Sexta-feira, 2 de Novembro de 2007

Argumento ontológico

O argumento ontológico pretende demonstrar a existência de Deus por meios puramente conceptuais. Primeiramente formulado por Anselmo de Aosta (1033-1109) no séc. XI, encontram-se diferentes variantes do mesmo em Tomás de Aquino (1225-1274), Descartes (1596-1650) e Leibniz (1646-1716). A estrutura do argumento é basicamente a seguinte:
 
1. Deus é o ser acima do qual nada de maior pode ser pensado.
2. A ideia de ser acima do qual nada de maior pode ser pensado existe na nossa consciência.
3. Se o ser correspondente a esta ideia não existisse, teria que faltar um predicado à ideia do mesmo, a saber, o predicado da existência, pelo que, nessas condições, essa ideia já não seria a do ser acima do qual nada de maior pode ser pensado, uma vez que seria lícito pensar-se num outro ser que tivesse exactamente os mesmos predicados que o anterior e, para além desses, também o da existência.
4. Logo, se a ideia de ser acima do qual nada de maior pode ser pensado existe, então o ser que lhe corresponde tem também que existir pois, se esse não for o caso, a ideia em causa deixa de ser a ideia que é, o que constitui uma contradição.
 
           Enciclopédia de termos lógico filosóficos

 Um contemporâneo de Anselmo de Aosta, o monge Gaunilo de Marmoutiers, elaborou uma refutação do argumento de Anselmo por meio de uma reductio ad absurdum do mesmo. A reductio de Gaunilo tem o seguinte aspecto:
 
1. Perdida é a ilha paradisíaca mais perfeita e agradável que qualquer outra.
2. A ideia de ilha paradisíaca mais perfeita e agradável que qualquer outra existe na nossa consciência.
3. Se a ilha real a que esta ideia corresponde não existisse, teria que faltar um predicado à ideia, a saber, o predicado da existência, pelo que então essa ideia já não seria a ideia da ilha paradisíaca mais perfeita e agradável que qualquer outra, uma vez que seria possível pensar-se numa outra ilha que tivesse exactamente as mesmas propriedades de Perdida e ainda a propriedade da existência.
4. Logo, se a ideia de ilha paradisíaca mais perfeita e agradável que qualquer outra existe, então o objecto que lhe corresponde tem também que existir pois, se esse não for o caso, a ideia em causa deixa de ser a ideia que é, o que constitui uma contradição.
 
            A reformulação do argumento de Anselmo por Gaunilo mostra-nos as conclusões inaceitáveis que se podem extrair de uma tal estrutura argumentativa mas não diagnostica o vício subjacente ao mesmo. Um primeiro diagnóstico da natureza deste vício foi efectuado por Hume (1711-76) e tornado célebre por Kant (1724-1804). Consiste na consideração de que o termo «existir» não é adequadamente utilizado no argumento, uma vez que ele é aqui tratado como se referisse um predicado quando a existência não é um predicado. Não sendo a existência um predicado, a atribuição de existência à ideia ou representação de um objecto ou ser não lhe acrescenta qualquer predicado pelo que a ideia ou representação de um dado objecto ou ser concebido como existente não pode ser considerada como maior ou mais perfeita, no sentido referido acima de reunidora de maior número de predicados, do que a mesma ideia ou representação concebida como sendo de um objecto ou ser inexistente. Daí que a ideia de Deus concebida como realizada num ser particular em nada possa diferir da mesma ideia de Deus concebida como não realizada por qualquer ser.
            Mais tarde, Frege (1848-1925), refinou a análise do conceito de existência, defendendo a tese de que a existência seria um predicado de 2.a ordem, isto é, um predicado que apenas poderia ser atribuído a conceitos e não a objectos ou seres. (Há porém autores modernos que defendem novas versões da tese tradicional) Deste modo, o que a proposição «Deus existe» faria seria atribuir ao conceito de Deus a propriedade de não ser vazio. Pressupondo a não contraditoriedade do conceito de Deus, uma decisão acerca da verdade de uma tal proposição só poderia ser alcançada por intermédio da descoberta de um processo por meio do qual fosse possível determinar empiricamente se algum ser satisfaria efectivamente todos os predicados de primeira ordem por meio da conjunção dos quais o conceito de Deus seria definido. Como a existência, enquanto predicado de 2.a ordem, não poderia ser um desses predicados, o contraste entre as duas ideias introduzidas no argumento de Anselmo não poderia, portanto, estabelecer-se e o argumento seria improcedente. Assim, a nova definição de existência introduzida por Frege não traz qualquer modificação à rejeição do argumento determinada por Hume e Kant.
António Zilhão
 
In. Enciclopédia de termos lógico filosóficos, (Dir. de João Branquinho e desidério Murcho), Gradiva, 2000


publicado por rolandoa às 15:54

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9 comentários:
De Hermes a 4 de Novembro de 2007 às 00:05
Caro amigo e colega, não me leva a mal se lhe disser que um "sítio" de Filosofia não deve ser um mero lugar para expor argumentos avulsos de outros filósofos, isto é, sem os contextualizar na história do pensamento, da cultura e da sociedade, e sem lhe contrapor teses opostas com contra-argumentos bem sustentados na lógica e nos conteúdos. Ficará a saber que também tenho blogs de Filosofia e gostaria que me aceitasse como seu amigo em termos da Net . Bem haja e bom trabalho, pois temos que elevar o nível da Net , que anda muito por baixo.
De rolandoa a 4 de Novembro de 2007 às 00:14
Caro Hermes,
Existem algumas diferenças entre um blog e uma página ou sítio web. Entre outras, destaco aquela que nos diz que um blog acaba sempre por ser mais desarrumado que uma página web. O argumento ontológico foi colocado para responder a questões de alguns alunos meus, tal como outros textos são postados no blog servindo outras intenções. Claro está que o blog é um espaço público e a sua crítica pode ser pertinente. Mas não o é de todo, uma vez, apesar de ser verdade que existe um contexto histórico para os autores da filosofia, o mesmo não é verdade para os problemas da filosofia. Os problemas chave da filosofia continuam discutíveis exactamente na mesma medida em que os autores medievais ou clássicos o fizeram. daí não vejo necessidade de contextualizar o argumento ontológico sobre a existência de deus, uma vez que ele é ainda muito discutido e da mesma maneira que, por exemplo, Gaunillio o discutiu. Mas concordo que este texto possa ser um pouco mais puxado, talvez. Ainda assim, aceito a sua sugestão, até porque, como procurei mostrar, ela existe num sentido, mas não em todos os sentidos.
Quanto à amizade. Com certeza que sim, mas eu preferia saber sempre com quem falo:-)
Abraço e volte sempre
Obrigado
Rolando Almeida
De Hermes a 4 de Novembro de 2007 às 02:57
Agradeço a sua resposta. A minha heterodoxia relativamente à não contextualidade histórica dos problemas da filosofia - não há argumentos inquestionáveis mas há falácias que o debate filosófico vai elucidando, na dependência das circunstâncias da época, qual a da "existência" como propriedade duma ideia, ou o argumento da causa primeira, entre muitos outros - mantém-me em desacordo consigo. Tenho apreço por ter criado um blog interessante de Filosofia. Não tive no entanto o cuidado de verificar que se tratava de um sítio para debate dedicado aos seus alunos. É escoado dizer que se trata duma actividade meritória. Mas, dada a escassez de blogs de filosofia com algum valor, acabei por me imiscuir nele.
Sou seu colega e tenho um blog chamado Filosofia Metafilosofia , que todavia tenho dificuldade em desenvolver dados os meus afazeres profissionais e outros. Cumprimentos.
De rolandoa a 4 de Novembro de 2007 às 03:11
Hermes,
O meu blog não exclusivamente para os meus alunos e faz bem em aparecer. Acontece que, num momento ou noutro, coloco posts exclusivamente para os alunos.
Claro que os argumentos, apesar de discutíveis, são-lhes apontadas imensas falácias, a uns mais que a outros. E é claro que a seu tempo vou postando os argumentos e as possíveis objecções. E assim é que deve ser, ou pelo menos é mais pedagógico. É evidente também que o meu blog se destina ao ensino da filosofia em geral, divulgando livros, excertos de textos ou, o que é preferível, textos meus. Pode soar mais disperso precisamente porque não é específico de uma corrente filosófica ou uma época. Seria, sem dúvida alguma, fazer um blog sobre, por exemplo, filosofia medieval. O problema é que não sou especialista em coisa alguma, a não ser no ensinar filosofia no ensino secundário. Assim, para termos algo mais específico, teríamos de ter um corpo docente universitário mais interessado na divulgação do seu conhecimento ou do conhecimento da sua área específica. Assim, pelo menos eu que leio ingles, tenho de me contentar com o que, nessa lingua, vou lendo e, à medida do meu tempo que também envolve muitas coisas, vou divulgando o pouco que aprendo. A intenção é muito modesta, apesar de, estou certo, ser dos blogs de filosofia mais citados e visitados no país.
Mande sugestões. Só lhe tenho a agradecer.
Abraço
Rolando A
De Vitor Guerreiro a 7 de Novembro de 2007 às 20:46
Não acho que seja necessário estudar o ambiente histórico do argumento ontológico para perceber o argumento ontológico, do mesmo modo que para saber a escala diatónica não é preciso saber que os nomes das notas musicais foram criados por um monge italiano a partir de um hino a Sao Joao Baptista. É interessante e em algumas circunstancias talvez seja iluminador mas em geral é uma curiosidade.

O argumento ontológico é o que é independentemente das suas condições históricas, a menos que julguemos o conteúdo das proposições redutível a dados sociológicos, psicológicos ou históricos. Mas isso não pode por sua vez ser assumido, como faz muito do relativismo de lavra antropológica ou sociológica, que se limita a repetir o refrão de que o "racionalismo" ocidental é "ingénuo" sem que nunca cheguemos a saber em que raios consiste tal ingenuidade. O curioso é também que estes pontos de vista só podem ser construídos usando as ferramentas da razão, ainda que de forma tendenciosa.

Resumindo: há uma substância argumentativa que é irredutível ao contexto histórico, sociológico e mesmo às patologias individuais de cada filósofo. O argumento ontológico como ingrediente do pensamento não está dependente do indivíduo Anselmo. Isto não significa, obviamente que o estudo histórico do argumento não faça sentido, claro que faz. Mas essencialmente o arguemento "é" qualquer coisa para lá de tudo isto. A filosofia seria impossível se este "algo" não existisse ou fosse redutível à sociologia.

Abraço
De Vitor Guerreiro a 7 de Novembro de 2007 às 20:55
Sobre a inquestionalidade:

"Todos os gatos são pardos
Todas as coisas pardas são fixes
Logo, os gatos são fixes"

A validade deste silogismo é inquestionável. A verdade das premissas é mais que duvidosa. A cogência do argumento ficou mais que questionada. A sua relevância idem.

Há que ter cuidado com o sentido preciso das nossas palavras. O Sergei Eisenstein disse algo muito giro "As palavras são mais inteligentes que as pessoas" e de facto, nas nossas palavras muito há que passa pela porta do cavalo, sem que reparemos. A filosofia consiste precisamente num esforço de tornar explícito o que regra geral passa despercebido pela porta do cavalo.

Dificilmente é "heterodoxa" a ideia de que a ciência é um triablismo ocidental. O relativismo tornou-se tão ortodoxo como certas atitudes em palco desde que o rock se tornou mera indústria. Hoje um cantor pop é irreverente QUANDO se atreve a não dizer "foda-se". Chegou a esse ponto.

O que a universidade falha em passar aos estudantes é o valor do espírito crítico. O que eu vi nos meus anos de estudo foi que os alunos tendem a adoptar o estilo que mais vai ao encontro das pancadas do professor, mesmo que falem mal dele nos corredores, e os professores ficam todos contentes se o seu aluno sabe o que disse o Santo Agostinho na página 7 do Da Felicidade.

Ser "heterodoxo" ou "ortodoxo" é algo de neutro quanto ao valor intrínseco das proposições ou pensamentos.

E pronto... cá andamos.
De rolandoa a 9 de Novembro de 2007 às 15:57
Vitor,
atenção ao que o Eisenstein andou a dizer, porque ele não estava a falar de lógica :-) No caso, trata-se de validade dedutiva e, nessa, o que conta é a conexão entre premissas e conclusão independentemente da verdade das proposições.
abraço
Rolando
De Wilson Ramiro a 3 de Agosto de 2008 às 01:58
A lucidez do Bispo de Cantuária é sublime, se nada mais além de mim existisse, eu seria Deus.
De vitor a 7 de Fevereiro de 2009 às 14:27
Existem 2 possbilidades para o argumento de Anselmo:

- Ou a ilha existe realmente, e ela terá de ser a mais perfeita por definições de perfeição a serem consideradas. Onde haveria um problema pois a palavra perfeição não necessaraimente atribui valor máximo a um quesito, e mesmo que assim o fizesse, pode exclior este valor máximo de um quesito auto-excludente, que poderia ser uma forma de avaliação de perfeição para outros pontos de vista. Ex: a ilha é perfeita por possuir a maior faixa de areia, mas logo exclui a possibilidade de ser perfeita por possuir a menor faixa de areia.
- Logo, por ser infundada a perfeição sob um aspecto universal, já que quesitos para a existência real são auto-excludentes, a idéia de perfeição atribuída a Deus fica necessariamente carente de não existência real, em uma concepção humana de realidade. Logo, afirmar que Deus é perfeito, traz somente a idéia de que ele como sendo causa (e agora pensando em Deus como originalidade causal) de tudo o que há, pode perfeitamente este, possuir todas as características, mutáveis ou não, reunidas enquanto potencial causal, não sendo necessariamente algo de qualidades comparáveis por possuir todas as características. Ao que se dá ao seu valor oni, e ao mesmo tempo a soma de tudo e parte de tudo. Logo, afirmar que algo é maior que Deus, seria o mesmo que afirmar que parte de tudo o que há (Deus) é maior que uma outra parte (Deus também), quando na verdade possuem apenas características distintas, que são avaliadas comparativamente de acordo com padrões de existência de cada espécie (no caso o homem). E as vezes mesmo dentro de uma mesma espécie existem padrões distintos.
Esta é uma conclusão óbvia do pensamento lógico causal. Se estivéssemos a par de um pensamento causal lógico (ligação sequencial de idéias), poderíamos afirmar que as coisas subitamente são, podendo ter existência de inúmeras formas, sem causas, o que tornaria tudo materialmente intangível, e não interferível, o que para nós talvez não seja cabível. Logicamente também podemos atribuir a existencia de mais de uma fonte causal, que porém se tornam um só sistema de iteração ao compartilharem de uma mesma realidade concreta (mesmo que os resultados disto sejam distintos nas realidades abstratas, ou até mesmo concretas). Logo, para o que conhecemos, as coisas se comportam como um só corpo universal, que em iteração consigo mesmo pode ter a regência de um ou mais parâmetros de existência (e isso é totalmente aceitável, talvez até necessário), mesmo que com inúmeros graus de liberdade finitizados. Então seria este ser ou seres regentes o paramtero ditado de toda a existencia, sendo ele(s) a propria perfeição, origem e causa de tudo o que é, e continua sendo, ao englobar todas as possibilidades, estando assim "fora" do tempo.

Abs

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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