Sábado, 3 de Novembro de 2007

O que é a Filosofia

Esta é uma questão menos inquietante quanto possamos pensar. Ou, pelo menos, é tão inquietante quanto a pergunta, o que é a Física, a Matemática ou a Biologia. Poderíamos responder que a Física trata dos fenómenos físicos ou que a Biologia é a ciência da vida. Mas estas são respostas circulares, a resposta não adianta nada à pergunta. Do mesmo modo podemos responder que a Filosofia é o conhecimento dos argumentos dos filósofos. Se pretendêssemos aprender pintura a primeira tarefa a esperar no nosso estudo seria começar a pintar. Do mesmo modo, a melhor forma de aprender filosofia é começar a filosofar.
Rolando Almeida

Mas como começar a filosofar? Afinal, para que serve a filosofia? Bem, já reformulamos a nossa questão. Poderíamos voltar a responder elaborando novas questões como, para que serve a matemática?, para que serve a pintura?, a música?, a Física?, etc… E poderíamos responder que a música serve para tocar música, bem como a filosofia serve para pensar com rigor. Nova questão: pensar o quê?
Aqui exige-se uma nova resposta: pensar os problemas filosóficos. E quais são os problemas filosóficos? Assim, parece, podemos esboçar algumas respostas. Se quisermos saber se existe vida em Marte, enviamos uma sonda a Marte e examinamos todos os pormenores do planeta alcançáveis pela sonda até saber se há ou não vida em Marte. Até hoje a experiência diz-nos que não há vida em Marte e esta é a nossa resposta para a pergunta se há ou não vida em Marte. Com a filosofia acontece algo bem diferente. Os problemas filosóficos são aqueles que existem na vida humana mas não podemos fazer experiências práticas para os resolver. Por exemplo, o problema do aborto é, antes de tudo, um problema moral. Os problemas morais jogam entre o que é o certo e o errado na acção humana. Não temos forma de saber pela experiência se o aborto é certo ou errado. Ainda que pedíssemos a 20 mulheres grávidas que abortassem para ver o resultado, nada concluiríamos sobre se o aborto é certo ou errado. Como sabemos então o que é o certo e o errado? Filosofando. E filosofar é pensar argumentos que nos possam indicar o que é o certo e o errado. Claro que este exercício não é fácil de fazer. Primeiro temos de saber o que achamos sobre o assunto, se achamos certo ou errado o aborto e, então, depois, temos de procurar as melhores premissas que justifiquem a nossa teoria, que é sempre a conclusão do argumento.
Por exemplo, posso pensar que o aborto é moralmente errado porque o feto é um ser humano e é errado matar um ser humano. Se seguir uma ética deontológica como a do filósofo Kant, penso sempre em agir conforme a minha máxima racional e, por essa razão, matar é sempre errado. Mas se, pelo contrário, seguir os preceitos éticos de Stuart Mill, penso a moral com conceitos diferentes, os de prazer e da dor (antes dos princípios racionais) e, nesse sentido, devo agir de modo a maximizar a maior felicidade para o maior número de pessoas. Neste caso, se um feto correr o risco de nascer deformado, não é moralmente errado abortá-lo.
Em conclusão, os problemas filosóficos, como os do gosto, na Estética, os morais, na Ética, os da existência de Deus, na filosofia da religião e os do conhecimento, na filosofia da ciência, são aqueles que não possuem resolução empírica (pela experiência) e, assim, tenho de os argumentar, conhecendo os argumentos clássicos dos filósofos e colocando a toda a prova racional os nossos argumentos que muitas das vezes mais não são que a expressão de um certo preconceito. Agora já somos capazes de dizer o que é a filosofia e para que serve.
 
Publicado originalmente na revista de Filosofia da Escola Básica e Secundária Gonçalves Zarco, ZarcoSofia, Nº1. Artigo escrito a pensar nos alunos do Ensino Básico


publicado por rolandoa às 16:51

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38 comentários:
De Clara Jasmins a 3 de Novembro de 2007 às 17:27
Olá prof! :)
Só a título de curiosidade, como vi que este artigo foi feito para a revista do Zarcosofia..
Esse projecto ainda vai ter pernas para andar este ano não vai?
Espero bem que sim e que a página do zarcosofia no site da escola continue a crescer!! :)
De rolandoa a 3 de Novembro de 2007 às 18:48
Viva Clara,
Bem vinda!!! Claro que o projecto é para continuar e todos as minhas iniciativas estão abertas à tua preciosa e sempre bem vinda colaboração.
O "sítio" na página da escola anda sempre mais lento uma vez que não tenho acesso directo na sua manutenção. Mas é igualmente para continuar.
Obrigado pela visita,
Rolando A
De david a 3 de Novembro de 2007 às 19:05
julgo que a filosofia para pouco ou nada serve, apenas só se for para se entreter com palavras
De João Proença a 3 de Novembro de 2007 às 19:42
Como tudo no mundo, david, você tem direito à sua opinião e não é de meu direito tentar demovê-lo da mesma.
Mas atendamos por exemplo ao caso seguinte, porque temos leis no país que nos dizem expressamente que um homicídio qualificado (e intencional) dá direito a pena de prisão? Decerto não terá sido por obra de um pensar físico, pois segundo a mesma (e misturando a biologia) tudo o que se perde (ou transforma, segundo Lavoisier) é massa, tudo o demais é desinteressante, ora, se só "transformamos" massa, rearranjamos ligações atómicas, então isso já é algo de recorrente, porquê sermos punidos por algo que se dá tão corriqueiramente? Apenas e só porque se chegou a uma conclusão moral de que a morte provocada noutro qualquer ser humano não é um acto aceitável, daí sendo punida.

Note-se que no caso apresentado, apenas a Filosofia teve efeito, obviamente concordo consigo quando se diz que já de pouco serve a disciplina, denote-se que sendo eu um estudante da secundária estou perfeitamente ciente que o ensino de Filosofia tende para ser um ensino lógico, contrastando com as minhas expectativas iniciais, de que nos ensinariam a "pensar" (um pensar em nada relacionado com o da matemática, por exemplo). Entristece-me, é um facto, entristece-me também as pessoas darem cada vez um uso, diga-se, depreciativo à Filosofia, argumentos de treta para expressarem uma realidade que lhes convém, argumentos tão desnecessários como o de perguntar em tribunal "E o que é a verdade?".

Citando Sócrates "Só sei que nada sei" e penso eu que com o avançar destes pensamentos, voltaremos a ter de enfrentar este pensamento de Sócrates em breve.
De rolandoa a 3 de Novembro de 2007 às 20:09
David,
Pode, com certeza, mas sem responsabilidade, pensar que a filosofia não serve para nada, mas, já agora, pode dizer-me, por exemplo, para que servem os bebés?
Abraço e obrigado pela visita
Rolando Almeida
De rolandoa a 3 de Novembro de 2007 às 20:16
João,
O bom ensino da filosofia é tão útil quanto o bom ensino da matemática, da música, da biologia ou da informática. O mau ensino da filosofia é tão inutil quanto o mau ensino da matemática, da música, da biologia ou da informática.
Espero ter ajudado :)
Abraço e obrigado pela visita
Rolando A
De pirralho a 4 de Novembro de 2007 às 23:01
concordo plenamente contigo!
De rolandoa a 4 de Novembro de 2007 às 23:50
Ok Pirralho.
Abraço
Rolando
De Rosa a 3 de Novembro de 2007 às 22:34
Relativamente à questão "Para que serve a Filosofia?" muitas coisas poderia dizer, todavia a sua extensão não é subsumível à exiguidade deste espaço para comentar. Por isso digo apenas que ela serve para PENSAR, e é isso que nos distingue dos outros animais: a capacidade de pensar.
Numa época em que cada vez há mais facilidade de comunicação (claro, porque se investe na tecnologia, e bem sem dúvida) mas, paradoxalmente, em que as pessoas cada vez conversam menos, e em que consomem o que lhes é dado sem grande espírito crítico, acredito que se chegue ao ponto de sequer questionar para que serve a filosofia. Isto é, também, fruto de uma sociedade que aposta cada vez mais na forma e menos no conteúdo, que se rege pelo imediatismo, o que não der resultados a curto prazo já não serve, o que não for facilmente perceptível, já não serve... É pena. Cada vez as pessoas pensam menos, cada vez "embarcam" mais na primeira ideia/produto que se lhes apresenta. Consequências: pobreza, vulnerabilidade, vazio.
Para alguns até seria bom que se deixasse de leccionar Filosofia: para aqueles que não querem críticas construtivas, cujas teorias e ideias que têm alicerces de barro, por exemplo.
A filosofia faz-nos pensar e o pensamento é o nosso melhor material de construção...
De Ricardo Costa a 3 de Novembro de 2007 às 23:01
Mais uma vez e como em tantas outras vagueio pela vastidão da Internet, de blog em blog, deixando post’s aqui e a ali, até me deparar com este blog que de imediato capta a minha atenção, não por ser um aluno do 10º que pela 1º vez se vê diante de uma ciência onde a radicalidade, a universalidade e o criticismo são palavras de ordem, mas sim por ver na filosofia uma ciência que possibilita entrar na infinidade dos pensamentos, das ideias e do raciocínio humano, levando-nos para longe do convencionalismo e do conceito antecipado sem fundamento razoável, ou seja leva-nos para longe, bem longe do preconceito.

Quero desde já felicitar o professor responsável pela feitura deste blog, e apesar de ser apenas um dos muitos dependentes da matemática, queria apenas dizer que vejo a filosofia como a obreira do ser humano, apesar de não ser uma ciência exacta e de nada dentro dela ser absoluto. Mas os seres humanos também são inconstantes e imprevisíveis!!!

Mais umas vez as minhas felicitações pelo blog...
De Rosa a 3 de Novembro de 2007 às 23:16
Também eu comecei recentemente a vaguear pela vastidão da Internet, de visita aos inúmeros blogs que agora a povoam e a minha atenção deteve-se neste, particularmente.
Só queria dizer que concordo quando diz que a filosofia nos leva para bem longe do preconceito. É isso mesmo... Para longe do preconceito e ao encontro das pessoas.
De rolandoa a 3 de Novembro de 2007 às 23:48
Caros Ricardo e Empatias,
Agradeço as vossas palavras de incentivo. A filosofia serve, antes de tudo, para colocar à prova as nossas crenças mais básicas. Na filosofia não se aceita passivamente a verdade revelada, razão pela qual se diz que a filosofia é actividade crítica. A natureza dos problemas filosóficos faz com que os mesmos não possam ser solucionados com consteúdos da experiência. Neste sentido a actividade crítica reside na capacidade argumentativa. Decorre daí a necessidade de se aprender as regras básicas da argumentação que são dadas pelo estudo da lógica formal e informal.
Ainda em relação à utilidade ou não da filosofia, teríamos sempre que filosofar para discutir o problema :-)
Mais uma vez agradeço as vossas palavras.
Abraço
Rolando Almeida
De Ricardo Costa a 4 de Novembro de 2007 às 00:29
Professor,
Como já vem sendo hábito, neste miserável mundo, onde qualquer transeunte pode achar, eu também vou achar, dizendo que discordo do professor quando diz: “A filosofia serve, antes de tudo, para colocar à prova as nossas crenças mais básicas.” Pois, a filosofia de nada serve ao homem que caminha pela vida fora sempre agrilhoado a preconceitos que derivam do senso comum e infelizmente, estes homens, não são poucos, bem pelo contrário. E no meu entender, nem todas as crenças são susceptíveis de ser pensadas criticamente. Mas, que pode um aluno do 10º ano que ainda agora começou a folhear as primeiras páginas de um livro, onde a sonolência e a monotonia de tanto texto, contradizem a própria filosofia, discordar de alguém que há anos que folheia a grandeza humanista da nossa literatura…
De rolandoa a 4 de Novembro de 2007 às 02:31
Ricardo,
A vantagem da filosofia é mesmo essa, a saber: um aluno do 10º ano pode, com certeza, desafiar alguém que lê há anos filosofia. Mas, neste caso, ceio que nada há a opor. Precisamente porque o ser humano está "agarrado" aos preconceitos, é que a filosofia é um desafiar das crenças mais básicas, mais fundacionais, que estabelecem esses preconceitos. Mas parece-me que isso constitui uma possibilidade humana muito feliz, pelo que não me parece que o mundo seja mais miserável em razão disso. Mas isso depende, obviamente, do ponto de vista.
Mais uma coisa: quando falo em crença, falo em sentido filosófico, isto é, o pressuposto de qualquer conhecimento dado que a crença é condição para haver conhecimento. Portanto, qualquer crença é susceptível de ser questionada.
Outro aspecto importante: na filosofia não interessa tanto a qualidade da escrita nem as subtilezas da língua, mas a clareza com que expressamos o pensamento, uma vez que o pensamento se manifesta na linguagem.
Ajudei?
Rolando Almeida
De Ricardo Costa a 4 de Novembro de 2007 às 23:03
Professor,
Agradeço o facto de me ter explicado e esclarecido em algumas questões relativas a filosofia, e também concordo consigo quando diz que na filosofia não interessa tanto a qualidade da escrita nem as subtilezas da língua, mas se abdicarmos destas “subtilezas” estamos a apagar a grandeza estilística e gramatical da nossa língua, pela qual se bateram gerações e gerações e que agora vamos todos nós pouco a pouco abdicando.
Bem, continuarei, sempre que poder, a vir ao seu blog, mais uma vez agradeço a ajuda e desejo-lhe as maiores felicidades na divulgação da filosofia…

Até uma próxima…
De rolandoa a 4 de Novembro de 2007 às 23:52
Ricardo,
apareça sempre e discuta à vontade. O blog existe para isso mesmo. Obrigado e abraço
Rolando A
De david a 4 de Novembro de 2007 às 12:18
Eu acho que voces todos sao uns sofistas. Tentem convencer todos com argumentos que nao dizem nada ao mundo. A Filosfia é a filosofia. Tem coisas boas e coisas más. As vezes precisamos dela, outras vezes temos de a por de lado. Eu gosto de argumentar com factos e nao sou propriamente um juspositivista. é bom sim senhor termos uma boa concepção teórica das coisas, mas a filosofia de nada sevirá se na prática nao tiver consequencias. Para mim, a filosofia vale enquanto se puder concretizar na prática. é muito fácil defender os direitos humanos mas as vezes ver os governantes aplica-los é complicado. E isso é perniciosamente negativo. Bem como as ideologias. Lenine dizia que " que nao há boa prática revolucionária sem uma boa teoria revolucionária" mas a história disse-lhe o contrário: Não há boa teoria revolucionária sem uma boa prática revolucionária..
A filosofia pode estar presente em todas as manifestações humanas desde a acção ao pensamento, á passividade, ao amor, ao ódio, á tranquilidade. Escolher uma delas implica, desde logo, uma tomada de posição, um sistema de valores, de uma reflexão proporcionada ao longo da vida pela experiencia, podendo-se dizer a partir dai, que construimos uma filosofia. Priveligiar a acção é uma filosofia também.
Agora ela tem de servir para alguma coisa. E não é só para argumentar e falar nos direitos humanos. Na Filosofia da acção, que para alguns nem é filosofia, mas sim uma predisposição mental erigida por nós para concretizar algo, encontram-se respostas para os problemas do mundo. Essa é uma tomada de posição filosófica sem dúvida. Mas apenas funciona como empurrão. A Filosofia precisa de alguem que a sustente e a concretize as suas mais valias que sao muitas, tal como um filho precisa de um bom pai e de uma boa mãe para que as suas qualidades se possam afirmar. O que redundando naquilo que sempre quis patentear neste texto, a filosofia faz nascer coisas boas para a humanidade, mas não é ela que resolve todos os problemas da humanidade. Por vezes está por trás e influencia. Não foi a filosofia que derrotou a Alemanha nazi de Hitler, mas foram valores alicerçados nela como a coragem e liberdade que ajudaram a construir a vitória. Todavia, a determinada altura foi preciso mais agir do que pensar.
De rolandoa a 4 de Novembro de 2007 às 15:09
Caro David,
O David nem niguém argumenta com factos. Os factos são provas e não precisam de argumentos. Mas fiquei curioso quanto a um aspecto do seu comentário: é que, nele, o David está o tempo todo a argumentar. E, curiosamente, nem sempre argumementa bem, o que prova que alguma filosofia lhe possa estar a fazer mais falta do que aquilo que pensa. Por outro lado é also que a filosofia não tenha consequências práticas. Quem lhe disse uma coisa dessas? O David ainda não notou que os países mais desenvolvidos tecico-cientificamente são aqueles que possuem uma cultura filosófica (e outras) sólida?? Claro que a filosofia´não é a única responsável pelo progresso ou atraso de uma cultura, mas também não o é a matemática ou a física isoladamente. Repare: a investigação em química em Portugal é quase inexistente. E o David pode concluir daí que não precisamos de formar pessoas em química para nada? É que o facto é que não existe investigação de proa em química e os cursos superiores estão às moscas. Mas se não ensinarmos a química nas escolas, com exigência, como podemos algum dia ter bons químicos que suportem boa investigação e esta, por sua vez, suporte toda uma indústria que lhe trará progresso e bem estar? Mas, David, lamento informá-lo, o que está na base da boa investigação em química, tomando o meu exemplo, são pessoas que sabem pensar e que possuem uma formação muito sólida no raciocínio crítico. Percebe agora melhor onde aparece a filosofia? Curiosamente o pensamento do David não anda muito distante do pensamento político em matéria de educação e é muito semelhante ao pensamento das universidades americanas durante a primeira metade do sec. XX. Sabe o que aconteceu às universidades americanas? Formaram técnicos excelentes que só sabiam inutilidades para o ser humano. Por essa razão é que hoje em dia, se for, por exemplo, ao site do MIT vai ver que o seu departamento de filosofia é altamente sofisticado. Outra curiosidade: O departamento de ciências e tecnologias da Universidade Nova em Lisboa, oferece como disciplina obrigatória, o Pensamento Crítico, cujo método é filosófico. Nesta altura o David deve estar a pensar: mas porque raio precisam os engenheiros de filosofia? Pense lá David.
Abraço e obrigado pelo comentário
Rolando Almeida
De André a 4 de Novembro de 2007 às 15:21
a Filosofia, é para mim um modo de auto-descoberta tendo sempre em vista o melhoramento de cada um.
De rolandoa a 4 de Novembro de 2007 às 15:38
Caro André,
Arrisco a dizer que se vivermos sem horizonte de verdade, somos, como dizia Pessoa, "um barco à deriva sem porto onde atracar". A verdade é um horizonte sempre em vista. Mas a filosofia não possui qualquer privilégio em relação à ciência, por exemplo. Tanto a filosofia como a ciência procuram a verdade. Ao contrário das religiões que pressupõem que a verdade é revelada, sabe-se lá como e porquê.
Abraço e volte sempre
Rolando A
De david a 4 de Novembro de 2007 às 18:40
Bem, eu estou bastante habituado a lidar com questoes do foro filosófico. Aliás frequento o curso de Direito, que deve ser a area com mais afinidades com a filosofia. No Direito, há várias considerações do género: Será que a filosofia é importante para o Direito? Platão, Aristóteles, Ulpianus, Cícero dizem-nos que sim. Hans Kelsen, Alf Ross, Stuart Mill, Thomas Hobbes, Jeremias Bentham nem por isso. Aliás o primeiro diz-nos que qualquer conteúdo pode ser direito, o que interessam são os procedimentos formais, que a ciencia do Direito deve ser autónoma, desligada da filosofia. Bem, embora ele negue a filosofia, a verdade é que ele ao faze-lo está a demonstrar uma concepção sua do mundo, que determinado facto se reveste de certas caracteristicas e que há um determinado caminho a seguir. A Filosofia é a ciencia que estuda as causas e consequencias de um determinado facto. tá lá no dicionário. E ele enuncia causas para adoptar o seu pensamento, consequencias da sua adopção. Nesse sentido, ele exprime um postulado filosófico. Quero com isto dizer que a filosofia está presente em tudo, em todas as manifestações humanas disse eu anteriormnte. Se vir alguém na rua e ve-lo a não socorrer uma pessoa desmaiada e ao observar esse comportamenteo, indo posteriormente reprimi-lo, dizendo-lhe " Tu não tens valores" , ele dirá isso mesmo " não tenho valores". E isso nao nasce ao acaso. é uma visão do mundo que se foi construindo pelas experiencias do sujeito.
A filosofia tá em todo o lado. é uma coisa nata do próprio homem. Dizer que os técnicos brilhantes das universidades nao tem filosofia é errado. Eles tem formação filosófica e nata, derivada da condição de serem humanos, da natureza lhes ter dado uma cabeçinha pensante. Se calhar não é a mais acertada.Se calhar aquela que lhes foi facultada pelo programa de filosofia do secundário é que está errada. E é ai onde queria profundamente chegar. Eu nao disse que a filosofia não serve para nada, referia-me ao programa da filosofia no secundário. Esse nao serve de muito realmente. Incutir uma filosofia de rectidão, de respeito pelo mais próximo, pelo amor ao saber, pelo gosto da harmonia não podem ser possíveis sem leitura de fábulas, sem os ensinamentos de rectidão de Sócrates, sem uma filosofia cartesiana que incite o gosto pela matemática, sem uma teoria da literatura que façam os alunos conviver com os problemas humanos. No fundo, gostaria que fosse valorizado o homem, as sus potencialidades mais extraordinárias, os seus valores de dignidade, de respeito, de fraternidade. Coisa que o caracter demasiado genérico e enfadonho do actual programa de filosofia não pode dar.
Quais são os objectivos da filosofia para o estudante que tera em mãos o futuro e o amanhã? Mais do que ensinar a pensar, será incutir o sentido de ética para que juizes possam tomar as melhores e mais justas decisões, para que os médicos saibam perceber o sofrimento humano, respeita-lo e em função disso poder dar tudo para salvar o paciente. é isso que nos falta, formar cidadãos com ética. Por isso, é que a reforma das universidades que visassem eliminar as cadeiras humanisticas do direito, a filosofia do direito e sociologia do direito, que incidem sobre valores e sobre o homem mereceram a minha total desaprovação.
O hedonismo é uma filosofia. Mas qual as consequencias ela terá para o bem comum e para nós? Serão consequencias que eu prefiro nem comentar. Apenas serão inevitáveis garantes de que nao basta uma formação filosófica, é preciso uma boa formação filosófia. Aquela que promova o bem comum, a harmonia, a chave do segredo para a felicidade. E fará sentido a vida sem felicidade?
De rolandoa a 4 de Novembro de 2007 às 19:09
David,
Tenho de concordar com o David quando refere que a filosofia se liga ao direito. Mas a filosofia não é direio. Mas não é verdade que a filosofia se ligue a todas as manifestações humanas. Se eu atirar uma pedra ao ar, a filosofia nada tem a ver com isso. Quando muito posso enunciar umas leis da física, mas nada que se pareca com a filosofia. A ideia que o David tem e filosofia é um pouco vaga. A filosofia trata de problemas que não são pensados a posteriori, uma vez que a experiência nada nos diz sobre eles. Resolvem-se pelo pensamento, argumentando. Nada mais. É errado que a filosofia nos ensine a ser mais bonzinhos e amigos do próximo. A filosofia não é catequese, não doutrina. O melhor que a filosofia faz pelos seres humanos - e já faz muito - é fazer com que nos confrontemos com as nossas crenças mais elementares. Além disso exercita-nos o pensamento crítico e nada há de mais prático que uma cabeça que sabe pensar com clareza e rigor.
A natureza dos problemas da filosofia faz com que não se apresente resultados e daí todas as confusões que existem em volta da filosofia.
Em relação aos professores universitários: há professores universitários de filosofia muito mal preparados para ensinar filosofia, com uma cultura filosófica insuficiente. Qual é o problema em admitir isto? No Direito acontece a mesma coisa: professores caducos, mal preparados e, com efeito, doutorados uns pelos outros. Mais: a filosofia não é um dom de génio da natureza, era só o que faltava. Isso é que é uma fábula mal contada. Para se saber filosofia, como para se saber física, química ou direito é preciso trabalhar e estudar. Essa ideia do dom do génio é uma palermice muito cultivada nos circuitos universitários portugueses, mas não passa disso mesmo, uma palermice sem ponta por onde se lhe pegue.
Obrigado pela visita
Abraço
Rolando Almeida
De david a 5 de Novembro de 2007 às 11:13
Bem,respeito a sua opinião relativamente ao facto de perceber pouco de filosofia, embora não concorde. Mas o que acho um pouco impreensivel foi não ter abordado a tal questão do ensino da filosofia nas escolas secundárias que eu muito falei. será que ela vale de muito? A maior parte dos licenciados que conheço dizem que a filosofia que aprenderam nos livros do secundário, não lhes valeu de nada. E os que,pelo secundário andam, questionam-se da sua utilidade para o futuro, que nao precisam dela para serem engenheiroa, para serem médicos e até advogados. Eu acho que se o programa e o método de ensino da filosofia fossem diferentes, as próprias opiniões dos estudantes acerca da filosofia seriam diferentes. Não é um problema dos professores,é um problema do ministério da educação. Entre nós,para que interessam aqueles joguitos do estilo:

Todos os portugeses são inteligentes.
António é portugues.
Logo,António é inteligente.

Isso deveria ser lecionado na primeira classe ou mesmo no infantário. E perde-se um tempo muito significativo com isso no primeiro periodo do 11º ano.
De david a 5 de Novembro de 2007 às 11:21
quanto ao facto da filosofia nao apresentar resultados, essa está boa!!!!!! Tudo apresenta resultados.uma múmia apresenta resultados, apresenta um resultado de profunda inércia, resultante de estar morta há milhares de anos. Um bébé que não sabe falar, apresenta resultados de comunicação.O facto de na vida nao apresentar resultados,faz resultar da pessoa que não os apresenta, um pessoa de pouco pragmatismo, de pouco sentido prático. Até a inércia provoca resultados, fará a filosofia.
De rolandoa a 5 de Novembro de 2007 às 11:38
David,
Vamos lá por partes. Claro que o ensino da filosofia no secundário tem problemas, mas são os mesmos que afectam a matemática, a física ou toda e qualquer disciplina que tenha conteúdos específicos. Não leu os meus posts sobre o eduquês? Um aluno acaba o secundário sem saber filosofia e para que serve o que aprendeu, mas se reparar, o mesmo acontece com a Física e a matemática. Os alunos acabam o secundário e pouco aprenderam e não sabem para que servem as coisas que aprenderam. E parace claro que, embora havendo aqui outras causas, aquela que aparece sempre na base são as políticas educativas que o nosso país tem há mais de 30 anos. Isso tem um preço a pagar e o preço mais directo é que depois, o David até teve e se ineressa pela filosofia, mas não vê mais do que "um joguito" nas regas da lógica formal, que é a base para, por exemplo, saber argumentar bem no Direito. E o David não vê mais que um "joguito" porque foi assim que lhe ensinaram. Mas ensinaram mal. Infelizmente, em quase todas as disciplinas, muitas matérias são ensinadas como "joguitos". Diga-me lá David, em 12 anos de escola o que é que aprendeu com consistência em termos de ciência? Mas não se atrapalhe. Tenho 34 anos, sou de uma geração que levou também, e muito, com o eduquês. O que sei de ciência aprendi nos livros, não na escola. O que sei de filosofia, aprendi depois do curso, não no curso. E isto acontece assim, porque, simplesmente, o ensino português não tem qualidade. Coloque-se, David, ao lado dos seus colegas, por exemplo, ingleses, e compare a sua formação com a deles. Claro que nós temos bons estudantes, muito bons até, mas o problema não é esse. O problema é o nível médio. O nível médio deles é incompravelmente mais alargado que o nosso. E isto faz toda a diferença. Muita mesmo.
Em relação à filosofia não roduzir resultados, eu não disse tolice alguma, mas talvez me tenha explicado mal. Ao contrário da ciência, os problemas filosóficos não se resolvem com recurso à experiência, razão pela qual lhes chamamos a priori. E é esta a marca que distingue a filosofia da ciência. Provavelmente o David também ouviu no secundário que a filosofia era universal, radical, autonoma e tinha uma história. Ora bem, estas características não são exclusivas da filosofia, pelo que não a caracteriza. O que caracteriza o problema filosófico é precisamente esta ausência de prova empiríca. Esta é a toda a diferença.
Abraço
Rolando Almeida
De Mariazinha a 5 de Novembro de 2007 às 13:17
David..e não tão bom entretermo-nos com as palavras..??? (;

beijos meus

Mariazinha
De rolandoa a 5 de Novembro de 2007 às 15:27
Mariazinha,
Infelizmente tenho de lhe dar a má notícia de que a filosofia não é somente entreter com palavras, por muito saboroso que tal ideia nos possa parecer. E para o perceber basta fazer um elo de comparação com a matemática: será a matemática uma mera actividade de nos entretermos com números? ou tem alguma utilidade queimarmos neurónios a raciocinar com os problemas matemáticos? acontece o mesmo com a filosofia. Só que os problemas filosóficos não se resolvem com as equeações puras e formais da matemática, mas com argumentos convincentes.
Volte sempre
Rolando Almeida
De João Carlos a 5 de Novembro de 2007 às 13:33
Na filosofia ninguém concorda com ninguém. Cada um vem e diz uma coisa e fica isso por isso mesmo. Um cara diz uma coisa e um outro vai, entende essa coisa errada e diz outra coisa e aí começam confusões que não acabam mais! É uma loucura só! Ou um cara diz algo a partir de um ponto determinado e outro cara partindo de outro ponto entende uma coisa totalmente diferente! Como é possível isso?! Essa filosofia só pode produzir loucura.

É curioso ler a opinião que a filosofia se dá por argumentos, porque se fosse tão simples assim a filosofia não seria essa loucura completa como acabo de relatar acima.
De rolandoa a 5 de Novembro de 2007 às 15:24
João Carlos,
A única diferença entre a filosofia e os demais saberes é que os problemas da filosofia carecem de provas empíricas, mas nem por isso deixam de ser problemas, tal qual quaisquer outros problmeas. Se notarmos bem, os problemas da filosofia, apesar desta característica, até nos são muito mais próximos que os problemas da física ou da matemática. Imagine-se lá que este era um blog de física a ver se surgiam comentários sobre o que é e não a física. E, no entanto, tenho dúvidas que a globalidade das pessoas saibam do que tratam os problemas da física. Com efeito, ão questionam o que ela é e não é, nem sobre a sua utilidade. Já agora, qual é a utilidade de um problema da matemática? Qual a utilidade do teorema de Fermat? Acontece que nenhuma ciência produz resultados, sem que esses resultados sejam resultados de problemas. Sem problemas não existia ciência. Basta ter lido um entre muitos outros livros de introdução à ciência para perceber esta realidade.
João, oucura é estar no mundo sem querer compreendê-lo. E diga-me lá que outra forma existe de compreender o mundo sem o problematizar? Só se for pela magia, mas a revelação mágica ou divina não é filosofia, nem creio que a possa ter algum dia substituído.
Obrigado pela visita,
Rolando Almeida
De João Carlos a 5 de Novembro de 2007 às 17:25
A questão não é problematizar, mas de não haver acordo sobre que respostas são aceitáveis e não haver acordo sobre que pontos de vista(s) são aceitos universalmente para se começar a filosofar. Tudo está sempre suspenso.
De rolandoa a 5 de Novembro de 2007 às 17:44
Caro João,
Isso só é parcialmente verdade. Mas sendo parcialmente verdade, pode ser um problema, só que não é, e por uma razão muito simples: será possível acabar com um problema somente porque ele não tem solução? E note ainda outro aspecto que o pode estar a iludir. Ao contrário do que pensa, essa solução tão desejável, também não contece na ciência. A maioria dos problemas levantados pela ciência não possuem solução e os resultados que a ciência produz estão constantemente a sofrer melhorias (veja só a qualidade do seu telemóvel de há dois anos e compare-a com a qualidade dos actuais). Na filosofia acontece a mesma coisa: os problemas continuam em aberto, mas há progressos notáveis. Se não conhece, sugiro que pesquise um pouco sobre, por exemplo, os progressos levados a efeito em áreas da filosofia tão diversas como a filosofia do conhecimento, a ética, metafísica ou lógica. Se quiser um bom ponto de partida, o livro elemntos básicos de filosofia de Nigel Warburton, pode começar por lhe provar o que aqui lhe digo.
Portanto, o problema que coloca não é um grande problema para a filosofia.
abraço
Rolando A
De João Carlos a 5 de Novembro de 2007 às 19:37
O que poderia ser considerado um progresso em metafísica, por exemplo? O fato de haver uma distinção entre a ontologia praticada no século XIX e a ontologia anterior? Isso é um progresso? Não faz mais sentido resgatar a visão de ontologia medieval?

Para haver progresso não seria preciso estabelecer uma linha de progressão? A partir de onde estabeleceríamos esta linha? Esse estabelecimento não deve necessariamente ser arbitrário?

De João Carlos a 5 de Novembro de 2007 às 19:40
A filosofia é bem diferente da ciência. Não há acordo sobre os princípios básicos, nem sobre os métodos de verificação (ou de falseabilidade), não há comunidades filosóficas que se refutam constantemente, a única base que se pode apelar para verificar sobre a veracidade ou não de um argumento são os próprios argumentos, e por aí vai. Como pode haver progresso nesse cenário altamente caótico? Me parece que você, Rolando, está esquerendo apaziguar o caos.
De rolandoa a 5 de Novembro de 2007 às 22:02
João,
Também na ciência não existem acordos absolutos quanto às metodologias. Insisto: a diferença com as ciências empíricas é que as suas hipóteses ou teses são sujeitas à prova, ao passo que não podemos provar problemas a priori.
Em relação aos progressos na metafísica, é evidente que os problemas permanecem, mas as metodologias progridem, o que faz com se desenvolvam e sofistifiquem os argumentos. Um dos exemplos é a moderna lógica modal que possibilitou redimensionar problemas como os de possibilidade e necessidade metafísicas.
Ficou mais claro?
Abraço
Rolando Almeida
De João Carlos a 6 de Novembro de 2007 às 01:54
Acho que estás ignorando o fator significativo que é o da não aceitação por grande parte dos filósofos a respeito das bases sobre as quais se construirá uma investigação. Anda a aproximar tanto a filosofia da ciência que se acaba por ver a filosofia reduzida a uma espécie de ciência. Isso é sério.
De rolandoa a 6 de Novembro de 2007 às 02:11
João,
Não sei o que quer dizer com "uma espécie de ciência". Penso que já lhe mostrei suficientemente bem que a filosofia se faz nas margens da ciência. Por outro lado não entendo qual é o seu receio da filosofia estar próxima da ciência, uma vez que desde sempre esteve, como também já lhe mostrei. Caso tenha dúvidas procure conhecer um pouco o que faziam e com que se preocupavam os filósofos gregos.
Rolando A

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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