Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2007

Enigmas da existência

Uma boa forma de divulgar a filosofia, para além de todo o trabalho a fazer nas escolas secundárias onde a filosofia se ensina como formação geral, é pela publicação de boas obras que, sem perder o rigor do pensamento filosófico, possam revelar às pessoas sem formação, o poder e a força dos argumentos e a sua relevância nas nossas vidas e cultura. Recordo sempre o trabalho de Carl Sagan em prol da democratização da ciência. As obras de Sagan não só são rigorosas, como rapidamente nos confrontam com as mais recentes descobertas científicas.
Rolando Almeida

Como em tudo, em Portugal temos somente sinaizinhos pequenos da divulgação da ciência, filosofia e conhecimento em geral, muito se devendo ao esforço singular de meia dúzia de homens e mulheres de ciência e da filosofia. Neste último caso, na filosofia, é quase um marasmo. Traduzem-se obras de menor relevância e outras há que poderiam cativar novos públicos para a investigação filosófica que só possuímos acesso dominando um pouco a língua onde elas mais se publicam, o inglês. Deste modo, temos a ideia que existem áreas da investigação filosófica tão sofisticadas que o público em geral jamais as entenderia, o que não corresponde de todo à verdade dos factos. Seria o mesmo que pensar que um físico não deve escrever uma linha que seja para explicar a física quântica ao grande público, uma vez que este jamais entenderia tão sofisticada teoria. Mas pensar deste modo incorre num perigo enorme, quer para a ciência, quer para a filosofia. Não divulgando as áreas, mesmo as mais sofisticadas, do saber e conhecimento, coloca-se do lado de fora grande parte da população que jamais terá acesso ao estudo de tais matérias. Seria algo como os especialistas da língua portuguesa pensarem que a pessoa comum jamais se poderá interessar pela obra de Eça de Queiroz, uma vez que é muito complexa e, por tal razão, mais vale ensinar somente o funcionamento e regras de um concurso televisivo como o “Big Brother”. Esta é uma ideia autoritária e snobe que recusamos desde sempre.
A metafísica é uma área complexa da investigação filosófica, como de resto, toda e qualquer área da filosofia. Dizer que a filosofia é complicada é exactamente a mesma coisa que dizê-lo em relação à matemática, física, química ou biologia. Essa razão não é suficiente para nos fazer crer que não devemos divulgar esses saberes e insistir na ideia de que porque são difíceis não se devem ensinar é uma tolice que só cabe na cabeça de alguém intelectualmente muito pobre e arrogante. Curiosamente algumas destas ideias proliferam em Portugal, precisamente num país onde pouca investigação sofisticada se faz. Possuímos tanto apreço por cientistas como João Magueijo ou António Damásio, que sendo portugueses, não investigam em Portugal. Isto só nos prova que geneticamente os portugueses são tão capazes como qualquer outro povo, independentemente da raça ou nacionalidade. O conhecimento científico e a verdade não possuem fronteiras, nem limites genéticos. Possuem sim limites culturais e de mentalidade. Em democracia, a educação é um bem que pertence a todos e não somente às escolas. Aprendemos porque vamos à escola, mas também porque lemos livros, estamos informados e podemos fazer as escolhas necessárias às nossas necessidades. Curiosamente em matéria educativa, em Portugal, tem-se pensado que fazer uma escolha consiste em ser serralheiro mecânico ou médico num hospital do Estado. Esta é uma visão limitada e redutora do conhecimento. Daí se explique que encontremos com uma frequência aberrante discussões sobre se um serralheiro mecânico deve ou não conhecer a obra de Eça de Queiroz. Esta ideia redutora manifesta a vista curta do que é a cultura e o saber. Opções em liberdade democrática envolve também poder entrar numa livraria e, comprando um livro, ter acesso à informação que até nem é da sua área profissional ou de estudo. Liberdade é o serralheiro mecânico não ser impedido pelo sistema educativo à iliteracia (científica também) e poder comprar um livro de metafísica ou o médico comprar e estudar um livro de serralharia mecânica. Nos países onde mais se investiga (E.U.A e Inglaterra) é também onde mais se publica com este propósito, o de dar a liberdade de escolha.
Earl Conne e Theodore Sider provavelmente nem necessitaram destas considerações para escreverem um introdução à metafísica tão deliciosamente compreensível como Riddles of Existence, A guided tour of metaphysics, Oxford, 2005(Enigmas da Existência, um guia de viagem pela metafísica, Oxford, 2005) . Nesta obra, problemas centrais da metafísica são tornados problemas de todos, numa linguagem suave, mostrando, desta forma, o quanto é importante todos termos umas noções de como pensar os problemas da metafísica. Desde a identidade pessoal, ao problema do fatalismo, tempo, deus, livre arbítrio e determinismo, o problema dos universais até ao problema da possibilidade e necessidade, encerrando num delicioso capítulo sobre What is metaphysics?, os autores dão a conhecer ao grande público a pertinência destes problemas e, muito interessante, o quanto eles nos pertencem, enquanto seres racionais.
Para abrir o apetite, exponho brevemente o problema em análise no primeiro capítulo, escrito por Theodore Sider: num julgamento por assassinato, o leitor decide representar-se a si mesmo, defendendo-se alegando que, na altura do crime, era uma pessoa diferente daquela que é actualmente. Ora bem, parece estranho, mas o argumento consiste em defender que, na verdade foram as suas mãos que cometeram aquele crime, as fotografias comprovam-no, mas a pessoa que era no momento do crime, já não é a mesma que é agora. Obviamente nenhum tribunal aceitaria tal argumento, com efeito, o que há de errado com o argumento? Como é que preservamos a identidade no tempo?
A questão levanta sérios problemas na filosofia. Riddles of Existence é uma porta aberta ao problema e merecia uma tradução para o público português começar a pensar filosoficamente a metafísica.
A Introdução pode ser lida aqui.
Earl Conee & Theodore Sider, Riddles of Existence, a guided tour to metaphysics, Oxford, 2005


publicado por rolandoa às 12:38

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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