaliando assim as acções do Homem em função do seu princípio implícito e independentemente dos seus efeitos, tratando-se assim de uma ética formal, de uma ética do dever na qual o dever se eleva em relação à felicidade, ao que o Homem realmente nem sempre deseja: primeiramente o conceito de dever e só posteriormente o conceito de bem, de felicidade não tendo justificação a obtenção de bons resultados ou a sua utilidade.


Ao passo que John Stuart Mill apresenta como princípio da utilidade o princípio da maior felicidade, considerando-o como o fundamento da teoria ética normativa. Assim o agir será eticamente correcto se proporcionam felicidade ou ausência de sofrimento, sendo deste modo considerados menos éticos os comportamentos geradores de sofrimento ou de menos felicidade.


As duas éticas estão claramente resumidas em cima. Sabendo que a ética de Kant apresenta dilemas embora estes não sejam tão imprudentes em relação à ética de Mill, enquadrando-se assim melhor na sociedade em que vivemos, pergunto-me se não era possível formar uma ética que englobe a ética de Kant e a ética de Mill. Em que esta ética defendia a luta pelo dever, tal como a de Kant, mas de todos os deveres à escolha optava pelo que minimizasse o sofrimento, a dor e elevasse a felicidade, a compaixão, tal como a de Mill, adicionando-lhe apenas uma coisa: o DEVER. Não digo que as éticas destes filósofos deveriam funcionar simultaneamente porque é impossível. Mas acredito que seria possível formar tal como a mencionei em cima.  ( o texto é demasiado grande pelo que tenho de o dividir)

De Margarida a 24 de Julho de 2009 às 01:19

Imaginemos que numa situação do quotidiano eu tenho à escolha três deveres. Que critério vou eu usar para escolher um dos três deveres? Pois com esta ética eu tenho a solução: Opta-se pelo dever que oferece maior felicidade. Ou seja utilizo o dever que me concebe maior felicidade.


Caso ocorra um dos poucos dilemas de Kant, em relação à vida Humana, tal como o conhecido exemplo que já deu é de facto algo que se possa resolver com a minha proposta ética. Opta-se pela maior felicidade que neste caso é ocultar a verdade.


Peço-lhe que me refute esta ética, veja os seus prós e contras e acima de tudo se é possível.


Agradecia imenso a sua resposta. Será claramente importante.


Margarida_1090@hotmail.com

De rolandoa a 24 de Julho de 2009 às 11:02

Olá Margarida,

Fez bem em colocar as questões. Não sou um especialista na área pelo que a minha resposta será sempre incompleta. O que geralmente acontece nas teorias filosóficas é que elas têm versões mais e menos radicais. A versão que me apresenta quer de Kant, quer de Stuart Mill é a versão grosso modo, como gosto de lhes chamar, isto é, são os alicerces base. E é realmente por aí que se começa. Mas depois há imensas versões quer do utilitarismo, quer das éticas deontológicas. E há versões mais híbridas, que resultam de uma mistura de elementos quer do deontologismo, que do utilitarismo. Em geral confrontam-se utilitarismo e deontologismo precisamente porque nos parecem formulações antagónicas. E são. Mas a questão que faz é interessante para pensar: posso ou não posso defender o utilitarismo com elementos formais? De outro modo, qualquer uma das éticas é formal, no sentido em que se trata de uma busca de como melhor agir. Se me perguntar se de um ponto de vista estritamente pessoal se sigo na minha vida uma ética deontológica ou utilitarista, olhe que eu nem sei se sei responder-lhe. Tenho uma inclinação racional para aceitar o utilitarismo, mas com muitos “ques” pelo meio. O interessante da filosofia é isto mesmo, é que não temos soluções mágicas para os problemas da vida que não se resolvem senão pensando neles. Acontece que a ética formal de Kant se ajusta muito bem a muitas circunstâncias e o utilitarismo a outras. O que nos cabe reflectir em filosofia é aquela que nos dá melhores razões para a aceitar como a tese mais plausível. O problema que a Margarida coloca é interessante na medida em que se está a dar conta que nem uma nem outra das éticas é completamente aceitável para todos os problemas. É por essa razão que se calhar mais vale pensar um problema de cada vez. Já leu os elementos de filosofia moral do James Rachels (Gradiva)? Ele apresenta de modo simples os pontos principais desta discussão.

Espero ter ajudado alguma coisinha

De Margarida a 25 de Julho de 2009 às 22:56

Obrigada imenso por ter respondido. Eu percebi o seu ponto de vista. Eu por acaso não li um livro especifico sobre james rachels, apenas li excertos que as vezes aparecem no livro de filosofia e que me entretenho a ler.Simplesmente adoro esta disciplina porque se me questionar um pouco fico ainda mais confusa o que acho ao mesmo tempo irritante e novo. Eu coloquei esta questão na aula mas o seu resultado não foi como era esperado. O meu prof. rejeitou completamente a minha ideia pois acredita que a felicidade não se relaciona com o dever. O que acho errado. Coloquei varios exemplos mas parece , sinceramente, que para a maior parte das pessoas a Filosofia é um produto acabado. Eu decidi pedir.lhe ajuda porque queria saber se a minha pergunta era absurda tal como foi em aula. Obrigada e vou aceitar a sua proposta para ler o livro. Parabens pelo blog e pela rapidez da sua resposta. **
De rolandoa a 26 de Julho de 2009 às 00:09
Margarida,
Em filosofia não devemos rejeitar uma tese por mais excêntrica que nos possa parecer, à primeira vista. Isso não implica que as devamos aceitar todas. O que se espera em filosofia é que possamos analisar racionalmente cada um dos argumentos apresentados e rejeitar aqueles que são alicerçados em razões pouco plausíveis. Em caso de dúvida devemos sempre investigar um pouco e ler o que os filósofos disseram sobre o problema em causa. Realmente o meu conhecimento é pobre para lhe indicar se algum filósofo defendeu a tese que propôs. Mas se tem razões, ainda que não bem definidas, para a defender, não vejo razão para que não o faça. De resto é natural que até na comunidade dos profissionais de filosofia exista alguma resistência a propostas novas. Isso não menoriza ninguém em filosofia. Faz parte do género humano.
Disponha
De Anónimo a 15 de Maio de 2010 às 13:10
olá. sou aluna de 10 ano e para a semana irei ter teste. gostava que resumidamente me esclarecesse acerca das criticas à ética Kantiana e  à ética de S. Mill se fosse possivel . Aguardo por uma resposta
De Rafael a 15 de Agosto de 2012 às 17:09
Boa tarde! Eu acredito que nos dois casos somos incapazes de concebermos a consequência da nossa ação de mentir ou não, ou seja, no caso do jovem que se escondeu na casa abandonada, se por algum motivo eu dissesse que ele não se encontrava lá e o suposto assassino continuasse seu caminho e por um descuido o jovem pulasse a janela e desse de frente com o assassino, a culpa da provável morte do jovem não só cairia sobre a pessoa que mentiu como a própria culpa moral de não ter respeitado a universalidade e necessidade da sua moralidade. No caso do barco, podemos dizer também que caso os pescadores mentissem, pudessem ocasionar uma desconfiança nos executores, onde os mesmos poderiam querer revistar o barco, portanto sem a capacidade de prevermos as consequências, é extremamente complexo saber como devemos agir moralmente, porém como estamos na pós-modernidade tudo é relativo e as variáveis são diversas, então pensemos muito bem em nossas ações morais, sempre para preservar a vida humana acima de tudo!!!

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