Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2008

Sobre a divulgação da filosofia

Uma das questões que inquieta muitas das vezes os profissionais da filosofia prende-se com a divulgação da filosofia. O recente encerramento da licenciatura de filosofia na Universidade de Évora suscitou algum debate sobre o porquê do insucesso do curso. Neste texto vou, uma vez mais, defender que a filosofia merece e deve ser divulgada, não só no ensino secundário como ao público em geral. E defenderei que esta divulgação é essencial para erguer toda uma cultura filosófica e que, sem ela, ficaremos todos mais afastados da reflexão filosófica ignorando a sua importância no mundo.
Rolando Almeida

Para a minha defesa vou explicitar dois argumentos distintos:
Argumento A
A filosofia não se compadece com a divulgação em níveis intermédios e ao público em geral, tendo somente interesse como investigação especializada.
Argumento B
A filosofia, tal como os restantes saberes deve ser divulgada e treinada em níveis intermédios e divulgada ao público em geral.
Se A for válido, então:
1 – Deixa de fazer sentido a existência da filosofia nos currículos do ensino secundário como formação geral. Por comparação com outros países até poderemos considerar que sim, que não faz sentido. Mas há aqui algumas razões para determinados países não terem filosofia nos currículos do ensino secundário e para nós termos. Entre as quais, nesses países, existe sempre interesse pela filosofia uma vez que possuem uma cultura muito solidificada ao nível filosófico. Na Alemanha tropeçamos em estátuas de filósofos, em Portugal tropeçamos somente nas dos poetas. Por outro lado, uma boa parte desses países introduziram disciplinas como a de Pensamento Crítico que são, de todo, devedoras da filosofia e exigem capacidade de reflexão filosófica, trabalhando directamente com os argumentos dos filósofos.
2- Temos de esperar que os outros saberes cativem alunos para a investigação filosófica, uma vez que privamos os alunos e o público em geral desse conhecimento. Ou então temos de viver na fantasia de que existem uns génios ungidos pela divindade com talento inato para a filosofia. Mas esta fantasia não tem produzido mais que palermices e fechos de cursos e desinteresse geral pela disciplina, até pelos próprios que a praticam.
Esta tem sido também a posição aparente do próprio Ministério, a de que a filosofia não precisa de ser divulgada e ensinada no ensino secundário, uma vez que não produz qualquer conhecimento útil e, por essa via, deve remeter-se o seu estudo somente para níveis superiores e especializados. Talvez por essa razão, cursos de filosofia, física ou matemática comecem a desaparecer por falta de clientela. Como é que vai um aluno interessar-se pela filosofia se nunca foi despertado para ela, se nunca lhe falaram da disciplina?  Por outro lado, quer fazer parecer que em Portugal está generalizada a ideia de que a filosofia nunca desaparecerá porque o Estado tem a obrigação de pagar para que ela se desenvolva, mas esta é outra ilusão porque cada vez mais Estado ou governo algum se dispõe a pagar para se fazer filosofia para o umbigo pessoal. Já no tempo de Kepler, para se ter dinheiro, tinha que se iludir o Rei dizendo que o estudo era para lhe adivinhar o seu futuro. Galileu construiu o telescópio com o dinheiro dos mercadores para poder avistar mais longe a chegada dos barcos e durante a noite aproveitava e virava o telescópio para as estrelas. Mas muitas das vezes somos nós, os da filosofia, que achamos que os políticos têm vistas curtas para tudo, menos para achar que a filosofia é muito importante e por isso nunca vão acabar com ela. Não podemos esperar que seja o poder político a decidir o futuro da filosofia. Temos de ser nós, os profissionais da filosofia que cuidamos dela mostrando à sociedade pública o seu valor intrínseco. Como? Publicando obras, traduzindo outras, participando publicamente nos debates sobre problemas que envolvem a reflexão filosófica, promovendo as obras de divulgação, fora o trabalho que há a desenvolver também na investigação especializada que envolve parcerias com universidades estrangeiras, publicação de revistas, etc….
E quanto ao argumento B
Um dos argumentos recorrentes para provar que B é inválido é que a divulgação acarreta a banalização da filosofia. Acontece que este argumento não funciona porque temos contra exemplos óbvios: milhares de teses de filosofia da suposta alta investigação são apresentadas todos os anos e não constituem qualquer benefício para o progresso da filosofia. Isto significa que tal como se podem fazer boas teses de investigação especializada com qualidade, de igual modo se podem produzir boas obras de divulgação. Uma das propostas que tenho feito é que sejam os doutorados a redigirem este tipo de obras, seguindo o ciclo de boas práticas observadas noutros países.
Conclusão
O que estou a defender para a filosofia é exactamente o que se passa no universo do saber em geral. Se a ciência não revelasse a sua utilidade, por exemplo, descobrindo novos medicamentos e curas, quem se arriscaria a pagar e sustentar a investigação científica? Claro que se pode ainda alegar que a ciência também fabrica bombas. Curiosamente a filosofia também as fabrica, quando fica agarrada às peias do poder.
Defender que a filosofia não deve ser ensinada no secundário e até no básico e divulgada a um público mais alargado é ao mesmo tempo defender que não se deve estimular as crianças a brincar com legos. Brincar com legos é um dos primeiros passos para o exercício do raciocínio lógico e consequente. E do mesmo modo que uma criança iniciada no raciocínio lógico é potencialmente cientista ou filósofa, o treino da filosofia em níveis intermédios potencia o seu estudo e divulgação. Não vejo qualquer razão na resistência que muitas vezes observo quanto às obras de divulgação filosófica. Seria o mesmo que manifestar qualquer preconceito em relação à existência da colecção Ciência Aberta da Gradiva, que tantos alunos tem despertado para a ciência e, curiosamente, para a filosofia (mesmo apesar da existência da sua congénere Filosofia Aberta, também da Gradiva). Os Gregos sabiam disto, que os saberes andam de mãos dadas. Mas como observo alguma resistência em comparar filosofia e ciência, tudo é de esperar. De uma coisa estou convencido: mais alguma divulgação da filosofia e talvez as cadeirinhas das salas de aula em Évora tivessem mais gente a sentar-se nelas.
Nota final: frequentemente na secção de comentários, leitores me dizem que faltou enunciar o argumento X e Y. Claro que sim! Para isso é que tenho aberta uma secção de comentários. Estes textos pretendem tão só, com todos as limitações que lhe são implícitas, contribuir para uma mais ampla e sólida divulgação da filosofia. É com contributos melhores ou piores que se constrói uma cultura filosófica. E neste blog tenho falado não só para os profissionais da filosofia, mas também para os não filósofos.


publicado por rolandoa às 17:58

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4 comentários:
De DF a 19 de Fevereiro de 2008 às 21:56
Caro amigo Rolando,

Penso que não basta divulgar a filosofia no grande público.
Outra grande dificuldade deste maravilhoso curso de filosofia é a falta de emprego. Termina-se filosofia, e depois? Em que se vai trabalhar? Será que os empresários portugueses estão conscientes da importância dos filósofos nas suas empresas?
Um dos grandes dilemas do nosso país é o DESEMPREGO. A filosofia não escapa a este "palavrão". Listas e listas de desempregados com licenciatura em filosofia. Como ultrapassar este problema? (Nem só do "pensamento" vive o filósofo - tem também que conquistar "pão" para viver).

Este é um problema que me preocupa na minha situação actual...

Saudações
De rolandoa a 19 de Fevereiro de 2008 às 22:50
Caro DF,
Não há solução à vista para o problema que coloca e muito bem. O desemprego em filosofia é até antigo. Já no meu tempo tive problemas e a razão pela qual vivo na Madeira foi, inicialmente, profissional. Aquilo que proponho no meu texto é algo que só produz alguns resultados ao fim de alguns anos e exige, claro, uma mudança de postura em relação ao curso de filosofia. Mas dou-lhe um conselho: se é estudante, quando acabar, tente tudo, as ilhas inclusivé. Com efeito, conte que vai ser pouco provável ter emprego com um curso de filosofia. Mas tente, tente tudo o que puder. se precisar de alguma ajuda da minha parte pode usar o e-mail que disponho no blog.
Desejo-lhe as maiores felicidades. sei bem o que é andar à procura de trabalho.
Abraço
Rolando Almeida
De Paulo Rolim a 23 de Fevereiro de 2008 às 15:08
Caro colega Rolando,

Já agora mais uma contribuição para a discussão sobre a divulgação da Filosofia: que tal se a generalidade dos professores de Filosofia, nos quais tão orgulhosamente me incluo, se consciencializasse que a correcta divulgação da Filosofia e, consequentemente, a certeza da necessidade do seu ensino se cria também a partir das suas aulas. Alguns de nós esquecem-se que há algumas aulas de Filosofia que, se não matarem, pelo menos desmoralizam. Arriscamo-nos a criar gerações que odeiam Filosofia, pois a recordação que têm é traumatizante. Sempre tive consciência disso e desde que sou pai de estudantes do ensino secundário mais me fui convencendo disso!
De rolandoa a 23 de Fevereiro de 2008 às 15:42
Olá Paulo,
Podemos tratar-nos por tu? Ainda bem que passaste por aqui e deixaste esse comentário. Que mais posso eu adiantar ao que dizes de tão certo que está? Nós, professores de filosofia, não somos nem melhores nem piores que os de matemática ou biologia. Acontece que a filosofia é mais vulnerável que as ciências empíricas. Creio também que muitos professores de filosofia teriam outra postura se tivessem tido outra formação. Estoufortemente convencido que se explorasse as minhas aulas com a abordagem da filosofia que aprendi no curso, só desmotivaria os meus alunos. Os dicursos da falta de objectividade da filosofia, da subjectividade e relativismo, acabam a minar o fascínio que a disciplina pode ter perante os jovens. Mas, Paulo, vou andar aqui às voltas porque tocaste em cheio no problema. Mas é com professores de filosofia com a tua consciência que podemos ir mudando e renovando a nossa disciplina que, em Portugal parece que morreu quando Kant morreu. Os professores de filosofia pura e simplesmente desconhecem o que se faz actualmente na filosofia. E olha que já vamos tendo uns livrinhos para ir lendo em língua portuguesa. O objctivo do meu blog é também divulgar para contribuir para mudar.
Aparece e vai dizendo coisas
Abraço e bom trabalho
Rolando Almeida

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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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