Quarta-feira, 7 de Novembro de 2007

Uma pen drive filosófica

 Mas que excelente ideia, que devia ser copiada em Portugal. Qual o mal de copiar as boas ideias? Nenhum se com a cópia desenvolvemos os nossos mecanismos de divulgação e aprendizagem de um saber. A Taylor & Francis, em parceria com a Routledge, acaba de publicar uma pen drive, com preço acessível, com todo o material em texto que é necessário para se estudar filosofia, desde a bibliografia base, até textos de metodologia, e todas as importantes referências da história da filosofia. Ainda não comprei a minha pen drive filosófica, mas apresso-me a conhecer esta ideia que me parece bem sugestiva para as editoras portuguesas. E ainda sobra espaço na pen para guardar os nossos trabalhos e ensaios, guardando-os num convívio saudável com os textos clássicos. E porque não?
Philosophy Memory Stick (Routledge)
publicado por rolandoa às 22:50

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15 comentários:
De Vitor Guerreiro a 8 de Novembro de 2007 às 00:15
Seria de facto interessante os filósofos em Portugal (andam todos muito escondidos nas universidades a fazer comentários de 500 páginas ao sermão do Santo António aos peixinhos) colaborarem na produção de materiais didácticos que fossem além do simples manual ou da funesta sebenta de triste memória. Ainda somos demasiado tradicionalistas e agarrados à ideia romântica de que o filósofo só precisa de uma pena de ganso, tinta orgânica e uma folha de pergaminho amarelada para largar a traços generosos os seus golpes de génio introvertido. É mais ou menos o equivalente a um ferreiro ou ourives que se recusasse a usar electricidade ou gás, preferindo o ambiente místico de uma forja de carvão ou um trefilador movido a tracção animal.

Até hoje só ouvi falar de um produto multimédia ligado à filosofia, e é uma versão "videogame" do Mundo de Sofia de Jostein Gaarder (se estiver mal escrito o nome que se lixe, nao vou levantar-me para conferir nomes escandinavos, os gajos que se anglicizem, como nós) e mesmo assim não faço ideia de como seja.

Será que os filósofos não podiam expandir os seus meios tradicionais de comunicação? CD-rom ou dvd's educativos são só um exemplo. Julgo que devia haver mais flexibilidade. Ter algumas noções de design de comunicação ou de tecnologias e software só fazia bem aos filósofos. Se não formos nós a provar o valor da filosofia e o lugar da mesma no mundo actual, não vão ser os economistas ou os taxistas ou Deus a fazê-lo.
De rolandoa a 8 de Novembro de 2007 às 02:33
Olá Vitor,
Enquanto isso, nós, os divulgadores, temos de fazer o trabalho pesado, que é divulgar a filosofia como sabemos.
:-)
Abraço
Rolando Almeida
De Vitor Guerreiro a 8 de Novembro de 2007 às 17:41
O problema é saber os preços que este tipo de aventuras como pen drives ou semelhantes teriam de ter para serem compensadores. Que público teriam? Os ingleses podem exportar cultura para toda a Commonwealth e os espanhóis para meio mundo, a nós é o Brasil que vende livros.

Podíamos fazer coisas interessantíssimas mas muitas delas enfrentam o pregão da inviabilidade comercial. Do mesmo modo que os livros sobre produção artesanal só vendem se tiverem ilustrações muito bonitas e pouco paleio técnico. As melhores obras nesse domínio em língua inglesa seriam desastres comerciais porque as poucas pessoas que pagam para os ter cá são os mesmos que mandam vir os originais pelo amazon e preferem.

Abraço
De Vitor Guerreiro a 8 de Novembro de 2007 às 17:55
Eis um exemplo curioso de aplicação daquilo a que me refiro. É retirado do site da TPM - The Philosopher's Magazine. São diversos jogos inteligentes e bem construídos para testar a coerência argumentativa e conhecimento filosófico dos jogadores.

http://www.philosophersnet.com/games/

A disciplina de filosofia era um dos meus refúgios preferidos quando andava no liceu. Em muitos aspectos fui um aluno "baldas" no sentido em que gostava de ler mas não morria de amores pela escola. Contudo, nas aulas de filosofia o tempo sustinha-se e eu perdia a conta aos minutos. Teria adorado fazer este tipo de coisas como o "God Battleground" embora não fossem necessárias para me "cativar" pois eu já estava "convertido" por assim dizer. Bastava-me o tradicional papel e as discussões com o professor. Mas há muitas coisas em que a filosofia podia estar mais presente. Isto nada tem a ver com atitudes condescendentes do tipo, vamos lá por os meninos a jogar porque pensar é coisa muito trabalhosa e eles são irremediavelmente burros.

Isso é como a comédia. Há humor inteligente e há humor fácil, brejeiro. O prazer do humor está em sentirmos a nossa própria capacidade de ler a piada, de contornar a sofisticação. Dá muito mais prazer esse tipo de humor que a referência acéfala ao tópico risível do momento, ou os risos pré-gravados com que se tenta influenciar o ouvinte.
Os meios gráficos ou lúdicos podem ser usados de modo condescendente, como o humor brejeiro, ou humor para o "povo" coitadinho; também podem ser usados de forma inteligente.

Abraço
De rolandoa a 8 de Novembro de 2007 às 18:01
Vitor,
Existe uma razão que me faz pensar que este tipo de edições podem ter viabilidade, mesmo sabendo de ante mão que o nosso mercado tem dimensões modestas e temos sempre de ser cautelosos. É que, Vitor, o nosso mercado está infestado de edições de filosofia que não interessam a rigorosamente ninguém, que não vendem sequer, 100 exemplares e que continuam, ainda assim, a publicar-se. Ora, uma edição de amplo interesse venderia sempre mais que essas edições no mercado português. E se as editoras suportam essas edições de investigação para dois ou três umbigos, porque não suportariam uma desta natureza? Um exemplo pequeno. Por muito respeito que tenho pelas Edições 70, não compreendo porque é que, de repente, começaram reeditar obras de filosofia que já não servem as necessidades do público de filosofia actualmente. Está bem que já têm os direitos de autor pagos e isso, mas raios, de que serve, por exemplo, aquele dicionário de filosofia que publicaram recentemente e que é caríssimo. Achas que aquilo vai ter alguma viabilidade comercial?? O que defendo é que livros de divulgação e fácil acesso fazem mais pela filosofia que as altas investigações e, melhor ainda, acabam por pagar as edições mais específicas. Esta prática é muito comum no estrangeiro. A pen drive não é uma edição para filósofos, mas para o público em geral. E estou convencido que é muito mais barato vender uma pen cheia de livros lá dentro, ao preço de um livro, do que vender os livros todos. Esta é uma ideia muito boa. Não conheço ainda a pen, mas vou encomendá-la para o próximo mês a ver como é que aquilo está organizado. Creio que os problemas de divulgação dos livros na net não se deve colocar por duas razões: 1º porque eu, por exemplo, tenho tecnologia paracolocar em word capitulos inteiros de obras sem grande trabalho (tenho uma pen translator portátil com um scanner na ponta); 2º porque a vantagem da pen é ter o material todo junto a um preço reduzido, porque o texto em PC ainda não substitui os livros. É a mesma coisa que os audio books que já começam a aparecer no mercado português. É uma alternativa de consumo que pode cativar novos clientes. Estou convencido que uma editora com uma parceria com uma loja de electrónica conseguia vender uma pen com 4 ou 5 livros lá dentro ao preço de um livro físico. E cativava novos públicos.
Abraço
Rolando Almeida
De rolandoa a 8 de Novembro de 2007 às 18:07
Ah, esqueci ainda de dizer uma outra vantagem de uma pendrive desta natureza. Se reparares os estudantes universitários andam de lado para lado e tem de transportar os seus manuais e livros. Imagina que vais tirar um curso de Química e na bibliografia do curso estão, como obrigatórios 10 livros muito caros. A maioria dos estudantes não os compram todos e muitos deles acabam por cometer o crime infeliz das fotocópias. Imagina que o estudante pode comprar por 30 ou 40€ uma pen com os livros principais lá dentro? Não era uma boa opção? Para além da portabilidade que é sempre muito útil para estudantes do superior. E bom era as editoras estabelecerem parcerias com as universidades.
Rolando Almeida
De Vitor Guerreiro a 8 de Novembro de 2007 às 18:34
Concordo plenamente. Quando vou às livrarias nem consigo perceber o que fazem nas estantes certos títulos traduzidos. Sim, vistas as coisas desse ponto de vista, os suportes digitais têm uma imensidade de aplicações na vida académica e poderiam obviar aos desastres que é o negócio parasitário das fotocópias a arruinar a já de si fraca edição em português de obras filosóficas.

O problema é que a nossa cultura cívica está tão atrasada quanto a nossa cultura filosófica. Não nos importamos de pagar por banalidades idiotas mas se for para a produção de bens culturais achamos um desplante, uma vergonha, uma coisa inominável. Eu não me importo de pagar pelos volumes da Filosofia Aberta porque são bons livros e valem cada página, cada cêntimo. Mas as pessoas acham que os trabalhadores intelectuais deviam ser uns gajos meio underground que só comem fast food e trabalham de borla. Se eu vender piscinas mereço ser bem pago mas se escrever comentários e traduções sou um malandro que não quer é ir meter azulejos e afinar baldes de tinta. Quando eliminarmos este gene labrego da cultura nacional talvez possamos respirar um pouco mais.

(estou a brincar, mas nem tanto como isso)
De rolandoa a 8 de Novembro de 2007 às 21:04
Na mouche Vitor. É isso mesmo. Existe a crença falsa de que a cultura deve ser à borlix. Acabei de chegar de uma livraria, a Fnac, e o que observo? que os livros de divulgação científica foram colocados nas prateleiras de baixo, onde não se vê os livros a menos que nos baixemos (mas quem se vai baixar para ver livros se nunca os compra???) e nos escaparates principais colocaram livros com títulos como, "Os estereogramas químicos e a pujança dos gabaróis nos electrólitos psicotrónicos" (inventado). Justificação? Têm um protocolo com a universidade. Ora bem: 1º se tem um protocolo com a universidade, para quê exibir os livros que, ao abrigo do protocolo, sempre se venderiam? 2º o público geral vê-se assim privado de ver e folhear os únicos livros que lhe poderaim interessar, os de divulgação. Isto é a outra face da moeda que ainda não tínhamos falado: se os editores têm más opções, os editores não sabem vendê-los. O que ali observei é um completo absurdo. Pura e simplesmente não sabem vender livros. Mas isto até me está a dar vontade de escrever para o blog algo sobre isto. É que merecem mesmo que compre tudo no amazon, que é mais barato e tenho um atendimento claramente superior. É incrível. esta malta parece que nasceu mesmo só para se lamentar, mas trabalhar, népias... Grrrrrrrr
Abraço
Rolando A
De Rosa a 8 de Novembro de 2007 às 22:12
Sim, porque não?
Acho que é uma excelente ideia e considero uma pena não aproveitar o que os avanços da tecnologia podem oferecer nas diversas áreas, nomeadamente no que respeita à divulgação.
Eu até acho que há muito mais coisas que se podem fazer para ir ao encontro das pessoas e nem sempre se aproveita devidamente os meios que se tem...
A Internet É um exemplo. Acho que seria muito bom, nomeadamente ao nível das escolas, os professores interagirem mais com os alunos e prepará-los para utilizar a Internet para aprofundar conheciemntos e num sentido construtivo e, dessa forma, ajudá-los-iam a defenderem-se dos própis perigos que ela encerra.
Perigos previsíveis, claro, porque a internet (estou a dar um exemplo) é um meio e como qualquer outro não é, em si mesmo, bom nem mau, a nossa utilização dele é que pode ser boa ou má.
E entramos uma vez mais na velha questão: a nossa utilização das coisas, dos meios, de forma construtiva para a promoção individual e, consequentemente, colectiva...
De rolandoa a 8 de Novembro de 2007 às 23:59
Andreia,
exactamente. as coisas não são boas nem más, mas o uso que delas fazemos é que faz delas boas ou más. Senão, se alguém pegasse numa faca para matar (quando eu a uso somente para cortar maçãs), teríamos de aformar que a faca é que é assassina :-)
abraço
Rolando
De David a 14 de Novembro de 2007 às 13:53
A tecnologia é boa mas nunca para a filosofia. é boa mas é para satisfazer as necessidades do dia a dia. Aristóteles e Platão precisaram da filosofia para serem os filósofos que foram? O que é preciso é cabecinha, muita leitura e muita interrogação. Os computadores hoje em dia so vicia os miudos.

Saudações académicasa
De rolandoa a 14 de Novembro de 2007 às 16:18
Olá David,
A filosofia tambémn existe para satisfazer necessidades do dia a dia. Mas isso é uma discussão que podemos ter mais adiante. aliás, sugeriu-me, sem querer, motivo para um futuro post. Em relação à utilidade que a tecnologia possa ter para a filosofia, é exacatamente a mesma que possa ter para a matemática ou física teórica. A tecnologia, em si, possui um valor instrumental, ao passo que a filosofia possui um valor intrínseco. Do mesmo modo uma esferográfica possui um valor instrumental que é útil para escrever ensaios filosóficos e os computadores possuem esse valor para, por exemplo, podermos, à distância, com internet, discutir filosofia e aprendê-la. Num outro ponto de vista, muitos problemas filosóficos que se colocam hoje em dia, são provenientes da aplicação da tecnologia ao mundo que nos levantam novas questões. A invenção do telescópio permitiu o levantamento de novas questões. Por vezes criamos esteriótipos e preconceitos relativamente a este ou aquele artefacto, mas não devemos em momento algum confundir valor instrumental com valor intrinseco. A pendrive com os livros de filosofia possui a vantagem do David ter acesso a textos de filósofos a um preço muito acessível, a menos que o David ache também que os livros não possuem qualquer valor para a filosofia. Essa ideia de que a filosofia é pura especulação separada don mundo e da vida dos seres humanos não passa de uma idiotice falsa. Nenhum filósofo que eu conheça pensou assim, mas muitos pseudo filósofos confundem filosofia com esoterismo. Nada mais parvo.
abraço
Rolando Almeida
De Maria Lucia da Silva Lopes a 25 de Junho de 2008 às 20:13
Olá David,
Na época de Platão e Aristóteles as crianças nasciam nas mãos de parteiras e hoje no mundo contemporâneo elas nascem da tecnologia. Para um professor de filosofia, despertar o interesse e manter o aluno em sala de aula apenas com a oratória, no mundo em que vivemos hoje é muito complicado.

Foi um prazer,
Maria Lucia

De david a 14 de Novembro de 2007 às 13:58
Daqui a pouco, só para responder a andreia , vamos ser robots e não seres humanos. Quer dizer vai tudo se fazer pela internet e o diálogo e a capacidade de comunicação q é próprio da filosofia vai perder-se? A Internet é boa mas é para pesquisar. Agora há muita gente que pensa que a internet vai resolver todos os problemas e de certa maneira a pensar em vez de nós.
De rolandoa a 14 de Novembro de 2007 às 20:02
David,
Apesar da pergunta não me ser dirigida, se o problema que coloca sobre as tecnologias o interessa, recomendo-lhe uma leitura muito bom: John Searle, mente cérebro e ciência, que está traduzido em português nas edições 70. Nessa obra encontra um interessante capítulo sobre se as máquinas podem ou não pensar. Mas adianto-lhe que a internet não o transforma num robot. O David é que se pode transformar num robot, mas para isso nem sequer é preciso navegar na internet. :-)
Rolando Almeida

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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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