Sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2008

Quem é mais profundo? Peter Singer ou os Modern Talking?

Muito se tem discutido aqui sobre que rumo a filosofia deve tomar, se analítica, continental, mais azulada ou avermelhada, se deve ser feita no Outono ou Verão, com limonadas ou cerejas. Mas, o que aqui tenho defendido, nada tem que ver com isto. Que interessa se a filosofia é feita com limonadas ou com cerejas, desde que a investigação seja de qualidade e proveito filosófico para todos? Claro está que há pontos em que talvez não valha mais a pena insistir, dado o esgotamento da questão. Pelo menos sabemos que somos finitos e limitados e não podemos perder tempo a estudar aquilo que jamais poderemos saber ou apreender racionalmente. Essa é a tentação da religião, mas não da filosofia. Em filosofia, como em todos os ramos do saber, dá-se um pequeno passo de cada vez, lentamente, progredindo pouco a pouco no conhecimento. E esta condição basta e satisfaz completamente aquele que investiga em filosofia.
Rolando Almeida

Não é necessário pensar que tem de se descobrir o absoluto enquanto é tempo, sob pena do filósofo mais se assemelhar a um idiota com manias de génio. Mais a mais, se algum filósofo descobrir o absoluto, esse é um problema dele. Tem mais é de mostrar como foi capaz de tal coisa. Provavelmente onde os filósofos mais falham é quando caem nesta tentação idiota de querer tudo explicar de uma assentada só. É fácil dar saltos inconsequentes no pensamento e na argumentação quando se sofre esta tentação. E, por outro lado, nenhum bom filósofo se distingue por tentar explicar o absoluto, mas por caminhar humildemente para a verdade, dando um pequeno passo de cada vez. Estas ideias servem para, de vez em quando, recordar a minha formação em filosofia numa universidade portuguesa. Muitas vezes as conversas versavam sobre a capacidade de captar o absoluto, uma espécie de discurso religioso camuflado com palavras caras. O mesmo se passa com as seitas religiosas, mas essas escusam-se de rebuscar o discurso, uma vez que são mais populares e destinam-se a uma massa muito maior de pessoas. Mas em ambos os casos, na filosofia como nas seitas religiosas, o argumento era o mesmo: que somente alguns tinham inteligência e espírito para lá chegar (ao absoluto). Claro está que as pessoas t~em capacidades e interesses variados. Eu, como professor, reconheço-o nos meus alunos. Mas a minha tarefa é dar alguma luz aos menos interessados, mostrando-lhes os problemas e não atormentá-los com a ideia de que não são capazes de lá chegar. E eu? Serei capaz de lhes explicar alguma coisa? É que é para isso que lá estou…. No caso da minha experiência universitária, sempre me senti no grupo dos menos capazes de captar o absoluto. Bem, passando a experiência individual no curso vou tentar explicar como é que se dá este fenómeno de tentativa de captar o absoluto, fenómeno não muito distante de uma qualquer mistificação religiosa obscura e que de filosofia nada tem. O fenómeno aparece com um professor que expõe a sua perspectiva narrativa sobre o mundo e as coisas do mundo. Logo aqui aparece o sintoma mais grave do pós modernismo, o relativismo. Isto é grave no sentido em que os alunos têm de ser sujeitos a avaliações. Então o que acontece ao aluno que não gosta da perspectiva do professor? Bom, a idiotice do absoluto começa precisamente quando se pensa que, já que tudo é relativo, então nada pode atacar a minha ideia pelo que devo elevá-la ao estatuto da melhor explicação que arranjei para o mundo, a natureza e o universo. Está bem, até posso ouvir argumentos contra, mas vou tomá-los como mais uma tentativa vã de alcançar o absoluto. Como tudo é relativo, não tenho razões para me auto contrariar, refutar. Do ponto de vista da psicologia este é um fenómeno interessante de se estudar. Consequências sociais desta postura: arrogância, distanciamento em relação aos outros e oferecer as minhas ideias a um auditório com o melhor embrulho possível. O embrulho mais bonito começa por ser aquele em que se diz mal daqueles que pensam de modo diferente. E já que tudo vale, dispara-se com as falácias todas que qualquer discurso organizado deve evitar. Ser do contra, mesmo não sabendo bem porque se é do contra, pode dar um certo jeito para se apresentar como um indivíduo a tocar a verdade absoluta. O desprezo pelos avanços do mundo, o querer saber línguas mortas ou mostrar muita erudição em cultura clássica e bombardear as conversas com 500 nomes (apelos à autoridade), são os adereços fortes desta medíocre postura que comecei por encontrar onde menos esperaria, num curso universitário de filosofia. Uma das formas de sujeitar um aluno ao poder do absoluto era dizer-lhe frontalmente que devia dedicar-se à pesca uma vez que não tinha talento para a filosofia. Mas o mais estranho eram as consequências deste aparato; Vale a pena descrever: alunos que, eles próprios afirmavam não gostar lá muito de filosofia e só estarem ali para terem uma formação qualquer, acabavam a tirar, muitas das vezes, melhores notas que os outros que até gostavam daquilo e revelavam talento para a filosofia. Nenhum sistema de avaliação é perfeito, absoluto J, mas a realidade é que o que ali se passava era uma lotaria completa, uma avaliação sem «rock nem rei» onde muito alunos ficavam tão admirados se vissem um 8 na pauta de avaliação, como ficariam se lá vissem um 18. Ninguém sabia a quantas andava. Só se sabia uma coisa: que a maior parte dos seus professores tinham recebido a bênção divina da verdade e, por essa razão, de tão sumamente sábios que eram - quais budas universitários, pois eles próprios lá chegaram por graça divina - seria sempre muito difícil lá chegar-lhes, tocar-lhes. Filósofos como Peter Singer, que publicam livros, ensinam nas melhores universidades do mundo, divulgam a filosofia a quem não a sabe, que colocam a filosofia no seu espaço próprio que é o da discussão racional, eram desprezados com sorrisos irónicos. Eram demasiado acessíveis e pouco profundos, diziam. Aliás, não diziam, porque eu passei o curso todo sem alguma vez ouvir falar de Peter Singer mesmo que, na altura, a sua obra fosse já extensa e muito discutida onde quer que se faça filosofia no mundo. Mas levei com os Ricoeurs e Teilhards de Chardins e outros padres, a rodos, sem contestação aparente. Os mais sofisticados tinham de dizer mal dos Ricoeurs e o refúgio certo era o pai da obscuridade filosófica, o alemão, Martin Heidegger. Ao quarto ano do curso, um professor outsider a este sistema que aqui descrevo fez um questionário aos alunos sobre quais as obras de filosofia contemporânea, da segunda metade do Sec. XX, é que tinham lido. Mesmo considerando que muitos alunos responderam com nomes de obras para mostrarem erudição (aprenderam com os mestres) sem as ter lido, ainda assim, os resultados eram tristes. Mas, ao 4º ano de um curso universitário, um aluno está tão formatado quanto uma disquete e, consequência disso, era habitual afirmar-se que na filosofia contemporânea, além de Heideger, pouco mais interessava. E, claro está, o referido professor, mais tarde ministro da cultura, foi gozado por ser superficial, por defender e falar de filósofos americanos e os filósofos americanos são por regra superficiais. Como é que se pode ser profundo sem saber grego ou alemão? Esta era outra questão interessante, que poderia ser facilmente objectada pensando nos Modern Talking, grupo de música pimba alemão dos anos 80.
Outra das consequências directas deste comportamento nos cursos de filosofia é que, após uns meses de estudo, a desordem era de tal modo, que a maior parte dos estudantes ganhavam um desprezo enorme pelo estudo, pela universidade (menos as borgas, os anéis de curso, as fatiotas académicas e fitas coloridas na bênção de capas) e pela própria disciplina. Assim, passava-se a chamar aos que gostavam de estudar, “ratos de biblioteca”, que normalmente eram uns tipos que passavam o tempo todo a estudar, muito anti sociais e que se vestiam como um padre toino da aldeia. Recordo que, quando eu estudava na universidade, era mal visto um indivíduo dedicar-se à filosofia a sério e ser, por exemplo, surfista, como foi o Colin McGinn ou alpinista, como é o Stephen Law. Pode-se pensar que estou a exagerar, mas recordo uma professora que chegou a afirmar que no Brasil não se podia fazer boa filosofia, porque as temperaturas quentes não são climas favoráveis para se pensar. Ela podia estar a pensar em Descartes, mas eu não tenho conhecimento que Descartes tenha ido para climas mais frios para pensar a mathesis universalis. Por outro lado, toda a Grécia antiga, precisamente onde nasce a filosofia ocidental, era bem quentinha, aliás, incluindo aquele território do sul de Itália.
O que é que se retira deste meu pequeno relato? É que a filosofia produziu um desinteresse crescente nas pessoas, não porque ela não sirva para nada, mas muito por culpa daqueles que a praticam que fizeram com que ela seja uma actividade tão pouco produtiva e sem expressão mediática no nosso país. Claro que existe um nicho de gente genuinamente interessada na filosofia, mas esses, mesmo com o meritório esforço, não são suficientes para revitalizar interesse genuíno pela disciplina. E, como tenho defendido, não podemos esperar que a filosofia se imponha de fora, como por exemplo, por decreto de lei que a impõe como disciplina importante. O que defendo é que a filosofia (como, já agora, muitos outros saberes) se imponha de dentro, produzindo actividade de interesse público. Se assim for não existe decreto de lei que feche uma empresa que produz. Por fim é razoável reconhecer que algumas coisas vão mudando no nosso país em relação à filosofia. As coisas são lentas, mas a verdade é que continuam a melhorar. A minha ideia não é desancar na realidade como se fosse a pior do mundo. Longe disso. Em Portugal possuímos uma base boa para estudar e fazer filosofia. Temos filosofia como formação geral no ensino secundário, temos cursos de filosofia nas principais universidades do país. Nem todos os países gozam desta situação apreciável. Mas há muito trabalho por fazer, a começar pela reforma dos cursos no ensino superior. E uma boa reforma poderia começar por deixar de lado preconceitos idiotas como os que defendem que Peter Singer é um filósofo pouco profundo. É que, por causa destes preconceitos, depois não marcamos passo na filosofia. E é filosoficamente irresponsável afirmar que o filósofo X é pouco profundo somente porque não nos parece significativa a obra dele, mesmo sem algum dia lhe ter posto os olhos em cima.
Obs: Os Modern Talking foram uma banda de euro pop nos anos 80 com vários êxitos românticos à escala planetária. São alemães e cantam a maioria dos seus êxitos em inglês. Daí a ironia do exemplo.


publicado por rolandoa às 00:02

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