Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2008

Grupo de Filosofia e Área de Integração nos cursos Profissionais

Recentemente um colega de filosofia interpelou-me sobre a questão de quem deve leccionar a disciplina de Área de Integração no ensino profissional. Usou um argumento que vejo ocorrer muitas vezes e que, creio, não colhe muitos frutos, nem tendo em atenção a verdade pedagógica, nem o interesse particular do grupo de filosofia em não perder horários de leccionação. O argumento foi que o programa da disciplina de AI tem muitos conteúdos de filosofia, mas também de história e geografia, entre outros. Quererá isto dizer que devemos recomendar que sejam os colegas das outras disciplinas a leccionar a AI? É que se o fizéssemos, o argumento em questão é exactamente o mesmo para a filosofia e para as outras disciplinas.
Rolando Almeida

Passo a explicar: se o programa tem alguma coisa de história e alguma coisa de filosofia, isso só significa que há tanta razão para ser o grupo de história, como o de filosofia a leccionar AI. Para além de tudo, um exame ao programa de AI revela que existem muitos mais conteúdos próximos da concepção de ensino de filosofia que em Portugal existe do que qualquer outra disciplina. A AI é uma disciplina que nem é água nem peixe, mas, um exame mais cuidado permite-nos compreender que o programa em vigor de filosofia, nem é água nem é peixe e nem daí admitimos, nós, da filosofia, entregar o programa a outros grupos disciplinares. Basta pegar num qualquer ponto do programa de filosofia para perceber o que lá está é tão vago que não exige qualquer preparação específica em filosofia para o leccionar. E, provavelmente, o mesmo se passa nos programas de muitas outras disciplinas.
O que aqui quero dizer é que este argumento não é o caminho mais acertado a seguir se queremos realmente leccionar AI. Se não queremos a disciplina, não faltam grupos a reclamá-la. A questão passa por outros argumentos. No agora mais parado site do Centro para o Ensino da Filosofia, no fórum de discussão(1), um colega, que não recordo infelizmente o nome e por dificuldades de acesso ao fórum não consigo determinar o nome, deixou uma carta muito clara que apresentava as razões pelas quais o grupo de filosofia deveria reclamar a disciplina para o seu grupo de docência. Entre as principais razões apontava aquelas que aqui deixo, em citação (ver mais abaixo). Convém não esquecer que a filosofia é a disciplina de carácter transversal, tal como o é a AI, pelo que faz todo o sentido que a experiência de transversalidade dos professores de filosofia,  seja aqui aplicada.
(1)   – Realmente não tenho a certeza se a informação foi deixada no site do CEF ou no fórum do manual Arte de Pensar. Apesar de ter feito uma busca não encontrei o nome do colega, autor da carta. Reproduzo aqui a carta e peço desculpa ao colega por fazê-lo sem a autorização devida. A carta encontrei-a guardada nos meus ficheiros.
 
 
 COMUNICADO
Recentemente, vários Grupos e/ou Departamentos disciplinares têm manifestado a sua disponibilidade para leccionar a disciplina de Área de Integração. Estando a disciplina atribuída ao 10º Grupo B, convirá esclarecer alguns aspectos.
 
 
  1. A Área de Integração a quase todos os objectivos de formação próprios do 10º Grupo B;
 
  1. O Programa da disciplina tem um carácter não-linear que é absolutamente incompatível com o desmembramento da disciplina por grupos disciplinares. Efectivamente, cada módulo é constituído por três sub-módulos oriundos de diferentes áreas temáticas, pelo que não é possível o seu esquartejamento em três anos distintos leccionados por três grupos disciplinares distintos;
 
  1. Por não ser linear mas sim um Programa com diferentes percursos de aprendizagem, facto que foi ignorado por ambos os Grupos, advêm sérias consequências para o processo de ensino-aprendizagem: após um ano de leccionação, já todos os sub-módulos foram reconstituídos em percursos alternativos, pelo que a retirada da leccionação da disciplina ao Grupo de Filosofia implicaria a sua absoluta inexequibilidade, pois resultaria na total descoordenação didáctica e pedagógica com graves consequências na vida académica dos alunos;
 
  1. Os cursos profissionais contêm no seu currículo diversas disciplinas distribuídas por vários grupos disciplinares; pelo contrário, ao 10º Grupo B só lhe é dada a possibilidade de leccionar Área de Integração. A disciplina de Filosofia ocupa um lugar, por direito próprio, na Formação Geral dos Curso Gerais. Nos Cursos Tecnológicos e Técnico-profissionais, esse lugar é ocupado pela Área de Integração. Consequentemente, ao reclamar para si a leccionação da Área de Integração, não está o Grupo 10º B a reclamar mais do que aquilo a que tem, legitimamente, direito: a substituição da leccionação de uma disciplina da Formação Geral por outra disciplina igualmente da Formação Geral. O lugar natural da nova disciplina é, claramente, o Grupo 10º B;
 
  1. Igualmente, não faz qualquer sentido que uma disciplina equivalente à Formação Geral nos Cursos Profissionais seja leccionada por Grupos disciplinares usualmente correspondentes às formações específicas ou técnicas; trata-se, simplesmente, de substituir uma disciplina da formação geral (Filosofia) pela sua equivalente (Área de Integração);
 
  1. De acordo com o Programa oficial da disciplina, a Área de Integração procura favorecer “simultaneamente a aquisição de saberes oriundos das ciências sociais e da reflexão filosófica”, comprovando a relevância da Filosofia para a sua leccionação; é o próprio Programa da disciplina que o afirma, não se tratando de uma mera manifestação de intenções de um conjunto de professores;
 
  1. Sendo a Filosofia, ela própria, um espaço de reconhecida interdisciplinaridade, ressalvamos o facto de o próprio Programa de Área de Integração salientar, e passamos a citar, que com este programa pretende-se, essencialmente, desenvolver a capacidade de integrar conhecimentos de diferentes áreas disciplinares, aproximar estes conhecimentos de experiências de vida dos alunos e aplicá-los a uma melhor compreensão e acção sobre o mundo contemporâneo”. Ora, nenhuma outra área do saber senão a Filosofia parece capaz de responder a este desafio;
 
  1. Acresce que o objectivo fundamental de cada módulo é a problematização dos temas/problemas do elenco modular. Qual a disciplina, senão a Filosofia, cuja especificidade se adequa exactamente a esse propósito?
 
  1. Salientamos ainda o facto de a bibliografia de referência ser constituída, em grande parte, por autores oriundos da Filosofia, tais como Fernando Gil, António Damásio, Edgar Morin, Fernando Savater, Simon Blackburn, Jean Piaget, Platão, Olivier Reboul, Paul Watzlawick, Ignacio Ramonet, António Zilhão, Alain Renaut, Niccoló Machiavelli, Carl Sagan, Marguerite Yourcenar, Boaventura de Sousa Santos, Gaston Bachelard, Jean Bronowsky, Karl Popper, Jean-Jacques Rousseau, Jean-Paul Sartre, André Breton, Luc Ferry e Sófocles
 
  1. Analisando o programa de Área de Integração, verifica-se que muito mais de metade dos módulos previstos – cerca de dois terços - são coincidentes com o programa oficial dos 10º e 11º anos em vigor actualmente na disciplina de Filosofia. Também por esse motivo a nova disciplina é reclamada pelo Grupo 10º B;
 
 
  1. Mesmo os sub-temas de Área de Integração que não coincidem com o actual programa de Filosofia coincidem, no entanto, com a formação de base dos professores deste Grupo bem como com as disciplinas usualmente leccionadas pelos seus professores nas mais variadas escolas secundárias de todo o país, tais como a Psicossociologia, a Sociologia, a Antropologia, a Ciência Política e a Psicologia;
 
 
  1. Do exposto resulta, ainda, que é necessário assegurar dentro do mesmo grupo de professores a continuidade da disciplina em todos os anos da sua leccionação: manifestamos a nossa total disponibilidade para assegurar a leccionação dos três anos pelos quais a disciplina está distribuída, de modo a assegurar a devida continuidade didáctica, pedagógica e funcional dos cursos técnico-profissionais.
 
 
 
Consequentemente, os Professores do Grupo 10º B reclamam a exclusividade da leccionação da disciplina de Área de Integração
 
Os professores do Grupo 10º B:
 
 


publicado por rolandoa às 12:59

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24 comentários:
De pedro a 13 de Outubro de 2008 às 19:47
estes professores de filosofia demonstram exactamente porque não devem ser eles a leccionar A.I ..
Se o compreendessem o ensino profissional e os alunos do ensino profissional perceberiam que não tem nada a ver com o que aqui escreveram.
O que os alunos precisam é de coisas práticas e reais e de alguém que faça a ponte entre as matérias e aquilo que se passa na vida real...e isso não se aprende no curso de filosofia..nem noutro qualquer....por isso tem tanta legitimidade para reclamar como os psicólogos , sociólogos .e muitos outros. o que é preciso é bons professores....em primeiro lugar esta o interesse dos alunos e não dos professores.....
De rolandoa a 13 de Outubro de 2008 às 21:21
Caro Pedro,
Precipitou-se no seu comentário. Bem, para começar sou licenciado em filosofia e trabalhei 6 anos no ensino profissional, 4 deles exclusivamente pelo que conheço perfeitamente não só os pressupostos do ensino profissional, bem como todo o modo de funcionamento desse sistema de ensino. Por outro lado o Pedro não sabe o que é a filosofia, mas pode informar-se. Tenho alguns textos neste mesmo blog que lhe mostram que a filosofia não é o que o Pedro pensa que é. O seu comentário é ainda muito pobre porque revela logo que não percebe os mecanismos de produção de conhecimento e a sua relação com a vida. Por outro lado a preocupação dos professores é realmente a qualidade do ensino, mas o Pedro poderia ter dito quais os professores indicados para leccionar a AI. Os bons? mas bons de quê? Há professores bons de educação física. Está a pensar nesses? Finalmente, o Pedro se estivesse preocupado com os alunos antes de tecer o comentário que teceu preocpava-se em olhar atentamente para o programa de AI e pensar se ele não passa de um insulto para os alunos. Aquilo nem é água nem peixe, não possui qualquer ordem ou consistência, não passa de banalidades e ciência ultrapassada. Mas o Pedro, que está preocupado com os alunos nem essa merda foi capaz de ver. Mas numa coisa estou de acordo consigo: para leccionar programas como o de AI, nem sequer é preciso ter conhecimentos específicos e qualquer charlatão passa bem por bom professor.
De pedro a 14 de Outubro de 2008 às 09:21
é interessante verificar que cada vez que produz um comentário consegue demonstrar que realmente nao é o tipo de pessoa indicada para leccionar a area de integração.
espero que isso nao tenha a ver com a formação em area de formação porque sempre tive bastante interesse por filosofia, que sei muito bem o que é, porque seria uma tremenda desilusão ....mas talvez tenha porque os professores de filosofia sempre tiveram "rancor" em relação a nao serem escolhidos para outras áreas .....
Pelos vistos teve 4 anos no ensino profissional e nao aprendeu nada!!!!...se calhar fazia-lhe bem era estar sentado do outro lado a aprender!!! é por causa de professores assim ,que tem obstinação com os programas, que os alunos não gostam de ir à escola.
Se tivesse a sorte de ter um bom professor perceberia que a matéria, apesar de estar lá e ser leccionada, não é mais do que um pretexto para desenvolver outras competências tão ou mais importantes para alunos do ensino PROFISSIONAL (diz-lhe alguma coisa esta palavra?!!!)...
O que os alunos querem, o que precisam e o que o mercado de trabalho exige!!!!!esqueça o programa..
se calhar nunca fez nada para alem de dar aulas e por isso mesmo nao consegue se desviar de um simples programa. ou da parte burocrática de uma escola ou de um sistema de ensino...tenho a certeza que conheço professores de educação física que estão bem mais aptos a leccionar integração que alguns dos professores de filosofia que nunca levantaram a cabeça dos livros
De rolandoa a 14 de Outubro de 2008 às 09:56
Pedro,
O Pedro quer uma luta de galos e eu não estou para aí virado. De onde é que me conhece para se dar ao à vontade de fazer afirmações sobre a minha vida profissional? Sabe que eu já não tenho idade para isso?
Mas o Pedro tem uma boa solução, muito melhor do que a de vir ao meu blog fazer ataques pessoais. Escreva ao Ministério e exponha as suas razões.
Para lhe saciar a curiosidade: é provável que o desiluda mas, no ensino profissional, quando lá estive, fui nomeado, nomeado note bem, coordenador de avaliação. Sabe o que é que eu fazia como coordenador de avaliação? Eu explico-lhe: como o ensino profissional recebia imensos formadores que são profissionais qualificados, com muita experiência, que fazem muita coisa além de dar aulas, mas que apresentavam inúmeras lacunas ao nível da experiência de avaliar e dar aulas. Pois, Pedro, era eu quem os formava dentro do ensino profissional. Se o Pedro escolheu à sorte o meu blog - de filosofia - para bater nos professores de filosofia por alguma frustração sua, escolheu muito mal e leva o tiro pela culatra. O azar que teve é que realmente fiz e faço muita coisa para além de dar aulas, mas quando dou aulas concentro-me imenso no meu trabalho.
Finalmente: se o Pedro se interessa tanto pela filosofia como é que faz afirmações absolutamente vulgares e populares sobre a filosofia, como a de que não tem correspondência com a vida real? Essa é uma ideia tacanha e que o deixou numa posição muito complicada para dizer que gosta e se interessa por filosofia. Não arranja melhor defesa?
De pedro a 15 de Outubro de 2008 às 09:19
VIva
a unica coisa que estamos a debater é o facto de afirmar no seu blog que os professores de filosofia sao os mais indicados para leccionar Area de Integração...afirmação essa que considero descabida e que voçe nao consegue arranjar nenhum argumento de jeito a favor.....o facto de ter tido algum cargo importante ..é mais outro argumento que nao tem credito nenhum....o país está cheio de pessoas em cargos importantes e que nao sabem o que estão fazer......não tenho qualquer interesse em ataca-lo pessoalmente ..simplesmente ja nao suporto ouvir o determinado tipo de coisas vindas dos professores,que sao um dos pilares da sociedade, quando o o país real e sobretudo a educação, tem tantas coisas por resolver..e os problemas de emprego dos professores nao estão no topo...mas sim a sua qualidade....
é preciso "tratar" da classe dos professores ...que eu muito respeito de que faço parte e que toda a minhafamilia faz parte....e como tal habituei.me a ver esta profissão como uma espécie de missao na sociedade e nao mais um emprego como os actuais professores a tornaram......
relativamente ao interesse pela filosofia....nunca disse que ela nao tinha ligação com o mundo real....(essa hermeneutica anda um pouco em baixo)...disse sim que alguns professores de filosofia nunca levantaram a cabeça dos livros..... e é verdade.....acabam...o curso e começam logo a dar aulas...que experiencia de vida profissional tem estes professores (e de outras areas tambem) para transmitir numa escola PROFISSIONAL..a nao ser teorias...
relativamente ao seu blog...tentei procurar nos seus textos o que é a filosofia como me disse ..mas nao está la....relativamente ao ensino profissional devo dizer.lhe que ja lido com ele desde 1991...
cumprimentos
De rolandoa a 15 de Outubro de 2008 às 10:10
Caro Pedro,
Usei o cargo porque o Pedro invocou que eu não estava preparado para compreender o ensino profissional e não porque lhe queira mostrar com isso que a AI deve ser leccionada pelos professores de filosofia. Compreendo que:
1) O Pedro agora se queira armar em santinho e desvie o tom inicial das suas ofensivas,
2) Que o Pedro queira leccionar a AI e, como não tem melhores argumentos, ataca indiscriminadamente quem defende com argumentos.
Finalmente não me pode atirar a batata quente para a mão. Expus uma série de argumentos. Curiosamente o Pedro nem sequer teve o cuidado de ver que o post a que se refere envolve um comunicado onde estão expostos os argumentos da defesa da AI para filosofia não é da minha autoria, apesar de o subscrever completamente. O que o Pedro tem a fazer é pegar nesses argumentos e refutá-los. Ou preetende que eu passe o resto do meu tempo a apresentar-lhe argumentos para o Pedro bater o pé e dizer simplesmente: “não concordo pois você é um burro”. Eu percebo o seu problema, mas desde já adianto-lhe um ponto: comigo não é com birras que vai defender a AI para si. Além do mais eu ainda tenho uma coisa que o Pedro não denuncia ter: procuro a verdade e não os interesses pessoais. Se o Pedro vasculhar no meu blog a posição que defendo, antes de reclamar a AI para a filosofia, é que sendo que o programa de AI nem é água nem peixe que razão tenho para que os colegas de outras áreas reclamem o programa e eu fico pacificamente a olhar? A maioria dos professores que leccionam AI ou são de história, ou geografia, ou relações internacionais. Prove-me lá que qualquer um destes professores é mais capaz que os de filosofia para leccionar a disciplina. Mas faça-o usando a inteligência, pois se a sua estratégia é fazer acusações gratuitas e juntar ideias como lhe convém sem atender aos argumentos, está dispensado da discussão. Comigo numa escola você só levaria a AI para o seu grupo se arranjasse um padrinho, pois com argumentos não ia lá. Isso lhe garanto. Por alguma razão a escola profissional onde passei dá emprego a 5 professores de filosofia, mesmo não tendo filosofia nos currículos do profissional.
De rolandoa a 15 de Outubro de 2008 às 11:09
Mais um esclarecimento:
A produção de conhecimento não está somente num saber fazer. Se sabe fazer, mas não sabe pensar, que lhe adianta saber fazer? Ora, se por um lado as competências práticas o ensinam a fazer, as competências teóricas ensinam a saber pensar essa prática. Se olhar à sua volta, escreve num PC de marca estrangeira, tem um telemóvel de marca estrangeira e um carro de marca estrangeira. Nada disso seria possível sem saber pensar, sem conhecimento e sem ciência. Não existe ciência sem problemas. Tudo isso que vê à sua volta são os resultados da ciência e não os seus mecanismos de produção. Por que raio acha que instituições como o MIT, por exemplo, tem departamentos de filosofia altamente qualificados? Porque razão os cursos práticos de engenharia, mesmo em Portugal, possuem disciplinas organizadas de critical thinking cuja base é a filosofia? Mas o Pedro vê a realidade a preto e branco e então acha que para um individuo ser um bom profissional não precisa de ler o Eça de Queiroz nem saber física, nem química. Essa é a tendência das nossas políticas educativas dos últimos 30 anos, a cultura do eduques. Esse é um ideal romântico e o Pedro embala a conversa pensando que a salvação do ensino é o ensino profissional e que os gajos de filosofia, química, etc. nada tem a dizer sobre o assunto porque são uns bananas que nunca trabalharam. Essa ideia é patusca e pouco própria de quem, como o Pedro, está há tanto tempo ligado ao ensino profissional. É mais razoável pensar que sim, o ensino profissional tem o seu lugar, mas o que quer ter no país: técnicos disto e daquilo sem reais produtores de conhecimento? Um técnico de mecânica não é um engenheiro de mecânica. Ambos são socialmente indispensáveis: o técnico executa, o engenheiro cria. E não há engenheiros bons se não tiverem uma sólida formação cultural. Por outro lado, Pedro, há uma distinção que é usualmente feita em filosofia que é entre valores instrumentais e valores intrínsecos. Algo com valor instrumental é algo que depende de outros valores para poder funcionar. Algo que tem valor intrínseco, pelo contrário, é algo que depende somente de si próprio para existir. Ora, o ensino profissional possui valor instrumental, mas não intrínseco. Finalmente, uma palavra sobre o que é a filosofia. Ao contrário da ciência, a filosofia não tem mecanismos de prova empírica. Mas os problemas são reais. Entre os mais comuns, dou-lhe o exemplo moral do aborto. E não me venha dizer que o aborto é um problema de leis. Antes de existirem leis já se abortava e não por exeistirem leis ou não que o aborto existe ou não. É por existir o aborto que se fazem leis ou não para o regulamentar. O aborto, não sendo um problema legal, é um problema moral porque se joga entre os conceitos de certo e errado. Ou ele é moralmente certo ou moralmente errado. Não existem mecanismos de prova do que é certo e errado. O que existe são argumentos e os argumentos são sujeitos ao raciocínio e às leis da lógica. Ora a filosofia oferece essa ferramenta para o estudante poder pensar por si próprio entre o certo e o errado,sem que lhe dê receitas sobre um e outro. Mas o Pedro acha que os estudantes do ensino profissional são umas bestas que não precisam destas coisas para nada. E eu não acho porque respeito a inteligência das pessoas independentemente se são estudantes no ensino profissional ou no ensino regular. O Pedro acha que a besta do aluno de mecânica só precisa de saber apertar parafusos e que tudo o resto é uma treta do catano. Mas não é Pedro e o Pedro anda muito enganado com uma visão muito estreita da realidade. Outro assunto: Claro que o Pedro pode achar que os professores de filosofia, em regra, estão muito mal formados. E eu também acho o mesmo, como acho que o estão os professores de muitas outras áreas. Mas esse é um problema não da filosofia em si, mas da universidade portuguesa que é muito caduca e mais o é nas chamadas ciência humanas. No mundo anglo saxónico a filosofia tem um sucesso enorme e garante empregos às pessoas. Numa boa parte dos casos a licenciatura em filosofia é feita como segunda licenciatura por gestores, engenheiros e advogados. E, apesar de não ser obrigatória no secundário – ao contrário de Portugal – tem as salas cheias. Pense lá por que razão isto acontece?(cont
De rolandoa a 15 de Outubro de 2008 às 11:11
Como vê Pedro, eu não defendo a AI para os professores de filosofia por mero interesse profissional, para ter mais horários ou para ganhar mais dinheiro. Eu defendo com razões e algumas delas serão, claro, discutíveis. Mas é aí que deve chegar e não acusar que os professores de filosofia nunca fizeram mais nada na vida e só ligam aos livros. Se assim fosse Pedro, nós teríamos mais vendas de livros. Infelizmente, o Pedro até nisto anda enganado.
De pedro a 16 de Outubro de 2008 às 13:14
esta discussão nao tem fim nem tem seriedade porque voçe nas suas respostas nao só nao consegue compreender o que escrevo como tambem

insinua coisas que eu NAO disse...

..este seu ultimo comentario tem uma serie de ideias que eu partilho mas que so reforçam a minha tese. o que interessa é um professor bem formado e com experiencia de vida profissional que faça a diferença na vida dos alunos..a todos os niveis..saber ser, saber fazer e saber aprender!!!!!!!!!!!!!!!!!é o que eu faço nas minhas aulas!!!!!!!!!!!!!!!
muito mais importante do que a area que é formado .

alias um professor que nao seja capaz de leccionar AI...nem professor deve ser...seja de que area for..
é sinal que tem lacunas na sua formação....
o desenvolvimento de espirito critica e a ponte entre o conhecimento e a pratica...sao obrigaçoes de qualquer profesor...não é preciso ser um iluminado de filosofia
nao estou a armar.me em santinho ...tudo o que disse nos comentarios anteriores reitero......

a unica coisa que sabe dizer é que o programa de AI nao é carne nem é peixe....pois deixe.me lembrar.lhe que esse tempo ja acabou....vivemos no mundo da soja......
é impossivel discutir arte com quem só ve o que está na tela...
boa sorte ai pela australia... ..

fim de discussão
De Edgar Rendeiro a 10 de Julho de 2009 às 15:29

Essa de dizer que quem não é capaz de leccionar AI nem professor devia ser é de antologia.
É como dizer comerciante que não sabe vender em supermercado não pode ser comerciante de mais nada.
AI foi mais uma coisa que pessoas que eu reputo como não competentes em nada, mas que se arvoram competentes em tudo criaram. 
Eu reconheço a minha ignorância, que é muita, e que não sei tudo, mas considero-me bom professor naquilo que é a minha área de formação e acho que a não muito mais sou obrigado. Daqui a pouco um professor deve saber de pedreiro, electricista, cozinheiro, matemática, história, moda e custura, etc., etc.
 Sabe o que lhe digo amigo estou farto dos senhores da política, porque são eles que criam estes cursos e formações, e que transitam de cargos em cargos como se fossem muito competentes em tudo, bem como de  pedagogos encartados que nunca deram aulas ou deram muito poucas, criem cursos e disciplinas camaleónicas onde um professsor tem de se transvestir em professor que sabe de direito, política, história, economia, gestão, filosofia, etc., etc. Deve ser este o homem do futuro de que se falava  há uns tempos atrás.
Não faço profissão de travesti nem sou camaleão, aliás digo-lhe meu amigo este genéro de formação generalista e pouco aprofundada é que nos vai afundar ainda mais em termos educativos e civilizacionais, e é sinal da hipocrisia dos tempos onde todos fingem saber o que não sabem. Fazia cá falta o outro Sócrates, para desmascarar estes novos sofistas vendedores de saber.
Não foi bonito ver a troca azeda de palavras do meu amigo com o outro nosso amigo. Penso que todos temos os nossos saberes e lacunas e penso também que ninguém tem o direito de atirar à cara dos outros que está mais preocupado com os alunos que os outros. É um mau pressuposto de discussão.

Edgar Rendeiro
De rolandoa a 10 de Julho de 2009 às 23:20
Caro Edgar,
Tenho dúvidas que o outro Sócrates nos resolvesse a situação. O "outro" Sócrates errou tanto como qualquer um de nós e se o Edgar conhece os diálogos do outro Sócrates certamente que já observou que também ele teve atitudes de puta lavadeira, como eu e todos nós.
abraço
De MS a 18 de Abril de 2009 às 16:56
Sem palavras... aí está uma das razões do estado do nosso ensino, quando o senso comum mais "básico" toma a palavra...
Marta
De rolandoa a 18 de Abril de 2009 às 17:23
Marta,
E muito mais há a dizer!
Obrigado pela passagem aqui
De andre dias a 3 de Março de 2009 às 17:42
Sou um apaixonado por filosofia mas acho que existe uma disciplina ainda MAIOR.... astrologia...
Vem ver o meu blog de formaçao e cursos profissionais :
http://cursostecnicoprofissionais.blogspot.com
De CC a 11 de Fevereiro de 2010 às 15:15
Encontrei isto por acaso, e sei que está datado... mas não posso deixar de dizer o seguiinte ao senhor Pedro:

Defina-me «prático» - caso consiga uma definição filosoficamente consequente...
De João José Cardoso a 15 de Setembro de 2010 às 21:40
A ginástica que se faz para ganhar a vida, o que sendo legítimo deixa de o ser quando se entra na pura mentira, e se esquece que os outros também comem.
"Estrutura familiar e dinâmica social", é filosofia, claro. Duby e Ariès , filósofos, toda a gente sabe. "A construção do social" como é desenvolvida no tema-problema não é História, que por acaso não é uma ciência nada transversal. "O trabalho, a sua evolução e estatuto no Ocidente", é pura metafísica, suponho.
Deixem-se de tretas: o programa está feito para ser leccionado em anos sucessivos por professores de História, Geografia e Filosofia. 
O resto é puro gamanço: já não vos basta a Psicologia e a Sociologia? 
De António Bastos Loureiro a 4 de Janeiro de 2011 às 15:34

Boa tarde João,
Estou em absoluto acordo com o seu ponto de vista. Considero que a Área de Integração faz lembrar o ensino básico «generalista»; da 1ª. à 4ª. classe como se dizia antigamente, onde se «misturava» e «mistura» transversalmente todas as áreas disciplinares. Aliás, a pós-modernidade «desencantada» com a unicidade do «purismo» cientifico tem alimentado a «transdisciplinaridade».
Tenho 2 formações superiores: em Antropologia e em Geografia e sinto-me como «peixe na água» a dar AI na escola onde estou. Gosto de filosofia, mas a disciplina está a ficar cada vez mais distante das outras. Com o novo arranjo legislativo ficou
«isolada» da Psicologia, da Sociologia e da Antropologia que surgem agora unidas no mesmo grupo disciplinar. Ver Portaria nº. 1189/2010 de 17 de Novembro, Diário da República, Primeira Série, nº. 223 de 17 de Novembro, página 5243.

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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