Quarta-feira, 24 de Outubro de 2007

Circulo de Viena

Atrevo-me a fazer três citações da introdução deste volume organizado por António Zilhão:
«O sucesso da “filosofia analítica” no mundo anglo-saxónico teve, porém, duas indesejáveis consequências na Europa Continental. Levou, por um lado, ao surgimento e difusão do preconceito de acordo com o qual este tipo de pensamento seria especificamente anglo- saxónico. A preponderância deste preconceito alimentou, por sua vez, um mito devastador: o de que a manutenção da especificidade cultural dos países do continente europeu passaria pela adopção de uma abordagem dos problemas filosóficos centrada na recuperação de uma terminologia arcaica, completamente desenquadrada dos esquemas conceptuais que, com enorme esforço, foram desenvolvidos pelo melhor pensamento científico e filosófico europeu e norte americano nos últimos 100 anos. Curiosamente, tanto a força do preconceito como a crença no mito acima identificados tem sido igualmente alimentados por praticantes da “filosofia analítica”, que extraem consideráveis vantagens académicas e pessoais do poder nepotista que o estatuto oficioso de chefes de seita lhes confere.
Rolando Almeida

(…)
Mas, na realidade, tal como o grande impulso que, na segunda metade do Século XVIII, levou Kant à redacção da Crítica da Razão Pura foi o de responder à necessidade de enquadrar filosoficamente a grande revolução científica empreendida por Newton na física clássica, também o impulso que motivou Schlick a empenhar-se no movimento de renovação filosófica que deu origem ao surgimento do Círculo de Viena e que iria conduzir ao seu próprio assassinato foi o de responder à necessidade de enquadrar filosoficamente a revolução científica empreendida por Einstein com o desenvolvimento da teoria da Relatividade há já 100 anos.
(…)
Com os parágrafos anteriores não se pretendeu oferecer ao leitor um epítome da história da filosofia europeia da primeira metade do século XX, mas apenas contribuir para tornar claro que o surgimento e desenvolvimento do programa filosófico protagonizado pelos filósofos do Circulo de Viena (e também de Berlim e Cambridge) constituiu um prolongamento natural do que de melhor foi produzido pela tradição filosófica e científica no continente europeu desde o Renascimento. Neste sentido, sessenta anos depois do final da segunda guerra mundial e do regresso da normalidade institucional ao mundo ocidental, creio não ser completamente injustificada a esperança de que este volume contribua para a dissolução do preconceito e para o fim do mito acima identificados nos países de língua portuguesa».
pp. 16,17 e 20
A divulgação de obras introdutórias nas diversas áreas da filosofia tem sido um dos maiores propósitos deste blog. Esta obra da qual fiz estas citações não é propriamente uma obra que interesse ao público em geral ou ao público da filosofia no ensino secundário. De todo o modo cabe aqui a divulgação principalmente por uma razão: no volume é incluído o texto Manifesto do Circulo de Viena, publicado em 1929, por Rudolf Carnap, Otto Neurath e Hans Hahn. Para além de ser de leitura muito agradável, nele se expõe os principais intentos do Círculo de Viena e da concepção anti metafísica do mundo. Claro está que o texto está datado e deve ser lido com interesse histórico, mas ao mesmo tempo como um dos marcos da viragem filosófica, desde o idealismo, ao que hoje temos como filosofia analítica. Depois da edição do Manifesto a filosofia analítica desenvolveu-se de uma forma sofisticada e surpreendente, sendo que, curiosamente, uma das áreas que maiores progressos apresentou foi precisamente a metafísica. Neste sentido, talvez hoje em dia, para apresentar a filosofia ao público da filosofia em Portugal, a edição e tradução do Manifesto não seja muito feliz. Seria muito mais interessante a tradução e publicação, por exemplo, da antologia de textos de filosofia analítica compilados por A. P. Martinich e David Sosa (ed. Blackwell). Teria interesse não só como divulgação da filosofia analítica em Portugal, bem como para potenciais investigadores e o público ficaria muito mais agradecido. Se uma das finalidades é divulgar as potencialidades da filosofia analítica em língua portuguesa, creio que a escolha dos ensaios não é a melhor, ainda que o conteúdo dos mesmos seja de qualidade indiscutível. Com efeito, não sendo a melhor obra que nos introduz à filosofia analítica, é resultado de um esforço conjunto e que, ainda assim, nos abre algumas portas importantes na nossa língua. Seria desejável a continuação deste projecto divulgando e traduzindo também obras de interesse mais geral.
A edição é resultado do apoio da Fundação para a Ciência e Tecnologia, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Este projecto esteve sediado entre 2001 e 2003 no Centro de Linguagem, Lógica e Cognição da Sociedade Portuguesa de Filosofia.
Do Círculo de Viena à Filosofia Contemporânea, (Coord. Por António Zilhão), Livros de Areia Ed., 2007


publicado por rolandoa às 18:41

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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