Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2008

Política Educativa II – O estranho mundo da economia

A propósito do meu post recente sobre política educativa, lembrei-me de escrever mais qualquer coisa em relação ao assunto. A ideia não é pura e simplesmente “bater” na política e nos políticos. Não que eles não mereçam, de vez em quando. Mas creio que também merecem qualquer coisa de elogioso quando tomam medidas acertadas. Recentemente, inspirado pela leitura do livro que aqui faço referência de Álvaro Santos Pereira, Mitos da economia portuguesa, Guerra e Paz, 2007, corri atrás de alguns livros de introdução à economia.
Rolando Almeida

Muito provavelmente pelas vistas curtas com que as licenciaturas de filosofia em Portugal se alimentam, nunca me tinha disposto a pensar o que poderiam ou não os filósofos fazer pela economia, ou se a filosofia possui alguma relação com a economia. Não estou particularmente à vontade para dizer alguma coisa com consequência, pelo menos com a consequência suficientemente plausível para a maioria dos leitores, sobre esta relação entre filosofia e economia, pelo que, pelo menos por enquanto, é melhor não avançar por aí. Dos livros que descobri, um deles, que considero interessante é o best seller Freaknomics, O estranho mundo da economia, Ed. Presença, 2007 (9ª ed), de Steven Levitt e Stephen Dubner.
Levitt é uma espécie de cabeça fresca iluminada da economia e resolveu aplicar os princípios da economia a terrenos onde tal não é habitual acontecer, como o da criminalidade e tudo o que a envolve, desde o terrorismo à fraude fiscal e até, imagine-se, às fraudes em avaliações de exames no ensino. Curiosamente todo o primeiro capítulo do livro é dedicado a explicar como foi desmontado uma fraude em notas de exame nos Estados Unidos. Quando acabei de ler o capítulo, que explico já a seguir, questionei-me se, perante tal situação em Portugal, pura e simplesmente acharíamos que nada poderia ser feito para combater a fraude. Mas só pensaríamos tal coisa por uma razão: é que o nosso desenvolvimento científico e tecnológico é insuficiente para tal e só nos sonhos é que conceberíamos tal coisa. Mas passo a explicar, com todos os atropelos de quem não domina conceitos, quer da economia, quer da matemática. Num determinado Estado da America do Norte, foram instaurados exames a alunos do ensino básico. Para tal criou-se um sistema de prémios e punições. Os professores, cujos alunos obtivessem melhores notas eram premiados e os que obtivessem piores notas eram penalizados. Logo aqui começo a pensar: então os exames nacionais são usados para avaliar quer o trabalho dos alunos, quer dos professores. Ah! Ok. Deve ser por essa razão que em Portugal se pretende avaliar professores, mas acaba-se com uma boa parte dos exames, que é um instrumento precioso quer para avaliar professores, quer para avaliar alunos (com todos os senãos, era o melhor instrumento de avaliação que possuíamos, por exemplo, na disciplina de filosofia, para a qual, o exame foi extinto). Já agora posso adiantar uma objecção que ocorre muito no sistema português: “ mas o professor que ensina num meio desfavorecido jamais terá os resultados dum colega que ensine num meio desfavorecido”. Ora bem, para além de outros contra argumentos que não vou desenvolver, existe um que me parece óbvio: então, mas o que se pode avaliar é em função das avaliações internas e os resultados das externas, que são, precisamente, os exames. Assim, mesmo que o professor ensine num meio mais desfavorecido, é de estranhar se os seus alunos obtivessem resultados na nota de frequência de 13 a 15 numa escala de 20 valores e fossem ao exame tirar resultados de 4 a 10. Alguma coisa aqui estaria mal e seria necessário reparar. Por outro lado, o exame daria uma indicação mais inequívoca das escolas que teriam necessidades de aplicação diferenciada de currículos, fazendo variar as práticas pedagógicas. Mas voltemos ao exemplo de Freaknomics. Acontece que foram os professores das suas turmas quem deram os exames aos seus alunos e os recolheram para avaliação. Quer isto dizer que muitos professores aldrabaram o sistema na expectativa de obter os prémios financeiros e progressão na carreira. Alguns prepararam os alunos denunciando previamente algumas questões que iriam sair no exame, outros - como os testes foram de cruzes - alteraram as respostas aos alunos ou completaram as que estavam em branco, outros, mais subtis, utilizaram outras aldrabices descritas pelo autor no livro. Após a leitura dá que pensar: E se fosse em Portugal que é que fazíamos? Provavelmente pensaríamos de imediato que não há forma de combater estas aldrabices e que é uma insuficiência do sistema para a qual não existe qualquer remédio. Daqui fomentar-se-ia a aldrabice generalizada e a vida continuava na ilusão de que tudo vai bem. Ou então, como parece ser a tendência mais actual, gastar-se-ia milhares de euros para instaurar um sistema de inspecção de exames, com centenas de funcionários do estado de olho aberto e mão no ar, prontinhos a dar a palmada ao professor aldrabão que pretende enganar o sistema. Ou, o que também é o caso português, não se premiava ninguém pelos resultados dos alunos e a maioria dos professores continuava a sua vidinha independentemente se o seu trabalho produz ou não resultados, sendo que os bons professores continuavam a ser olhados como uma espécie de coitaditos ingénuos que não tem mais nada que fazer, senão dar aulas, e que tal não compensa, que os políticos não merecem, etc….. e tal. Mas desengane-se o leitor (ou eu próprio)! Ao contrário do que pensamos há saídas eficazes para problemas desta natureza e com uma garantia de eficácia de 80 a 90%, o que, para nós, nos soa um bocado a milagre. Temos dificuldade em compreender como se pode combater uma coisa destas sem policiar o sistema. Mas não compreendemos porque a nossa falta de cultura científica e tecnológica nos impede de vistas mais largas para perceber algo elementar: poder controlar o sistema sem gastar milhares de euros em polícias. O que é que os americanos andaram a fazer? Aplicaram ciência ao caso e, como o livro muito bem mostra, com um estudo matemático, em função de algoritmos matemáticos, com alguma facilidade apuraram sequências que permitiram suspeitas sobre os casos de fraudes. Recorrendo a outras ciências (este é um trabalho claramente transdisciplinar) instauram grupos de controlo e, no final, não só conseguiram descobrir uma grande parte dos professores aldrabões, como conseguiram confirmar os professores honestos. O que a aplicação da ciência trouxe foi justiça social e a consequente melhoria do sistema educativo. E este é um belíssimo exemplo de como a ciência é muito mais do que os telemóveis e automóveis que nós tanto adoramos. Quando li este capítulo, mesmo tendo-me escapado algumas partes do estudo, fiquei mesmo a pensar que os efeitos da iliteracia científica, precisamente aquilo que o nosso sistema de ensino mais parece promover, são brutalmente nefastos a uma sociedade e o quanto nos afastamos da verdade por ignorarmos o poder do conhecimento e da ciência, para além de toda a injustiça que a ignorância produz. Este tipo de acontecimentos são, para nós, contos de fadas, quando, noutras regiões do planeta, são o motor de desenvolvimento humano a muitos níveis. Claro que não estou a endeusar o estudo que li em Freaknomics. Ele não é o D Sebastião do sistema de ensino americano que, por certo, se debate com inúmeros e sérios problemas. Mas fico a pensar como estamos ainda distantes dessa realidade, de como as decisões sobre matéria educativa são tomadas em Portugal, pelos políticos, sentados no Parlamento, sem qualquer fundamento ou sustentação teórica e científica. Por essa razão a nossa fraca capacidade em produzir resultados em educação, deve-se às políticas educativas que não são capazes de um investimento sério e capaz.


publicado por rolandoa às 14:49

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2 comentários:
De Gvilhovsky a 14 de Janeiro de 2008 às 16:55
olá

Experimenta - Capitalismo Karaoke.

Vais gostar. 2 suecos, uma ideia, um mundo, um livro interessantissimo :)
De rolandoa a 14 de Janeiro de 2008 às 18:56
Viva,
Agradeço a sugestão de leitura. Já tinha ouvido falar ou lido sobre o livro.
Abraço
Rolando Almeida

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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