Sexta-feira, 23 de Novembro de 2007

E se a filosofia gerasse tanto dinheiro como o futebol?

Vamos começar com uma experiência prática. Se numa turma de vinte alunos do secundário acima da média, perguntar quantos deles querem ser médicos, com facilidade obtenho 8 a 10 respostas afirmativas, mais 5 ou 6 que querem a área da saúde, enfermeiros, por exemplo, sendo que os restantes optam por áreas como a engenharia ou informática. Quererá isto dizer que vivemos num país com forte apetência para as ciências da saúde? Infelizmente a resposta é não.
Rolando Almeida

Com efeito até temos alunos que dizem gostar de física ou filosofia, mas os que desejam seguir essas áreas do saber no ensino superior são em número muito mas mesmo muito reduzido. Agora, perante esta experiência, vamos simular um mundo possível no qual os filósofos são bem pagos, ajudam as pessoas a resolver os seus problemas. Vamos supor que existem empresas que pagam formação aos filósofos em Oxford, Cambridge ou Caraíbas, que os filósofos até vão a essas formações, aproveitando as manhãs para ouvir as mais recentes inovações nos argumentos da ética deontológica e consequencialista, mas pela tarde aproveitam o passeio, a fruição, etc… Vamos continuar a imaginar que essas empresas estão interessadas que se divulgue uma determinada filosofia, por exemplo, o utilitarismo em vez do deontologismo e que tudo fazem para formar mais os filósofos nessa teoria, para que eles a apreciem e compreendam os seus argumentos. E para isso fazem acompanhar as suas ofertas de formação com os luxos da vida. Creio que, se o mundo assim fosse não faltariam alunos no secundário a dizer que querem ser filósofos. É óbvio, para mim pelo menos, que os seres humanos devem procurar a sua felicidade e devem desejar fazer coisas que realizem a sua felicidade. Mas tenho dúvidas que a maioria dos nossos alunos que afirmam querer ser médicos estejam em busca da sua felicidade. Estão em busca de tudo o que a profissão de médico oferece no nosso país: estatuto, poder, dinheiro, respeito cego e submisso e que possa ser alguém que trata à borlix da saúde de toda a família. Para além disso, os cursos de Medicina exigem médias altíssimas em Portugal e, fruto dessa parvoíce, pensa-se que somente os muito inteligentes é que para lá vão, esquecendo que no sistema educativo português, para se ser bom aluno nem é preciso ser-se muito inteligente, bastando ser um completo marrão, dada a natureza do nosso ensino que não treina em momento algum da vida académica, o raciocínio. O que é facto é que a maioria desses alunos querem (ou querem as suas famílias) todo este conjunto de circunstâncias e não propriamente ser médicos, pelo que é seguro pensar-se que se a filosofia oferecesse as mesmas condições, os alunos e as suas famílias, quereriam ser filósofos. Algum leitor neste momento deve estar a pensar: «mas que disparate! Alguma vez se pode fazer tal comparação? É que ao passo que a medicina é útil e indispensável, a filosofia é inútil e dispensável». Bom, para além do erro ignorante que é pensar que se possa ser um bom médico (ou outra coisa qualquer) sem saber pensar, poderia também objectar dizendo que o futebol não serve para rigorosamente nada e, com efeito, envolve muito dinheiro e que os grandes futebolistas ganham 10 ou 20 vezes mais que os bons médicos. Então, pergunte-se, porque é que o futebol e a medicina pagam bem e a filosofia não paga bem? Por uma razão muito simples, a sua popularidade. Se nem a medicina fosse popular nem o futebol, quem se dedicasse a essa actividade seria pobre para toda a vida e teria imensos obstáculos e limitações à sua actividade. O leitor pode continuar a pensar: «mas é impossível que a medicina seja impopular uma vez que precisamos dela». Isso é somente verdade na nossa cultura. Existem culturas nas quais a medicina científica não possui qualquer valor e um médico, nessas culturas, jamais gozaria do estatuto de um feiticeiro, pelo que a popularidade da medicina na nossa sociedade é uma questão de cultura e a impopularidade da filosofia é uma questão de falta de cultura. Ou ignorância. Tenho pensado isto a propósito de muitos comentários surgidos neste e noutros blogs nos quais observo que muita gente fica chocada (sim, o termo é mesmo este, choque), quando se defende que os filósofos têm de ganhar dinheiro e que a filosofia é uma indústria que tem de gerar dinheiro e ganhar popularidade. Muita gente choca-se com este tipo de afirmações porque pensa que o filósofo, coitado, é um missionário que vive dentro duma lata de conservas. Deve ser essa a razão pela qual os doutores universitários da filosofia portuguesa não produzem mais filosofia tornando-a mais popular. Devem viver felizes dentro de latas de conservas. A filosofia tal como qualquer outra actividade nunca se desenvolveu à margem do comércio, ainda que as questões sobre o valor do comércio possam e devam ser desenvolvidas. O plano de produção, edição e comercialização é inerente à actividade filosófica. Sem esse plano a filosofia é reduzida a uma insignificância tal que acaba por desaparecer. Isto só não acontece porque o valor intrínseco da filosofia e o fascínio que a actividade filosófica exerce é de tal ordem que se sobrepõe aos imperativos do mundo contemporâneo. Mas também não devemos esquecer que o mundo contemporâneo deu-nos uma das mais belas fornadas de filosofia de todos os tempos. A filosofia, quando é boa filosofia, ajuda-nos a questionar as nossas crenças mais elementares e isso envolve saber questionar por que razão não pode a filosofia ser popular, até porque o é noutras realidades. Resta a ressalva que o conhecimento científico da medicina também não é popular. O que é popular são os resultados que os médicos produzem em questões de saúde. Por outro lado, pseudo conhecimentos que não exigem qualquer esforço racional de compreensão, são imensamente populares (como as crendices por exemplo) ao passo que qualquer conhecimento que postule o mínimo de racionalidade na sua compreensão, é impopular. Falta de imaginação humana?
Agradeço a Vitor Guerreiro  o artigo no seu blog, que me despertou o interesse para este post.


 
publicado por rolandoa às 02:57

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2 comentários:
De Vitor Guerreiro a 23 de Novembro de 2007 às 23:21
O que é engraçado é que mesmo um puritano que prega contra o comércio e a favor do entrincheiramento da produção intelectual numa espécie de ilha virtuosa, à margem da realidade, está ele mesmo a tentar vender uma ideia. Todos procuramos vender ideias, ou ideias através de imagens, até uma imagem de nós mesmos, explícita ou implicitamente.

É um pouco como um professor de filosofia que diz aos seus alunos como os sofistas eram uns desalmados que cobravam pelas suas lições, quando ele próprio só pode dar aulas porque aufere um salário.
De rolandoa a 24 de Novembro de 2007 às 00:39
(risos) , caso para dizer, elementar meu caro Vitor. É mesmo essa a ideia que procurei desbravar, sem rodeios.
abraço
Rolando

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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