Segunda-feira, 5 de Novembro de 2007

10 falsas questões sobre a filosofia

Uma vez que a divulgação no portal da Sapo trouxe muitos visitantes pela primeira vez ao blog, retomando a questão da filosofia e da sua utilidade, volto a publicar o meu texto 10 falsas questões sobre a filosofia, uma vez que o mesmo mereceu bastantes comentários quando foi originalmente aqui publicado. Espero que o mesmo possa desfazer alguns equívocos elementares e que contribua para algum esclarecimento, mesmo tendo consciência que não elimina por completo a possibilidade de discussão do problema.
 Rolando Almeida

1. A filosofia é difícil.
É falso que se fale da filosofia como uma disciplina difícil. Ela é tão difícil quanto outra disciplina qualquer. Há ,certamente, disciplinas mais difíceis e outras mais fáceis. A dificuldade não ocupa um lugar de destaque mais na filosofia do que na física, biologia ou na matemática.
2. A filosofia não serve para nada - Bem, isto só seria verdade se nos mentissem acerca da filosofia. Questionar sobre a utilidade da filosofia possui exactamente o mesmo sentido do que questionar acerca da utilidade da matemática, da física, química ou biologia. A filosofia tem exactamente a mesma utilidade que qualquer outra disciplina, só que a natureza dos seus problemas é diferente e exige metodologias específicas. Perguntar pela utilidade da filosofia é perguntar pela utilidade do saber em geral e a resposta não deve ser colocada somente aos profissionais da filosofia, mas também aos dos outros saberes. Curiosamente o mundo não seria o que é se os saberes não possuíssem uma utilidade.
3. Em filosofia nunca se chega a conclusões  - É falso pensar que em filosofia nunca se chega a conclusões. Se assim fosse também o poderíamos dizer em relação à ciência. O que nós conhecemos da ciência são os resultados desta, porque as grandes questões da ciência ainda andam em investigação, tal qual as grandes questões da filosofia. A diferença é que ao passo que a ciência pode recorrer à experimentação, a filosofia não pode dada a natureza dos seus problemas que não são resolvidos empiricamente.
4. A filosofia é um saber abstracto que não tem nada a ver com a vida. - Pelo contrário. A filosofia é talvez o saber que mais directamente se relaciona com a nossa vida prática e quotidiana, daí por vezes se fazer a confusão ao pensar-se que qualquer pessoa está a fazer filosofia ao se questionar sobre um ou outro problema. Os problemas da filosofia surgem porque a vida humana os levanta. Para isso existem muitos ramos do saber a fim de os estudar. A filosofia é um desses ramos.
5. Todos somos filósofos - É falso. Não é qualquer pessoa que é filósofa, apesar de qualquer pessoa ser perfeitamente capaz de levantar problemas filosóficos a um nível intuitivo. De igual modo, também as crianças fazem muitas questões científicas e isso não faz delas cientistas. De que é feita a lua? Porque é que nunca apanho o arco irís, etc…. Podemos igualmente perguntar se Deus existe ou não, se o livre arbítrio faz ou não sentido, sobre o sentido moral do aborto, sobre o que é o tempo e a sua relação com o espaço, etc…., mas daí não decorre que sejamos filósofos. A filosofia faz-se e investiga-se nas mais avançadas universidades do mundo e possui altos níveis de sofistificação. Ser um filósofo profissional, implica publicar ensaios nas revistas da especialidade e contribuir de modo decisivo para o progresso e avanço da filosofia. E isso não está ao alcance de todos e exige um trabalho disciplinado e árduo. Mas daí não decorre problema algum. Também na matemática, sabemos muita matemática a um nível intuitivo e nem por isso somos matemáticos. Depende do nível de sofistificação que queremos alcançar. E os grandes investigadores precisam muito dos bons divulgadores, como é o caso dos bons professores.
6. Em filosofia tudo é subjectivo. - Esta é uma outra ideia falsa que aparece muitas vezes em relação à filosofia. Pensa-se que a filosofia não é nada mais do que um grupo de gente tola, cada um a dar a sua opinião sobre um assunto qualquer. Mas a defesa da subjectividade é auto refutante em termos racionais. Se eu defender que a filosofia é subjectiva, o meu leitor pode defender que não, que é objectiva. Terei de aceitar a posição do meu leitor precisamente porque a posição do leitor é, para mim, subjectiva. E entramos num círculo racionalmente insustentável. Por outro lado, se a filosofia é subjectiva, então, qual a razão da discussão racional? Nada haveria a discutir dado que a verdade não passaria de algo muito subjectivo. Toda a discussão possível não passaria de uma mera e modesta troca de opiniões. Mas nesse caso não existiria qualquer progresso no saber e cultura humana. Não devemos esquecer que as grandes teorias matemáticas e científicas ainda estão por resolver, precisamente porque, tal como na filosofia, não existe progresso sem problemas e razões que apontem conclusões para esses problemas.
7. A filosofia é algo que se faz quando se tem muito dinheiro e nada para fazer - Muita gente famosa parodiou este lado da filosofia, associando-a ao ócio que é precisamente o contrário do negócio (negar o ócio). Apesar da filosofia não constituir para a maior parte das pessoas uma necessidade vital, como é dormir, comer e beber ou respirar, a verdade é que ela se faz por necessidade de compreensão do mundo. A maior parte dos grandes filósofos pensaram sem grandes condições para o fazer. A riqueza material não tem necessariamente de andar associada à filosofia. É natural que se faça e publique mais filosofia onde há mais dinheiro, mas isso somente porque alguém pode viver da filosofia, pode ser pago para investigar e pensar determinado problema filosófico. Mas, novamente, esta é uma realidade que também se aplica a qualquer ramo do saber ou a toda a ciência. Não são as culturas material e culturalmente pobres que produzem e têm acesso à investigação. De modo que supor que a filosofia se faz quando não se tem mais nada para fazer e se tem muito dinheiro, é falso.
8. Não é preciso ensinar filosofia nas escolas - Para mostrar o quanto esta afirmação é falsa, prefiro apresentar alguns exemplos. Uma boa parte dos países ocidentais até nem têm filosofia no ensino secundário como formação geral e obrigatória, como existe em Portugal. Mas têm o chamado critical thinkink que é uma área muito próxima dos modelos mais específicos da filosofia. Por outro lado esses países vêm garantido o sucesso da filosofia no ensino superior uma vez que possuem  uma cultura mais sólida que permite que as pessoas vão de encontro ao saber e à filosofia. Há um interesse e sucesso quase natural pela filosofia, especialmente após a segunda metade do Século XX e livros de filosofia ganham quase todos os anos importantes prémios. Só se consegue ter ideias tolas como esta e a de que a filosofia não serve para nada, numa sociedade ignorante que não reconhece o valor intrínseco da educação. Olhar para a filosofia e afirmar que ela não serve para nada, é de uma ignorância tão tola que faz lembrar aquela pergunta: o que faz um burro a olhar para um palácio? Mas os seres humanos, muito mais que os burros, podem ser educados a olhar para palácios. Esta ideia pode existir e existe em alguns países, inclusive em Portugal, com relativa disseminação pública. Lembro-me de quando estudava filosofia, o fulano do banco onde tinha a conta aberta para a mesada, me perguntar com frequência para que servia o que eu andava a estudar. Estou convencido que tal acontece porque, em larga medida, o ensino superior é de má qualidade e os alunos saem das universidades muito mal formados. Uma vez saídos da universidade sem nunca terem compreendido as ideias centrais de Platão, Descartes ou Kant, o que é a filosofia da mente ou a filosofia da arte, sem leituras feitas e organizadas, este é o caminho mais certo para termos uma má divulgação da filosofia, misturando-a muitas vezes com as nossas percepções mais subjectivas, como astrologia, magia, poesia, etc…. E esta é a ideia que passa aos mais jovens, que estes passam a outros e por aí adiante até um determinado sistema educativo fechar de vez as portas a uma disciplina que, afinal, não possui sequer coerência interna. Outra das causas para este tipo de falsas ideias em relação à filosofia, aplica-se também a todas as outras disciplinas. É a ideia de que o próprio ensino não serve para nada e a consequente desvalorização da escola e das disciplinas que lá se ensinam. Em Portugal, fruto das péssimas políticas educativas do «eduquês», é isto que se tem passado. A sociedade em geral desvaloriza o papel que a escola pode ter no desenvolvimento do indivíduo. Daí a desmotivação geral e a frequente acusação de que o que se aprende não serve para nada. Na verdade se o que se ensina é tão pouco e tão erradamente, a escola acaba por ser muitas vezes uma perda de tempo, pensarão alguns e com alguma razão.  
9. Em filosofia tem de se ler muito e escrever muito. - É evidente que para se saber filosofia temos de saber os argumentos dos filósofos. Imagine que vai ter com os amigos ao café e começa uma conversa sobre a justiça na distribuição da riqueza. Imagine ainda o leitor que na mesma mesa estão sentadas mais 4 pessoas além de si. Imagine agora também que começaria a debater argumentos sobre o tema não querendo saber das posições das outras 4 pessoas e ainda por cima afirmava que X e Y defendem a posição A, mesmo sem ter perguntado a X e Y que posições defendem. Uma das consequências mais prováveis é que o leitor poderia partir do princípio que:
a)      As suas posições são a verdade absoluta sobre o problema da justiça na distribuição da riqueza.
b)      Poderia o leitor estar a pensar que estava a ser muito original, quando X defende a mesma posição mas até com melhores argumentos. 
Seria esta uma situação desejável? Mas vamos mais longe. Imagine que a conversa era sobre o cosmos e que o leitor estava a defender o geocentrismo por pura ignorância. Sem querer saber do que X e Y pensam e conhecem acerca do assunto, o leitor nunca descobriria uma verdade elementar: que está completamente errado, uma vez que o geocentrismo já foi refutado há muitos séculos atrás.  A mesma coisa sucede na filosofia, como sucede em qualquer outro saber ou ciência. Para discutir os problemas filosóficos de um modo profissional, temos de entrar em discussão com os argumentos dos filósofos e é por essa razão que precisamos de ler o que Platão ou Descartes pensaram acerca do problema, quais os argumentos apresentados. A prova de fogo pela qual o aprendiz de filósofo tem de passar é exactamente a mesma que qualquer cientista tem de passar. Tem de sujeitar os seus «insights» à crítica dos seus pares. Um charlatão não passa esta prova de fogo e está condenado a escrever os seus argumentos sem pés nem cabeça no jornal da terra. Neste contexto, o texto escrito e lido é obviamente um dos recursos fundamentais dos filósofos, apesar de não o único. Alguns filósofos conseguiram apresentar argumentos revolucionários e nem por isso escreveram muito. Wittgenstein é só um entre centenas de exemplos. Outros escreveram muito e nem por essa razão conseguiram ser autores centrais para a filosofia.
10. Em filosofia tem de se ser muito profundo. - Em filosofia não tem de se ser mais profundo do que em matemática ou química. Em primeiro lugar deve-se privilegiar a clareza que nem sempre coincide com facilidade, dependendo do estudo que se realize. Obviamente se estamos a falar de filosofia como eu estou a falar neste texto, não se exige profundidade alguma. Exige-se clareza e rigor. A ideia da profundidade em ciência e filosofia, diz respeito à sofisticação dos problemas em análise. Se estamos numa área como a Lógica Modal, envolvendo a discussão de conceitos como possibilidade e necessidade, o mais provável é que a discussão não seja muito acessível a quem não possui qualquer preparação em filosofia. A mesma questão é atribuível a uma qualquer investigação em física ou química. Mas, regra geral, estas teorias mais profundas podem ser expostas a um nível mais intuitivo. E porque é que existe esta necessidade de explicar aos mais leigos os problemas mais sofisticados? Por uma razão muito simples. Somos seres limitados no tempo e um dia alguém vai ter de continuar os nossos estudos, desenvolvendo-os e possibilitando novas descobertas, por isso temos de ensinar aquilo que sabemos ou condenamos o saber à sua morte. Depois porque um filósofo só descobre as fragilidades das razões que oferece em favor das suas teses se um outro o puder estudar e refutar.
 


 
publicado por rolandoa às 15:41

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50 comentários:
De João Carlos a 5 de Novembro de 2007 às 19:47
Essa resposta não é bem uma resposta, professor Rolando. Porque o senhor apenas está aproximando a filosofia das ciências e não está respondendo sobre a utilidade própria da filosofia. Poderia dizer que uma utilidade da filosofia seja de criar um pensamento mais crítico? Nesse sentido, que pensamento crítico seria esse e em que sentido se diferenciaria do pensamento crítico que as disciplinas científicas criariam? No meio dessas aproximações entre filosofia e ciência aquilo que é específico da filosofia se perdeu. Quais as dificuldades próprias da filosofia?
De rolandoa a 5 de Novembro de 2007 às 22:31
João,
não podemos esquecer que a filosofia se faz nas margens daquilo a que se chama, resultados da ci~encia, que não se devem confundir comn a ciência propriamente dita. A ciência faz-se nas margens dos seus resultados, antes destes aparecerem. E o que está, lado a lado com a ciência, nas margens? Precisamente a filosofia. Daí que não existe qualquer problema em aproximar a filosofia das ciências, uma vez que a filosofia sempre lá esteve, ainda que em alguns momentos da história da filosofia, como no mais que ultrapassado pós modernismo, quisessem arrancar a filosofia desse lugar. Aliás, quando tal aconteceu, também quiseram reduzir a ciência a nada, a discurso mistico e religioso. Não sei se conhece o embuste Sokal/Bricmont que mostra de forma clara o que aqui digo. Adianto ainda mais uma coisa: os cursos de filosofia em universidades como as Portuguesas (nas quais nada se investiga em Filosofia, apesar de pomposamente toda a gente dizer que investiga) estão minados pelo discurso pós moderno. Mas esse discurso, mais sociológico que filosófico, pouco ou nada têm a dizer sobre o que se hoje em dia se faz em filosofia.
Espero ter ajudado a compreender a ideia de que não é crime colocar a filosofia ao lado das ciências e dos demais saberes, especificando sempre as suas características específicas.
Abraço
Rolando Almeida
De João Carlos a 6 de Novembro de 2007 às 02:07
Quando alguém afirma que a filosofia é difícil a pessoa talvez queira entender que dificuldade é essa. Dificuldade de leitura e compreensão dos textos? Dificuldade de entender os argumentos? Dificuldade de trabalhar com raciocínios demasiado abstratos? Dificuldade com defender idéias usando argumentos? Dificuldade de construir textos com estilos criativos e de caráter filosófico? E assim por diante. Com essa resposta que o senhor dá esse tipo de discussão interessante não fica contemplada.

Essa afirmação: "Se eu defender que a filosofia é subjectiva, o meu leitor pode defender que não, que é objectiva". É um jogo de palavras. É como aquele argumento que diz: "não existe a verdade", "ora, mas isso é uma verdade". E essa outra: "Por outro lado, se a filosofia é subjectiva, então, qual a razão da discussão racional?". Parte de certas premissas que o contra-argumentador pode não aceitar.

O senhor fala excessivamente de ciência nessas respostas. Algumas respostas só apenas copia e cola. Usando-se sempre dessa comparação e nunca explicando o que é próprio da filosofia. Por que não encarar as questões de um ponto de vista strictu da filosofia?

Será que a filosofia da arte, ou a filosofia da religião, ou a filosofia do direito, ou a ética, ou a filosofia política se fazem às margens da ciência? Ou mesmo a ontologia antiga?

Sinto que certa aproximação demasiada pode transformar a filosofia numa espécie de ciência. Isso seria um desejo?
De rolandoa a 6 de Novembro de 2007 às 02:21
João,
Imagine agora que eu começava a disparatar que o Direito, que é a sua área, não passa de um jogo de palavras. Como é que o João iria reagir? Muito provavelmente iria pensar que eu estava a dizer coisas tontas. Mas que raio de conversa!!! Agora o João deu-lhe para insistir teimosamente que a filosofia não passa de um jogo de palavras e, por mais que eu lhe mostre que não, o João regressa sempre a afirmar que, afinal, tudo não passa de um jogo de palavras. Nesse caso tenho de lhe mostrar que:
- A física é um jogo de fenómenos físicos.
- a química é um jogo de composições químicas
- o direito é um jogo de leis.
- a matemática é um jogo de números

que mais quer o João? Já lhe mostrei que o que o João defende é uma falsidade que provavelmente decorre de falta de conhecimento da filosofia. Mas, no blog, recomendo bons livros que lhe mostram que está errado, já que insiste em bater na mesma tecla, por mais que eu me esforce para lhe mostrar o contrário.
E é falso que eu cole as respostas. O João é que pura e simplesmente não as lê. Então já não lhe mostrei o que é a flosofia? Releia todas as minhas respostas e tem lá muito sumo para compreender o que é a filosofia. Ou não lê mesmo as minhas respostas? O João é que parece assustado que a filosofia esteja próxima da ciência, mas ela não se vai afastar da ciência devido ao medo do João. Por outro lado, em momento algum eu confundi ciência e filosofia, aliás, passo o tempo todo a distinguir filosofia e ciência.
Rolando Almeida
De João Carlos a 6 de Novembro de 2007 às 03:10
Desculpe, professor, mas eu não sou da área do direito. O senhor deve ter me confundido com o outro colega que comentou.

Desculpe se lhe ofendo com meus comentários, mas é que não me satisfaço com suas respostas. E procuro sempre ler e reler. Não sei, não me parecem consistentes. Não quero desmerecer seus esforços.

O senhor também não se convence dos meus comentários sobre dar respostas as perguntas por si colocadas a partir da filosofia e não pela comparação.

Deixemos pra lá. Não se importe comigo.
De rolandoa a 6 de Novembro de 2007 às 11:28
Caro João,
Tem de explicar qual o mal da comparação. A sua ideia da filosofia como "revelação" é uma ideia falsa do que é a filosofia. E vou agora pegar num argumento que talvez o satisfaça, mas que não satisfaz a mim: basta que o João leia meia dúzia de livros de filosofia actauis para perceber que o que está a defender é pura e simplesmente uma falsidade. Mais: quando lhe digo que os problemas da filosofia tem uma natureza a priori e não se resolvem pela via empírica, acaso estou a explicar-lhe com comparações? e, no entanto, estou a dar-lhe uma ideia precisa do que é a filosofia. Em relação a filosofia e ciência: tanto filosofia como ciência vivem do quê? De problemas. Tem medo desta compaaração porqu~e? É que o João depois limita-se a dizer que não é assim, mas não tem mostrado porque não é assim. E deve mostrar. Se estamos aqui para discutir não há problema algum. Não sei o que o João faz ou em que nível estuda, mas suspeito que se lhe desse uma resposta que fosse qualquer coisa como : " a filosofia é revelação do ser", ficaria satisfeito e acharia que estava a dar uma resposta a partir da própria filosofia. Mas isso, João, não passa dum disparate que qualquer feiticeiro de aldeia é capaz de dizer. Não é necessário ser-se de filosofia para dizer disparates como este. Se o João é estudante de filosofia em portugal ou brasil, já deve ter ouvido disparates iguais. mas deve pô-los também em causa. Desculpe a confusão que fiz com os nomes.
Até breve
Rolando Almeida
De João Carlos a 6 de Novembro de 2007 às 14:40
Será que a única diferença entre filosofia e ciência é que os problemas que a filosofia se coloca não se resolvem por via empírica? Essa é a única especificidade do trabalho filosófico? Dessa forma, então haveria tudo que não há na ciência e nas comunidades científicas exceto o recurso a empiria. Mas será que é assim mesmo? Os cientistas não precisam concordar entre si sobre certos pressupostos para aceitarem como válidas certos comentários, críticas e contribuições? Parece-me que o senhor está querendo aproximar a atividade filosófica da noção de ciência revolucionária de Kuhn. Na ciência também há como se aceitar ou não aceitar certas contribuições ou críticas apesar desses procedimentos de aceitação e rejeição não serem fixos. Na filosofia é assim? Ou numa filosofia é assim? Talvez numa área delimitada de filosofia seja assim, mas em geral? Como?

Então professor Rolando o senhor está trabalhando com uma série de pressupostos implícitos e que os acha óbvios para todo e qualquer ser. Além de óbvios considera-os muito simples e fáceis de serem aceitos, mas não parece ser assim pelos brevíssimos comentários que acabo de fazer.

Não estou aqui esperando definições religiosas ou místicas de filosofia (mas também que problema haveria com essas desde que bem fundamentadas?). Também não estou esperando cópia e cola de definições heideggerianas.

um abraço,

João Carlos
De rolandoa a 6 de Novembro de 2007 às 16:11
Quanto às definições místicas, o único problema é que não são filosóficas, ainda que bem fundamentadas, muito embora me pareça que é característica dos misticismos não fundamentar as suas suposições. Quanto à caraceterística mais elementar de um problema filosófico é mesmo essa que lhe tenho dito e repetido. São problemas que não são resolvidos empiricamente e daí que a argumentação seja uma actividade central na filosofia. Em termos práticos, se pretender discutir o problema moral do aborto, de nada lhe valerá mandar 100 mulheres abortar para saber se o aborto é moralmente aceitável ou não. Resta-lhe argumentar. Não foi isso que Sócrates fez? Mas já que o João insiste que esta é uma visão reducionista da metodologia do discurso filosófico, não tenho outra solução senão perguntar-lhe que outros métodos propõe para a filosofia? É que, João, não lhe basta que fundamente um problema para que ele seja filosófico, até porque os problemas da física, por muito bem fundamentados que sejam não são problemas filosóficos. Bolas, na filosofia, como em qualquer outro saber, não escolhemos uma metodologia somente porque nos apetece. Não saber que a argumentação racional é centarl na filosofia e que para tal tem de se conhecer as regras elementares da argumentação fornecidas pela lógica, é como querer saber falar uma língua sem querer saber da gramática. Cum catano, como é que o João fundamenta um problema sem recurso à argumentação racional? e como argumenta racionalmente sem conhecimento das regras mais elementares da lógica? Os filósofos passam o tempo todo a argumentar uns com os outros. Acontece porque os problemas filosóficos não estão sujeitos à prova empírica só mesmo a argumentação nos possibilita uma compreensão dos problemas. Considera isto muito fácil de compreender? Tem alguma coisa contra o fácil? Pois é fácil e, ainda assim, há muita gente na filosofia que não conhece esta verdade elementar. Não sou eu que a imponho de modo objectivo. Bolas, leia os textos de Kant a Hume, de Aristóteles a Espinosa e depois diga-me o que lá está.
Os cientistas concordam entre si em diversas metodologias, tal como os filósofos concordam entre si sobre determinadas metodologias. Repare, a título de exemplo, quantos filósofos escreveram sobre lógica. O João tem tido muita dificuldade em compreender o que lhe tenho dito. Tem formação filosófica? Lê filosofia? É que o que tenho defendido só pode ser o oposto do que defendeu Kuhn, que defendia o relativismo das teorias científicas. Aliás nem sequer entendo porque chamou Kuhn para a conversa. Não sei se é isto que se refere, mas é verdade que a filosofia da ciência questiona constantemente a metodologia inerente ao processo científico. Mas que raio tem isso a ver com Kuhn?
Insisto uma vez mais: em filosofia há teses que são mais consensuais que outras, umas que estão mais encerradas e outras que se abrem mais à discussão. Há tambem teses clássicas que são ainda actuais, como a tese da crença verdadeira justificada que define conhecimento, de Platão (apesar dos contra exemplos de Gettier), e outras que progrediram. E isto é exactamente o mesmo que se passa com a ciência. Qual é o problema? Agora se a formação do João é anti científica, com que abertura mental posso discutir este problema consigo se está a partir de pressupostos que não está disposto a abandonar?
até breve
Rolando Almeida
De João Carlos a 7 de Novembro de 2007 às 17:35
Desculpe, professor, mas então alguns filósofos eram mais racionais que outros? É isso que parece concluir seus comentários.

Se quer simplificar tudo, ok, entretanto problemas complicados exigem soluções complexas.

E o senhor fala em argumentar como se houvesse regras claras de construção de argumentos que sejam válidas para todos os filósofos. Aqueles que não as seguem é porque são burros, ignorantes, ou místicos?

Ora, será que fundamentação na física e na filosofia são as mesmas?

Tenho formação filosófica, sim.

Chamei Kuhn pra conversa, porque me deu a impressão que a noção de ciência revolucionária seria melhor para aproximar-se da visão de filosofia que o senhor está constantemente aludindo. Paciência, talvez não tenha sido a melhor idéia.

Só queria comentar brevemente sobre a tese de Platão. Não entendo, agora por ignorância mesmo, porque se costuma constamente dizer que em Platão está essa tese do conhecimento como crença verdadeira e justificada. Porque essa não é a tese de outros diálogos platônicos sobre o conhecimento. Essa idéia de conhecimento como crença verdadeira e justificada não teria sido formulada contemporaneamente e colocada em Platão?

Não tenho nada contra a ciência, só acho que o senhor não está dando qualquer bola para os comentários que estou fazendo no sentido de focar mais na filosofia por ela própria.
De rolandoa a 7 de Novembro de 2007 às 19:23
João,
Tem é de me dizer quais os filósofos que ignoram as regras da argumentação porque eu desconheço. A menos que me fale de filósofos como Deleuze e Derrida que parece que mais não desejaram do que acabar de vez com a filosofia, relegando-a para o campo do relativismo. Mas hoje em dia filósofos como os pós modernos ou são estudados em sociologia ou pouco estudados, pelo menos nas melhores universidades do mundo.
Em relação à tese de Platão, aperece em Teeteto (200d, 202d). Se leu e não viu a tese da CVJ, não faço ideia do que lá tenha visto, mas essa tese é o que está lá escrito.
João, se não vê o que eu vejo nos problemas, diga o que vê para eu poder analisar. Não se limite a dizer que não existe, que não é essa a tese e por aí adiante, até porque o João é meu colega, tem formação filosófica, tal como eu.
Rolando Almeida
De João Carlos a 16 de Novembro de 2007 às 13:43
Professor,

Imagino que os filósofos às vezes recorram a regras próprias de argumentar, ou a estretágias novas e diferentes. Ou pressupostos diferentes que tornam difíceis os argumentos das outras posições. Difícil saber qual o filósofo que não faz isso. Mesmo que se utilizem de argumentos, partem de pressupostos que não são consensuais entro de uma discussão, tornando difícil as coisas.

Será mesmo que quiseram esses filósofos jogar a filosofia no relativismo? Eu gostaria de entende-los melhor antes de fazer esse juízo radical. E será que as inovações que eles trazem devem ser desconsideradas por um critério político? Ou de maioria?

Sim, eu sei que há no Teeteto essa tese, mas e nos outros diálogos? Não entendo por que se fez o resgate dessa e não de outras teses sobre o conhecimento. Essa tese está na República? Não vi. No Górgias? Não vi. Na Apologia, Críton, Fédon?

Acho que basta, nossa conversa não está progredindo. Obrigado pelas respostas.

João.
De rolandoa a 17 de Novembro de 2007 às 01:16
João,
Apresente qual a tese ou teses de Platão sobre o conhecimento que conhece , além da CVJ. Não basta limitar-se a afirmar que há outras. apresenta-as para que eu as saiba e possa discutir.
Rolando A
De rolandoa a 6 de Novembro de 2007 às 02:25
João,
ainda mais uma coisa. Quando alguém afirma que a filosofia é dificil, eu não sei o que a pessoa quer dizer porque não sou psicólogo nem são problemas psicológicos que estão em debate. Quando alguém afirma que a filosofia é dificil, filosoficamente, só a sua afirmação é relevante e não o que está dentro da cabeça da pessoa. Isso é matéria para a psicologia.
Rolando A
De Rosa a 5 de Novembro de 2007 às 22:38
Um breve comentário apenas para dizer que não concordo com a dicotomia Filosofia/Ciência. Creio que a distinção está entre ciências exactas e não exactas, sendo que a sua distinta natureza justifica, de per si, as diferentes metodologias.
Por fim acrescento, apenas, que me custa sequer que se questione a necessidade, o porquê da Filosofia. É que creio que basta pensarmos na nossa dimensão extra-sensorial para concluir que a imprescindibilidade da filosofia é um facto!
De rolandoa a 5 de Novembro de 2007 às 23:09
Andreia,
Eu nem sequer concordo com a distinção entre ci~encias exactas e não exactas. A exactidão é da natureza das ciências. mas também é da natureza das ciências falhar.
No resto estou em acordo.
Abraço
Rolando A
De Rosa a 5 de Novembro de 2007 às 23:33
Mas a exactidão não pode ser entendida na vertente da possibilidade de demonstração? Da prova por meios que podemos apreender sensorialmente?
Quanto às falhas? Certamente que sim. São inerentes à nossa natureza e também demonstrativas da evolução civilizacional.
Acredito que as falhas, até de um prisma individual,são, ou podem ser, marcos/pontos do nosso desenvolvimento.
De rolandoa a 6 de Novembro de 2007 às 00:47
estou convencido que sim, pode. ha uma passagem do Ricahard Feynman, o físico, que aprecio particularmente porque traduz bem o espírito do conhecimento e do saber em geral. Aparece em O significado de tudo, publicado pela Gradiva e que fui buscar para lho citar: "Algumas pessoas perguntam: como é que conseguem viver sem saber (os cientistas)? Não percebo o que querem dizer com isso. Sempre vivi sem saber. É fácil. O que quero saber é como é possível saber". repare que isto é um cientista de renome a falar do seu trabalho. Portanto, daqui depreendo que a verdade é o horizonte, mas tanto os cientistas como os filósofos não estão directamente preocupados com ela, apesar dela estar sempre no horizonte. Até nas nossas vidas particulares o conhecimento de verdades é o horizonte. Regra geral queremos conhecer verdades. Imagine o mundo se só dessemos a conhecer falsidades uns aos outros!! Isto era um caos. (Portugal é um pequeno exemplo disso :-) )
A exactidão ou objectividade é obviamente a linha do horizonte para a qual o conhecimento se move, sem, com efeito, a alacançar. este é um paradoxo metafísicop ligado ao conhecimento,para o qual não possuímos um acordo final. E ainda bem! Mas pode existir exactidão em filsofia, não na prova experinecial - isso é impossível ou não era filosofia - mas nos argumentos mais consensuais.
abraço
Rolando A
De Vitor Guerreiro a 7 de Novembro de 2007 às 20:31
Relativamente às distinções ciencia / filosofia ou exacto / inexacto, partilho a ideia de que a segunda não faz sentido, embora a primeira o faça. Só que o sentido que a primeira faz não é para mim o mesmo que para os misticismos ou relativismos da moda.

A distinção exacto / inexacto com base na demonstração é fraca, nula, porque repare-se: como sabemos sequer o que é a objectividade? Por uma experiência? Como aferimos a objectividade da experiência?

Eu digo: "a objectividade nao existe" mas isto é contraditório porque a frase é ela mesma uma pretensão de objectividade, uma pretensão de verdade. Negar a objectividade é negar a possibilidade de afirmar coisas em geral. Mas para saber isto fizemos experiências? Só se incluirmos o discurso conceptual na experiência, o que para mim está tudo bem.

A moral deste comentário é dizer que nada tem de haver de "inexacto" no discurso conceptual ou na metafísica. A objectividade não começa logo nos nossos conceitos. Também há uma tendência para ignorar o facto de que hoje em dia a física e as ciencias "exactas" não trabalham ao nível dos objectos "clássicos" onde as coisas são substancialmente mais lentas que a velocidade da luz nem são demasiado pequenas. Sem a especulação racional, o que seria da cosmologia física ou de outras áreas da produção científica "dura"?

Como pode uma observação ao microscópio ser exacta se os conceitos que temos na cabeça forem uma sopa mais ou menos confusa de coisas indefinidas, vagas, intuitivas? Não foi precisamente essa falta de clareza nos conceitos que levou ao disparate no sec XVII responsável pela política actual da Igreja face ao aborto, incompatível com a postura tradicional em Sao Tomás de Aquino? Foi precisamente uma "experiência" guiada por ideias tontas que fez os observadores imaginarem "homúnculos" nos óvulos que observavam ao microscópio.

Abraço
De Vitor Guerreiro a 7 de Novembro de 2007 às 20:33
Onde escrevo "A objectividade não começa logo nos nossos conceitos." devia estar um ponto de interrogação em vez de final, porque é uma pergunta retórica.
De Jorge Canha a 5 de Novembro de 2007 às 22:45
Não concordo com a parte onde se lê:

"É falso que se fale da filosofia como uma disciplina difícil."

Eu diria antes:

É mau que se fale da filosofia como uma disciplina difícil.

Hehe.

Um abraço.
De rolandoa a 5 de Novembro de 2007 às 23:12
Jorge,
Gostei do comentário. Tem humor e tem inteligência. :-) e ainda há gente que acha que os alunos não são capazes de comentários sofisticados ;)
Thanks
Abraço
Rolando
De rolandoa a 5 de Novembro de 2007 às 23:14
Jorge,
Ah, mas tens razão numa coisa. O Português ali não é inteiramente claro. Bolas, assim já não me posso candidatar ao nóbel da literatura :-)
Rolando A
De rolandoa a 5 de Novembro de 2007 às 23:18
Jorge,
Hoje não te largo, rapaz. Fizeste mesmo um bom reparo e olha que este texto foi lido por algumas centenas de pessoas. O que ali deveria estar escrito é isto: A afirmação "a filosofia é dificil" é falsa. Assim estaria mais claro.
Bolas homem, tem de ser os meus pupilos a emendarem-me.
Thanks one more time
Rolando Almeida
De nuno a 6 de Novembro de 2007 às 17:51
bom, eu comentaria este post, se ja nao o tivesse visto noutro blog, o ALFAFILOS (alfafilos.blogspot.com). Devo dizer que nao sei qual e que foi escrito primeiro. Acho que é uma situação para o professor Rolando e os participantes deste blog analisarem.
De nuno a 6 de Novembro de 2007 às 17:56
peço desculpa. precipitei-me no comentario.
sinto-me tao estupido agora... o outro blog faz referencia a este...
mais uma vez peço desculpa.
De rolandoa a 6 de Novembro de 2007 às 18:34
Olá Nuno,
Não faz mal nenhum. Mal faria se existisse uma de duas citações:
- ou eu é que tinha roubado o texto
- ou o outro blog postava o meu texto sem fazer referência ao mesmo.
Mas se o Nuno fizer uma pesquisa no google pelo meu nome vai encontrar vários textos meus que estão espalhados por vários blogs e sites. Até hoje, de todos os que encontrei, todos fizeram referência exacta. mas, já agora, Nuno, eu não defendo ideias propriamente originais, apesar dos textos serem originais porque escritos por mim. Se eu encontrar sitíos na internet que se façam acompanhar pelas minhas ideias, significa que elas possuem algum valor e que estão a ser disseminadas. E isso é que interessa. Se e quisesse direitos de autor não publicava os textos no blog. Aliás, quando escrevo textos mais elaborados, publico-os em sites que tem um registo de domínio precisamente devido aos direitos de autor. Não vá me apetecer publicar algum dia em livro e ver algo igual já publicado. Mas a ideia de que outros sites publiquem os meus textos só me deixa feliz, porque o queconta são as ideias que neles estão contidas para divulgar a filosofia.
Também já encontrei blogs brasileiros que citam textos meus Este particularmente está citado em alguns blogs.
abraço e obrigado pela visita
Rolando A
De david a 9 de Novembro de 2007 às 21:05
Bem, o rapaz de Direito sou eu e não o João. Em relação a disputa e confronto ideológico que por voces foi levado a cabo devo dizer que careceu de relevo, porque discutiram-se coisas que são demasiadamente óbvias e que não são merecedoras de cuidadosa reflexão. Parece-me que o João teceu comentários um pouco cromados.
Tenho duas coisas a dizer: Primeiro, tem a ver com uma falsa questão da filosofia que você esclareceu, mas do meu ponto de vista, de forma muito insatisfatória. A segunda, não sei se lembra, foi acerca de um comentário seu em que disse: " é falso que a filosofia esteja presente em todas as manifestações humanas. se eu atirar uma moeda ao ar, a filosofia não tem nada a ver com isso."
Começemos pela primeira parte. O professor defendeu que nem todos os homens são filósofos. Para mim esssa ideia é que é uma falsa questão e um mito da filosofia que deve ser desmestificado o mais rapidamente possivel . Eu sou firme: " Todos os homens são filósofos.". E é falso que o nivel de cultura filosófica de uma pessoa se possa medir pelo número de artigos que escreveu. Todos nós levantamos questões, todos nós procuramos resolve-las, todos nós mudamos na vida mercê das reflexões que tenhamos levado a cabo, todos nós temos uma filosofia, porque queremos perceber os factores que nos atormentam e queremos perceber a forma de os fazer dissipar. Fixe esta: " Cada um de nós é filho do pai que sempre quis ter, que é a sabedoria. Mas ficamos orfão dele antes de nascermos e temos de perguntar a quem o conheceu um dia como era o nosso pai. O tempo, seu guardião decidirá quem terão as chaves para aceder ao passado do seu pai, mas possibilita que todos se possam interessar por conhecer quem foi o seu verdadeiro pai. Se o tempo quiser, falará dos nossos antepassados, das coisas que fizeram que nós nao conheciamos , mas sentiamos ." David Silva. Aquilo que quero realmente dizer, é que todos nós queremos conhecer o porque de estarmos neste mundo. Todos tentarão, mas em busca desse el-dorado que afinal não existe, apenas alguns o conseguirão mercê do facto de não desistirem, de dizerem que a marca do seu tal pai não é a marca que lhes ficou no coração e não saiu ( e por isso é que somos todos filósofos), mas a marca que se libertou do seu coração, transmormando-se em tesouro indagador, indagando pela supra-filosofia , pois filósofos somos todos, humanos somos todos, mas o élan é alcançar aquilo que humanamente não foi possivel atingir. Todos filosofam, até a abelha que não tem linguagem se interroga através do mel. Mas so alguns vão mais além do que isto.
Daqui a pouco desenvolvo a minha segunda objecção.

De rolandoa a 9 de Novembro de 2007 às 21:35
David,
Antes de tudo peço desculpa pela confusão dos autores dos comentários.
Respondo-lhe já à sua primeira objecção: as razões que o levam a crer que todos nós somos filósofos são exactamente as mesmas que podem levar-nos a considerar que todos nós somos matemáticos, físicos ou biólogos. Todos fazemos contas, todos temos um corpo que procuramos que seja saudável, e todos vemos um objecto cair quando o atiramos ao ar. Com efeito creio que o David concordará que não é por fazermos contas que somos matemáticos. Nesse caso porque haveríamos de sermos todos filósofos só porque levantamos questões? O que é que faz de um matemático ser matemático? É andar vestido de bata branca e usar óculos redondos? Ou será que somos todos cientistas somente porque compramos telemóveis e automóveis? pense lá nisso.
abraço
Rolando Almeida
De Anónimo a 9 de Novembro de 2007 às 22:19
Relativamente a segunda objecção: A Filosofia tem a ver com todas as manifestações humanas, mas só de forma potencial, se a pessoa que estiver ali quiser realmente. Eu posso atirar uma pedra e chamar a filosofia ou não chamar a filosofia. A Filosofia é quando um ser humano quiser, à hora que ele quiser, no lugar onde ele quiser. Tudo pode dar lugar a uma reflexão. Sir Isaac Newton elaborou a teoria da gravidade que todos nós conhecemos, com uma simples queda de uma maçã. Com ele deu lugar ao que todos sabemos que deu, consigo ou comigo poderia ser uma simples queda de uma maçã, com outro até não poderia ser nada. Todas as manifestações humanas tem a ver com a filosofia, mas as vezes a filosofia é que não quer ter a ver com elas. é preciso chama-la, invoca-la liturgicamente.Tal como, quando o senhor for fazer compras, tudo dirá respeito ao vendedor e tudo será de interesse relevante para com ele, mas isso não significa que ele o aborde. será o professor se calhar que terá de o fazer. Mas, com efeito, o que interessa é que tudo pode ser alvo de reflexão filosófica e tudo poderá dar azo a novas reflexões, que por vezes insignifante parecendo, poderá ser a via mais acertada para o encontro de respostas inimagináveis.Tudo depende da nossa vontade em filosofia.
De rolandoa a 9 de Novembro de 2007 às 22:33
David,
O David ainda acredita no pai natal, não? Então acha que o Newton descobriu a gravidade só por ter levado com uma maçã na cabeça? Não me diga que Einstein descobriu a relatividade só por ter mostrado a língua! David, essas fábulas é o que fica nas consciências populares das grandes descobertas da ciência, mas na maioria dos casos, ou são fábulas ou são histórias mal contadas. Newton teorizou a gravidade com muito estudo, método e aplicação. Basta ler um qualquer excerto de um texto de Newton para perceber que o estudo do homem foi tão longe que só com recurso a conhecimentos da física é que somos capazes de compreender metade do que ele escreve. É necessário deixar de lado essas ideias tolas de que a ciência é feita pela genialidade e inspiração com um efeito quase mágico. Claro que um cientista pode ter uma intuição qualquer, no caso, ao levar com uma maçã na cabeça. Mas ninguém seria capaz de descobrir a relatividade ´somente por ter levado com uma maçã na cabeça. Essas são as histórias que se contam às crianças. David, imagine-se horas, dias, meses, anos a fio a estudar um teorema matemático. Vive no teorema, está dentro dele, Está a estudá-lo com toda a sua energia. Um dia, quando menos espera, resultado do seu estudo e aplicação, repito, resultado do seu estudo, tem uma intuição e v~e o problema resolvido. Conclusão: o David jamais poderia ter tido a intuição sem o estudo e trabalho prévio. Se pretende um exemplo mais simples: imagine-se a estudar uma qualquer matéria durante uma tarde inteira. Enquanto está a estudar sente que não está a aprender muito. Mas, ao fim da tarde, quando sai para beber uma água, encontra um colega seu e está meia hora seguida a falar da matéria que estava a estudar. Depois, quando está sózinho a beber a água, dá-se consigo a pensar: mas que raio! nem sabia que tinha aprendido tanto e tudo direitinho. Isto é a intuição e o nosso cérebro a funcionar.
Finalmente: desculpe o modo como lhe falo, mas tendo já eu explicado neste blog o que é a filosofia e as suas metodologias, resta-me dizer que pensar que todos somos filósofos, que tudo é filosofia, não é mais do que viver no reino do Harry Potter, uma perfeita idiotice. Não David, a filosofia não é o vale tudo que o David pressupõe que é e a sua ideia de filosofia é errada. Recomendo-lhe que leia uma boa introdução à filosofia e, ao fim de 50 páginas lidas, me venha dizer o que pensa. Em Português tem uma boa, a de Nigel Warburton, elementos básicos de filosofia (Gradiva). Depois de ler 50 páginas deste livro se ainda mantiver a sua ideia de que todos somos filósfos, então tem de se dedicar à costura.
Ah, trate-me pelo nome sem problema. Prefiro assim mesmo e estamos aqui para aprender uns com os outros, sem formalismos.
Abraço e volte sempre
Rolando Almeida
De Anónimo a 9 de Novembro de 2007 às 22:43
Relativamente a resposta a minha primeira objecção: Mantenho a minha firmeza em afirmar aquilo que afirmei, ou seja, todos nós somos filósofos.
Comparar a matemática ou a quimica com a filosofia parece-me um erro crasso. São, de facto, areas do conhecimento humano, mas com caracteristicas diferentes. A guerra do vietname e a segunda guerra mundial são guerras, mas são guerras muito diferentes, e requerem comportamentos, dinimizações e factores diferentes. Por isso, quando comparamos realidades, temos de saber compara-las. A Filosofia, como sabe, trata de tudo um pouco. A Matemática não é assim tão expansionista no sentido de querer abranger tantas areas assim. é um conhecimento especializado. E sendo especializado, nem todos a podem aceder, e parece-me relevante dizer que o fazer contas nasceu através de uma atitude filosófica. Isso quer dizer que a capacidade para formular questões filosóficas, mesmo não resolvendo-as, ela existe em cada um de nós, agora fazer com que avançemos resultados nos mais diversos domínios é que é diferente. Todos nós sobre alguma coisa temos opinião, mas sobre dominios especializados é que é complicado.
A Filosofia, sendo algo de mais genérico e abrangendo um conjunto mais diversificados de aspectos, possibilita-nos uma margem de reflexão enorme, seja para resolver aspectos do foro quotidiano, seja para resolver questões matemáticas ou do direito. A Filosofia é uma nave espacial gigantesca onde cabe toda a gente, com capacidade par satisfazer os gostos de todos os tripulantes ao contrário das outras ciencias. Deste modo, posso inferir, que quando estamos a exercer e a contribuir intelectualmente ou através do nosso senso comum para algo relativo à cultura humana estamos a ser filósofos.
De rolandoa a 9 de Novembro de 2007 às 22:57
David,
para se discutir filosofia é necessário ter abertura mental para compreendermos quando os nossos argumentos são plausíveis ou implausíveis e ter a capacidade aceitar a discussão. Se eu tiver de comparar um futebolista é um erro crasso se o fizer em relação a um jogador de rugby, memso sendo ambas as actividades desportos. O que se passa e que o David desconhece e por isso fala sem conhecimento, é que a filosofia é um saber como outros saberes com a diferença que na filosofia não se produzem resultados ao passo que a maioria dos outros saberes produzem-nos. O que o David defende para a filosofia está mais próximo de algo como a astrologia que, como deve saber, não mantém qualquer proximidade com a filosofia. Há outra confusão que o David faz, porque desconhece, provavelmente porque não estudou, o que é normal e não é vergonha alguma: é que uma coisa é a ciência, outra, completamente diferente, os resultados que a ciência produz. Se o David soubesse o que é a ciência não falava em erro crasso. Por outro lado o David comete uma falácia elementar da argumentação, que é insistir que a filosofia é tudo aquilo que nós quisermos mas sem expor razões aceitáveis para defender essa ideia. Outra coisa que me parece importante: conheço relativamente bem a história da filosofia, uns autores mais que outros. A minha experiência com a filosofia, mesmo tendo lido muitos autores que são uns autênticos idiotas, não me revelou um único que fizesse a defesa do que é a filosofia que o David faz. Só lhe quero dizer uma coisa: vai ter de sustentar muito bem essa sua ideia, se é que a quer mesmo defender. Mais, não existe qualquer problema na analogia que fiz entre filosofia e matemática, primeiro porque são áreas que se tocam no limite, segundo porque ainda hoje e desde a antuguidade clássica, há e houve filósofos que são matemáticos, desde Pitágoras, até Quine ou Russell. E o David para fazer a defesa que faz devia saber isso. Mas o David prefere insistir nas suas invenções, mesmo revelando com as mesmas que não conhece a história da filosofia. Tenho sugestões de boas introduções à filosofia no meu blog.
Rolando Almeida
De david a 9 de Novembro de 2007 às 23:06
O Rolando diz coisas muito válidas sim senhor. Mas são ideias de grandes filósofos que não encaixam e não vem a propósito com aquilo que eu quis dizer. O rolando, repare bem, elabora as suas respostas tendo em vista os possiveis pontos debeis de uma resposta, que nao sao os pontos debeis da resposta, mas os pontos onde lhe pareça que há mais potencialidades para explorar. Eu não disse que Newton fez da queda da maçã o elemento fundamental da sua descoberta, mas que aquele simples acto da queda algo lhe disse, algo o levou a pensar, isto muito a propósito de todas as manifestações humanas terem a ver com a filosofia se a nossa vontade quiser. Agora, é claro que o trabalho faz o resto. E se bem me pareçe o trabalho é feito com braços, actividade cerebral muito intensa e se um bom filósofo nao gerir essas componentes e não reflectir sobre elas também vai dar-se mal. Uns são mais filósofos do que outros, é verdade, mas de forma muito relutante, afirmo: Todos nós somos filósofos.
E parece que sobre um aspecto o João Carlos tinha razão. O senhor critica muito e elogia muito pouco ou quase nada. Será que o senhor é um reflexo da nossa sociedade portuguesa e não reflectiu suficientemente sobre o assunto?
De rolandoa a 9 de Novembro de 2007 às 23:20
David,
a acusaçãoq ue me faz não tem qualquer consistência. lê os artigos do meu blog? quantos elogios faço? Se ler com atenção, o meu blog acaba por ser, talvez exageradamente, um elogio à filosofia. Percebo que o David gostasse que eu lhe elogiasse a sua ideia, mas não costumo aceitar ideias racionais por caridade. O David e o João defendem ideias estranhas à filosofia e revelam desconhecer a filosofia. Quer que eu elogie isso? Note que o David, tal como o João, a determinada altura apenas insistem numa ideia sem a discutir, sem a colocar à prova. Quando fizeram o 1º comentário já tinham essa ideia como um pressuposto a defender sem aceitar a discussão de argumentos e, no limite, a suspensão de algumas ideias e a procura de investigar melhor. mas ambos troxeram a lume uma discussão que me é cara e me tem levado muitas horas de estudo há já muitos anos. E isso sim, David, é típico da sociedade portuguesa. E, já agora, david, que toca no ponto da sociedade Portuguesa, também é típico da sociedade portuguesa fazer do conhecimento uma arma de arremesso. Também já escrevi sobre isso. Da sociedade filosófica portuguesa também é típico difundir algumas ideias que o David defende, o que não significa que estejam certas.
Repare mais um aspecto: se o David pretender discutir se a verdade filosófica é relativa ou absoluta, penso que, apesar de seu me afirmar como crítico do relativismo, essa matéria é discutível. Mas o que o David quer discutir não tem discussão. merace clarificação e eu procurei dar-lha como posso, na medida do possível. E quando tal começamos a avaliar a psicolgia um do outro, que não é a minha área, nem a do David. Se a questão é saber se a filosofia é aquilo que o David defende que é, digo-lhe que não, é falso. Aliás, as metaforas que usa nem sequer comento porque são do foro pessoal e nada acrescentam à discussão. se o David pretende que eu elogie ideias falsas, não o faço por uma questão de honestidade intelectual. Se o David quer discutir o relativismo na filosofia, aceito.
Se o David quiser estudar umamatéria e debatê-la comigo, avise-me para eu estudá-la também, se é que ainda não o fiz:-)
Rolando Almeida
De david a 9 de Novembro de 2007 às 23:16
Ah e será que os autores que leu eram tão idiotas assim? Pelo menos tiveram a capacidade para escrever um livro e acreditaram numa causa. Por mais ridicula que seja uma causa, nós nunca devemos ter vergonha naquilo que defendemos.
E nem sequer posso não saber o que é filosofia, mas pelo menos filosofei, porque fiz aquilo que acreditava, fiz pensei naquilo que seria mais justo invocar para defender os meus argumentos. Há certas pessoas que não sabem descrever o que é sentir ou o que é gostar, mas gostam e sentem e é isso que faz delas pessoas diferentes. Ao contrário de quem sabe definir muitas vezes.
De rolandoa a 9 de Novembro de 2007 às 23:23
Ok David, calma... tudo isso é certo, mas não é suficiente para que as suas ideias estejam certas. E isso marca toda a diferença. Para isso é que argumentamos.
Rolando

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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