Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2008

Laxismo em educação: efeitos perniciosos.

 Vamos imaginar que somos galinhas numa capoeira. A psicologia animal indica-nos que o nosso bico possui um objectivo: como é aguçado, permite-nos encontrar o milho (ou minhocas) entre a palha do chão para nos alimentarmos. Vamos agora supor que, estando nós num aviário, o nosso criador nos coloca alimento em abundância em recipientes. Sempre que desejamos alimento é aí que nos dirigimos sem qualquer esforço. Encontrando alimento tão facilmente, ficamos com tempo de sobra para nos dedicar a outros objectivos. Acontece que as galinhas não são como os seres humanos e não são capazes de estabelecer outros objectivos para as suas vidas, senão aqueles para os quais estão instintivamente programadas.

Rolando Almeida



Mas acontece também que muitos seres humanos procedem como as galinhas e, retirando-lhes os principais objectivos das suas vidas, ficam a braços com graves problemas existenciais, por falta de sentido nas suas vidas. Talvez seja essa uma das razões que explica que determinadas pessoas muito ricas se dediquem a causas humanitárias, um móbil que anima as suas vidas. No caso das galinhas, não tendo a possibilidade de reinventarem as suas existências, continuam a fazer aquilo para o qual estão programadas, que é picar com o seu bico. Se têm o papo cheio, picam-se umas às outras por vezes até à morte. Os seres humanos podem apresentar comportamentos com dimensão semelhante. Claro que o problema envolve várias dimensões, desde a psicologia, sociologia, etc. Com efeito também se relaciona com o sentido da existência e faz-me lembrar algo que tenho observado nas políticas educativas levadas a cabo em Portugal, que mais não fazem do que muitos dos nossos alunos passem mais tempo a picarem-se uns aos outros do que a picar o saber e o conhecimento. E a ideia é até muito elementar: se um aluno sabe, à partida, que, se chumbar o ano por faltas, pode fazê-lo em exame final, que o seu professor é avaliado em virtude do seu desempenho (do aluno), que se não fizer o 9º ano até aos 16 anos, pode fazê-lo nos programas de novas oportunidades, que, se lhe der na vinheta, pode até fazer uns treinos de futebol em vez do 9º ano na escola onde tem de aprender coisas aborrecidas como matemática ou física e química, que objectivos terá esse aluno para estudar? Há aqui uma clara distorção de incentivos, uma vez que se pensa que se está a facilitar a vida ao aluno para estudar, oferecendo-lhe milhentas oportunidades, quando o que se está a fazer não passa de uma camuflada e tirânica ilusão de que pode aprender e vencer na vida dessa forma. E parece evidente que este tipo de convite à inércia é responsável por mais violência entre os mais novos, tal como o criador de galinhas não melhorou a vida das mesmas ao acondicionar-lhes o alimento em recipientes, em vez de atirar o milho aleatoriamente para o galinheiro fazendo com que as galinhas não se desorientem na sua função orgânica, não se desorientando no seu comportamento. O que é que um miúdo de 12 ou 14 anos pensa quando lhe é oferecida a oportunidade de estudar matemática à séria ou fazer o 9º ano a jogar à bola? É necessário apontar aqui a resposta? E que pensa um miúdo quando se apercebe que os factores da sua avaliação não dependem só de si, mas também das pressões exercidas na avaliação dos seus professores que envolve, de uma forma que pode ser determinante, a avaliação que estes dão aos seus alunos? Que será do miúdo que o pai lhe faz os trabalhos de casa com as contas de dividir e somar, em vez de o treinar para ele próprio resolver os problemas? A escola que temos tido, ao querer oferecer oportunidades a torto e direito é este tipo de laxismo e violência que acaba a produzir. E ainda por cima trata-se de um sistema que pouco faz para resolver os seus erros e muito tem feito para os agravar. Tomemos um exemplo prático: os meus alunos do 11º ano, têm, em média cerca de 7 anos de inglês na escola (excluindo os mais novos que já começam a aprender inglês logo no 1º ciclo). Mas, na sua maioria são incapazes de produzir leitura ou escrita em inglês e muito menos, sequer, falar em inglês com o mínimo de fluência. Se os alunos em questão, durante os 7 anos tiveram 7 professores diferentes é muito improvável que tivessem tido a má sorte de terem 7 professores maus. E ainda assim, nem sequer poderiam ter 1 ou 2 professores medianos, pois assim ainda produziriam alguma coisa em inglês. Deste modo é pouco producente afirmar que a culpa é da má formação dos professores. Mas também é pouco provável que a culpa seja dos alunos, uma vez que uns estudam mais e outros menos e mesmo aqueles que tiram notas a inglês de 15 ou 16, pouco conseguem produzir na língua de Shakespeere. Por regra, parte destes alunos quando precisam mais tarde do inglês, por exemplo, por razões profissionais, têm de investir numa escola privada e começar praticamente do zero. E também por regra um aluno do 11º ano do secundário que é algo fluente em inglês é porque frequenta a escola privada. E ainda por regra, um aluno que em 7 anos pouco aprende de inglês, consegue aprender o dobro em apenas 1 ano de escola privada. Serão as paredes das escolas privadas mais atraentes? Ou serão os professores muito melhores? (recordo que muitos professores das escolas provadas também trabalham em escolas públicas ou trabalharam). Claro que estes dados são empíricos, baseados em pouco mais de uma década de observações em salas de aula, mas permitem-me elaborar estas pequenas reflexões. A diferença específica que explica este fenómeno é uma: a exigência do sistema de ensino português é muito, demasiado até, baixa, com o pressuposto que assim temos mais gente motivada na escola e para a escola. Mas não temos! O que temos é alunos mais laxistas, mais alunos a querem frequentar o laxismo da escola e mais violência fomentada pela baixa exigência e por premiar mesmo a malandragem. Óbvio que as estatísticas melhoram, mas a formação das pessoas piora até. Não sei o que é preferível, se uma escola cheia de gente como galinhas a bater com o bico nos pescoços umas das outras, ou, então, menos gente a estudar, mas muito mais motivada para tal, sabendo que a escola premeia o mérito, o esforço e o trabalho. Eu próprio não sei muito bem como o sistema de ensino funciona no seu todo, tal o leque variado de ofertas e oportunidades, mas recordo um episódio caricato em que uma aluna minha do ensino nocturno, já com alguma idade, me dizia que ia desistir de fazer o 12º ano. Quando a questionei porquê, explicou-me que, como tinha idade, podia candidatar-se à universidade somente com o 9º ano. Na altura não respondi porque pensei tratar-se de uma ingenuidade da aluna. Mais tarde confirmei que essa possibilidade existe. Talvez o nosso Ministério da Educação promova um destes dias a licenciatura logo no 4º ano do primeiro ciclo, antiga 4ª classe. Assim, em 4 anos, temos médicos, professores, cientistas, etc…
Se tudo isto não passasse para fora, deveríamos ter a ilusão que vivemos num país de génios. Um aluno vai às aulas de física e fala de futebol. O professor fala de futebol, porque o programa da disciplina assim o permite e depois faz-se um teste vago a falar qualquer coisita de futebol. O aluno acaba física com 17. Mas quando existem exames externos, é que a coisa parece má. Esse aluno vai responder às mesmas questões básicas que os alunos dos outros países. E perante questões de física, o aluno português fala de futebol que é precisamente aquilo que aprendeu nas aulas de física. Não é assim de estranhar o nosso modesto lugar no ranking dos países que fazem exames internacionais. Os nossos alunos demonstram não saber pensar nem resolver problemas que para muitos jovens de outros países são elementares. Não somos geneticamente mais burros, temos é um Ministério muito mais insuficiente que os que regulam o ensino dos jovens de outros países. Se o Ministério da Educação português quer um ensino sério que prepare a sério alunos responsáveis pelo conhecimento a todos os níveis, deve começar por ser responsável naquilo que lhes ensina e não, simplesmente, apresentar reformas e contra reformas e mexer nas questões profissionais dos professores que nada têm a ver com a qualidade excelência do ensino. Pensar na excelência do ensino começa por trabalhar duramente para ter programas a sério e exames a sério e eliminar de vez com a praga do «eduquês» que já provou não conseguir mais do que formar bestas com canudos. Costumo ser optimista e dizer que nem tudo vai mal, mas há coisas que esgotam as possibilidades e necessitam de mudanças mais urgentes e bem pensadas.



publicado por rolandoa às 00:05

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Rolando Almeida


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