Quinta-feira, 18 de Outubro de 2007

A desilusão de deus

Uma das discussões mais actuais é a do criacionismo versus evolucionismo. Tradicionalmente as religiões pretendem transformar em indiscutível os problemas que são, pela sua natureza, racionalmente discutíveis, como o problema da existência de Deus. Uma das diferenças entre a filosofia e a religião é que ao passo que a filosofia discute o problema, a religião não o faz. E somente em épocas de falta de liberdade do pensamento é que os filósofos não se puderam dedicar ao problema de forma intelectualmente honesta. Não creio que Richard Dawkins pretenda discutir filosoficamente o problema, até porque se assume como um ateu convicto.
Rolando Almeida

O que é facto é que Dawkins, desde há umas décadas a este tempo, tem sido uma das vozes mais combativas anti criacionismo. O seu último livro, The god delusion, acaba de ser publicado em tradução portuguesa e promete, assim o espero, trazer a polémica para o circulo português. Esta discussão é bem necessária. Com efeito, em falta, está a tradução de uma boa introdução à filosofia da religião que, inacreditavelmente, não existe na nossa língua, o que nos deixa completamente coxos para discutir o problema, a menos que possamos ler noutra língua onde esses livros são publicados às centenas. A desilusão de deus é somente uma face da moeda, o ateísmo, ao passo que uma introdução à filosofia da religião nos apresentaria as duas faces da moeda. Depois porque Dawkins é biólogo e não filósofo, o que empobrece a discussão em torno dos argumentos mais clássicos da filosofia. Ainda assim esta tradução merece todo o destaque, seguida de uma outra, O fim da fé, obra do norte americano Sam Harris (Tinta da China, 2006), este sim, proveniente da filosofia, embora nos ofereça tal como Dawkins somente uma face da moeda. O que se perde a começar a compreender o problema a partir da obra de Dawkins ou Harris é precisamente o essencial do problema, que é a sua discutibilidade. Por essa razão, ler Dawkins ou Harris merece muito mais a nossa atenção se tivéssemos lido antes uma boa introdução ao problema. E não é por falta deste tipo de obras, principalmente em língua inglesa. Aparte este apontamento, a obra de Dawkins é recomendável. Fazendo uso de um discurso claro, Dawkins expõe no seu livro como é que é possível ser ateu e ao mesmo tempo feliz. Seguindo o in memoriam no início do livro, «Não basta ver que um jardim é belo sem ter de acreditar que lá no fundo também esconde fadas?» Entre muitos outros aspectos, o biólogo mostra-nos também porque é que uma criança não tem liberdade religiosa, mas sim doutrinação. O livro é fulminante, principalmente para um crente. Claro está que o criacionismo jamais admite deixar a sua posição à liberdade da discussão intelectual e, por essa razão, penso, fica sempre em desvantagem.
A Desilusão de Deus é uma leitura urgente e ainda bem que foi publicado na nossa língua. De salientar que a Gradiva tem publicado outras obras do biólogo inglês, este combatente do criacionismo, um dos maiores obstáculos ao progresso científico e cultural.
Richard Dawkins, A desilusão de deus, Casa das Letras, 2007 (trad. De Lígia Rodrigues e Maria João Camilo)
Nota Final: sem querer meter-me por territórios em que não reuno grandes competências, penso que a melhor tradução seria , A delusão de deus, sendo que delusão significa logro, mentira. Ainda assim o autor faz uma nota sobre o termo no prefácio à obra e provavelmente a opção em português por Desilusão pode prender-se por razões comerciais, visto que a palavra delusão não é tão comum.


publicado por rolandoa às 20:37

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32 comentários:
De pedro a 22 de Outubro de 2007 às 18:24
"Ilusão" também servia.
De João a 22 de Outubro de 2007 às 19:31
Ao aperceber-me que tinham publicado o livro em português, tive logo que ir ver o título para ver a palavra que tinham escolhido para "Delusion".
Logo encontrei "Desilusão".
De repente senti que a tradução tinha ido por água abaixo. Desilusão, na minha cabeça, e provavelmente na mente de muita gente quando passar os olhos pela capa, significa 'desapontamento', como em :
"O filme foi uma desilusão."
A escolha desta palavra para este livro faz parecer que Deus está desapontado, e provavelmente as pessoas pegam nele para ver porque é que Deus está desapontado.
Outra maneira de ler o título é "O cientista foi à procura de deus e não o encontrou, e isso para ele foi uma desilusão, um desapontamento."
Foi isto que me passou pela cabeça quando vi o título, mas conhecendo Dawkins, não haver deus é o oposto de desapontamento. E foi isto que me fez pensar "Vocês não perceberam a mensagem do livro, seus incompetentes!"
Mas claro, fui ver ao dicionário 'desilusão' e lá estava, pondo agora por palavras minhas "Ser tirado de uma ilusão."
Posto deste modo faz sentido a escolha da palavra.
"Ser tirado da ilusão de deus" seria um título comprido, mas agora acho que foi uma boa escolha de palavras.

O livro, obviamente transmite o que Dawkins escreveu, mas em português, o que para mim foi estranho e engraçado por ter lido o livro em inglês à um ano.
Fez-me atravessar as mesmas sensações de quando li o livro em inglês.
Pensava: "Nem acredito que tenha a coragem de dizer isto...mas é verdade." e ria-me.
O mesmo aconteceu com a versão portuguesa. Nem podia imaginar estar-se a dizer isto em português. Não é normal.
MAS DEVIA.
Estou para ver o impacto que este livro terá no país dos pastorinhos e do sol a dançar nos céus (que é mencionado no livro).

Acho que isto devia estar à frente de todos os livros nas livrarias.
É uma lufada de ar fresco.
Deviam também traduzir livros como "Breaking the Spell" por Daniel Dennett, "God is not great: How Religion Poisons Everything", por Christopher Hitchens e "The God Hypothesis: How Science shows that God does not exist" por Victor Stenger.

É quase impossível manter estes temas num ambiente filosófico, num livro, tendo em conta que estas fés e crenças têm um impacto importantíssimo no mundo de hoje.
É por isso que são best-sellers.
De rolandoa a 22 de Outubro de 2007 às 20:48
Caro João e Pedro,
Creio que a tradução pode ser imposição do editor e não opção dos tradutores. Em relação à tradução do livro em si não me pronuncio porque não li o original em inglês, mas já sabemos que possuimos uma má tradição em tradução.
O João refere boas obras que era urgente tê-las traduzidas. Em Portugal a discussão sobre matérias religiosas praticamente não existe no circuito universitário (ou em qualquer outro).
Obrigado aos dois pelos comentários
Rolando Almeida
De Vitor Guerreiro a 30 de Outubro de 2007 às 23:55
Caros J , P e R,

Gostaria de deixar dois comentários, ambos se prendem com a tradução do título do livro do Dawkins.

Estudei filosofia na flul mas depois de algumas reviravoltas pelo mercado de trabalho onde deambulei por áreas não relacionadas com a filosofia, acabei a traduzir livros do Inglês. Isto para dizer que sim, normalmente é o editor quem impõe o título e as razões prendem-se quer com o design gráfico, o título tem de funcionar graficamente, quer com questões comerciais. Por exemplo, um dos livros que traduzi foi o Blowing up Russia - the secret plot to bring back KGB terror" do Litvinenko . Foi a única parte do livro em que a minha tradução não ficou. O que ficou foi "Terror na Rússia - Revelações de um Ex Espião do KGB"... Percebem? Defeito principal do título português: apesar de "funcionar" na prateleira da livraria, para chamar a atenção, não diz o que o original diz, que o livro fala do papel do governo russo nos atentados que antecederam ambas as guerras da Tchetchenia.

O outro comentário prende-se com a delusão " e a "desilusão".
No original, God Delusion ", god " está a funcionar um pouco como analitical " em analitical philosophy " em em the god hypothesis ". De tal modo que podíamos talvez usar o adjectivo "divino". Quanto à delusão ", não estou seguro. delusion " tem uma implicação que "logro" não tem. É que falamos também em auto-engano, ou alucinação, por assim dizer. Talvez "ilusão" fosse o melhor.

Em todo o caso, a opção tomada na tradução parece-me má. Ainda por cima com aquela capa horrorosa que parece um exemplar da Sentinela. Algum repositor menos informado podia arrumá-lo no sector das espiritualidades bacocas, mesmo ao lado dos exercícios com bolas de luz da Alexandra.

Abraço
De rolandoa a 31 de Outubro de 2007 às 00:30
Caro Vitor,
Obrigado pelas indicações que são boas, principalmente vindas de alguém com experiência na matéria. Só tenho um reparo a fazer: a capa do livro segue, mais coisa, menos coisa, o original. E, de fecto, remete para aquela onda religiosa da iluminação divina. Creio que a ideia é que a capa funcione como uma ironia.
abraço e obrigado
Rolando
De Vitor Guerreiro a 31 de Outubro de 2007 às 12:35
De facto, essa intenção é clara. Não é que eu ache que não funciona. Não me agrada particularmente, mas o curioso é que me desagrada mais com o título em Português que em Inglês. Precisamente porque o Inglês é mais claro, a função de "god" é mais nítida.
Contudo, a palavra "desilusão" é má por várias razões. Parece que estamos a falar do "desencantamento" do mundo ou uma espécie de ressaca nietzscheana perante o facto que deus está morto. O intuito do Dawkins é precisamente outro, mostrar que deus, ou melhor, o discurso sobre deus e as pretensões ideológicas que o animam, está bem vivo, para mal dos nossos pecados, no mundo de hoje. Ainda assim, Dawikins é optimista: acha que é mais uma questão de os obscurantistas que já existiam fazerem mais barulho que antes. Eu não sou tão optimista, parece-me que o regresso ao obscurantismo está inscrito na dinâmica dos tempos. Repare-se na frase que justificava o Tratado para a Constituição Europeia: "é preciso falar a uma só voz, para termos voz no mundo". Isto é uma negação factual da democracia. É dizer que a democracia não funciona e que por isso é preciso uma voz única. O que é mais perverso é que isto é dito por "democratas" sem que se perceba sequer a contradição. Depois são os disparates conceptuais. A direita que se opõe ao federalismo apoia-se em argumentos "soberanistas" quando é óbvio que o princípio soberanista está do lado dos "europeístas"... Isto nada contribui para esclarecer as pessoas, só para fazer mais nuvens. As pessoas acabam por defender ou atacar o federalismo sem saber o porquê nem o como do que acreditam. O método português é seguinte: tudo o que vagamente parece ir ao encontro do que eu gosto então é um argumento para mim.

Estou a divagar. A ideia era dizer que está inscrito na dinâmica dos discursos que ouvimos por essas esquinas e cafés, saindo do televisor e do rádio. A eleição para Papa de uma pessoa que dirigiu a Congregação para a Doutrina da Fé, o tipo de frases que se usa para justificar decisões políticas, para não falar em todo o processo que levou à actual guerra no médio oriente... tudo isto são sinais claros de que o obscurantismo ainda promete.

É preciso cuidado com o conforto, com o cruzar de braços, com o olhar contemplativo que toma por certo as coisas que gostamos: liberdade de discussão, espaço público, racionalidade, argumentação, os valores da ciência e do pensamento crítico.

Nada disso é imune à agressão política por mera garantia de um poder mágico ou uma lei natural.

Abraço
De rolandoa a 31 de Outubro de 2007 às 16:32
Sem dúvida alguma que a monopolização do discurso constitui um perigo que devemos evitar. Mas, Vitor, que melhor podemos esperar do discurso político? Basta olhar para o discurso do Bush para perceber essa realidade. A propósito Peter Singer tem um livro fabuloso sobre as contradições éticas do Sr Bush. Creio que os políticos falam em "uma só voz"se estão a referir a muitos progressos, mas não todos os progressos humanos. Seria fabuloso ouvir um político falar da busaca da verdade e, aí sim, estaríamos todos juntos, sendo que por verdade entendo tão só a busca pelo conhecimento e o seu progresso.
Desde o holocausto que existe uma imensa literatura pessimista relativamente ao pensamento único. Mas estou em crer que esse medo é uma consequência algo idiota do terror deixado pelo regime Nazi. Depois surgiram todos aqueles discursos da morte das grandes narrativas, como se o nazismo fosse uma grande narrativa. O problema é que o nazismo e todos os regimes autoritários são a elevação máxima do relativismo, isto é da elevação ao poder do discurso subjectivo. Com isto quero dizer que pode haver uma espécie de trauma europeu sempre que se fala em estar unidos num grande empreendimento. Mas é necessária alguma cautela. Vamos supor que estou a falar de progresso, conhecimento ou distribuição justa da riqueza. Será que não posso falar em estarmos unidos numa visão de conjunto? Não é aceitável falar em felicidade para todos?
Abraço
Rolando A
De Vitor Guerreiro a 31 de Outubro de 2007 às 16:54
Bem, não sou optimista mas isso não implica que seja pessimista. Seria como ser anti-americano, é um disparate. Não sendo idealista, não posso ter uma "ideia" de inimigo nem muito menos ser inimigo da "ideia" de "América" ou de qualquer outra coisa.

Quando falei em sinais do tempo falo em pequenas coisas (ou não tão pequenas) que podem ser significativas ou preocupantes. Já não é com tanta facilidade que nos programas infantis vemos um personagem como o Guarda Serôdio, por exemplo, ou o tipo de ridicularização da autoridade que vemos em séries animadas (nao infantis) como os Simpsons. Hoje parece-me estar mais na moda um discurso fixado na autoridade, na unidade acima das diferenças. Mas claro, tem razão, esse discurso faz sempre parte do disparate político mas contudo repare: há 20 anos os políticos eram todos advogados. Hoje são quase sempre economistas ou engenheiros. Cai-se no erro de dizer que há um esvaziamento do discurso político ou uma substituição deste pelo discurso económico. O que acontece é que o discurso económico É o discurso político. Isto torna-se claro à medida que as guerras entre a esquerda e a direita se transformam num mero circo para entreter quem tem pachorra. Todos debatem limites dentro da mesma coisa e nada mais têm para dizer além de "nós governamos melhor isto", "nós lavamos mais branco que o Sonasol".

Para muita gente pelo mundo fora, o terror do discurso único não é apenas uma tontice dos políticos locais, mas algo de muito mais palpável e mortífero. Que o digam os países à porta de quem os mesmos políticos passam a vida a levar a guerra.

Não sou saudosista, nem sou dos que pensam que o mundo estava melhor sem o racionalismo ocidental. Isso porque as implicações desse discurso pseudo-irreverente são especialmente reaccionárias, embora os seus paladinos não o vejam assim.

Bem, tenho de apanhar um barco agora e o tempo para grandes narrativas já escasseia. Continuamos mais tarde a desmontagem do texto até ficarmos sem mundo...
De rolandoa a 31 de Outubro de 2007 às 22:30
Nem mais.. que mais posso dizer? estou de acordo Vitor. Tenho um colaborador do meu blog, José Caselas que investiga bastante nas áreas do poder e dos mecanismos do poder nas democracias contemporâneas. Pelos textos que publica depreendo que ninguém sabe como perspectivar o futuro da Europa. Mas é correcto que o discurso do progresso recai sempre no critério económico. E isso não significa progresso em todos os sentidos. Creio que o autor que melhor me alertou para alguns problemas nem sequer vem da filosofia. É Raoul Vaneigam, um ex Internacional Situacionista. Ainda hoje leio os seus textos com gozo, apesar de me interessar muito mais a filosofia política.
Abraço e boa viagem de barco sem grandes enjoos
:-)
Rolando A
De Vitor Guerreiro a 31 de Outubro de 2007 às 23:43
Ora eis uma agradável surpresa. Acabo de chegar de mais uma viagem de barco, desta vez a de regresso. O Raoul Vaneigem é uma das presenças inescapáveis da minha biblioteca pessoal. A dada altura do curso comecei a interessar-me pelas vertentes materialistas do século XX que tentaram explicitamente romper com a dialéctica marxista, ou melhor, com a dialéctica hegeliana no materialismo. Tudo isto começou com a aventura do Espinosa, de uma procura por um fundamento que não privilegiasse o negativo, a separação, a hierarquia, por outras palavras, com a crítica da religião como condição de toda a crítica.

Mencionei o exemplo dos advogados e dos engenheiros e economistas porque isso evidencia uma mudança de perspectiva clara. No tempo em que eles eram quase todos advogados, o discurso da moda era a mediação, a reconciliação, o auge da social-democracia. O estado aparece como o árbitro imparcial dos conflitos e há toda uma ideia de "espaço público" que parece triunfar das leituras mais pessimistas da história.

Hoje o cenário mudou substancialmente. Os gajos estão-se literalmente a borrifar para a mediação. Passa-se por cima da mediação como se não fosse nada. Conselho de Segurança? Mas que raio, então não somos os polícias do mundo? Precisamos de dialéctica, precisamos de inimigos. Sem lado de fora, não há dialéctica.

Hoje o poder não se esforça por parecer neutro, por perpetuar os mitos da mediação. Há uma ordem, há que expandi-la de um modo eficaz. Ponto final. As discussões passam para o nível do mero tecnicismo. A ideologia não morreu (deus também não), simplesmente atingiram uma nova fase de evolução darwiniana, já não há um discurso económico separado do discurso ideológico. Eles são uma e a mesma coisa. Começa a sentir-se a concentração de poder como uma coisa positiva em si mesma. Estas mudanças repercutem-se na teologia e no modo como os gajos se organizam. Não estou a pregar o fim do mundo ou o advento de um estado novo orwelliano. Trata-se de perceber as nuances, as mensagens que se passam para lá daquilo que se diz.

Abraço
De Nenuco a 3 de Janeiro de 2008 às 20:37
A Ilusão de Dawkins

Há livros bons, maus e assim-assim. Entendo por assim-assim aqueles que, apesar de virem disfarçados com meia dúzia de ideias interessantes – não necessariamente originais - , não ultrapassam o limiar da mediocridade. E o último destes que me chegou às mãos foi o imperdível best-seller A Ilusão de Deus.

E por que é, então, a Ilusão de Deus um belo exercício de ilusionismo científico? Porque Richard Dawkins é um brilhante biólogo evolucionista, mas um péssimo pensador científico e uma nulidade como filósofo das ciências. Dar-se ao trabalho de escrever umas centenas de páginas para dizer que o Deus-Pai-Todo Poderoso dos criacionistas evangélicos e dos fundamentalistas islâmicos é uma ilusão constitui uma “proeza tão assinalável” que até a minha sobrinha de 12 anos (aluna de um colégio da Opus Dei) já chegou a essa conclusão.

Ok, a minha sobrinha não nasceu nos States e talvez por isso, e apesar dos condicionalismos religiosos, ainda consiga chegar a semelhantes conclusões. Pronto, talvez o livro faça sentido no Minesota ou no Arkansas…

Mas o que pretende mesmo Dawkins com este tipo de lugares-comuns? Extrapolar a evolução darwinista para futuros modelos cosmológicos e da mecânica quântica do universo, com o intuito de apagar de vez “Deus” do jogo de dados de Einstein. E é aqui que Dawkins se revela um cientista-filósofo sofrível:

1. A evolução biológica, sendo uma evidência científica, não é nem pode ser um modelo acabado, pois também precisa de “evoluir” sob pena de não resolver algumas questões inacabadas:

1a) O Nobel François Jacob, por exemplo, diz-nos que a microbiologia ainda nada sabe sobre o modo como a forma morfológica particular de um órgão ou de um tecido e as suas propriedades fisiológicas evoluem a partir da unidimensionalidade dos genes.

1b) Como é que espécies ameaçadas por mudanças desfavoráveis no seu meio conseguem sobreviver? Que se saiba a evolução das penas não produz um réptil que possa voar! Não parece provável que cada inovação por si só ofereça vantagem evolutiva!

1c) O que tem Dawkins a acrescentar sobre os registos fosséis que demonstram que as espécies não evoluíram de forma continua e fragmentária? O que sucede quando um processo adaptativo é interrompido e tem lugar um novo processo de transformação?

Ou seja, o modelo evolucionista darwinista é bom, mas continua incompleto, e só em traços mesmo muito gerais é que este conceito de evolução pode ser transmigrado para a Cosmologia, a Astrofísica, a Física Quântica ou a Teoria das SuperCordas.

2. Sem dúvida que se aprofundarmos o conhecimento do Universo com novos modelos evolucionistas físicos, mas não biologistas, no campo das singularidades cósmicas, da física de altas temperaturas e da mecânica quântica estaremos mais próximos de compreender o funcionamento do Cosmos – mas não necessariamente a totatildade ontológica do mesmo. Mas isso é algo que, em breve, até a minha sobrinha, quando tiver 15 ou 16 anos, irá perceber facilmente. Mas o que isso tem a ver com existência de provas científicas contra a existência de Deus é que já me parece um exercício de ilusionismo de feira do Sr Dawkins.

Afinal de contas, o que é isso de “Deus”? Que eu saiba, não passa de uma palavra, de um conceito, de uma terminologia vaga e abstracta, imprecisa e não objectivável, que não traduz qualquer tipo de homogeneidade ontológica sólida e concreta sobre a qual se possam elencar argumentos baseados na medição e na reprodução de fenómenos que suportem quer a sua existência quer a sua inexistência. Para se afirmar que a ciência provou a inexistência de “algo” é preciso definir objectivamente de que trata a substância desse “algo”. E não me parece que esse “algo” tenha sido até à data alguma vez definido de forma operacional e objectivamnete sólida para se prestar a medições científicas.

3. Coisa bem diferente e sobre a qual Dawkins nada tem a dizer é o sentimento psicológico e o estado mental de unidade ou identificação unitiva com o Ser (do ponto de vista meramente ontológico da existência e sem qualquer conotação teísta) e o Cosmos – ou com diversas manifestações físicas daqueles - que certos indivíduos, por vezes, e de forma demasiado vaga, associam à palavra “Deus”. Estamos aqui a falar de sensações e percepções cognitivas que ocorr
De Vitor Guerreiro a 1 de Novembro de 2007 às 01:48
Queria só deixar um comentário menos lateral e mais pertinente com o seu post sobre Dawkins. Quando diz

"Não creio que Richard Dawkins pretenda discutir filosoficamente o problema, até porque se assume como um ateu convicto."

Daqui parece resultar que a associação de palavras "filósofo ateu" não pode ser mais do que isso: uma associação de palavras. De igual modo, "filósofo teísta" ou "filósofo cristão" seriam descrições problemáticas.

Inclino-me a pensar que não é necessário eu deixar em aberto a hipótese de me converter ao teísmo para conseguir argumentar com um mínimo de honestidade. A convicção por si só não polui o discernimento. Para fazer isso são precisas outras paixões negativas. Podemos ter uma convicção sem nos alienarmos a ela, no sentido de desenvolver cegueira ou insensibilidade para discutir contra-exemplos e contra-argumentos. Aliás, uma convicção consciente, crítica e empenhada procurará precisamente os contra-exemplos e não a mera redundância e a repetição.

Abraço

PS: Amanhã estou pela Invicta e não sei se poderei aceder ao ciberespaço. É provável que estas nossas discussões se adiem para a semana que vem.
De rolandoa a 1 de Novembro de 2007 às 14:43
Olá Vitor,
Parece-me claro que um filósofo pode ser ateu. Eu não sou filósofo, mas sou ateu :-) O que pretendi dizer no meu pequeno posto sobre o livro de Dawkins é que ele assume uma posição pouco comum na filosofia, a de ser orgulhosamente ateu. Ora bem, os filósofos, por inerência da metodologia do trabalho filosófico, não são nem orgulhosamente ateus, nem orgulhosamente crentes. Discutem as premissas das principais teorias sobre a existência de deus. Depois de as discutir, é que chegam às suas conclusões. Neste sentido Dawkins não é um filósofo, uma vez que parte do princípio de uma verdade estabelecida: deus não existe. De um outro modo o próprio Dawkins define bem as intenções do livro, uma espécie de tentativa de nos converter ao ateísmo. Mas eu não sou ateu porque li o Dawkins, mas antes porque tive a felicidade de discutir racionalmente a cultura que me é imposta. E é claro que esta opção de Dawkins fez com que ele metesse os pés pelas mãos, porque o livro deixa evidente que ele pouco sabe de filosofia. O livro de Dawkins, tal como o recente de Sam Harris, são livros de combate, não são livros de filosofia. E daí que tenha feito essa referência.
O Porto a minha cidade. Nasci muito próximo do Porto. Boa estadia na invicta.
Rolando A
De Vitor Guerreiro a 6 de Novembro de 2007 às 11:01
Bem, concordo que o Dawkins se passa e talvez delire um pouco com a própria escrita. É uma tentação difícil de combater em áreas polémicas como a religião, que suscitam sempre as amizades ou inimizades mais profundas.

No meu caso, a minha repugnância pela fé comecou num dia, teria cerca de 12 ou 13 anos - até essa data fui relativamente crente, num sentido muito liberal do termo - era um panfleto de propaganda religiosa que após afirmar uma série de patetices sobre a evolução, aconselhava as pessoas crentes que usassem esses argumentos a ignorar quaisquer argumentos contrários que parecessem muito "convincentes" (argumentos cientificos), dizendo explicitamente que a plausibilidade cientifica dos argumentos racionais é apenas mais uma artimanha do demónio para seduzir os incautos. Aquilo irritou-me tanto que o ateísmo passou a ser algo visceral em mim. Claro que com o tempo essa atitude visceral tornou-se mais amena, "filosófica", embora hoje pense que é uma questao central da filosofia.

A frase "a crítica da religião é pré condiçao de toda a crítica" é mais importante do que parece. Devo a atenção a ela ao Costa Freitas, o singular padre franciscano, apaixonado pelos materialistas. O que a frase diz é que fora da crítica da transcendência, tudo o que temos são maneiras diferentes de repetir o pregão platónico: o que é não há e o que há não é. Mais ainda: toda a filosofia do ser-separado está impregnada de "eugenia", por assim dizer: se há um ser separado, então todos os seres estão organizados numa "escala de ser" que vai da perfeição à abjecção. É inevitável que daqui resulte uma perspectiva ético-política conservadora - os pontos fixos passam a dominar o movimento, em vez de ser o movimento a explicar os pontos fixos. Peço desculpa pela abstracção, mas não quero gastar 100 metros de tinta.

Outra pergunta só. Um filósofo é alguém que faz filosofia. Um músico é alguém que faz música. Se o amigo é formado em filosofia e se dedica a ela todos os dias (mesmo que não tenha produção teórica que iguale a de um Platão) com certeza que não é um músico.

Ainda estou na invicta, só amanha regresso à minha cidade natal. Também gosto muito do Porto, ontem passei a tarde na companhia do Collin McGinn, a ouvir Matt McGinn, a beber um martini e um cafézinho, ali no Piolho, depois de uma francesinha e uma visita à Leitura e à Lello.

Abraço
De Vitor Guerreiro a 6 de Novembro de 2007 às 11:06
Só mais uma observação.

Pelo menos nominalmente, no livro The God Delusion, o Dawkins caracteriza-se como alguém que pende fortemente para o ateísmo "orgulhoso", digamos, mas situa-se um nível acima na tal escala de 7 valores que ele desenha, entre o teísmo convicto e o ateísmo convicto.

Também temos de compreender a raiva que o homem deve sentir, quando já foi alvo de campanhas idiotas, como aqueles australianos que se atreveram a conseguir uma entrevista na casa do homem sem que ele soubesse bem o que fazia, tendo depois editado o vídeo para o fazer parecer estupidificado com a pergunta néscia "consegue dar um exemplo de processo evolutivo que adicione informação ao genoma?"

Abraço
De rolandoa a 6 de Novembro de 2007 às 11:31
isso é verdade, mas não sei se o estilo do Dawkins advém da raiva. Creio que não. É o estilo dele, nada mais. Tem um estilo mais combativo. É por isso que dificilmente seria um filósofo, mas, ainda assim, creio que os seus argumentos ainda vão ser discutidos na filosofia :-)
Abraço
Rolando
De Vitor Guerreiro a 7 de Novembro de 2007 às 23:08
talvez fosse preferível distinguir "combativo" de "militante" aqui. Isto porque alguns dos períodos mais interessantes da filosofia aconteceram precisamente quando os filósofos tiveram de ser mais combativos, quando foi necessário afrontar o peso morto da escolástica tardia ou quando a perseguição estatal acabou por impulsionar na Alemanha do séc XIX a crítica da religião e as diversas sequelas do hegelianismo.

Mesmo na filosofia contemporânea, e não estou a falar do Sartre nem do Heidegger, os textos mais interessantes têm sempre um grande vigor polémico. Claro que isto não pode confundir-se com o militantismo barato, ou a marretice militante.

Compreendo o que quer dizer, no caso do Dawkins. De facto há uma certa atitude pouco favorável ou pouco produtiva filosoficamente. Em particular, vai ser difícil ele converter mais alguém além dos que intuitivamente concordam com o ateísmo embora não o formulem explicitamente ou tenham algum receio da reacção no ambiente familiar ou social, nos contextos mais complicados. Mas isso é o que faz um político vulgar: vai à televisão excitar os animos dos que no fundo já concordam com ele, não está interessado em produzir argumentos que possam ser aceites por quem tem fortes objecções.

Por outro lado, é duvidoso que muitos dos adversários de Dawkins sejam pessoas com quem valha a pena discutir, sendo apenas de lamentar os leitores destes que, motivados por uma certa boa-fé, acabam por aceitar sem grande discussão os argumentos de autoridade do teísmo. O que é lamentável não é o teísmo, mas a falta de consciência crítica. Nunca hei-de esquecer o que me disse uma vez o prof. Barata-Moura: prefiro um idealista inteligente a um materialista estúpido.

Neste sentido, um ateu que não tem consciencia crítica dos seus próprios argumentos ou que nem sequer argumenta não é propriamente um ateu, é apenas alguém que deita da boca para fora umas frases sobre deus não existir. Uma posição teórica não reflectida não é uma posição teórica, é apenas ruído insignificante.
De CARLOS a 20 de Julho de 2008 às 02:36
PALAVRAS E MAIS PALAVRAS, AFINAL AQUI NOSSA CRENÇAS OU DESCRENÇAS MODIFICAM A REAL NATUREZA DE TODAS AS COISAS? (...)
De Victor Rosa de Freitas a 11 de Novembro de 2007 às 08:18
Deixei escrito no meu blog (www.vickbest.blogspot.com) um post, sobre o livro em questão e que, só por não caber na caixa de comentários, aqui não reproduzo.

De qualquer modo, e como a consulta é fácil, dou-o aqui por reproduzido.

Cumprimentos


Victor Rosa de Freitas
De rolandoa a 11 de Novembro de 2007 às 12:51
Caro Victor,
Só lhe posso agradecer. Irei, de imediato, visitar o seu blog. Farei comentários no seu blog, se necessário.
Obrigado
Rolando Almeida
De rolandoa a 16 de Novembro de 2007 às 02:52
Victor,
Passei pelo seu blog mas como os comentários estão reservados a assinates da blogspot e eu não sou, deixo aqui o comentário ao seu texto que devia ter sido postado no seu blog.

Olá Victor,
Há afirmações que o Victor faz no seu texto que podem cair na falácia de serem tão dogmáticas quanto as que o Victor acusa ao Dawkins de serem dogmaticas. Dou-lhe um exemplo, neste meu comentário que se pretende resumido. O Victor não pode afirmar "deus é" e isto porque está a retirar o a propriedade ao sujeito que o torna sujeito, que é o predicado. sem que deus tenha um predicado, não compreendemos o que ele possa ser. Só lhe faço este vago apontamento para mostrar que as afirmações do Victor também são vagas. Depois o Victor não pode simplesmente criticar as teses de Dawkins assumindo posições que, para si, são, a partida indiscutíveis. É verdade que a posição de Dawkins é, por exemplo, pouco filosófica no sentido em que assume um pontode chagada para uma discussão que não pode produzir resultados, que é a existência de deus. Mas como pode o Victor produzir esses resultados? Eu não acredito na existência de deus porque tenho razões mais plausíveis para não acerditar do que acreditar. Com que fundamento o Victor pode, entre outras coisas, afirmar que tenho de acreditar porque deus é. E se eu objectar afirmando que deus não é? Em relação ao infinito do espaço, essa é uma hipótese científica. como sabe, uma hipótese científica não é um ponto de chegada, mas de partida. Pelo que, de igual modo, não é racionalmente honesto considerar a existência de deus um ponto de chegada. E se deus não se compreende pela razão, então não lhe podemos atribuir o estatuto de universal. A questão da fé, tal como o Victor a expõe, faz-me lembrar as teses de um teólogo de Oxford que Dawkins até cita e que conheço razoavelmente, Richard Swinburn. Mas repare bem no argumento: bem, já que não temos outra explicação, mais vale ficarmos com a de deus. Ok, e os desconsolados com essa explicação? Finalmente, o Victor coloca a questão de uma forma que não posso concordar. Para aqueles que não podem ou não conseguem aprender a ci~encia, então, ok, dámos-lhe a ciência. Quererá isto significar que se todos aprendessemos ciência então eramos ateus? Boa proposta, que coincide com a de Dawkins.Mesmo a acabar: eu não sei se a religião é compatível com o evolucionismo porque não sou biólogo. A crer (não no sentido religioso) no que estudo e leio, tal compatibilidade não pode existir. Mas o problema que encontrei na minha análise ao seu texto é que o Victor limitou-se a afirmar que existe compatibilidade entre ci~encia e evolucionismo, mas não mostra como. E, assim sendo, tenho de tomar a sua apreciação como uma opinião subjectiva que não pode ser imposta a ninguém. Ainda que seja uma perspectiva da verdade, não está fundamentada pelo o leitor do Victor não possui razões para aceitar o que o Victor afirma. Estou genuinamente convencido que a existência de deus é um problema que, pela sua natureza, merece e deve ser discutido. E não vejo razão alguma para que a religião seja mais confortável para os seres humanos que muitas outras actividades. Aliás, estou mesmo convencido que existem outras formas de expressão muito mais agradáveis.
Agradeço a oportunidade de aqui comentar as minhas razões, ainda que, de forma breve.
Rolando Almeida
De Victor Rosa de Freitas a 18 de Novembro de 2007 às 11:24
Caro Rolando:

Obrigado pelo seu comentário.

Para podermos aprofundar as questões que levanta sobre o meu comentário ao livro de Dawkins, gostaria, sem abusar da sua paciência, de lhe sugerir uma prévia leitura de um post, em seis capítulos, no meu blog, datado de 03.08.05 (http://vickbest.blogspot.com/2005_08_01_archive.html).

Trata-se de um pequeno "ensaio" que elaborei por volta do ano de 1996 e que ali publiquei.

Se o Rolando se der ao trabalho de seguir a minha sugestão, poderíamos continuar em amena conversa, evitando-se que me veja forçado a repetir palavras já por mim escritas e que facilitariam a abordagem do meu ponto de vista.

Obrigado


Victor Rosa de Freitas




De rolandoa a 18 de Novembro de 2007 às 23:47
Caro Vitor,
Não vi o meu comentário publicado no seu blog. agradeço que sintetize a ideia ou ideias que obejectem o meu comentário e que são referidas no seu ensaio.
Obrigado
Rolando Almeida
De Victor Rosa de Freitas a 19 de Novembro de 2007 às 18:48
Rolando:

Ao contrário do que o meu amigo afirma, designadamente com a frase "Com que fundamento o Victor pode, entre outras coisas, afirmar que tenho de acreditar porque deus é?", eu não pretendo IMPOR NADA A NINGUÉM.

Pergundo eu, então: porque será que a questão da existência ou não de Deus se transformou numa MILITÂNCIA para os ATEUS de que DEUS não existe?

O meu "ensaio", para um leitor com preconceitos, parte do pressuposto da existência de Deus. Ora, tal não é verdade. O seu "título" refere a existência de Deus e a "busca de Deus", é verdade. Mas se substituirmos a "busca de Deus" pela frase "indagando o Infinito", chegar-se-á às minhas conclusões.

Depois, dir-lhe-ei que uma coisa é afirmar a existência de Deus - a partir da indagação do Infinito -, outra bem diferente é DEFINIR DEUS.

Constato a inevitabilidade de reconhecer a existência de DEUS - sem impor nada a ninguém -, ao mesmo tempo que afirmo que o Ser Humano, nos seus caminhos "interiores e exteriores" procura conhecer Deus, trabalhando no seu "corpo",ou seja, na sua "criação", que está "dentro DELE.

Ora, o que eu defendo é que o ser humano pode, racionalmente, afirmar a existência de Deus dizendo que Ele "é", sem qualquer predicado, precisamente porque se o Homem pudesse (já) definir DEUS, seria IGUAL a ELE, o que eu defendo só vir a acontecer nos fins dos tempos.

Finalmente (para quem leu o meu "ensaio" sem preconceitos"), se, para a "criação", Deus se INVOLUIU em princípios inferiores para depois haver uma EVOLUÇÃO - tudo isto "dentro" DELE, é óbvio que a teoria da evolução de DARWIN, de Lammarck ou qualquer outro é compatível com a existência de Deus.

(não publiquei o seu comentário no meu blog simplesmente porque não me pediu, mas fou fazê-lo agora, talqualmente este meu).

Cumprimentos


Victor Rosa de Freitas



De rolandoa a 20 de Novembro de 2007 às 01:01
Victor,
O Victor devia explicar o que é isso de ler o seu ensaio sem preconceitos. É que esse pressuposto pode não passar de mais um preconceito. Então e se eu discordar com as suas ideias, sou preconceituoso?
É óbvio que existe militância pelo ateísmo, como existe pelo futebol, partidos políticos, ideologias x ou y, mas a questão da existência de deus, é-me particularmente cara precisamente porque se trata, antes de tudo de um problema filosófico da filosofia da religião. Ora, as religiões não têm por costume encarar a questão da existência de deus como um problema de natureza filosófico, pelo que qualquer versão da religião não me interessa. O problema da existência de deus prende-se também com o problema metafísico da verdade.
Tal como já está demonstrado não existe qualquer compatibilidade entre evolucionismo e criacionismo. É impossível. O evolucionismo é a versão da ciência para a explicação da criação do universo e é oposta à versão da religião, pelo que nem vale a pena comparar teorias que não tem possibilidade de comunicação.
até breve
Rolando Almeida
De Anónimo a 20 de Novembro de 2007 às 09:11
Rolando:

O meu amigo afirma que "Tal como já está demonstrado não existe qualquer compatibilidade entre evolucionismo e criacionismo. É impossível. O evolucionismo é a versão da ciência para a explicação da criação do universo e é oposta à versão da religião, pelo que nem vale a pena comparar teorias que não tem possibilidade de comunicação."

Desculpar-me-á o meu amigo, mas há muita imprecisão na sua afirmação. Não se pode, nunca, dizer que "criacionismo" é igual a "religião". É que o "criacionismo" é apenas UMA INTERPRETAÇÃO RELIGIOSA da "criação". Ou seja, uma interpretação LITERAL da Bíblia, segundo a qual o Homem foi feito num DIA (de 24 horas), modelado do "barro" (ou argila) por Deus. Não é, contudo, a única interpretação "religiosa". Há religiosos que interpretam a "criação" bíblica alegoricamente, sendo que um DIA bíblico corresponde a milhares ou milhões de anos e que é compatível com o Big-Bang e a "evolução".

Dito isto e apenas para precisar conceitos, devo dizer-lhe que a minha defesa da existência de Deus não tem nada que ver com qualquer interpretação da Bíblia, mas apenas com a sondagem do Infinito e com o conhecimento actual da ciência. É dentro destes pressupostos que afirmo a inevitabilidade da existência de Deus.

É que há "iniciados" Religiosos que se não confundem com o "homem-massa" (de Ortega y Gasset) defensor de vulgaridades eXotéricas da "religião", sendo que os primeiros têm outra linguagem, esta eSotérica, sendo que os Ateus apenas criticam a primeira linguagem, a eXotérica do "homem-massa", e desconhecem ou parecem desconhecer a "outra", a dos "iniciados".

Finalmente e começando pelo princípio do seu último comentário, "ler o meu ensaio sem preconceitos" significa isso mesmo: lê-lo sem preconceitos. Nada mais.

Cumprimentos


Victor Rosa de Freitas
De Victor Rosa de Freitas a 20 de Novembro de 2007 às 09:15
Rolando:

O último comentário, das 9h 11m, saiu, por lapso, como de "Anónimo" mas é óbvio que é meu e contém correctamente a minha assinatura.

Aqui fica a correcção e peço desculpa pelo lapso.


Victor Rosa de Freitas
De Victor Rosa de Freitas a 27 de Novembro de 2007 às 13:48
Vale a pena ler dois excelentes textos de Orlando, em "per-espectivas"

http://espectivas.wordpress.com/2007/11/26/the-dawkins%e2%80%99-god-delusion-1/

intitulados "O absurdo do ateísmo" e "A Vida por acaso não tem hipóteses".

Cumprimentos


Victor Rosa de Freitas
De rolandoa a 27 de Novembro de 2007 às 17:01
Victor,
Agradeço as sugestões. Como referi no meu pequeno post sobre o livro a desilusão de deus, o livro é de combate, vale a pena conhecê-lo, mas dentro da filosofia existe leituras muito mais interessantes. Ora bem, o ateímo não é para mim, ao contrário do que parece ser para Dawkins, uma militância. Também a existência de deus parace ser para o Victor, uma militância. Para mim, a questão da existência de deus, é um problema que se pode pensar segundo as possibilidades de justificação de uma crença. Pelo que, qualquer texto que me soe a militância, não me interessa por aí além. Interssa-me sugerir que a existência de deus é um problema questionável, mas não assumo uma posição dogmática de bater o pé a adirmar que existe ou não existe deus, apesar de eu não acreditar na sua existência e pensar que os argumentos da sua justificação são pouco convincentes e muito discutíveis, pelo menos muito mais do que os argumentos em favor da sua não existência.
abraço
Rolando Almeida
De Anónimo a 18 de Novembro de 2007 às 22:47
DELUSION é
ilusão
engano
quimera
devaneio
fantasia
delírio
e mais não me ocorre.
O que delusion NÂO é, é desilusão.
Li que a tradutora propôs ILUSÂO, mas que o editor não aceitou e impôs DESILUSÂO, mas não sei porquê nem faço ideia. É tão estúpido e analfabeto que nem tem explicação possível.
Escrevi ao Richard Dawkins a denunciar a anormalidade portuguesa e agora espero que o autor exija um título correcto, se não literal.
Podia perfeitamente ser literal: A ILUSÂO DE DEUS.
Eu preferiria A QUIMERA DE DEUS.
De rolandoa a 18 de Novembro de 2007 às 23:43
Caro Anónimo,
Concordo numa coisa: na minha tradução propus algo muito próximo, "O LOGRO DE DEUS".
fez bem em escrever ao Dawkins
abraço
Rolando A
De Irene Marques a 14 de Setembro de 2008 às 19:32
Esta obra de Richard Dawkins foi dos escritos mais notáveis que li até hoje. Tecnicamente agnóstica, o autor conseguiu com ,uma argumentação inteligente, documentada e profunda, que me tornasse ateia de facto. SInto-me hoje mais livre. Obrigada

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Rolando Almeida


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