Sexta-feira, 30 de Novembro de 2007

Como evitar que os homens se transformem em coisas

Reconhecimento e reificação em Axel Honneth

Axel Honneth, representante actual da Escola de Frankfurt e da Teoria Crítica, apresenta-nos em duas obras, A Luta pelo Reconhecimento e A Reificação. Pequeno tratado de Teoria crítica dois conceitos – reconhecimento e reificação - recuperados de Lukács, Hegel e Mead e outros autores que podem trazer alguma contribuição para a filosofia política actual.

                                                                                                     José Caselas


Honneth intenta reformular o conceito de reificação a partir da noção que Georg Lukács apresenta na sua obra História e consciência de classe (Geschichte und Klassenbewusstsein) e que se pode resumir nisto: perante os interesses económicos e a troca comercial capitalista, os homens tendem a ver os outros homens como objectos. Desse modo, os sujeitos adquirem o hábito e a postura de contemplarem os outros com passividade; a sua interacção baseia-se numa atitude desligada e observadora e não numa perspectiva do participante, isto é, capaz de se colocar na posição do outro no que respeita à vida social. Honneth parte das fontes da Teoria Crítica que emergem precisamente na Alemanha de Weimar por volta de 1920 e com o conceito de reificação, o seu objectivo é precisamente apontar, tal como fizera Lukács, uma patologia social, mas desta vez recorrendo ao contributo interdisciplinar, articulando vários saberes.
Honneth faz a genealogia do conceito a partir de Lukács, Heidegger e Dewey. O facto de os homens se relacionarem com o mundo de forma comprometida e interessada define a noção de cuidado em Heidegger; toda a relação intersubjectiva pressupõe já essa afirmação existencial que não se pode converter numa pura oposição entre sujeito e objecto; implica reconhecer-se no outro.
O reconhecimento como forma originária de relação com o mundo encontra-se também presente em Dewey, para quem essa relação não segue o modelo neutro objectivante: todo o conhecimento racional é precedido por uma experiência emocional, não fazendo sentido distinguir entre os elementos emocionais e os cognitivos.
A estrutura do reconhecimento proposta por Honneth afirma que existe uma capacidade prévia que identifica e valoriza o significado que têm para nós as pessoas e as coisas. Afastar esta capacidade é cair na reificação, resistir a ela é lutar pelo reconhecimento. Na verdade, o autor que tematizou pela primeira vez o reconhecimento de forma consistente em Filosofia política foi Hegel nos seus escritos de Iena, inscrevendo-o na ordem jurídica. Desde então o tema do reconhecimento não atraiu grande atenção especulativa até Honneth.
            A primeira modalidade do reconhecimento – o amor – revela que posso aceder aos meus estados mentais a partir de um reconhecimento prévio dos estados mentais de outra pessoa; é o caso do bebé quando se reconhece na mãe. Partimos, assim, de um primado do reconhecimento que pode traduzir-se nestes termos: «A atitude participante e comprometida precede a apreensão neutra da realidade.»[1]
O primado do reconhecimento recorre em grande parte à Psicologia do desenvolvimento e psicologia social, onde se destacam os trabalhos de Piaget e Mead, e defende que a criança/jovem aprende a referir-se ao mundo objectal quando adopta uma perspectiva de uma segunda pessoa (a pessoa privilegiada do seu amor) – o que acontece, ao que se diz, por volta dos nove meses – é nesta perspectiva de segunda pessoa que emerge o pensamento simbólico. É com esta perspectiva de segunda pessoa, emocionalmente investida, que a criança aprende a considerar as coisas como entidades objectivas (objectos). Assim, esta abordagem não coloca em primazia a relação cognitivista com o mundo. Na situação da criança autista, o fracasso de uma identificação emocional com a perspectiva de uma segunda pessoa, conduz ao encerramento numa visão pessoal do mundo sem acesso a outra perspectiva (temos aqui não um défice cognitivo, mas uma falha emocional). É a anterioridade de uma recepção emocional que permite a passagem ao conhecimento dos objectos e não o contrário.
Desse modo, a criança aprende a relacionar-se com o mundo objectivo e a deixar de ser egocêntrica, a partir de um relacionamento privilegiado com a mãe. A sua relação com o mundo possui uma base comunicacional que é prévia a toda a objectivação.
 
“O facto de se colocar na perspectiva de uma segunda pessoa exige uma forma prévia de reconhecimento que não pode ser inteiramente apreendida com a ajuda de conceitos cognitivos ou epistémicos, pela simples razão que ela contém sempre um momento não voluntário de abertura, de afeição ou ainda de amor.”[2]
           
            Percebe-se que é a partir da perspectiva da pessoa amada que a criança começa a compreender os significados e os objectos. A multiplicação das perspectivas aumenta o conhecimento e dá-nos acesso a outros aspectos dos objectos. É isto que Honneth quer dizer quando afirma que o reconhecimento precede o conhecimento. Desse modo, a interacção social não se faz a partir de actos de conhecimento, como muitas vezes se declara em Filosofia, mas segundo posturas de reconhecimento. É isto que está na base da simpatia. O autor recorre ainda ao conceito de acknowledgement de Stanley Cavell para ilustrar este tipo de reconhecimento onde, como afirma, uma pessoa consegue implicar-se no mundo interno de outra a partir do momento em que produz uma reacção ao seu comportamento. A relação é falhada se nenhuma reacção é produzida. Evidentemente que a participação na interacção não se resume a emoções positivas ou amigáveis – reconhecer o outro pode implicar atitudes negativas como o insulto. Ainda assim podemos reconhecer que agimos mal desenvolvendo uma consciência moral. É evidente que o tipo de conexão entre as duas pessoas não se compreende de imediato. No seu livro mais conhecido A Luta pelo reconhecimento, A. Honneth recorre à psicologia social de Mead, porque este caracteriza o conceito de Eu como possibilidade de um sujeito se colocar na perspectiva normativa do seu parceiro. Este alcança, assim, neste processo de socialização, o «outro generalizado», visto que ajusta o seu comportamento a um número cada vez maior de membros da sociedade. Nessa obra, o reconhecimento apresenta-se numa estrutura tripartida: o amor, o direito e a estima social. No fundo a teoria do reconhecimento revela que a identidade pessoal resulta de uma estrutura intersubjectiva:
 
            “ […] os indivíduos apenas se constituem como pessoas quando aprendem a encarar-se a si próprios, a partir do ponto de vista de um «outro» aprovador ou encorajador, como seres dotados de qualidades e de capacidades positivas.”[3]
 
Nesta ordem de ideias o que é afinal a reificação? É um esquecimento do reconhecimento. Se para Lukács a reificação devia-se à predominância do mercado, Honneth alude a uma amnésia quando ignoramos que todo o processo de conhecimento se deve a um reconhecimento prévio. É o caso do jogador de ténis que na sua ânsia de ganhar a partida esquece que o seu adversário é o melhor amigo e que é graças a essa amizade que o jogo se pode desenrolar. A intervenção da ideologia também pode favorecer o esquecimento do reconhecimento.
É curioso que Honneth evite nomear Auschwitz como o apogeu da reificação (embora refira exemplos facilmente perceptíveis como o racismo, a pornografia, etc ), visto que esta é o tratamento instrumental das outras pessoas levado ao extremo, a ponto de desumanizá-las totalmente. Se o esquecimento do reconhecimento nos leva a reificar o Outro, mantendo com ele uma atitude apenas observadora e sem qualquer envolvimento, surge aqui uma dificuldade. Nesta perspectiva podemos compreender que na lógica do campo de concentração as SS, que se situavam nas imediações, mantinham um indiferentismo para com os deportados, mas relativamente aos Kapos (prisioneiros de delito comum alemães e outros estrangeiros) que mantinham a ordem no interior do campo, não se pode negar o seu envolvimento participativo na destruição de outros seres humanos. A reificação parece tomar aqui uma forma emocional de participação e não uma retirada para uma esfera de frieza contemplativa. O mesmo argumento poderia ser utilizado nos casos de sadismo e masoquismo, o que Honneth não faz. Ele está empenhado em tirar ilações para o domínio moral, evitando fundamentar uma psicopatologia.
            A hipótese do reconhecimento é de algum modo tributária do pensamento de Habermas, porquanto ele é intersubjectivamente mediado – é o outro que funda a minha identidade. Honneth envolveu-se em polémica com Nancy Fraser sobre a noção de reconhecimento, a partir de críticas que lhe foram dirigidas segundo as quais Honneth estaria a desenvolver uma identidade essencializada situada na esfera do direito, despreocupando-se com a noção de redistribuição dos recursos materiais (cara a Fraser). De facto, na interacção social são sobretudo as relações de subordinação que podem comprometer um verdadeiro reconhecimento e respeito entre os sujeitos.
Podemos pensá-lo com um exemplo simples: em países da América latina, por exemplo, não basta consagrar direitos constitucionais às minorias e aos índios. Se a discriminação social persistir e os relegar para as favelas de pouco valem as apologias do reconhecimento formal.[4] Resulta da argumentação de Honneth que a alteridade é constitutiva da nossa identidade. Se para ele, os outros constituem-nos e sedimentam a nossa estima pessoal, que tipo de identidade está aí constituída? Será uma identidade essencialista, imutável? Se assim for, caímos num outro tipo de reificação que o reconhecimento pretendia justamente evitar.
A estrutura do reconhecimento e da reificação serve sobretudo para dar conta do mundo interpessoal, mas pode estender-se às relações que o sujeito mantém consigo mesmo; podemos falar assim de uma autoreificação. Em que consiste esta? Para ilustrar este aspecto, Honneth serve-se do detectivismo e do construcionismo, como formas de apreensão do nosso mundo interior, sendo que o primeiro considera que os nossos actos mentais (sentimentos e desejos) encontram-se fixos, bastando descobri-los e o segundo recorre à ideia de que esses actos podem ser produzidos de acordo com o contexto.
 
“As formas da relação a si de que nos dão conta o detectivismo e o construcionismo correspondem respectivamente a modos específicos de reificação de si próprio porque, nos dois casos, os estados vividos interiormente são apreendidos segundo o modelo de objectos dados como coisas.”[5]
 
A objecção que se levanta de imediato é a de que reconhecer significa reactualizar uma estrutura anterior já dada mas, na perspectiva de Honneth, não coisificada. Que tipo de estrutura é essa? Como ultrapassar isto? Lembremos que o cuidado de si em Foucault implica a autoconstituição de um eu não substancializado e que a reificação estaria a cargo das identidades sociais que as instituições e o poder nos conferem. Mas não vamos desenvolver este ponto.
Os exemplos apontados para a autoreificação e para as práticas sociais reificantes – a entrevista de emprego e a procura de um parceiro amoroso na Internet – mostram que os sujeitos seguem estruturas de auto-apresentação estandardizadas, permitindo a manipulação dos seus dados que são observados e registados passivamente.
 
“Sempre que se autonomizam práticas que consistem simplesmente em observar os homens, registar friamente a sua existência, considerá-los como factores independentemente do contexto do mundo vivido ao qual pertencem, e isto sem que sejam inseridos no seio de relações jurídicas, desenvolve-se uma ignorância do reconhecimento prévio que descrevemos como sendo o núcleo de toda a reificação intersubjectiva.”[6]
 
Finalmente, convém não abandonarmos o texto de Honneth sem lhe apontar uma insuficiência pelo menos: na sua tentativa de fundar um reconhecimento, podemos nós esperar que esta fase proto-social aspire a uma universalização posterior, a uma auto-realização com vista a um desenvolvimento normativo? Explicitemos melhor: poderá este reconhecimento superar todos os particularismos que condicionam o sujeito na sua vida prática fornecidos pelo conteúdo da educação e da socialização (por exemplo, atitudes de sexismo e de racismo)? Se o reconhecimento constituir uma espécie de lei moral em nós, as circunstâncias sociais e o interesse material acabarão por induzir um esquecimento do reconhecimento (reificação) e a incondicionalidade daquele servirá apenas para despertar a nossa inquietude.
Por outro lado, se partirmos do princípio de que a reificação como ausência de reconhecimento pode resultar de uma estrutura de dominação política, lamenta-se que Honneth não apresente uma teoria social de resistência na obra sobre a reificação. Uma tal teoria aliada a um esboço de eticidade pós-tradicional encontra-se em A luta pelo reconhecimento, onde A. Honneth defende que a integridade humana (precisamente aquela que escapa às malhas da reificação) depende de estruturas de reconhecimento capazes de assegurar ao sujeito uma confiança de si, um respeito e solidariedade – condições para a sua auto-realização e para uma vida sem angústia. Podemos justificar as lutas sociais como lutas pelo reconhecimento? E que forma podem estas tomar? Esta é a questão ético-política essencial a colocar a Honneth. Afinal o que é uma luta social?
 
“Trata-se do processo prático no decurso do qual as experiências individuais de desprezo são interpretadas como experiências típicas de um grupo inteiro, de modo a motivar a reivindicação colectiva de relações mais alargadas de reconhecimento.”[7]
 
O motivo das lutas sociais ou luta colectiva pelo reconhecimento deve ser procurado nesse estado de desprezo, onde um sujeito não vê respeitada a sua autonomia sociocultural, sendo as suas expectativas normativas frustradas pela sociedade. Porém, Honneth introduz aqui uma restrição. A decepção pessoal tem que ser integrada numa semântica colectiva – deve constituir uma resistência colectiva a uma situação de desprezo que afecta um grupo inteiro. Desse modo, o modelo de Honneth permite-nos compreender as lutas sociais como lutas pelo reconhecimento, visto que resultam de sentimentos de desprezo que obrigam a romper o pacto social implícito (Barrington Moore) e a procurar um confronto (revolta espontânea, greve) num horizonte de reconhecimento intersubjectivo mais alargado. Os motivos de resistência encontram-se, assim, em experiências morais fracassadas e no desrespeito pelo reconhecimento mútuo.
Honneth pretende lançar em esboço uma ética pós-tradicional democrática que se funda numa ideia simples: a auto-realização depende do reconhecimento. Significa isto que as relações que o sujeito possa manter consigo, desprovidas de angústia, situam-se numa dimensão intersubjectiva, sendo esta última assegurada por formas de reconhecimento do amor, do direito e da solidariedade.
 


[1] Honneth, Axel, La lutte pour la reconnaissance, (Trad. fran. de Pierre Rusch) Cerf, 2000, p. 53.
[2] Honneth, Axel. La Réification,Petit traité de Théorie critique, Gallimard, (Trad. fran. de Stéphane Haber) 2007, p. 59.
[3] Honneth, La lutte... p. 208.
[4] Para os termos deste debate ver: Fraser, N.; Honneth, A., Redistribution or Recognition. A political-Philosophical Exchange, Verso, 2003 e Honneth, A., “Recognition or Redistribution? Changing Perspectives on the Moral Order of Society”, Theory, Culture & Society, 2001, v. 18 (2-3), pp. 43-55.
 
[5] Id., La Réification… p. 104.
[6] Id., La Réification…, p. 116.
[7] Id., La lutte… p. 194.


publicado por rolandoa às 23:35

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Rolando Almeida


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