Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2007

Discutir ideias

Frequentemente assistimos a discussões de problemas de natureza filosófica nas quais se acusa um sujeito de defender a posição X em detrimento da posição Y, como se a posição Y fosse a mais correcta e fosse manifestamente blasfemo defender uma ideia contrária à nossa. Isso acontece porque se tem, no caso explicitado, a atitude contrária aquela que é desejada em filosofia. Não se está aqui a sugerir que, afinal, em filosofia, todas as teorias são verdadeiras, mas antes que elas são discutíveis. 
Rolando Almeida

Claro que há critérios mínimos para se discutir filosofia. Entre esses critérios, o mais básico consiste em saber distinguir um problema filosófico de um problema não filosófico. Sem saber esta distinção, não é possível sabermos quando estamos perante uma discussão filosófica, ou uma outra discussão qualquer. Claro que nós, mesmo na filosofia ou principalmente na filosofia, não sabemos qual a posição ou tese a defender que é mais correcta, mas, precisamente por não sabermos é que sujeitamos as premissas que sustentam a nossa tese à discussão. Em Portugal, são muitas as vezes que assistimos a uma discussão que é absolutamente patética, entre aquilo que é filosofia analítica e a chamada filosofia continental. Esta discussão não faz qualquer sentido, uma vez que o saber se faz por acumulação, crítica e objecção. Eu não posso objectar a tese X se ela nem sequer existir, pelo que me parece vital, em filosofia, a existência da tese X, ainda que, no todo, a tese X não passe de um disparate. Apesar da filosofia não possibilitar os resultados da ciência, com isso, não é de todo verdade que em filosofia não existam progressos e não existe qualquer razão plausível para negarmos os progressos em filosofia. Se hoje em dia temos melhores instrumentos para argumentar filosoficamente tal deve-se ao esforço inicial de filósofos como, o principal, Aristóteles, que começou por mostrar que sabia pensar. Mas hoje em dia qualquer criança aprende o que Aristóteles escreveu sobre lógica. O maravilhoso é, ao ler Aristóteles, percebermos que ele sabia pensar. E não é qualquer um que sabe pensar pela sua própria cabeça e de modo consequente. Mas hoje também sabemos que Aristóteles cometeu erros. Sem a lógica de Aristóteles, sem os avanços posteriores dos pensadores medievais, a lógica provavelmente não seria aquilo que ela é hoje. Mas a lógica progrediu imenso sobretudo no sec XX e se a lógica, desde Aristóteles, afectou a filosofia de modo decisivo, quais as razões que temos para pensar que os desenvolvimentos da lógica no sec XX não podem afectar a filosofia, chame-se ela analítica ou outra coisa qualquer? Não aceitamos a chamada filosofia analítica por puro preconceito e porque a nossa formação nos formatou mais do que aquilo que possamos pensar. Por outro lado é um disparate partir do princípio que as questões filosóficas têm de ser colocadas com uma linguagem rebuscada ou profunda, em grego ou alemão ou chinês. As questões da filosofia têm de ser colocadas, ponto final. Tal como as questões científicas têm de ser colocadas, ponto final. Admiramos Newton e pouco sabemos dele, pelo menos os que, como eu, não sabem muito de física, mas admitimos que o homem teve uma forte intuição ao dormir a sesta debaixo de uma macieira e ter levado com uma maçã na cabeça, mas já não admitimos ao filósofo que coloque as suas questões com uma linguagem clara, senão como a tecnicista de Kant ou, pior ainda, a obscura linguagem de Heidegger. Ao filósofo é imediatamente exigido que pense algo que ninguém compreenda. E só isso é que é filosofia pura e dura. A Filosofia. O resto é lixo. E é triste que, com esta atitude anti filosófica de não sermos capazes de questionar a nossa própria formatação filosófica, vejamos escapar-nos toda a filosofia do século XX, que é também aquela que mais produziu tanto em qualidade como em quantidade e que leva o epíteto de analítica. Deveria ser igual se a filosofia é analítica ou não analítica, insular ou continental, em grego ou alemão, se ela for capaz de contribuir de modo decisivo para a discussão racional dos argumentos. Enquanto andamos com estas guerras, a filosofia avança em países de expressão de língua inglesa, sem estas falsas questões que em nada a beneficiam. Por vezes dá a ideia que, antes de estarmos na filosofia, temos de ser X ou Y e somente depois é que estamos na filosofia. Mas isso é idiotia. Na filosofia temos de discutir e a discussão não só é possível como desejável. Uma das formas de evitar a discussão é denegrir este ou aquele filósofo, esta ou aquela filosofia. Mas isso é batota. Outra das batotas é apresentarmos uma suposta ideia ou tese filosófica com palavras caras para que pensem que estamos a ter uma grande ideia. Infelizmente a academia portuguesa está imbuída neste espírito da fábula e do mito.
O que existe contra a linguagem hermética?
Por princípio nada. Em filosofia o que se pretende é fazer filosofia. É natural que , para comunicarmos os nossos argumentos, mesmo em filosofia, procuremos fazê-lo de modo claro. Não existe, por princípio, nenhuma vantagem em não fazê-lo desse modo. Claro que cada filósofo tem o seu estilo próprio. Uns são mais herméticos, outros menos. Pessoalmente creio que Kant teria tido muitas mais vantagens se não tivesse abusado de uma linguagem demasiado técnica. Parte da sua filosofia poderia ter sido expressa numa linguagem mais clara. Ainda assim, é inegável que Kant é dos autores de filosofia mais lidos desde sempre. Este aspecto pode ser ilustrado de modo simples. Vamos supor que eu quero defender que o livre arbítrio não é possível, porque o universo está determinado. Posso defendê-lo de várias formas:
1 – o livre arbítrio não é possível uma vez que o universo já está determinado.
2- não somos livres
3 – o ser aprisiona-se pelas peias da ordem divina.
4 – estátuas imóveis no tempo.
Se tivermos em mente o problema enunciado anteriormente, a diferença entre estas 4 afirmações é literária e mais nenhuma. Nesse caso, se eu o posso dizer de modo claro, porque o tenho de fazer por metáforas? É óbvio que esta é uma opção do filósofo que terá a ver com a sua própria formação. Mas também é por essa razão que há filósofos que se revelam, com o tempo, verdadeiramente ilegíveis, dada a subjectividade aparente das suas metáforas. É também por esta razão que a filosofia não tem qualquer obrigação de ser escrita de um ou outro modo, apesar de ser desejável a clareza e objectividade para que o pensamento consequente que é exigível ao filósofo se compreenda o melhor possível.
Muita da discussão em torno da filosofia continental ou analítica não faz qualquer sentido e nem sequer se trata de uma discussão de ideias, mas antes de uma discussão entre pessoas, sobre pessoas e os seus percursos académicos que não são capazes de colocar em causa. Muitos dos filósofos chamados analíticos foram formados nas universidades alemãs e francesas e emigraram, por força do nazismo para países onde a guerra praticamente não chegou. É natural que essa massa intelectual tivesse continuado a trabalhar e evoluísse para aquilo que a filosofia é actualmente. E também me parece algo sensato compreender que as ideias chegam a Portugal uns anos mais tarde. Importamos pouca discussão e temos uma tendência cultural a pensar que as coisas só podem existir e acontecer a partir de um ângulo, de uma visão. A realidade de outras culturas, principalmente dos grandes centros universitários do mundo, onde o conhecimento produz massa pensante em qualidade e abundância é completamente diferente. Aí sim o conhecimento é visto como o principal ponto de riqueza, de produção, de produtividade. E aí sim, ao contrário do que pensou Thomas Kuhn, o conhecimento não se dá por rupturas de paradigmas, mas por acumulação com capacidade integradora. É também por essa razão que os filósofos clássicos são muito discutidos e é também por essa razão que os filósofos em vez de insultarem Thomas Kuhn, mesmo pensando que ele estava errado, discutiram-no e ainda discutem. Esta diferença é fundamental: em filosofia não se atacam pessoas, atacam-se ideias. Com coragem intelectual. Os filósofos atiram-se a ideias, a discuti-las, sem ter de ter medo de perder o emprego ou ser acusado de vendedor de livros ou de carros ou de que o valha… mas para discutir teorias ou ideias filosóficas é necessário entrar na discussão com o mínimo de preparação possível, em vez de mandar palpites e frases soltas como que a dar um ar de inteligente e visionário.


 
publicado por rolandoa às 21:04

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Rolando Almeida


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