Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2008

Modelos para adorar deuses

Um dos aspectos fundamentais na filosofia, mas que ainda levanta sérias confusões, prende-se com os argumentos de autoridade. Um argumento é de autoridade quando a autoridade é invocada para argumentar em favor de uma tese. Assim, se eu disser que “Cristiano Ronaldo disse que existem mais estrelas no universo que grãos de areia nas praias todas do planeta” ninguém se vai deixar persuadir por este argumento, uma vez que o Cristiano Ronaldo não é uma autoridade em astrofísica. Mas se eu disser que “Carl Sagan diz que existem mais estrelas no universo do que grãos de areia nas praias todas do planeta”, é perfeitamente aceitável que nos deixemos persuadir pelo argumento, uma vez que Carl Sagan é um astrofísico conceituado e reconhecido pelos seus pares.
Rolando Almeida

Em filosofia existe a tendência para que o mesmo aconteça, com efeito, tal não deve acontecer em filosofia, pela razão que a filosofia não pode funcionar com argumentos de autoridade, ao contrário da astrofísica, que pode. Claro está que existe sempre uma margem de erro quando, na ciência, usamos um argumento de autoridade. Mas o facto é que a maior parte das coisas que sabemos, sabemo-las por autoridade. A maior parte de nós sabe que a terra é redonda por autoridade. Mesmo as imagens de satélite poderiam ter sido alteradas para nos fazer crer que a terra é redonda. A diferença é que podemos recorrer aos cálculos matemáticos e da física que a astrofísica implica e, tal como Sagan e os outros cientistas, provar por nós mesmos que a terra é redonda. Quando estamos perante essa evidência seria uma grande tolice querer argumentar que a terra é quadrada. Na filosofia nada disto se passa. Por mais que Descartes se tenha esforçado para demonstrar que Deus existe, podemos sempre argumentar em desfavor da existência de deus, analisando criticamente os argumentos usados por Descartes. E esta possibilidade existe precisamente porque a filosofia é sempre um estudo a priori, pelo que não depende da experiência para se provar. Pelo exposto se depreende que a atitude esperada na filosofia será aquela em que a discussão existe de forma livre mas sustentada. Acontece que, mesmo na filosofia, o recurso à autoridade costuma acontecer. Assim, invoca-se com frequência o filósofo X e Y, puxando pela erudição, para dizer que o melhor é pensar X ou Y. claro que é significativo, mesmo em filosofia, recorrer aos filósofos quando esses nos apresentam as melhores razões, os argumentos mais cogentes. Mas ainda assim, estamos claramente no terreno da discussão e incorre-se na falácia de apelo a autoridade quando queremos que o filósofo encerre a capacidade do outro argumentar. Assim, quando, em filosofia, dizemos que os argumentos X são assim porque o filósofo X assim o disse, estamos a incorrer na falácia do apelo à autoridade. Muitas das vezes, como recordo de ter lido em Sobre a Liberdade de Stuart Mill, mesmo tratando-se de uma verdade, quando essa é repetida por tradição e acriticamente, deixa de ter o peso e o valor da verdade, para passar a soar como uma ideia cristalizada. E este erro em filosofia deve ser sempre evitado.
O exemplo que acabo de dar é compensador se queremos compreender como são usados os argumentos de autoridade. Acabei de recordar uma ideia de uma obra de Stuart Mill, mas não referi que é assim porque Stuart Mill o disse, até porque Stuart Mill se pode ter enganado. Vejamos: por muito que eu tenha gostado de ler o livro citado de Mill, será que uma verdade, mesmo cristalizada, não poderá, muitas vezes, segundo o princípio da utilidade do próprio Mill, garantir o maior bem para o maior número de pessoas? Claro que a minha observação não contraria em nada o que pensa Stuart Mill. Como sabemos é da maior utilidade para todos a busca da verdade e Mill traça o percurso que a verdade faz com a liberdade, mas esta pequena passagem ilustra bem que podemos incorrer na falácia do apelo à autoridade mesmo de forma não deliberada. Esta falácia é mais fácil de desmascarar quando o argumento de autoridade é usado de forma ostensiva, tal como, “Se o filósofo X afirmou que qualquer um é filósofo, então é porque é verdade”. É fácil de desmascarar porque somos perfeitamente capazes, com algum conhecimento da história da filosofia, de dar inúmeros contra exemplos. Mas mais importante é pensarmos se é realmente assim e contra argumentarmos.
Existem muitas formas escondidas para adorar deuses. Uma delas, muito subtil, é pensarmos que o filósofo X ou Y encerrou tudo o que havia para dizer sobre os problemas da filosofia e anunciar a morte da mesma. Por muito que um orgasmo possa preencher de prazer um ser humano, não devemos pensar que será o último ou o único do universo. A bem da espécie.


 
publicado por rolandoa às 00:22

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4 comentários:
De Vitor Guerreiro a 30 de Janeiro de 2008 às 11:10
Mesmo no caso da ciência, os argumentos de autoridade têm uma eficácia muito limitada. Na verdade são formas de indução: inferimos a partir do sucesso ou da persistência de indivíduo x numa dada disciplina que os seus resultados têm uma probabilidade maior de estarem correctos do que outro indivíduo ou grupo de indivíduos que não têm obra a mostrar. Mas isto em si mesmo é insuficiente.

Creio que o argumento de autoridadde tende a tornar-se cada vez mais insignificante quanto mais os interlocutores se encontram em paridade cognitiva. Normalmente reservamos essa autoridade para nós, os comuns não-cientistas, que não têm remédio senão confiar na investigação disciplinada de outros. Claro que isto é diferente de fé, porque qualquer pessoa razoavelmente culta pode aceder a ferramentas básicas de raciocínio e testar para consigo a plausibilidade dos raciocinios científicos que lê em obras de divulgação. Qualquer um pode pensar (o que não significa que todos pensem). Na mera fé não há nada para "pensar", apenas para aceitar de forma optimista (ou não). Pelo contrário, nada me impede de tentar compreender como funciona uma teoria física, mesmo que não tenha a sofisticação mental necessária para criar teorias físicas (até porque hoje em dia esse esforço tem de ser cooperativo, não pode ser feito por um só individuo)

"My point being" - mesmo em situações onde os interlocutores se encontram em paridade cognitiva, os argumentos de autoridade tendem a funcionar de um modo tal que não bloqueiam o pensamento. Continua a haver algo para pensar e ponderar, talvez modificar - coisa que a fé não pode dar, por definição - um argumento de autoridade na ciencia não é um dogmatismo, é apenas uma certificação de que ao pensar no que disse aquela autoridade, não estamos pura e simplesmente a perder tempo, como estaríamos se fôssemos dar igual importância às considerações de um saapteiro(com todo o respeito pelos sapateiros) acerca da formação do sistema solar.

Abraço
De rolandoa a 30 de Janeiro de 2008 às 16:19
Caro Vitor,
Basicamente os argumentos de autoridade funcionam como a velha história do senso comum: orientam-nos, mas não são o mais desejável. Mais que saber as teses de Newton, é melhor ainda experimentar as teses de Newton.. Creio que o mais importante é não fugir à honestidade intelectual quando queremos argumentar. De resto, é natural que façamos as nossa citações. É muito menos natural, como acontece por exemplo numa boa parte dos trabalhos académicos, que a investigação se resuma a um milhar de citações acríticas.
Abraço
Rolando A
De Vitor Guerreiro a 30 de Janeiro de 2008 às 16:53
Por outras palavras, se a tabuada que compramos na papelaria diz que 8 x 8 = 64, temos uma boa razão para confiar nela. Contudo, isto é muito pouco interessante se não soubermos o que É a multiplicação, se não compreendermos como funciona a operação aritmética. É um pouco como orgulhar-se de ter decorado a tabuada toda mas não saber quais são as propriedades elementares das operações. Sem isso não se pensa.

No caso dos argumentos de autoridade passa-se isto. Ao passo que na ciência a autoridade é apenas, como dizes, uma orientação ou um sinal de que estamos num caminho produtivo para pensar, isso não nos instala numa segurança imperturbável de que proferimos a verdade só porque citamos a autoridade. Aliás, a autoridade em ciencia é um convite à compreensão do que nessa autoridade é dito, só assim pode ser produtivo e fazer sentido. Já a autoridade no misticismo, nas religiões, e em muita anti-filosofia "filosófica" que medra pelo continente fora, é um convite a deixarmo-nos seduzir, a paralisar o instinto crítico em nome de um "sentido" inefável.

A autoridade na tradição e na religião é de um tipo fundamentalmente diferente, pois aí trata-se de conter e limitar o raciocínio, uma espécie de aviso de trânsito "Alerta: Para lá Daqui Estamos nos Limites do Conhecimento Humano, Pobre, Finito, Inepto".
A autoridade na ciência nada tem a ver com isto. É parte integrante da discussão racional e não a inibe, é tão inibidora do pensamento como uma bússula é inibidora da navegação.

Abraço
De Vitor Guerreiro a 30 de Janeiro de 2008 às 17:03
Para evitar ser tido por proselitista, vou tentar apurar o meu último comentário à autoridade na religião.

Não significa este que seja racionalmente impossível discutir os conteúdos do pensamento religioso ou as teses e argumentos sobre a natureza do divino, etc. Que essas coisas não possam ser objecto de discussao racional, podem.

O que eu queria comentar era o uso específico da autoridade na religião, não nas tentativas filosóficas de pensar a religião. Aquele é de facto inibidor porque se trata de impor limites que a interpretação dos textos não deve excluir e sim pressupor. Por contraste, na ciência e na discussão racional não se aceitam pressupostos que não possam ser questionados, embora haja conceitos primitivos. Em suma, a ciência desconhece princípios que sejam redutíveis a um simples "Disto não te podes Rir". Ou seja: a ideia central aqui é a de "veneração". Esse é o conceito chave para diferenciar o uso da autoridade nos vários contextos não-científicos, do contexto científico.

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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