Terça-feira, 1 de Janeiro de 2008

100 experiências mentais filosóficas

Contém 100 experiências mentais filosóficas - seria com esta frase concisa que poderíamos descrever sumariamente este livro. A partir de cenários fictícios, adaptados, na sua maioria, de textos originais clássicos — de que o autor fornece a fonte — apresenta-nos, com renovado frescor e rigorosa concisão, problemas, desafios e dilemas clássicos (e alguns não tão clássicos) da Ética, da Estética, da Filosofia da Acção, da Filosofia da Mente e da Linguagem, da Filosofia da Religião e da Epistemologia., muitos deles evocando a aparente irredutibilidade das aporias.
Paulo Lopes


Além dos problemas, desafios ou experiências mentais clássicos mais conhecidos (o cogito, a res cogitans e o génio maligno, de Descartes; a alegoria da caverna e o dilema de Êutifron, de Platão; a aposta de Pascal; o véu de ignorância e o princípio da diferença, de Rawls; o quarto chinês, de John Searle; a análise das hipóteses ‘cérebro numa cuba’ e ‘Terra Gémea’, de Hilary Putnam; a máquina das experiências de Robert Nozick), também contempla outros exemplos já clássicos mas talvez não tão conhecidos (dificuldades do fisicalismo, com Frank Jackson (“What Mary didn’t know”) e Thomas Nagel (“What is it like to be a bat?”); a forte analogia de Judith Thomson a favor do aborto; o papel da sorte nas decisões éticas e o caso Makropulos, de Bernard Williams, assim como alguns desafios peculiares e intrigantes de Derek Parfit. A estrutura das experiências escolhidas é invariável: pouco menos de uma página para introduzir a situação, uma referência à fonte (quando existe), duas páginas de análise (contendo sempre problemas ou críticas que a experiência em causa enfrente ou suscite), num total de três páginas por problema, e um índice remissivo. Com este figurino, sentimo-nos fortemente tentados a arrumá-lo paternalmente (ou desdenhosamente) na prateleira da divulgação filosófica ‘light’ (secção ‘vulgaridades filosóficas’). Este seria um juízo precipitado. Analisemos a alegação implícita neste juízo (de que pouco de relevante ou interessante se pode debater e descobrir em duas meras páginas).
Há algo de provocação e de vagamente jovial no livro, que é acentuado pelos comentários da contracapa (não se coibindo de, num problema levantado por Wittgenstein, por exemplo, introduzir duas personagens chamadas, previsivelmente, Ludwig e Bertie), particularmente no tom dos cenários com que se apresenta cada problema. Mas seria injusto encará-lo como uma colecção de soluções para os problemas ou como um texto de referência: é antes, como diz o autor no prefácio, um estímulo para alargar e refinar o nosso entendimento dos problemas colocados, que normalmente não são testados na nossa vida quotidiana.
O formato do cenário hipotético típico das experiências mentais (“E se X fosse assim?”) tem potencialidades filosoficamente interessantes, como Baggini sugere no prefácio. Uma delas é que oferece a qualquer pessoa a oportunidade de interpelar as variáveis da situação de modo crítico e criativo; permite-nos encarar a filosofia como uma actividade: permite-nos disciplinar o pensamento, concentrarmo-nos no problema em si e socorrermo-nos da imaginação para lhe tentar responder ou para considerar consequências possíveis capazes de enriquecer a sua abordagem. Por outro lado, ao incidir em problemas filosóficos relevantes (muitos dos quais têm impacto nas decisões que tomamos e nas escolhas que fazemos na vida real) que são expurgados das variáveis irrelevantes (das contingências e especificidades que, na vida real, inevitavelmente acompanham as dúvidas dilemáticas com que nos defrontamos), reduzem-nos à sua forma mais pura e mais simples — uma pergunta disjuntiva, frequentemente: “É verdadeiro ou falso? Devo fazer A ou não fazer A? Devo fazer A ou B?”.
Nada como um delicioso exemplo (em tradução displicente) para se ter uma ideia dos cenários criados ou adaptados. «Chamo-me René. Recordo-me de ter lido uma vez que há algo de que posso estar absolutamente seguro: enquanto estiver a pensar, eu existo. Se eu, David, estou neste momento a pensar, necessariamente existo. (…) Posso estar louco ou a sonhar, posso até nem viver em Taunton, mas, enquanto estiver a pensar, sei que Lucy (é o meu nome) existe. (…) Saber que posso ter a certeza da existência do meu eu proporciona-me um certo conforto para gerir a acelerada vida que levo em Munique. Às vezes, durante o meu passeio matinal pelos Campos Elíseos, pergunto-me se o mundo externo existe. Será que vivo realmente em Charlottesville, como julgo? Alguns amigos dizem-me: “Madeleine, ainda vais enlouquecer com essas tuas especulações!” Não me parece que tenham razão. Encontrei a certeza num mundo incerto. Cogito, ergo sum.Eu, Nigel, penso, portanto, sou realmente Cedric.»
 

publicado por rolandoa às 20:08

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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