Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008

Mais outra pesquisa simples. Onde param os Lehrbücher?

Desta vez quis saber dos manuais de filosofia. Os números traduzem o interesse que os diferentes países possuem em matéria de divulgação filosófica. A produção em língua inglesa é, mais uma vez, esmagadora, impressionante mesmo, o que prova bem do interesse em fazer manuais de filosofia em países como a Inglaterra ou Estados Unidos e do interesse bem menor nos países como Alemanha e França. E é também sinal evidente da inércia das academias tanto francesa como alemã em matéria de publicação e investigação filosófica. Nós, por cá, com 50 anos de atraso, continuamos a venerar as academias caducas e a pensar que não se pode saber filosofia sem saber falar alemão. Na filosofia, afinal, estamos ainda pior do que nos proverbiais comboios, que costumam ser usados como exemplo do nosso atraso significativo. Quando se usa o argumento de que a quantidade não é sinónimo de qualidade, o exemplo português é um belo contra exemplo. Temos pouco mais que uma dezena de manuais de filosofia, dos quais, somente dois ou três realmente se aproveitam para bem ensinar a pensar. Nos casos alemão e francês existe toda uma cultura sólida a sustentar a inércia actual. Quando falamos de Europa e revitalização da mesma, deve ser nisto que devemos andar a pensar. E uma Europa que não produza, condena-se ao fracasso. Países como a Austrália, Inglaterra, Nova Zelândia ou EUA, nos quais o estudo da filosofia é cada vez mais incentivado com publicação de livros e manuais, são também os países que mais e melhores filósofos produzem. É o óbvio ciclo das coisas, mas, ao que parece, não tão óbvio para a teimosa e obscura chamada filosofia continental, que poucos ou nenhuns filósofos produz com relevância e projecção. Venham agora as desculpas e as lamúrias do costume.
Os dados estão aí. A pesquisa foi feita nos vários Amazons e a busca foi por, Philosophie Lehrbuch, em alemão, Manuel de Philosophie, em francês, Textbook of philosophy, para o caso inglês e americano.
País:
Busca por:
Totais:
Alemanha
Philosophie lehrbuch
155
França
Manuel de philosophie
286
Inglaterra
Textbook of philosophy
2.056
EUA
Textbook of philosophy
4.445
 
Rolando Almeida
 
 
publicado por rolandoa às 16:45

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9 comentários:
De Anónimo a 4 de Janeiro de 2008 às 18:58
handbook não seria melhor?
não sei, só uma sugestão
De rolandoa a 4 de Janeiro de 2008 às 21:20
Anónimo,
Creio que não. Em inglês, manual é mesmo textbook. handbook serve para designar, por exemplo, leitores de e-books.
Obrigado
Rolando Alemeida
De Boing 666 :) a 4 de Janeiro de 2008 às 22:44
contra factos não há argumentos (cliché), mas é verdade. eis um estudo (pesquisa) simples, mas muito importante. Parabens
De boing 666 a 4 de Janeiro de 2008 às 22:55
Caro Rolando.

Temos os fctos... temos os argumentos, ambos sabemo a realidade.
Que fazer com a informação que possuimos?? Qual é o passo a seguir.???
De rolandoa a 5 de Janeiro de 2008 às 00:53
Caro Boing,
Essa questão é fundamental. Não adianta bater no ceguinho, à portuguesa. É necessário fazer coisas. Do meu ponto de vista, é necessário rever os currículos universitários de filosofia. Creio que temos bons professores, demasiado especializados e perdemos demasiado tempo num curso de licenciatura a estudar um conceito específico. Esse trabalho merece ser desenvolvido em pós graduações, mestrados ou doutoramentos. Esse trabalho tem de ser feito. Mas não podemos ambicionar fazer alta cirurgia sem ter conhecimento da chamada medicina geral. Pelo que , defendo, antes de tudo, que os cursos de filosofia deveriam seguir o modelo de uma formação de base sólida. Como consegui-lo? Investindo na gramática da filosofia, que é o estudo da argumentação filosófica, ensinando os alunos a pensar, argumentar, possibilitando-lhes, dessa forma, a transversalidade da filosofia que pode ser aplicada a outras áreas, como por exemplo, a empresarial. Tenho dois textos para publicar em breve onde vou focar estes aspectos, da empregabilidade em filosofia. Depois, há outro ponto que me parece fundamental. Quando vamos a uma livraria repare que a grande parte da produção filosófica nacional é sobre problemas demasiado específicos que não interessam ao público geral. A ideia é que os professores universitários começassem a incentivar uma política de publicação periódica de livros de divulgação do seu saber, numa linguagem organizada mas pouco técnica e, por isso acessível. A consequência destes trabalho é que muita mais gente passaria a contactar com a filosofia de um outro modo e isso é que cativava alunos para os cursos de filosofia e mostrava ao público mais desinformado o valor da filosofia e as suas potencialidades no mundo. Não podemos ambicionar que alguém se venha a interessar por filosofia tentando ler um livro que não percebe. Esta diferença com o mercado inglês é fundamental. O mercado inglês está cheio de obras de divulgação. Se quiser comprar um livro a 1€ de introdução à ciência pode fazê-lo. Claro está que não pretendo, de repente, viver na fantasia de pensar que podemos ter um mercado como o inglês. Mas, modestamente, podemos fazer mais e melhor. Mas, em Portugal, parece que andamos sempre à espera que os políticos façam uma lei que obriga as pessoas a pensar que a filosofia ou a ciência são coisas importantes. É preciso saber mostrar às pessoas que são coisas importantes, de facto. Finalmente, em Portugal, nos debates de problemas tipicamente filosóficos, raramente aparecem os filósofos a debatê-los. O caso recente do problema moral do aborto é significativo. Vimos padres, feministas, etc… mas filósofos? O problema é só um: se temos cursos de filosofia e filosofia no ensino secundário, temos de ser um país que produz filosofia. E isso não parece acontecer, pelo que concluo que os indicies de produtividade nacionais andam mesmo baixos, mesmo nunca desconsiderando o esforço magnifico de alguns universitários. Mas não chega.
Abraço
Rolando A
De renato martins a 4 de Janeiro de 2008 às 23:12
Caro Rolando:

o argumento que usas é totalmente falso. Não podes quantificar assim as coisas. É mais que normal que hajam mais livros de filosofia ou qualquer outra coisa em ingles, afinal é a lingua mais falada do mundo. nao podes compara com o alemao e frances (ha mais falantes nativos de portugues que dessas linguas)

Embora tenha todo o valor a tua pesquisa e o post esta de parabens penso que o pensamento que quiseste atingir esta errado.

abraço
De rolandoa a 5 de Janeiro de 2008 às 00:40
Caro Rolando:

o argumento que usas é totalmente falso. Não podes quantificar assim as coisas. É mais que normal que hajam mais livros de filosofia ou qualquer outra coisa em ingles, afinal é a lingua mais falada do mundo. nao podes compara com o alemao e frances (ha mais falantes nativos de portugues que dessas linguas)

Embora tenha todo o valor a tua pesquisa e o post esta de parabens penso que o pensamento que quiseste atingir esta errado.

abraço

Olá Renato,
É verdade que a pesquisa é um indicador frágil e eu fiz essa indicação, com efeito, estou convencido que nos mostra parte significativa da realidade. O inglês é de facto a língua mais falada em mais países, mas nem sequer é a língua que tem mais falantes. A que tem mais falantes é o chinês pequinês que é só uma variante do chinês. Quererá isso significar que deveriam existir mais publicações de filosofia em chinês que em inglês? Creio que não e explico porquê, já a seguir. Antes da segunda grande guerra, estes números existiam ao contrário, isto é, mesmo que a língua alemã não fosse tão falada quanto a inglesa, o certo é que se publicava mais em alemão que nessas línguas. Isto explica-se pelo nível de investigação das academias e não propriamente da quantidade de pessoas que falam a língua x, apesar que isso também é um factor de peso. Tu próprio dizes: há mais falantes de português no mundo que alemão (há mesmo? Não tenho a certeza) e, ainda assim, o número de publicações em português está a anos luz do de publicações em alemão. Creio que isto tem mesmo a ver com um ciclo obvio: investe-se mais em educação, paga-me mais e melhor aos bons, menospreza-se a preguiça em detrimento do esforço e da dedicação, há maior competividade e há todo um mercado que se desenvolve em torno desse ambiente. É verdade que em língua inglesa sempre se publicou muito, mas os números que apresento são um abismo que só se compreende se compreendermos o ritmo de produção das universidades. A nossa produtividade, por exemplo, é muito mais baixa. Claro que faz parte do ciclo outras consequências que merecem ser reflectidas: por exemplo, em língua inglesa, vale a pena tentar escrever um bom livro que se venda bem. Stephen Hawking fez isso com a breve história do tempo e arrecadou uma fortuna que lhe permitiu passar o resto da vida dedicado ao que gosta sem ter de trabalhar. Num mercado mais exíguo, como o português, tal não acontece. Mas creio que não existe razão para que tal aconteça com a língua francesa e alemão. São línguas que possuem grandes mercados. Simplesmente as universidades não produzem o mesmo. Por outro lado, e para acabar, penso que tal também se deve ao desinteresse público e falta de produtividade que a dita filosofia continental produz. Mas este ponto, reconheço, é muito mais polémico.
Abraço
Rolando Almeida
De renato martins a 6 de Janeiro de 2008 às 20:13
Caro Rolando:

antes de mais não afirmei que o porugues era mais falado que o alemao mas sim que o portugues era mais falado como lingua NATIVA que o alemao (é uma diferença substancial)

bem, mas a parte disso, tens que ver que o amazon é provavelmente mais preferido pelos publicos anglo-saxonicos por varias razoes.

Outra coisa é que ha mais o habito nos paises anglo-saxonicos que dar rentabilidade a uma tese academica publicando-a no mercado comum. Sabemos que no continente europeu as teses ficam nas prateleiras das universidades. São formas diferentes de ver as coisas, acho é absolutamente errado usar o amazon para comprovar algo parecido.
De rolandoa a 6 de Janeiro de 2008 às 21:03
Caro Renato,
estou de acordo que o uso do Amazon para apurar alguns dados é limitado, mas também é certo que é a livraria mais fiável para ter uma pequena noção do que se passa no mercado editorial. Não sei que outro sitio na internet possa ser mais fiável que o Amazon. E creio que os dados apurados são reveladores de alguma coisa, pese embora todas as limitações que qualquer observação possa ter, por muito elaborada que seja. Grave seria se a pesquisa fosse um disparate ou descaradamente parcial. So os leitores em inglês procuram mais o Amazon, é porque os leitores ingleses compram mais livros e se interessam mais e porque se publica mais. Se as obras de filosofia alemãs ou francesas ficam na prateleira da universidade é porque não devem possuir grande interesse público. De certeza que eu não posso ir às prateleiras das universidades buscá-las. Creio que quando se trata de estudos com interesse para a comunidade filosófica, eles são publicados, traduzidos e divulgados. O uso do Amazon prova-nos sem grande esforço que o mercado em língua inglesa é mais dinâmico e é em inglês que se fazem as principais investigações. Basta pensar que o mesmo investigador, quando é bom, ganha o dobro na inglaterra e o triplo nos EUA em relação a outros países. É do conhecimento público que as academias europeias estão a braços com o problema da fuga de cérebros para os EUA. Isto é factual, sem qualquer juízo de valor. Tu defendes que o amazon não pode ser indicador desta realidade e eu defendo que nos pode dar uma indicação mais ou menos geral. É a mesma coisa que entrar na FNAC do Chiado em Lisboa e olhar para a prateleira de História e ver que existem dezenas de livros publicados em 2007 e, ao mesmo tempo, olhar para a prateleira de filosofia e observar que existe uma ou duas, não mais, publicações no mesmo ano. Devo deduzir que a filosofia tem mais interesse público que a história? Penso que não. E, se a filosofia não tem mais interesse público, por consequência, tem menos público a estudá-la, menos público a lê-la e menos público a traduzi-la. Que tem isto de mais? é uma relação muito simples e não tem nada de tendenciosa, ainda que, como disse desde o início, possa apresentar nuances relativas, como qualquer estudo, por muito completo que possa ser.
Abraço
Rolando Almeida

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Rolando Almeida


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