Sábado, 20 de Outubro de 2007

É a Formiga Z filósofa?

Não é talvez de muito bom gosto escrever no blog descrevendo aspectos da minha vida privada. Mas este que a seguir relato reveste-se de particular interesse para o ensino da filosofia no ensino secundário. Esta sexta feira, passei de visita por casa de um amigo que é colega de filosofia. Na escola onde trabalha, o manual que tem adoptado recomenda, para o módulo inicial, «Abordagem introdutória à Filosofia e ao filosofar», a exibição do filme de 1998, de Eric Darnell e Tim Johnson, A formiga Z. Como nunca tinha visto o filme perguntei ao meu amigo e colega se o tinha e se mo emprestava para o visionar e perceber, então, o que dali poderia retirar para a minha disciplina. 
Rolando Almeida
Por hábito não exibo filmes nas aulas de filosofia, mas, quem sabe, não me escapava um filme que tivesse relevância filosófica, ao levantar tão bem os problemas, mostrando-os de forma problemática e discutível, como por exemplo, acontece na primeira saga do Matrix (Warner, 1999). Bem, quando saí da casa do amigo, a minha esposa, cuja formação académica anda algo distante da reflexão filosófica, questionou-me: “já vi esse filme no cinema assim que saiu e não entendo o que é que possa ter a ver com a filosofia”. Poderia ter-lhe oferecido daquelas respostas muito típicas e tópicas que aparecem nos manuais e que muitas vezes resultam das aulas de filosofia, “a filosofia tem a ver com tudo, com a totalidade do real”. A experiência mostra-me que as pessoas, regra geral, não se satisfazem com este tipo de respostas. O raciocínio mostra-me, sem grande esforço, que este tipo de respostas são absolutamente imbecis e em nada dignificam a filosofia. De repente uma pessoa pode pôr-se a pensar que a filosofia tem tanto a ver com as batatas que estou a preparar para o jantar, como com o novo telemóvel que comprei. Porque, afinal, tem a ver com tudo o que existe de real, com a totalidade do real. Neste sentido é pois verdade que a filosofia tem a ver com a formiga Z, com as consolas de jogos e com os iogurtes de banana. Ok! Obrigado professor de filosofia. Agora sei que a filosofia é uma grande treta. Tem a ver com tudo, é radical e tudo. Basta-me ver a Formiga Z e já estou mesmo a ver com toda a nitidez os grandes problemas filosóficos.
Como comecei a ver a história da formiguinha herói um pouco tarde, a minha esposa acabou por adormecer. Mas eu vi o filme até ao fim, até porque é um filme muito simpático e doutrinário q.b. Hoje mesmo, pela manhã, a minha esposa questionando-me sobre se tinha visto o filme até ao fim, mostrou curiosidade em saber o que raio tinha a ver o filme com a filosofia? Tive de lhe responder que ela tinha feito um bom reparo, que o filme não tem nada a ver com os principais e mais gerais problemas da filosofia (quanto mais com os mais específicos, a menos que alguém se revele capaz de estudar o Dasein na colónia de formiguinhas do filme). Mas a minha esposa, que até nem é de filosofia, questionou-me qual a razão de um manual recomendar um filme que não tem nada a ver com a filosofia? Pois é! É mesmo muito difícil explicar tudo num minuto. Lá teria de explicar uma série de problemas complicados:
1º o que permite o sistema educativo baseado no eduquês.
2º a forma como se concebem manuais escolares.
3º a própria má concepção do que possa ser a filosofia, que por aí anda.
Neste sentido é bem verdade que o filme levanta uma série de problemas, mas não problemas filosóficos.
Mas, voltando ao filme. Vamos lá tentar perceber o que é o que o filme tem a ver com os problemas da filosofia. No referido manual, é exposta a ficha técnica do filme e dá-se uma explicação que tem tanto de breve como de confusa e vaga, de que podemos reflectir a partir do visionamento de um quadro, uma música, peça de teatro, etc… não esqueçamos que se está a escrever e comunicar com jovens de 15 anos (o manual é para o 10º ano). Diz-se que, através do visionamento do filme vamos simultaneamente:
“ aprofundar a nossa compreensão da natureza da filosofia” (p.30)
Fazer a iniciação do trabalho filosófico, treinando a metodologia” (p.30)
Garanto que a única coisa que o filme me despertou foi:
- A voz fantástica e sui generis de Woody Allen na Formiga Z;
- Dançar o «Guantanamera, Maria Guantanemera».
Pelo filme não aprofundei a minha visão da filosofia, nem me iniciei no trabalho filosófico. Isso faço-o com os textos filosóficos e com os seus problemas. Para que preciso da formiga Z? Mas tenho de confessar que não descarto a possibilidade de se aprender muita filosofia com o Gato Fedorento. Pelo menos a reflectir sobre a postura que às vezes mantemos sobre o mundo, os outros, nós mesmos e a educação que proporcionamos aos nossos jovens. Talvez seja por essa razão que em Portugal se fazem manuais escolares de filosofia que mais se assemelham a livros de poesia (má poesia, por sinal) e listas de referências de melhores filmes, melhores livros de literatura, melhores pintores, associações de defesa disto e daquilo, etc… tenho visto coisas de arrepiar. E o pior de tudo é que estas listas aparecem onde deviam aparecer os problemas da filosofia. Imagine lá o leitor que abria um livro de Física e via que os autores sugerem que se veja o filme x para ver como as coisas às vezes caem, que é para se iniciar no estudo da lei da gravidade, mas ao mesmo tempo não lhe mostra qualquer calculo que indique e prove o que se está a dizer? Pois este absurdo acontece nos livros de filosofia para o ensino secundário. Qualquer pai sério, se abrir determinados manuais de filosofia do secundário, ficará abismado com o que o filho anda (ou não anda) a estudar. Tudo isto a somar com o que de pouco filosófico ainda aparece, numa boa parte das vezes, aparece com erros e resta então perguntar se não vale mesmo a pena acabar com a disciplina de uma vez por todas?
Mas voltando à simpática formiga filósofa. O mais hilariante de tudo é o guião proposto pelos autores do manual que, resumidamente, nos dá estas indicações:
 
“1- prestar atenção às características da Formiga Z:
- atitude perante a vida (acomodado/satisfeito/conformado/revoltado/submisso/irreverente/inseguro)”
Mais à frente, pede para:
 
2. Caracterização do general Mandible (se é honesto, ambicioso, etc….) (…)
5. qual o significado da afirmação da AntZ no final do filme: «encontrei o meu lugar. É exactamente o mesmo. Mas desta vez fui eu que escolhi».
 
E passa-se à leitura filosófica do filme (dizem os autores do manual):
 
a) identificar o tema;
b) identificar o problema;
c) identificar a tese ou teses do autor” (que autor, pergunto eu? Que teses?)
“d) identificar os argumentos em confronto” (que argumentos, pergunto eu???)
 
Mas o mais interessante está para vir, quando, no ponto b) (p.31), os autores abordam o problema do filme. Repare-se:
 
Podemos formular vários problemas:
- o problema da possibilidade do indivíduo transformar a sociedade” (nota minha: e este é um problema da filosofia? Ou da sociologia?)
“- o problema da liberdade individual
- o problema da relação indivíduo / sociedade
- o problema da guerra e da paz
 
O que é que há de interessante nisto? É que o único indício de problema filosófico que o filme pode apresentar, os autores do manual nem sequer referem, que é precisamente o problema filosófico do sentido da vida. Claro que os autores poderiam justificar-se com aquilo que referi no início deste texto, que perguntar pela relação entre o indivíduo e a sociedade é perguntar pelo sentido da vida, etc… mas nesse caso estaríamos de novo num terreno que é muito escorregadio para aprender filosofia, que aquele onde o vale tudo é a regra dominante. Isto é pura invenção do que é a filosofia. E a minha esposa tem razão na sua inquietação. O filme nem levanta problemas filosóficos nem é possível aprender filosofia com o visionamento deste filme. Com tanta preocupação no tempo que um professor tem disponível para cumprir o programa da disciplina, ganha o professor que pura e simplesmente ignora a sugestão do manual. Ela é uma pura perda de tempo para a disciplina e não exige nem treino intelectual nem o que quer que seja que se pareça com a filosofia. E o mais interessante é que este é o tipo de exercícios proposto no manual de filosofia mais adoptado no país.
De salientar que a proposta de exploração do filme aparece em opção.
O manual referido é o Pensar Azul (Texto Editores, 2007)
 

 
publicado por rolandoa às 20:09

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46 comentários:
De incógnito a 23 de Outubro de 2007 às 21:20
Não concordo com algumas coisas que disse no seu blog sobre o filme "Formiga Z". Penso que o filme não tem a pretensão de ser um filme para estudantes de filosofia e muito menos seu objectivo o de ser "filosófico", ou mesmo aprofundar a visão filosófica de quem o veja.
O filme conta a história de um ser que assume constantemente a atitude filosófica crítica, problematizante e argumentativa, e por se tratar de uma "formiguinha", como faz referência, apenas tem mais piada para um público jovem, mas nem por isso destituido. Também o gato fedorento utiliza o humor para as suas críticas... mas nem por isso a sua argumentação deixa de ser interessante ou válida.
Acho que não será "pecado" utilizar o filme como instrumento de análise da actitude filosófica e de argumentação, nem o livro ou mesmo os seus autores merecem tamanha desmoralização. Parabéns pelo seu blog, tem aspectos muito interessantes, mas, também não considero de bom gosto que utilize o blog para denegrir assim um manual que com certeza deverá ter algo de bom.
De rolandoa a 23 de Outubro de 2007 às 22:29
caro Incógnito,
Antes de tudo obrigado pelas suas palavras. A minha intenção não é denegrir um manual, feito por colegas meus com muitos anos de expriência e que reunem muitas competêdncias. Mas também não pretendo que um manual possa denegrir a filosofia e o seu ensino. E é facto que o manual em causa não é dos piores que por aí andam, porque andam por aí manuais muito mas muito maus. Agora, parece-me natural que muitos manuais tenham opções menos felizes.
É claro que a Formiga Z ou o Gato Fedorento podem usar textos argumentativos e até muito engraçados, mas daí a confundi-los com a filosofia parece-me abusado e é isso que acabo por defender no meu texto. Creio que estas opções se increvem facilmente na pedagogia do Eduquês. O Gato Fedorento não precisa de ir a outras áreas que não o humor para fazer humor, para que é que a filosofia tem constantemente de ir a outras àreas para ensinar filosofia? É que existem textos dos filósofos tão interessantes. Qual a necessidade de ir buscar os problemas de forma velada aos filmes?
Em relação ao filme daformiguinha propriamente dito, como referi no texto, não vislumbrei lá qualquer problema filosófico. De resto basta pegar na sugestão que os autores dão para exploração do filme e podemos aplicar a mesma fórmula à maior parte dos filmes que vemos. E isso é fazer filosofia ou a melhor forma de aprender? Ora bem, de certeza que se fica com uma ideia vaga e confusa do que seja a filosofia. E defendo que isso não é desejável, a bem da dignidade do saber e da ciência, no caso, da filosofia.
Abraço e obrigado
Rolando Almeida
De Martin Ramirez a 4 de Dezembro de 2010 às 16:36

O Livro é muito bom e filosófico bem como o próprio manual, que é da minha autoria. Por isso fim da discussão!
De jacintoleite a 24 de Outubro de 2007 às 12:29
não deixe que a emoção ou a ligação a uma certa editora (que não passa desapercebida a ninguém) o deixem cair em contradição sr. rolando. Então a filosofia não tem necessidade de ir buscar coisas a outras áreas? Então os livros que o sr. aconselha da filosofia e os metallica ou os super-heróis, entre muitos outros, são o quê? Pelo menos alguma coerência.

jacinto leite
De rolandoa a 24 de Outubro de 2007 às 16:10
Caro Jacinto,
Obrigado pela visita. Os livros que recomendo não se destinam a ensinar filosofia no ensino secundário, mas a divulgá-la a um público que, na maioria das vezes, nem sequer teve a oportunidade de estudar filosofia. O caso dos manuais é diferente pelo que não vejo a incoerência que me aponta. O manual A Arte de Pensar (pode chamar as coisas pelos nomes) que muito tenho elogiado, merece o meu destaque não pela emoção que me provoca em ver um trabalho bem feito (que é verdade! em alguns anos de ensino não tinha ainda encontrado um trabalho de qualidade comparável), mas mais pelas competências que reune. E, se pegar no Arte de Pensar - já que fala nele - vai poder observar que nele a filosofia se ensina com rigor sem necessidade de apendices vagos e inconsequentes. Em relação à editora, pelo menos a mim, é-me igual se um bom manual é publicado pela editora X ou Y. Tenho bons amigos que fazem manuais de filosofia (que não o arte), mas ainda não possuo amizades com pessoas ligadas às editoras o que, pelo menos em Portugal e para as nossas cabeças, me dá uma boa margem de imparcialidade. Só mais um aspecto: refiro no meu artigo que o manual Pensar Azul é dos melhores manuais que temos no mercado. Apesar de tudo não o considero o melhor e não creio que ofereça melhores razões que outros que tenho referido para ser o mais adoptado. mas existirá algum problema nesta minha defesa? É que na realidade o defendo abertamente e publicamente, mas faço-o num blog pessoal onde somente exprimo a minha opinião, sem outros prejuízos. O Jacinto pode fazer um blog para defender as suas ideias e será, pela minha parte, bem vindo.
Só mais um aspecto. Por regra, provavelmente por ser diferente, o manual que mais aprecio é também aquele que tem reunido menos consenso nos últimos anos no que ao ensino da filosofia respeita e nem daí julgo os ataques como ofensas pessoais ou defesas de editoras. Imagine agora que eu pensava que o Jacinto quer é defender a editora x e atacar, por essa razão, a editora y, avaliando-o pelo seu comentário. Acharia justo?
Abraço
Rolando Almeida
De rolandoa a 24 de Outubro de 2007 às 18:58
Jacinto,
reli o seu comentário e, na verdade, compreendi as voltas que tentou dar para derrubar o meu texto. Com efeito fiquei com uma dúvida especial e gostaria que lhe respondesse: existe, intrinsecamente, algum problema em um professor se entusiasmar com um projecto bem feito, no caso, com capacidades superiores aos seus congéneres? Se existe, qual é esse problema? Não é esta realidade desejável até?
Obrigado
Rolando A
De Anónimo a 24 de Outubro de 2007 às 22:33
Olá, Rolando. Reforçando o juízo que aqui fizeste sobre a proposta de actividade desse manual, paraece-me que o problema começa logo nos inúmeros veios de exploração que generosamente sugere: "Podemos formular vários problemas..." (e exemplifica 4). Isto é: independentemente dos problemas que, naquele momento do percurso, se estejam efectivamente a abordar, sugere-se 1) que o trabalho filosófico (ou o aprazível e sempre edificante diálogo convivencial, supõem dedcerto os autores dessas propostas) deve ramificar-se livremente, que deve ser atento a todos os estímulos, numa espécie de hospitalidade panfilosófica que tudo posde abarcar; e 2) que, para se surprender e captar todos os tesouros de um filme tão rico como "A Formiga Z" é preciso ver o fime todo. Deixando isto, aproveito para te indicar dois filmes (que me ocorreram ao ler o teu post) que, na minha opinião, contêm problemas filosóficos: "Acordar para a Vida" (realizado por Richard Linklater, que já deves conhecer, e que é uma 'trip' filosfófica) e "Sem Notícias de Deus" (realizado por Agustín Díaz Yanes), cujo prólogo é uma boa introdução ao problema do mal (seria conveniente, no entanto, ver mais alguns capítulos deste filme).
Abraço.

Paulo Lopes
De Anónimo a 24 de Outubro de 2007 às 22:39
Rolando, peço desculpa, mas não sabia (e ainda não sei) como fazer para não aparecer 'anónimo' no cabeçalho.
De rolandoa a 24 de Outubro de 2007 às 22:53
Olá Paulo,
Antes de tudo bem vindo aos comentários e obrigado pela passagem. Esse problema que focas é um dos mais perigosos que existem no ensino da filosofia ou de qualquer saber, que é cair facilmente no saco roto do vale tudo. Insisto que, ainda assim, o manual em questão não é, neste sentido, dos piores. Mas tem coisas claramente inconsistentes e tenta fazer pontes onde elas não existem. O exemplo escolhido é manifestamente pobre e infeliz enão possui qualquer interesse para se aprender nem filosofia, nem a metodologia da filosofia que é por execelência dada pela lógica.
Infelizmente não conheço os filmes que referes mas vou pesquisar. Obrigado pelas referências.
Em relação ao anonimato os blogs do sapo funcionam como os da blogspot. Se temos blog criado aparece a nossa assinatura, senão assinamos tal qual fizeste, no final do texto. Assino no final dos comentários nos blogs da blogspot porque nunca criei lá nenhum blog.
abraço
Rolando A
De Anónimo a 4 de Novembro de 2007 às 20:04
Olá, Rolando.
Obrigado pela indicação sobre a identificação e assinatura nos comentários! (Esta é uma reacção tardia, mas não tenho andado por aqui pela Net.)

Abraço.

Paulo Lopes
De rolandoa a 4 de Novembro de 2007 às 21:01
Paulo,
Ok e abraço
Volta sempre
Rolando
De rui silva a 29 de Outubro de 2007 às 15:40
Não se diz "a minha esposa"! É de muito mau tom e tremendamente provinciano
De rolandoa a 29 de Outubro de 2007 às 18:48
Caro Rui,
Ainda não pretendo candidatar-me a prémio nóbel da literatura. "Esposa" significa tão somente "mulher casada ou que está para casar". Não vejo onde está o provincianismo. Provinciano é o Rui acusar-me de provinciano sem, com efeito, dizer porquê. apeteceu-lhe? Repare: eu também acho muito típico do provincianismo português a mania de nos andarmos sempre a insultar em vez de emendar. A menos que a partir de hoje eu possa dizer que não se diz "minha esposa" porque o Rui acha provinciano. Mas que raio de conversa!
Rolando Almeida
De rolandoa a 30 de Outubro de 2007 às 21:14
Ainda para Rui Silva,
Por cliquei no seu nome e acedi ao seu blog. Eis o que li:
"este blog foi criado por mim Rui Silva , para falar um pouco de mim. e postar umas musicas para você ouvir , hehehe..."
Ora bem, para quem diz, erradamente, que "minha esposa" é provinciano, que dizer do uso recorrente do "você". Caro Rui, por regra não me interesso por discussões como aquela que o Rui suscitou, mas, bolas, quem tem telhados de vidro não atira pedras ao vizinho. Está a ver no que dá...
Rolando Almeida
De Vitor Guerreiro a 31 de Outubro de 2007 às 11:29
Um comentário lateral (são todos não?)

Não é curiosa esta tendência para dar nomes a manuais de filosofia como "Pensar Azul"... o azul, o cerúleo, as nuvens, o céu, o sideral... enfim. Lembro-me de um manual da Porto Editora que abre com nomes de vários filósofos inscritos em simpáticas nuvens que pairam por duas páginas, esparsas como sacos de vento sobre o éter da imaginação.

A mim pessoalmente irritam-me as mensagens subliminares que se passam aos miúdos. Este bacoquismo pseudo-platónico de assimilar tudo o que é filosófico ao céu, às nuvens e a tudo o que tem a tendência para andar no ar, como algumas cabeças.

Concordo com a crítica feita aos pressupostos metodológicos (se é que lhes podemos chamar isso) do livro em causa, pelo menos no que se refere ao "exercício" de leitura filosófica do filme. Não que o filme em si seja mentecapto, mas esse enunciado é profundamente mentecapto. Para já, fico imediatamente com suspeitas de quem escreve coisas como "liberdade individual" junto a "relação individuo/sociedade". Isto são pessoas que saem da faculdade e continuam com a mesma sopa de ideias vagas na cabeça que tinham ao entrar para o primeiro ano. A única coisa que foram fazer à faculdade foi aprender uma carrada de nomes esquisitos para citar e parecer muito espertos. Isso e estilos de parafraseado, neologismos idiotas que funcionam pior que uma palavra trivial e outras cacofonias de arranhar o giz na ardósia.

O filme tem um aspecto interessante, se bem me lembro: a revolta processa-se sempre de modo que nunca põe em causa a própria estrutura política da comunidade. A revolta, a guerra, é para o exterior. A guerra interior, ou seja, a "ordem", essa é vivida em silêncio. O final do filme tem uma mensagem profundamente conservadora. "Agora já sei o meu lugar, mas desta vez fui eu que o escolhi." Literalmente, estamos no famoso oxímoro de Santo Agostinho: só na submissão há ordem somos verdadeiramente livres. De facto há lá muita coisa que podíamos pensar filosoficamente, mas isso não significa que o filme em si seja qualquer tipo de introdução à filosofia. Não o é mais que um panfleto político qualquer: tem elementos que podem ser abordados por um filósofo, mas e daí?

Abraço
De Vitor Guerreiro a 31 de Outubro de 2007 às 11:35
Eh pa, raios. Desculpem lá o "há" ali a seguir ao Santo Agostinho. Não reli antes de "postar".
De Vitor Guerreiro a 31 de Outubro de 2007 às 11:40
Ok, e troque-se o "profundamente" por "deveras". Esta coisa devia ter um editor das mensagens... ou eu devia parar de escrever tão depressa como falo.

Abraço
De rolandoa a 3 de Novembro de 2007 às 21:38
Vitor,
Não tenho nada contra o filme da formiguinha, apesar de não o ter apreciado por aí além. Só não vejo que seja pedagogicamente certa a ideia de que se pode aprender filosofia a partir dali. Mas isto acontece por causa das teorias da treta do «eduquês», de que tem de existir uma aprendizagem centrada, etc.. E isto, em Portugal, é levado à letra. Mas que raios... sendo a filosofia tão rica, hoje em dia com milhares de livros interessantes dos filósofos, é preciso arrancar o seu ensino com a formiga z??? Depois, a minha experiência, diz-me que os alunos até simpatizam com estes filmes e opções, mas o que eles gostam mesmo é de aprender filosofia séria, sem formalismos nem linguagens desadequadas para a idade deles. Mas em Portugal caiu-se no erro de tratar os adolescentes como uns imbecis que não são capazes de mais. E um país que não confia nas capacidades dos seus jovens, é um país tirano condenado ao fracasso. Enfim... Infelizemente, muitos autores de manuais, em vez de se aperceberem desta realidade e defenderem a sua disciplina com unhas e dentes, fazem o contrário, cedem, fazem uns manuais da caca para ganhar uns trocos para um automóvel novo e deixam o ensino da disciplina numa miséria que é o que se vê. Eu, não sendo dono da verdade, não mantenho essa atitude nem postura, até porque, a filosofia tamém é o meu ganha pão e não quero ir para uma sala de aula com conversa fiada. Não me faz feliz!
Abraço
Thanks pelos comentários
Rolando A
De Vitor Guerreiro a 6 de Novembro de 2007 às 10:47
Quando referi aquele aspecto do filme não foi para sugerir que é sequer possível aprender filosofia a partir dali. Aquilo foi precisamente para mostrar que é diferente poder fazer leituras das coisas e aprender com essas coisas, que são objecto de leitura, as ferramentas que possibilitam a própria leitura. Eu defendo a posição "conservadora" de que as coisas têm de ser feitas como deve ser, e não segundo as pancadas mais ou menos poéticas, mais ou menos liberais e mais ou menos acéfalas que assistem a este "paradigma" (para usar uma palavra que os idiotas adoram para parecer sofisticados) de educação, que em vez de conhecimento aposta nas "competências" (é preciso é jogo de cintura e manhoseira adaptativa, e não ciência: haverá algo pior que um político neo-democrata pós-moderno empalado numa gravata que se prolonga pelo sacana do cérebro dentro?).

Não se pintam paredes com rolos da tinta atados ao pau da vassoura. As paredes pintam-se depois dos tectos, de cima para baixo, com atenção aos recortes, no sentido dos ponteiros do relógio. Com preceito. Não há "paradigmas" pós modernos do pincél que venham cá ensinar como se esmaltam portas. Aprendi isto com o meu avô e na filosofia é o mesmo: as coisas fazem-se como deve ser. Se os pós modernos não gostam que vão fazer castelos de areia para se deleitarem uns aos outros, mas não lixem o ensino.

Se as coisas não se fazem como deve ser, o que segue não é a liberdade de pensamento, que é o que talvez bem intencionadamente pretendem alguns relatvistas pós modernaços. O que se segue é a verborreia oca.

Já falei demais. Abraço.
De carolina a 8 de Janeiro de 2008 às 18:50
quer dizer com este texto que perguntas como Quem somos? Que papel temos na sociedade? nao sao sao perguntas filosoficas, presumo... Perguntas que iniciam o pensamento filosofico...

Carolina
De rolandoa a 8 de Janeiro de 2008 às 20:50
Cara Carolina,
Que papel temos na sociedade é uma pergunta filosófica mal formulada. Que problema queremos saber concretamente quando questionamos isso? Papel social? Esse é um tema sociológico. Perguntar "quem somos?" é uma pergunta tão filosófica, quanto biológica ou antropológica. Não é exclusiva da filosofia. E foi isso que defendi no meu texto, que ele e o exercício proposto de tão vago que é, dá para uma boa conversa de café, menos para aprender a pensar filosoficamente, mesmo se usado com adolescentes.
Até breve
Rolando Almeida
De Nádia Paiva a 10 de Janeiro de 2008 às 20:38
Vim a internet pesquisar ajuda para fazer o trabalho... Exactamente esse trabalho, com exactamente as mesmas perguntas.
Ora, tudo o que está no último parágrafo do post confere com os meus pensamentos. Achei o filme completamente desadequado para uma aula de filosofia... já para não dizer que íamos adormecendo todos...
Talvez deste post arranje qualquer coisa que me ajude a provar que o filme é inútil para a aprendizagem da filosofia e consiga melhor nota. =)
Obrigada.
De rolandoa a 10 de Janeiro de 2008 às 21:21
Olá Nádia,
O teu comentário é muito curioso. Creio que se pensas mesmo que o filme não te leva a prender filosofia, deves assumi-lo e defender a tua posição. Para tal pede sempre ajuda ao teu professor ou professora.
Bom trabalho e felicidades
Obrigado pelo comentário
Rolando Almeida
De Sara a 7 de Outubro de 2008 às 16:31
Concordo com tudo o que escreveu.
Vim pesquisar pelas mesmas razoes q a Nádia e digo o mesmo que ela o filme tem tudo menos haver com a filosofia.
È uma pura perda de tempo. Acho que este null devia ser mostrados aos responsáveis , que escolhem filmes como estes para pensamentos filosóficos
Digo também, que o manual "Pensar azul", que é o meu manual este ano é também um manual que devia ser revisto.
Obrigado.
De rolandoa a 7 de Outubro de 2008 às 16:46
Sara,
Obrigado pelo teu testemunho. Ele é importante.
bom trabalho
De Raquel a 18 de Outubro de 2008 às 11:34
Concordo plenamente! Não sei o que é que isto tem a ver com filosofia! E por acaso tenho esse manual e tenho que responder a essas 4 questões e não sei o que vou fazer.
E para além disso filosofia não anda a servir para nada mesmo! Nem eu, nem nenhum dos meus colegas gosta da disciplina.
De rolandoa a 19 de Outubro de 2008 às 10:15
Olá Raquel,
Por contraste tens, por exemplo, os meus alunos. Eles não dizem que a filosofia não serve para nada. Já pensaste para que serve a matemática ou a química, biologia, etc.? Talvez venhas a descobrir que a filosofia não é assim tão inútil quanto dizes. Do facto de ter exposto um exercício de uma manual que me parece mais infeliz, daí não se segue que se conclua que a filosofia ou o exercício não servem para nada.
De MBBrito a 20 de Outubro de 2008 às 20:16
Caro prof. Rolando

Tive este ano pela primeira vez (pelo menos formalmente) a minha primeira experiência com a discilplina de filosofia.
O tão falado manual "pensar azul" é o meu manual desde ano, e devo dizer que, apesar da minha pouca experiência em manuais filosóficos, acho-o bastante completo(muitas vezes até demais) visto que a maior parte das vezes propões as perguntas, e responde às mesmas , o que ,a meu ver é um factor prejudicial ao desenvolvimento de qualquer aluno minimamente interessado.

Quanto ao filme "A formiga Z", penso que a única pergunta filosófica que poderia ser correctamente formulada através deste filme ,seria relacionada com questões axiológicas , do comportamento humano, dos valores humanos.


Termino assim com felicitações ao prof. Rolando porque pelo que li, parece-me ser um pedagogo de excelência e que incute nos seus alunos a capacidade (cada vez mais rara) de pensarem por eles próprios.

felicitações




Maria Beatriz Brito
De rolandoa a 20 de Outubro de 2008 às 21:17
Olá Maria Beatriz,
Obrigado pelas suas simpáticas palavras. O manual "pensar azul" tem, como todos os manuais, algumas limitações, mas é perfeitamente possível fazer um excelente trabalho com ele. O mais importante é aprender com gosto e, claro, que os professores ensinem com gosto. Estou certo que a Maria gostará da filosofia e aproveito para lhe desejar as maiores e melhores felicidades.

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Rolando Almeida


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