Terça-feira, 6 de Novembro de 2007

Natal e Filosofia - Xmas Files

Agora que se aproxima o natal, é natural que tenhamos de ir à despensa buscar as bolas e o pinheiro, bem como todos os adereços da época para a decoração da casa, preparando-a para a celebração do nascimento de Jesus Cristo. Claro está que nos entusiasmamos muito mais com os doces da época festiva e os embrulhos que aparecem em volta da árvore de natal e do presépio, tudo numa manifestação de esquecimento do que estamos verdadeiramente a comemorar. Talvez só estejamos a comemorar porque gostamos de comemorar, mas fazemo-lo numa data específica, para ter um motivo. Também os adeptos do Futebol Clube do Porto parecem gostar de comemorar campeonatos lá mais para Junho.
Rolando Almeida

Gostamos de celebrar. Com efeito, o natal pode despertar uma série de questões relativamente à orla cultural que o embrulha. Esta é a proposta de um livro muito simpático de Stephen Law, imagine-se, precisamente sobre o Natal e a Filosofia. Claro que a esta altura já tenho leitores a torcer o nariz, pensando: então este indivíduo não deu paz à formiga Z porque alega que ela não é filósofa e está agora a sugerir-nos a aprender filosofia a partir de alguns elementos da época que se avizinha? É verdade, meus caros! É mesmo essa a minha dura proposta. Mas, pensará o leitor, como é que o vai fazer sem se contradizer? Em primeiro lugar nunca defendi que não se possa falar de filosofia a partir do assunto x ou y, mas sim que é errado fazê-lo num manual escolar, principalmente se pensarmos que a filosofia é em si tão rica que não precisa de muletas para se segurar no ensino secundário. Em segundo lugar porque defendo que tudo vai depender do modo como se fazem as coisas. Claro que há livros que falam da relação entre o dedo grande do meu pé direito e a filosofia (não estou a brincar, Woody Allen fê-lo num dos seus divertidos livros, se não estou em erro, em Para acabar de vez com a cultura) e fazem-no de forma pedagógica e consistente e outros que falam do “dasein” de Heidegger de modo inconsistente. E daí? Daí que somos livres de expor a filosofia como quisermos, desde que não a desvirtuemos nem do seu método, a lógica, nem do seu objecto de estudo, os problemas postulados a priori. Podemos igualmente pensar que nem é preciso ser grande filósofo para expor a filosofia e os seus problemas a partir de um livro que a relaciona com o Natal. Mas tal não me parece verdade. É um terreno escorregadio para quem não sabe de filosofia escrever um livro sobre ela relacionando-a com o que quer que seja. Claro que, como nas outras áreas do saber, também na filosofia existem excelentes divulgadores que nem por isso são excelentes filósofos ou filósofos de renome. Mas, por regra, os bons divulgadores da filosofia são bons conhecedores da sua história e dos seus problemas. Estão dentro do assunto. É por essa razão que ler o livro de Woody Allen para aprender filosofia é um mau começo, mas ler Warburton, Stephen Law ou Thomas Nagel ou, no caso português, Desidério Murcho, é boa pontaria. A diferença entre aprender filosofia com Woody Allen ou com Nigel Warburton, é que o cineasta não sabe nem está por dentro da filosofia, não é a sua área, ao passo que Warburton é professor de filosofia, está por dentro da filosofia e trabalha-a. Thomas Nagel, por exemplo, tem livros de filosofia complexos e não é por essa razão que deixa de publicar livros acessíveis de divulgação. O mesmo acontece com Desidério Murcho que possui obra complexa e outra destinada exclusivamente ao ensino secundário. Embora não deva generalizar a questão, a verdade é que temos, entre nós, autores de manuais que não são bons divulgadores da filosofia. Os autores são, na verdade, profissionais da filosofia, mas muitos deles não se sujeitaram aos upgrades necessários para poder avançar com manuais sérios de filosofia. Mas existe aqui ainda outra razão que pelo menos iliba os autores de fazerem melhores manuais. Não cabe aqui discutir essa razão, mas não posso fazer uma acusação que é claramente injusta. E essa razão prende-se com o próprio programa de filosofia, possibilitado pelo sistema educativo fortemente impulsionado pelo eduquês, que não abre espaço a maior rigor na própria disciplina. A consequência disto é que se vive num clima de hipnose quase completa relativamente ao conhecimento  da filosofia e a disciplina em vez de contribuir para derrubar preconceitos, numa boa parte das vezes, contribui para os acentuar, ainda que de forma não consciente. Esses preconceitos manifestam-se nas ideias com que as pessoas ficam depois de terem estudado dois anos de filosofia, de que é uma disciplina que envolve muita subjectividade e valem todas as opiniões e demais chavões que muitos manuais ainda sugerem e que se debitam acriticamente, nem que seja debitar acriticamente que a filosofia é o lugar crítico da razão. Ora bem, esta é a ideia que livros como os de Woody Allen ou até alguns manuais de filosofia produzem, mas daí não decorre que sejam ideias verdadeiras. Os livros que aqui divulgo sobre filosofia e o Hip Hop, filosofia e o natal ou filosofia e o meu dedo grande do pé direito, não são livros que produzam no leitor esta falsa ideia da disciplina. Pelo contrário são livros que, partindo de temas comerciais, produzem no leitor uma ideia valiosa, clara, rigorosa e actual da filosofia, para além de consistente e consequente. Explicadas as razões, quem é, afinal, Stephan Law? Trata-se de um desconhecido no nosso país, mas com vasta obra publicada de divulgação filosófica para adolescentes e neófitos no universo dos problemas filosóficos. Professor de filosofia no Heythrop College, Universidade de Londres, é autor de, entre outros, The philosophy Files, The outer limits e the philosophy Gym, entre outros, alguns dos quais, já divulgados no blog. Para além disso, Law mantém um interessante blog interagindo com os leitores, que pode ser visto aqui. E de que nos fala, afinal, este The Xmas Files, the philosophy of christmas? Fala-nos do “desembrulhar dos presentes” e do egoísmo psicológico, da possibilidade de sermos generosos ou se o nosso acto de oferecer prendas é ou não interessado, levantando aqui um interessante problema moral. Mas há mais problemas morais no desembrulhar dos presentes. É que o presente é a recompensa pelos actos bons durante o ano. Como é que um consequencialista vê o problema? E um deontologista? Num outro capítulo o autor discorre sobre o problema de deus e a sua relação na época natalícia, expondo, para tal, alguns dos principais argumentos em torno do problema da filosofia da religião da existência de deus. O autor centra-se nos argumentos cosmológico e do desígnio. Mas há mais, desde o problema da guerra, da fé, tradição etc… trata-se de uma leitura de introdução a alguns problemas da filosofia. Uma leitura que constitui uma boa base para se perceber como se discutem os problemas da filosofia. Não é uma abordagem forçada, é divertido e consegue ser muito sério no modo como os problemas são colocados e como o leitor pode, de uma forma leve, compreender alguns dos problemas centrais da filosofia. É importante que apareçam autores como Stephen Law que possuem a pedagogia necessária para saber levar a filosofia a pessoas que não têm muito tempo para se ocuparem dos problemas e que, de outro modo, jamais teriam acesso a eles. E também acaba por ser uma boa leitura para jovens, porque muito atraente e com uma linguagem pouco técnica ou formal. Creio que era bom termos gente a escrever assim em língua portuguesa, de forma descomplexada, mas com conhecimento dos problemas da filosofia. E se temos tantos autores de manuais escolares (chegamos a ter quase 20 manuais em opção só para um nível de ensino), porque razão é que parte desses autores, se possuem a pedagogia adequada para escreverem manuais, não escrevem estes livros para o público em geral?  
Bem, enquanto não temos os nossos autores, vou escrevendo aqui no blog e pensando se os milhares de Perús que são mortos no Natal, também não possuem direito moral à vida???
Só uma curiosidade final. Este livro foi comprado no amazon inglês e custou-me a módica quantia de 1 cêntimo + cerca de 5€ dos portes (creio que é o dinheiro dos portes que possibilita algum lucro pela venda)
Stephen Law, The Xmas files, the philosophy of christmas, Weidenfeld & Nicolson, 2003


publicado por rolandoa às 02:59

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13 comentários:
De Rosa a 6 de Novembro de 2007 às 20:36
Boa noite.
Hoje o cansaço e algum desalento apenas me permitem comentar que o consumismo, no natal mais desenfreado que nunca, me confrange a alma. É um dos maiores paraxos...
E, já agora, cada vez mais árvores de natal e pais natais que presépios...
De rolandoa a 6 de Novembro de 2007 às 21:39
Andreia,
Claro que a sociologia do natal tem muito que se diga. Do ponto de vista da Filosofia, os problemas são outros. Seja como for, pelo menos temos de admitir que o pensador de Rodin com a carapuça de pai natal até é engraçado. De um ponto de vista estritamente pessoal, não tenho nada contra o consumismo, desde que as pessoas não se consumam umas às outras :-)
Rolando Almeida
De Rosa a 6 de Novembro de 2007 às 21:45
Pois mas o problema é quando se inverte a ordem das coisas.
Diz bem, quando diz "...desde que não se consumam umas às outras..." ( o que acontece cada vez mais!) mas eu acrescentaria que o pior é que me parece que as as pessoas se colocaram ao serviço das coisas e não ao contrário. As coisas são para servir as pessoas e o que eu vejo, neste contexto de consumismo, é que as pessoas se escravizam pelas coisas numa espécie de perversão.
As pessoas sacrificam-se e perdem de vista o essencial...
De rolandoa a 6 de Novembro de 2007 às 23:41
Andreia,
Vou fazer um comentário, mas que é absolutamente pessoal, pelo que não garanto a consistência do mesmo. Tome isto apenas como uma saudavel troca de ideias. Não estou certo que o capitalismo constitua uma coisa má em si mesma. Parece-me mais que possui o seu lado mau, mas também o bom. O que é facto é que as pessoas consomem-se umas às outras independentemente da sociedade ser capitalista ou não. Isso acontece desde sempre, infelizmente, pelo que não sei se cada vez estão piores. Talvez nós hoje tenhamos outra informação sobre o mundo. Mas não nos podemos esquecer que o capitalismo também nos trouxe este conforto que valorizamos, o de, para dar um pequenino exemplo, estarmos em frente a um computador a comunicar. Tudo isto não nos impede de sonharmos com as nossas utopias, mas o mundo real excede aquele com que sonhamos. E também é certo que o capitalismo não chega a todos, mas também é de reconhecer que minimizou o mal estar de grande parte da população. É certo que levanta outros problemas, mas qualquer sistema em que se viva levanta problemas e problemas. Mas temos, cocerteza, um mundo melhor para construir. Já agora. Já leu o como havemos de viver? de Peter Singer? É um livro de ética espantoso e, além de tudo, contemporâneo. Fica a sugestão.
Abraço
Rolando Almeida
De Vitor Guerreiro a 7 de Novembro de 2007 às 16:26
Pois, no mundo real as formas da heteronomia e da autonomia não aparecem puras, bem separadas e delineadas. Tudo vem misturado, tudo se mostra de modo mais complexo que no céu da teoria.

Acho que um dos problemas do marxismo foi precisamente alguma ingenuidade ao entender a consciência de classe (entre outras coisas): consciência de que existe separação toda a gente tem, só que a forma normal de consciência que por sua vez daí resulta não é uma consciência CONTRA a separação mas sim a ideia de que o que é mau é estar em baixo.

Qualquer visão optimista ou pessimista da natureza humana enferma de simplismo, pois tende a excluir ou a secundarizar os aspectos mais irritantes ou mais agradáveis da natureza humana (conforme a orientação seja pessimista ou optimista). O marxismo e o capitalismo fazem isto por motivos ideológicos. Também é preciso lembrar que o próprio marxismo é um produto da sociedade capitalista de maneira que as suas manifestações mais agressivas (sejam elas ou não justas para com a filiação em Marx), assim como as manifestações mais agressivas do capitalismo, funcionam um pouco como o rio e as margens no poema de Brecht: "dizem que é violento o rio mas não as margens que o oprimem". Certo, mas nós podemos dizer, com razão, que sem margens não há rio. A violência, antes de ser um fenómeno de esquerda ou direita é um produto da guerra que o capitalismo obriga as pessoas a viver.

Claro que houve progressos, um dos progressos que o capitalismo trouxe foi precisamente a autonomizaçao do indivíduo face à tradição. Até o Marx sabia disso e não hesitou em bater na cabeça dos seus colegas mais crédulos e mais tolos, como no texto sobre a colonização da Índia ou na Crítica do Programa de Gotha.

Bem. Estou uma vez mais, talvez, a complicar demasiado. Seja como for, gostaria de apontar também eu um detalhe. Também faz falta as pessoas consumirem-se umas às outras. O consumismo é bom porque sem riqueza material as pessoas não saem do provincianismo e do espírito pequeno. Não há frase que mais me irrite que aquela "felizes os pobres de espírito pois a eles pertence o reino dos céus". Antes as árvores de natal que a austeridade de tempos não tão idos como isso. Claro que há uma dimensão patológica no consumismo, mas isso há em tudo, até na filosofia. A alienação não está nas coisas mas na nossa relação com as coisas.

Abraço
De Vítor Guerreiro a 7 de Novembro de 2007 às 17:04
Não é curioso que uma das sociedades que nominalmente mais pareciam ser contra o consumismo e outros malefícios do capitalismo tenha sido precisamente aquela que gerou indivíduos como um Abramovich, um Berezovsky, polícias como os que actualmente povoam o FSB e o aparelho de estado, com uma mão no discurso de antigamente, outra no crime organizado, etc?

Isto lembra-nos a suspeitar fortemente dos moralismos e da negação austera do "zeitgeist". Talvez o mal do mundo não seja excesso de consumismo mas falta dele. O problema não é o consumo mas sim o desperdício, o vazio, o nada, o ruído, a insignificância. A excessiva produção e comercialização do nada e do irrelevante. Não o consumismo em si.
De Rosa a 7 de Novembro de 2007 às 21:06
Apenas um comentário: pessoalmente considero que as pessoas consumirem-se umas às outras é mau na medida em que as converte em meios para atingir outros fins e lhes confere, por essa via, uma importancia essencialmente instrumental com a qual não concordo.
Por outro lado, o consumismo na medida em que liberta as pessoas e permite o cantacto com outras realidades, com pontos de vista diferentes, em suma, com o multiculturalismo, é positivo.
Apenas, e até por uma questão de coerência, considero que nos devemos defender para que sejam as coisas a servir-nos e não o contrário...
De Vitor Guerreiro a 7 de Novembro de 2007 às 23:45
Claro que converter alguém em mero meio para se atingir um fim é um acto moralmente imputável, mas na realidade a questão pode ter mais nuances do que em teoria.

Do facto de algo ter valor instrumental não se segue que não tenha valor intrínseco, como se fosse uma disjunção exclusiva "ou... ou..." Nós concordamos todos em princípio com esse aspecto da moral kantiana, de que os seres racionais são fins em si, tal como até um grande empresário assinaria um abaixo assinado contra a escravatura ou tal como um madeireiro concordaria em abstracto que é preciso proteger a floresta. Mas na verdade, o que acontece é que as pessoas se servem umas das outras para vários fins e fazem-no a maioria do tempo sem sequer pensar nisso. Falo nas pequenas coisas que podem ser significativas, dou exemplo:

Um pai vai à rua com um filho e deixa outro em casa. O que fica em casa pede ao pai que traga um gelado do café, mas o que vai com ele pede um chocolate. O pai, em vez de levar um gelado, compra um chocolate a ambos porque sabe de antemão que vai haver guerras por causa da diferença, por hipótese. Ao fazer isto o pai pensou na sua própria paz de espírito, borrifando-se para questões morais abstractas.

Repreendemos um aluno por contar uma mentirinha ou por justificar um atraso de modo duvidoso. Passada uma hora vamos na estrada e um polícia manda-nos parar. Imediatamente e sem sequer meditar no assunto, vamos tentar obter a sua simpatia, contando uma mentirinha ou adocicando a verdade, gesticulando mil gestos inocentes que nao têm outro fim senão inconscientemente insultar a inteligência do agente. Tudo isto sem sequer racionalizar ou pensar no caso. Nem sequer pensamos na contradição entre o nosso acto e a reprimenda que demos ao rapaz. Somos sempre condescendentes com os nossos próprios gestos, compreendemos o fio mental que liga as acções. Os outros parecem sempre mais culpáveis, porque ao julga-los sentimo-nos responsáveis por tornar o mundo um "lugar melhor" e outros disparates interessantes do mesmo género.

"Nada é mais útil ao homem que o homem" disse Espinosa na Ética. Isto parece demasiado "instrumental" e "feio", mas hoje sabemos que é precisamente essa a base real dos afectos e do comportamento altruísta. O altruísmo, longe de ser uma excepção às leis da natureza, é um comportamento que ao nível dos organismos pode beneficiar estrategicamente a reprodução "egoista" dos genes, antes de qualquer consideração moral ou subjectiva. Isto não significa que o altruísmo perca o valor, do mesmo modo que saber que se faziam arcos de violino com crinas de cavalo não diminuía o valor de uma peça musical. As coisas sublimes podem ter origens muito modestas.

O que eu quero dizer é que a importância dos outros para nós não pode ser reduzida a uma mera consideração racional abstracta. A quase totalidade das nossas acções para com os outros não deriva de os considerarmos agentes racionais que são fins em si, deriva de coisas mais modestas e mais ligadas ao nosso fundo biológico. Isso não significa que as coisas a que esse fundo biológico dá existência tenham de ser todas abjectas. Pessoalmente, julgo que a moral não sai desvalorizada pelo facto de possuir uma explicação naturalista, antes pelo contrário.

Devia ter sido mais explícito quando falei nas pessoas consumirem-se umas às outras. Muitas vezes se fala na relação como fonte de perigo, como se a abertura ao mundo e a relação ao outro fossem sinónimo de fragilidade. Ao fazer-se isto confunde-se uma consequência possível da relação com a essência da relação em si. O consumo das pessoas pelas outras pode ter vários aspectos, não se reduzindo ao furor assassino. Por exemplo, Camões e Pessoa tinham pontos de vista radicalmente diferentes sobre a necessidade da relação, a desgraçada da Ofélia que o diga, que aquilo era só ver navios.

Abraço
De Vitor Guerreiro a 7 de Novembro de 2007 às 23:46
Além disso, as coisas não podem servir-nos. Só nós é que nos podemos servir delas.

A moral é que a alienação não está nas coisas mas no modo como a relação às coisas é feita.
De Rosa a 8 de Novembro de 2007 às 07:57
Apesar de estar em contagem decrescente para mais um dia de trabalho, não resisto a dizer que penso que é precisamente a forma como gerimos a nossa "relação" com as coisas que consubstancia um verdadeiro desafio. (Relação entre parênteses porque com as coisas não há relação, é mais de situação, mas enfim a esta hora e com os olhos no relógio não consigo melhor...).
Quanto à questão da instrumentalização na vertente que referes e exemplificas, bem, sim estou de acordo. Entramos no campo natural das relações interpessoais.
E, sim, a essência da relação é distinta das consequências das relações não podendo estas (ou não devendo, mas por vezes acontece como consequência) influir na primeira.
Até logo
De Vitor Guerreiro a 8 de Novembro de 2007 às 17:29
Posso estar enganado mas não creio que o conceito de "relação" tenha de pressupor que ambos os termos da relação (ou os vários termos) têm de ser autoconscientes. Podemos relacionar-nos com as coisas, estar viciado em jogos de vídeo por exemplo é um modo de relacionamento com a realidade. Claro que um programa de computador é apenas uma sequencia de instruções e não um ser autoconsciente mas não julgo que isso seja importante. Uma pessoa pode ficar alienada a jogar jogos de vídeo, abdicando de outros aspectos da vida, mas essa situação não diz respeito a uma experiência isolada na sua mente. Há relação ao mundo aí.

Quando vou dar um passeio, por exemplo, o curso da minha caminhada nao é imposto arbitrariamente pelo meu espírito que "governa" as passadas. Há um "diálogo" com o meio ambiente do qual vai resultando o caminho feito. Como dizia o poeta "caminhante nao há caminho, o caminho faz-se ao caminhar".

Posso falar da minha relação com os livros, por exemplo, com inúmeras outras parcelas da realidade circundante. Claro que uma relação entre dois seres ou tres ou quatro seres autoconscientes é diferente de uma relação entre mim e as coisas inanimadas, mas e então? A relação não se torna existente apenas pela capacidade de reciprocar. Somos afectados de mil maneiras pelas decisões de indivíduos cujas vidas não temos hipótese de afectar. Isso não significa que não haja relação. Os iraquianos que o digam.
De Rosa a 8 de Novembro de 2007 às 21:58
Sou muito parcimoniosa no que respeita a certezas e, por isso, também admito que possa estar enganada mas, e talvez até influenciada pela minha formação profissional, considero que relações se estebelecem entre as pessoas, daí que me pareça imprópria a terminologia adaptada às coisas, pois parece-me que relativamente a estas últimas somos detentores de situações perante elas e não de relações, isto embora genericamente se utilize a mesma terminologia.
Aproveito para dizer que me exprimi mal quando disse, no meu anterior comentário, que por vezes acontece, resultado de algumas experiências menos positivas, as consequências das relações influirem na respectiva essencia. Na verdade o que quero dizer é que, algumas pessoas (muitas...) depois de uma experiência dolorosa acabam por fomentar uma ideia negativa acerca das relações em si, e isto genericamente, acabndo por valorar a essencia a partir da consequência.
De Vitor Guerreiro a 9 de Novembro de 2007 às 00:15
Depende de como definimos "relação", contudo, parece-me óbvio que o sentido da palavra não se restringe à comunicação entre seres autoconscientes. Há um tecido de relações que estrutura a natureza objectiva, além disso, o exemplo que dei do passeio mostra que nem tudo se resume a um discurso interior da consciência nos momentos de contemplação solitária. Do mesmo modo que a audição de uma peça musical não é nem uma relação com os músicos executantes nem com o compositor, ao qual não temos acesso. Também não é um puro solilóquio na mente.

Claro que se introduzirmos restrições suficientes, ficamos apenas com a relação entre seres autoconscientes, sujeitos. Mas parece-me que isso nos coloca problemas de vocabulário. Presisamos de usar "relação" em sentidos que não apenas o da intersubjectividade. É falso que só a minha relação a outras subjectividades seja relacional. A minha subjectividade são imensas relações, até porque considero que a própria subjectividade é produção material, relações de coisas, e não uma entidade nebulosa, intangível e volátil.

Abraço

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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