Sexta-feira, 9 de Novembro de 2007

30.000 vistas. Obrigado leitores

Chegámos, em poucos meses, às 30.000 visitas. O blog existe há mais tempo (cerca de 2 anos), mas o contador de visitas foi colocado há poucos meses atrás. 30.000 visitas para um blog com um só autor e de Filosofia em tão pouco tempo é um resultado considerado (por mim - risos) muito bom. Vou explicar brevemente o percurso do blog para que constitua um incentivo a colegas e interessados a iniciativas análogas. O blog surgiu como uma plataforma de distribuição de material aos meus alunos, principalmente textos, uma vez que tinha, na altura, adoptado na escola onde trabalho, Escola Básica e Secundária Gonçalves Zarco, um mau manual de filosofia do 10º ano (até por aqui já se justifica o trabalho que tenho feito com manuais). 
Rolando Almeida
 

Desde cedo o blog despertou algum interesse e procedi a uma operação de cosmética, oferecendo um ambiente de leitura mais facilitada e mais impessoal de modo a poder comunicar com mais leitores. A Sociedade Portuguesa de Filosofia e a revista de filosofia Crítica, apoiaram o blog logo no seu início de vida, criando links para consulta. Esta referência foi importante. Um pouco mais tarde, o blog de divulgação de filosofia, Telegrapho de Hermes também o referenciou. A primeira explosão de visitantes ao blog foi com o link do blog De Rerum Natura, como sabemos, um dos mais visitados na blogosfera portuguesa. Por sua vez o De Rerum Natura foi imediatamente eleito pelo jornal Público como um dos seus blogs convidados dado o interesse público. Por consequência muitos visitantes acabaram por passar na Filosofia no Ensino Secundário. Nesse momento senti maior compromisso e, mesmo não sendo escritor mas tendo coisas para dizer e ideias para defender, lancei-me ao desafio de escrever textos em nome próprio. Isto acontece também porque senti a necessidade de oferecer algo de original aos leitores, sem ser somente textos que recolho aqui e ali. Tudo isto é possível como é claro devido às potencialidades de comunicação da internet. Uma vez que já tinha granjeado a confiança de algumas boas referências na internet, bastava-me seguir o meu trabalho honestamente para que a montra do blog se ampliasse cada vez mais. Na altura da adopção dos manuais escolares para o 10º ano, em Maio de 2007, dediquei um fim de semana inteiro a olhar para quase duas dezenas de manuais. O trabalho foi facilitado porque a falta de qualidade dos manuais de filosofia sempre foi assunto que me preocupou e porque, desde 2003, passou a existir alternativa com manuais como a Arte de Pensar. Entendi que havia aqui um alerta a fazer e que o que eu consegui ver como potencialidades pedagógicas desse inovador manual, os meus colegas de filosofia poderiam ver o mesmo. Pela primeira vez tinha encontrado um manual fiel à filosofia e com consistência pedagógica, para além de oferecer uma linha coerente da primeira à última página. O longo artigo que resultou desse meu fim de semana fechado em casa a analisar manuais provocou um interesse espantoso no blog. Imensos colegas me escreveram, incluindo autores de manuais, uns que queriam discutir comigo as suas opções, outros que me queriam oferecer “porrada” por lhes ter estragado o negócio. Mas a minha intenção foi lançar a discussão e crítica pública num ambiente saudável e intelectualmente honesto. Só que para ser intelectualmente honesto tenho de reprovar erros intelectuais e esse facto por si só é motivador de inimizades. Mas eu preferia que fosse motivador de melhores manuais. O que é verdade é que ingenuamente eu pensava que o meu artigo surgiria no meio de dezenas de artigos de crítica a manuais, mas tal não aconteceu. Foi um dos únicos (não tenho a certeza se foi mesmo o único, mas creio que sim) textos de análise crítica de manuais surgidos na comunicação pública em Portugal. E daí o interesse generalizado dos colegas em conhecer o meu texto. Bem, este episódio despertou ainda mais o meu compromisso em divulgar a filosofia com textos próprios, até porque também acho deselegante fazer um blog que cita textos de outros blogs. Mas o interesse na divulgação da filosofia amplia-se à medida que os leitores vão aparecendo, deixando comentários, lançando a discussão fazendo com que os problemas filosóficos passem a estar no centro das preocupações humanas. Dar liberdade é oferecer o conhecimento. Não o podemos fazer começando por cima, pelas altas sofisticações. Nem eu estaria à altura. Não sou filósofo, mas professor de filosofia a jovens adolescentes no sistema público de ensino português. A melhor satisfação é ainda quando um aluno ou leitor se me dirige com o comentário de que, afinal, compreende e é capaz de se interessar por um problema filosófico.
O blog teve recentemente ainda uma outra montra, a do portal da Sapo. Foi destacado e os gestores do portal escreveram-me dizendo que era uma falha ainda não terem feito divulgação do blog, dado o seu interesse público. É bom este reconhecimento, a bem da filosofia. Não há razões plausíveis para que a filosofia não seja divulgada de modo acessível ao leitor comum. Sem este esforço a filosofia acaba por não ter sido suficientemente aliciante para as pessoas. Mas para isso é necessário todo o empenho para arrancar a filosofia ao formalismo idiota com que ela se ensina nas universidades portuguesas, que passa depois para o ensino secundário (atribuo a Desidério Murcho a primeira vez que, publicamente, esta realidade foi frontalmente assumida). Muitas vezes encontro bons colegas professores de filosofia, que falam da filosofia com paixão, mas com desprezo pela filosofia que aprenderam nas universidades. Ganharam pavor aos professores que orgulhosamente chumbavam 80% dos alunos, aos livros grossos escritos em francês que falavam de uma filosofia que não correspondia às suas expectativas. São professores que se empenham, entre uma vida cheia de ocupações profissionais e pessoais e os livros de divulgação da filosofia que, entretanto, vão aparecendo. Isto obriga quase a tirar uma segunda licenciatura em filosofia, que vá para além do mero comentário de texto com muita pompa e circunstância. Não se podem confundir duas coisas: uma é fazer filosofia nos departamentos das universidades, outra é poder ensiná-la a jovens dos cursos gerais que, na maioria dos casos nunca vão procurar cursar filosofia no ensino superior. Só cabe mesmo lugar a uma pergunta simples, mas que exige uma resposta eficaz, que produza resultados: Que utilidade tem a filosofia para estes jovens? A resposta, para quem se preocupa em obtê-la é inevitável: a filosofia é central para desenvolver o seu espírito crítico. Nenhuma outra disciplina produz este efeito senão a filosofia, efeito esse com reflexos em toda a actividade futura, desde o médico ao jardineiro. Não faz qualquer sentido que uma cultura de ensino oculte esta possibilidade aos seus membros. Mas é necessário que este trabalho se faça com o rigor necessário à disciplina e que seja muito mais que uma conversa em que cada um dá a sua opinião e fica-se por aí. Infelizmente esta realidade ainda é recorrente no ensino secundário, e isto precisamente porque o discurso filosófico nas universidades portuguesas está agarrado ao relativismo pós moderno. Tenho oportunamente exposto a ratoeira que é o discurso do pós modernismo para o pensamento filosófico. Num mundo onde a filosofia começa a alargar-se até à infância, que sentido faz questionar o seu valor no ensino secundário? Por outro lado, a filosofia possui os argumentos para se afirmar como a disciplina capaz de assegurar a transversalidade interdisciplinas. Basta pensarmos que não se aprende química, biologia ou física sem capacidade crítica. Mas também não desenvolvemos as nossas capacidades críticas ao nível do pensamento e do discurso sem as mais elementares regras do discurso, regras da validade dedutiva e indutiva fornecidas pelo ensino correcto da lógica. Para além de tudo é a lógica quem confere uma igualdade de aprendizagens no que respeita ao desenvolvimento do raciocínio. O contrário, a opinião fundamentada (como pomposamente se chama muitas vezes, erradamente, em filosofia) revela mais aptos aqueles que tem a oportunidade de viver em lares cujos progenitores os ensinam a escrever e a ler, que falam de livros, etc… Mas como é que a escola, com a filosofia, pode garantir ao aluno uma circunstância de igualdade, pelo menos na base? Fornecendo ferramentas iguais para todos os alunos, treinando essas ferramentas até que cada um apure o método. O ensino da lógica, logo no 10º ano, minimiza os efeitos da estratificação e é um gozo poder perceber que mesmo o aluno que não vem ensinado de casa, dá os primeiros passos na discussão de problemas filosóficos que, como sabemos, muitas das vezes senão mesmo sempre, são os problemas da vida.
Uma palavra final de apreço aos meus alunos e aos leitores que por aqui vão passando e deixando comentários. Da minha parte só me resta a expectativa que, no canto da noite, neste portátil pequeno, continue a dar a conhecer o que vou lendo e sei da filosofia.
E para terminar… há quem chame a isto auto elogio! Mas desta vez o blog merece!


publicado por rolandoa às 00:07

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4 comentários:
De renato martins a 9 de Novembro de 2007 às 15:10
Os meus parabéns Rolando. Penso que estas certo quando dizes que foi o unico blog a fazer critica aos manuais - é o que deduzo pelas minhas explorações pela internet. É algo que falta de facto, o teu blog, indiciado pelo titulo faz o apoio que os professores de ensino secundario necessitam. Ainda se alia muito filosofia ao ensino superior quando na verdade os numeros dizem que a maior parte dos profissionais estao no ensino secundario. Este apoio é extremamente necessário ja que muitas vezes os professores nao questionam o programa ou os manuais que tem. Ainda bem que foste ambicioso em fazer esse texto critico
Um abraço de apoio e continuação de bons posts
De rolandoa a 9 de Novembro de 2007 às 15:31
Viva Renato,
O texto dos manuais parece ter sido o único, mas o blog já não é, considerando que o blog onde escreves está a realizar um bom trabalho. E ele deve ser estimulado. Também existe uma razão pela qual insisto tanto que a crítica de manuais é necessária. Vamos ter de adoptar, este ano, o manual do 11º ano e desejo que eu não seja o único a fazer crítica pública de manuais. É desejável que outros a façam. Senão, sou sózinho a "levar na cara" :-) Estou a exagerar porque muitos colegas me escreveram a incentivar o trabalho. O desagrado maior foi mesmo por parte de alguns autores. E, descomprometidamente o digo, sem receios, que fui acusado de muita coisa, desde subdito dos analíticos até vendedor de certas editoras. E é verdade que incentivo a que se adoptem aqueles manuais que são os melhores, porque nisto dos manuais, há uns que são bons e outros que são maus. Mas atenção, não estou com o discurso da vitima. Já sabia que alguém me quereria bater. Só não esperava mesmo é que o meu texto fosse um caso isolado. Os manuais de filosofia sempre me preocuparam, desde há 12 anos, quando pela primeira vez para eles olhei como professor.
Obrigado pelas tuas palavras
Abraço
Rolando
De Prof. Maria João Gomes a 12 de Novembro de 2007 às 06:33
Apenas para lhe dar os meus parabéns pelo seu blog. Tenho uma filha no 10º ano e sugeri-lhe de imediato que o "adoptasse como referência" sobre a forma como deve encarar a filosofia.
Obrigada pelo seu trabalho e pela partilha do mesmo.
De rolandoa a 12 de Novembro de 2007 às 11:24
Prof. Maria João,
Obrigado pelas suas palavras e espero que a sua filha tenha grande proveito com o blog. Se houver dúvidas, esteja à vontade.
Obrigado
Rolando Almeida

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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