Terça-feira, 29 de Janeiro de 2008

Mais uma falácia

Recentemente li algumas posições argumentativas que merecem um pequeno reparo. A primeira das quais confunde crença com o sentido em que habitualmente usamos o termo no senso comum, de crença religiosa. O segundo reparo dirige-se a uma posição que é comum ter-se, mas incorre numa falácia argumentativa. Consiste em não tomar posição sobre um determinado problema, pensando que desse modo se fica isento para poder ajuizar de modo imparcial.
Rolando Almeida

Esta falácia consiste em pensar que não tomar posição constitui uma vantagem para ajuizar. Acontece que argumentar desta forma é falacioso precisamente porque não tomar posição, em termos lógicos, significa tomar a posição de que se não toma uma posição qualquer. É uma posição defensiva, mas falaciosa porque é usada como armadilha para se mostrar que se tem mais razão que os outros somente porque não se está a tomar posição ou a defender X ou Y. Mas esta falácia também acontece porque se faz a confusão do termo crença com a crença religiosa. Na epistemologia crença é a base do conhecimento. Ter uma crença é ter uma convicção e não existe conhecimento sem crenças. Assim posso ter a crença de que a porta da sala onde estou está fechada ou a crença de que deus não existe. Acontece que a via empírica é plausível para saber se a porta da sala onde estou está realmente fechada, bastando, para tal, levantar-me da cadeira onde estou sentado e dirigir-me à porta, verificando se ela está fechada. A convicção que em mim se produz é bastante forte, pelo que confio, normalmente, nela. Vejo a porta fechada e verifico que a minha crença, além de verdadeira, está justificada. Não posso é proceder assim com deus, pelo que nem sei se a minha crença é verdadeira ou falsa. Poderíamos pensar que, assim sendo, é impossível conhecer deus. E tal seria mesmo impossível se deus fosse uma verdade sintética. Acontece que não sabemos se deus é uma verdade sintética ou analítica. Se for uma verdade analítica só poderá ser conhecido a priori. Mas isso é motivo para mais reflexão filosófica. Para já, quero somente reter uma ideia muito simples: a de que, como referi, a não tomada de posição no discurso é já, em termos lógicos, uma posição, pelo que usar este argumento para se mostrar que se está em algum posicionamento vantajoso, não passa de uma falácia que é necessário descortinar.

publicado por rolandoa às 01:29

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9 comentários:
De DF a 29 de Janeiro de 2008 às 19:01
e os sentidos não nos enganam? se nos enganam não devemos confiar neles... será que conheço realmente que a porta está fechada? ou que existe porventura porta? quem me diz que não poderá ser uma ilusão? como temos tanta certeza que vemos uma porta fechada e não um monte de bytes (zeros e uns) que um génio (maligno ou não) programou?

:-)
De Vitor Guerreiro a 29 de Janeiro de 2008 às 21:30
E depois queimam-se as pessoas nos fogões!
De rolandoa a 29 de Janeiro de 2008 às 21:49
Caro Vitor,
É claro que os sentidos produzem convicções bastante verosímeis, mas ainda assim, podemos sempre aplicar as questões que o DF sugere, por exemplo, se pensarmos na suposição dos cérebros dentro de uma cuba de Putman.
Pessoalmente afasto-me dos fogões, pois a convicção é, ainda assim, um facto do mundo, sendo ela virtual ou real.
Abraço
Rolando
De Vitor Guerreiro a 30 de Janeiro de 2008 às 10:54
Mas há um detalhe interessante na proposta do Matrix, ou a de que o mundo é redutível a uma pilha de bytes alojados num supercomputador, algures.

Este detalhe é precisamente o facto de enquanto imaginamos uma simulação radical, apelarmos ao mesmo tempo para uma realidade de base, uma verdade objectiva: teria de haver um mainframe, um processador, uma memória para alojar os bytes, um mundo objectivo com eficácia causal, que permitisse uma aparelhagem tão sofisticada para simular mundos. Reformulando isto em termos da filosofia da religião - até um deus teria de ter natureza interna, se começarmos a pensar por aqui virão à tona uma série de contradições nas nossas intuições triviais acerca de deuses. Uma delas é patente em Swinburne: este autor acha que sem uma inteligência ordenadora (ou para nós, um computador que faz a simulação) até a mera concordância de atributo entre duas partículas (o facto de dois átomos de oxigénio serem átomos de oxigénio) seria um facto inexplicável, um caso de complexidade irredutível. Claro que esta ideia está sujeita à objecção seguinte: de que modo os atributos da inteligencia criadora seriam concordantes consigo mesmo? Deus manter-se-ia a si próprio por um acto da sua vontade? Existe desde sempre por um acto da sua vontade?

Mas estou a fugir ao assunto...

A ideia é que o relativismo é minado por algo básico: temos sempre de apelar para a ideia de um mundo (mesmo que epistemologicamente nos fosse inacessível) que seja o mundo objectivo do "simulador". Esse mundo, embora não o conhecêssemos, é o TIPO de coisa que, dados os meios apropriados, seria perfeitamente acessível.

Nunca nos livramos do mundo objectivo. Podemos tentar exorcizá-lo para um patamar mais longínquo (um computador que nos simula a experiência) mas está sempre lá. Só que este exorcismo é muito pouco económico.
De rolandoa a 30 de Janeiro de 2008 às 16:21
Bem,
Eu aceito a possibilidade do relativismo. Só que em termos lógicos é um fosso, um beco sem saída. Ainda está por vir o relativista que me convença do relativismo. Isto porque quando encontro um relativista estou sempre a pensar que ele não tem razão e ele não tem modo de me mostrar como é que eu não tenho razão no que penso 
O detalhe que falas faz sentido e foi boa a observação de Swinburne, que também não me convenceu, caso contrário, passaria a acreditar em deus. Com efeito a hipótese de Swinburne é logicamente tão válida quanto a minha: ele pensa que lá, onde tudo surgiu, há-de estar alguma coisa e eu penso que não está lá nada de nada ;)
Abraço
Rolando A
De Vitor Guerreiro a 30 de Janeiro de 2008 às 18:51
O relativismo é uma das formas contemporâneas mais salientes de um fenómeno característicamente humano: a treta! Dito simplesmente, o relativismo é uma treta. Mas claro que há duas versões de relativismo, como há duas acepções de cepticismo (o radical e o moderado).
Na sua versão minimamente credível, o relativismo diz apenas que há coisas que são relativas. Mas isto é ilustrado pelo meu argumento em cima: se as coisas são relativas, são relativas a algo. Basta sabermos esse algo a que as coisas são relativas para termos uma imagem plausível da verdade. Na sua versão absoluta, o relativismo é um disparate auto-refutante.

A resposta ao Swinburne é bastante simples, a meu ver, e expõe uma fraqueza fundamental no seu modo de pensar:

Swinburne acha que sem Deus dois atómos de oxigénio não poderiam concordar em atributo, o tecido da natureza seria incoerente se não estiver indexado à ordenação de uma inteligencia suprema.

Mas se uma inteligencia suprema existe, ela é alguma coisa. Até Deus tem de ter uma natureza interna. Como poderiam os atributos internos da inteligência criadora ser coerentes? Se as particulas de oxigénio estão indexadas à vontade de uma inteligencia criadora, também a coerencia interna de um ser criador estaria indexada a uma inteligencia criadora. Isto instala uma regressao infinita ou um obscurantismo do género: "parece absurdo mas temos de aceitar que nos ultrapassa" - isto nem sequer é um argumento.

A resposta de Swinburne seria algo como Deus ser uma substancia simples, mas isto é das piores soluções ad hoc que há, um flick semântico. Deus não pode ser simples, a não ser pelo facto de "Deus" ser um monossílabo.
De rolandoa a 29 de Janeiro de 2008 às 21:47
Caro DF,
as questões que coloca fazem todo o sentido. O problema é que não podemos falar de tudo ao mesmo tempo. Na realidade, quase todas as questões da epistemologia estão por resolver, daí que seja uma área da filosofia com tanta produção filosófica.
Como sugestão: existem excelentes ensaios feitos a partir do filme Matrix sobre a questão que coloca. um destes dias falarei de uma colectânea de ensaios que tenho aí sobre o filme em questão.
Obrigado pela visita,
Rolando Almeida
De Simulador de Financiamento a 6 de Outubro de 2009 às 09:09
Se fore a correr contra a porta e bateres com a cabeça ela não é uma ilusão!
Acho que existem muitas pessoas que "não tomam" partido e isso não é muito construtivo.
Isso também se vê muito na politica onde há deputados que só falam contra e não ajudam a chegar a uma solução.
De Matheus Silva a 5 de Fevereiro de 2008 às 11:10
Penso que as observações levantadas por DF dizem respeito à possibilidade do ceticismo e de um gênio maligno que poderia estar nos enganando neste exato momento. Uma boa resposta para esta hipótese, apresentada por Russell, é de que o ceticismo é apenas uma hipótese entre outras acerca da realidade. Mas é uma hipótese mais improvável que todas as outras de que dispomos. Além disso, a defesa do ceticismo (pelo menos o radical) é sempre incoerente, como lembrou o Vitor: pretende descartar todas as nossas crenças como ilusão ao mesmo tempo que pressupõe algumas delas como reais.

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