Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2008

Manuais 2008? Venham eles!!!

Brevemente começam a chegar manuais novos para o 11º ano. Os argumentos das editoras, por regra, assentam em dois ou três pontos principais:
- Rigor científico;
- Adequação ao programa;
- Adereços como cd roms, cadernos de actividades, etc….
As editoras comercializam os manuais e até aí nada a dizer. Por regra são muito atenciosas com os professores e preparam todo o trabalho tal qual os professores indicam. Mas existe todo um comércio megalómano em torno dos manuais. E existe porque a sua venda dá dinheiro. E ainda bem! Pelo menos para mim é sempre bom saber que fazer um manual até dá alguns rendimentos, ainda que poucos, aos autores e editores. É um incentivo bom.
Rolando Almeida

Se não desse dinheiro era mais difícil ter manuais. O problema é outro! É que, também motivados pelo incentivo financeiro, todos os editores gostam de apresentar os seus projectos de manual. Quer isto significar que temos mais de uma dezena de manuais, para escolher somente um. Na quantidade está, obviamente, alguma qualidade, mas, no caso da filosofia, muito pouca. Por regra, em cerca de 16 ou 18 manuais, encontro dois ou três realmente bons para a disciplina e os restantes são quase sempre perfeitamente dispensáveis. Mas porque é que isto acontece? Quanto ao incentivo ao dinheiro estamos conversados. Sem esse incentivo é que teríamos mesmo poucos ou nenhuns manuais. Com ele temos mais manuais, mas nem por isso a qualidade aumenta por aí além. Isto acontece por outra razão, novamente, a do programa da disciplina. Tenho razões para crer que se o programa fosse rigoroso e privilegiasse os conteúdos verdadeiramente filosóficos, menos autores se atreveriam a escrever um manual de filosofia, mas com o programa que temos é natural que qualquer um se habilite a escrever um manual. Depois porque em Portugal não existe crítica pública de manuais. E, porque não existe, o crivo que a crítica poderia constituir, nem sequer existe e tudo passa para o mercado sem qualquer controlo. O Ministério da Educação poupava-se ao trabalho (que não tem condições para executar) de ter de certificar manuais, se a sua venda fosse livre, mas falarei disso já a seguir. Claro que se pode alegar que os próprios professores são o crivo crítico. Na realidade são mesmo. Acontece que os professores estão demasiado concentrados nos programas vazios de conteúdos, pelo que aceitam facilmente manuais vazios de conteúdos. E isto faz-me crer que a crítica dos professores nem sempre é suficiente. A lei dos manuais é ainda mais discutível que os próprios manuais e a sua concepção. Se por um lado é aceitável que a adopção seja por 6 anos consecutivos, por outro não existe qualquer lógica educativa nesta medida. Um professor pode ter de ficar “agarrado” a um manual incompetente somente porque o seu grupo disciplinar resolveu adoptá-lo. Isto acontece porque os professores tem de escolher 1 entre quase 20 manuais no curto espaço de 1 mês. Ora, só se conhece verdadeiramente um manual quando se testa esse manual. Se, após o primeiro ano de teste, o professor concluiu que o manual não serve bem a disciplina, está condicionado, com efeito, a ter de leccionar com ele mais 5 anos. Este problema evitar-se-ia se a venda de manuais fosse livre. Existe sempre o argumento que assim os manuais não transitavam de ano para ano e as famílias gastariam avultadas quantias em manuais, mas acontece que se a venda fosse livre, muitos manuais não teriam o aspecto gráfico da melhor qualidade que existe, pela simples razão que as editoras não estavam numa competição feroz, e poderia perfeitamente existir manuais que custassem pouco mais de 10€ e até pudessem servir para 2 anos. O exemplo do manual editado por Stephen Law e Elizabeth Burns ilustra o que aqui defendo: trata-se de um manual de um país rico, mas nem por isso tem imagens coloridas. Se existisse tradução, serviria na perfeição o ensino da filosofia. Aliás fazia melhor serviço que a maioria dos manuais que temos. E já ouvi professores de filosofia afirmarem que o manual que usam nas suas aulas é o Elementos Básicos de Filosofia de Nigel warburton (Gradiva, 2ªed, 2007). Um professor quando fica “agarrado” a um mau manual tem de andar todo o ano com a árdua e cara tarefa de transportar fotocópias, cometendo o crime de copyright dos bons manuais. E um professor por ter adoptado na sua escola um mau manual pode ver de forma decisiva o rendimento das suas aulas comprometido. Pessoalmente não consigo ensinar filosofia com a maior parte dos manuais 1) porque estão cheios de lacunas, 2) porque não abordam explicitamente os conteúdos da filosofia (a este propósito é interessante observar quantos manuais do 10º ano, por exemplo, abordam de forma explicita a filosofia da religião na unidade do programa que lhe é dedicada. Quase todos os manuais abordam sociologia da religião de forma descarada. Mas sociologia pimba) Conheço exemplos às dezenas – de professores -, tal como, infelizmente, conheço-os às dezenas que qualquer coisa serve e ainda os que, como eu aqui há uns anos, dispensam qualquer manual por os considerar verdadeiramente maus. Na realidade o meu interesse por manuais surge após a 1ª edição do Arte de Pensar (Didáctica Editora).Nunca antes me tinha interessado por manuais, somente porque vivia pacificamente com a ideia feita de que eles só serviam os objectivos dos seus autores e das editoras. Desde cedo me habituei a fazer os meus caderninhos, com capa e tudo, que fotocopiava para os alunos com textos que passava a computador dos livros que ia lendo. Mas há mais razões que levam a que se opte por maus manuais. E uma das mais significativas é realmente o vazio dos programas. Se um programa é vazio, um manual vazio está no mesmo lugar a concorrer com um manual escrito de raiz com conteúdos próprios da disciplina. Ora, ensinar conteúdos próprios é sempre mais trabalhoso (apesar de dar muito mais prazer) do que “ensinar” conversa da treta. Os professores são como todo e qualquer trabalhador, isto é, se não lhe exigem muito, porque se hão-de dar ao trabalho de estudar conteúdos próprios? E mesmo que um professor resolva fazê-lo vai sentir-se sozinho. Os alunos chegam ao secundário formatados na inércia do decoranço para fazer testes e é difícil adoptar um manual que incite o aluno a fazer aquilo que ele nunca aprendeu na escola, que é pensar pela sua própria cabeça. Assim, não é de estranhar que muitos profissionais da filosofia prefiram a Formiga Z ao Platão ou Stuart Mill para ensinar filosofia. Acontece que o aluno não precisa da escola para ver a Formiga Z, mas sem a escola provavelmente nunca vai conhecer Stuart Mill e ter a oportunidade de discutir os seus argumentos. Por esta razão considero que a crítica pública de manuais, de forma organizada, mostrando as suas insuficiências, é urgente e muito útil até a muitos autores que desejam melhorar os seus trabalhos. No ano passado, aquando das adopções do manual do 10º ano a crítica que aqui publiquei (parte 1 e parte 2), foi praticamente a única que surgiu de forma pública. Espero que, este ano, para os manuais do 11º ano, outros colegas possam realizar trabalhos de crítica de manuais. Pela minha parte, continuarei o meu trabalho, continuando a defender aquilo que é mais adequado ao ensino da filosofia e aos interesses dos alunos. Venham eles!

publicado por rolandoa às 00:02

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2 comentários:
De Cfaria a 27 de Fevereiro de 2008 às 15:43

Olá Rolando,

Subscrevo inteiramente a tua indignação, estando, enquanto professora contratada, numa posição privilegiada para avaliar, no terreno, de Norte a Sul, a escandalosa falta de critério (quero acreditar que não há critério, porque a existir o caso agrava-se mesmo) na adopção dos manuais de filosofia. Todos os anos, quando chego a uma escola nova receio fazer a pergunta pelo manual. Deixei de perguntar pelas razões que presidiram a escolha. Apresentar razões para o que defendemos é algo que muitos colegas nossos consideram pouco filosófico, é estragar a poesia da coisa, vá-se lá saber onde aprenderam isso. Mas mais grave do que essa decisão livre pelo mentira e pela estupidez parece-me: e os alunos? Se quiserem aprender a defender as suas ideias com razões podem fazê-lo com estes manuais? Com os manuais que ,quando eu chego a uma escola, eles já compraram? Não. Poderão, pelo menos, aprender, com eles, os principais problemas filosóficos e as respostas historicamente mais relevantes a esses problemas? Nem isso. Mas, para que o comprámos então?, perguntam eles na minha cara. E eu, professora de filosofia, a cara da filosofia na escola para eles, repondo o quê?

Que às vezes, tomam-se más decisões. Mas que não interessa, é para isso que estamos aqui, para aprender a pensar melhor sobre aquilo que é importante para nós, foi para tantos outros e continua a ser (a filosofia está vivíssima da silva e ninguém lhes tinha dito, que vergonha), e, a partir daí, podermos tomar melhores decisões. E eles percebem que estamos mesmo. E agradecem, porque sabem que não estamos a tentar engana-los.

Um abraço,

CFaria
De rolandoa a 27 de Fevereiro de 2008 às 20:30
Olá CFaria,
Antes de tudo obrigado pela tua visista e precioso comentário. espero também que a tua situaçãode contratada melhore rapidamente. Andei 8 anos contratado e sei bem o que isso é. Pensava que com os anos a coisa melhorasse, mas parece-me cada vez pior.
Focaste bem o problema dos manuais. Porque não escreves um texto a denunciar a situação? Teria gosto em publicá-lo, senão a malta pensa que sou um fanático sózinho aos pulos e aos gritos :-)
Mas estou convencido que osprofessores não são directamente culpados da situação, mesmo que lhes caiba a palavra final sobre a adopção de um manual. O problema começa logo no programa. Que dizer a um aluno sobre o programa de filosofia? Muitas das vezes dizem-me que é possível ensinar filosofia com o programa. E têm razão! O problema é que com o nosso programa podemos ensinar tudo, até conversa da treta, que é o que acaba muitas vezes por acontecer. Se o programa privilegiasse conteúdos próprios e específicos, os manuais iriam com certeza ao seu encontro e teríamos o problema resolvido. Mas há aqui razões mais profundas para que tal não aconteça. Resumidamente posso dizer-te que o problema é que esta malta das pedagogias ministeriais tem medo da objectividade, do rigor, do conhecimento e do saber. E quejustificações damos aos nossos alunos sobre esta situação? A minha experiência diz-me que os alunos se interessam e motivam muito mais quando lhes ensinamos as coisas com rigor e exigência. Mas a malta pensa ao contrário: pensa que os alunos não podem ser motivados com exigência. Isto tem um nome: distorção clara de incentivos.
Bom trabalho
Volta sempre
Rolando Almeida

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