Terça-feira, 16 de Outubro de 2007

Manuais – o Pódio filosófico

Já se sabe que a crítica pública de manuais escolares não é coisa bem vista na nossa praça. E não é bem vista porque os manuais escolares pura e simplesmente envolvem o maior negócio livreiro no nosso país. Não pretendo defender que os livros não se devam vender. É saudável que se vendam e é bom que constituam um bom negócio a bem da saúde da cultura social. E os bons livros, como qualquer bom trabalho a bem da comunidade, devem-se vender e promover.
Rolando Almeida

No caso dos manuais escolares a concorrência é muita. O número de manuais em opção para uma só disciplina, sempre que se adoptam novos manuais, é verdadeiramente impressionante. Seria uma mistura verdadeiramente feliz que esta quantidade fosse acompanhada de igual qualidade. De cerca de 15 manuais que se possam publicar para uma só disciplina, por regra, somente um terço desses manuais são de aproveitar. E isto é claramente o que se passa na filosofia. Talvez mais que nas outras disciplinas, o programa nacional de filosofia, começa por ser demasiado aberto nos autores ou temas a explorar, o que, se para os bons autores de manuais lhes dá a liberdade para boas opções, a mesma possibilidade existe em igual proporção para os maus autores terem más opções. Se observarmos a lista dos manuais de filosofia de 2007, para o 10º ano, mais adoptados no país, facilmente percebemos que a coisa não é completamente negra, ainda assim, há razões de sobra para levantarmos determinadas questões, assumindo todos os riscos que as mesmas envolvem. No Top 3 dos manuais mais adoptados encontramos o Pensar Azul (Texto Editora), Contextos (Porto Editora) e o Arte de Pensar (Didáctica Editora). Se utilizarmos como critério mais geral para melhor manual, aquele que melhor estimula a autonomia crítica do aluno, o Arte de Pensar deveria figurar como o manual mais adoptado do país. Mas o Pensar Azul acaba a ocupar a 1ª posição no pódio. Será injusta esta “massificação” do manual Pensar Azul em detrimento do Arte de Pensar? É claramente injusta, até porque o Pensar Azul parece ser um manual parcialmente inspirado na 1ª edição do Arte de Pensar e não consegue ser tão estimulante como o seu concorrente que, com efeito, foi menos adoptado. Por outro lado, o Pensar Azul apresenta as matérias de forma mais dogmática, é mais caro e a lista de materiais a acompanhar o manual é inferior à do Arte de Pensar (o Arte tem um site com dezenas de textos traduzidos pelos autores, tem um fórum on-line permanente onde os autores esclarecem e apoiam os professores e faz-se acompanhar por um livro do professor com planificações aula a aula, para além de testes e todas as respostas aos exercícios e questões do livro principal). Por outro lado a selecção de textos de Pensar Azul bem como a opção de certas traduções são de qualidade duvidosa, ao passo que essa falta de rigor só em casos quase imperceptíveis acontece no Arte de Pensar. Ainda que considerássemos o manual Pensar Azul um bom manual, que na minha opinião não é tal como expus noutro artigo que aqui publiquei (parte 1 e parte 2), ele fica sempre aquém do Arte de Pensar, pelo que se considera aqui a injustiça nas adopções finais. Claro que ambos os manuais respeitam o programa, tal como o 2º classificado Contextos (Porto Editora). Acontece que não é muito complicado cumprir com o programa uma vez que cabe lá tudo. Complicado é cumprir com o programa e ao mesmo tempo fazer um manual que possibilite ao estudante não somente interiorizar uma noção de filosofia, mas que ele próprio dê os primeiros passos a fazer filosofia. E é esta a razão que coloca quer o Contextos, quer o Pensar Azul a uma distância muito razoável do Arte. Com efeito, dos 3 manuais, o Arte foi o menos adoptado, ainda que tenha igualmente conquistado um bom lote de escolas em todo o país (continente e ilhas). É bom também apreciar que, quer o Pensar Azul, quer o Contextos, são manuais que vão mais de encontro a uma forma habitual de se ensinar filosofia em Portugal, ainda que ambos tenham visto bem a luz das Orientações para a Leccionação do Programa, entretanto extintas do programa da disciplina. E esta forma é a ligação hermenêutica de interpretação dos problemas filosóficos. Mas o facto de ser mais habitual não deveria ser motivo para não se exigir uma mudança para uma disciplina que está condenada ou a se adaptar e redimensionar ou então ao seu desaparecimento completo dos currículos do ensino secundário. Não esqueçamos que foram desleixos desta natureza que condenaram a filosofia no 12º ano. Está mais que visto que, na urgência do mundo actual, ou a filosofia mostra o que produz ou desaparece. E o Arte de Pensar é um manual que nos oferece razões muito mais fortes para revelar aos alunos do ensino secundário o poder de actuação no mundo actual da filosofia. Neste aspecto, como noutros, quer o Pensar Azul, quer o Contextos, ainda que tivessem feito um claro esforço de readaptação seguindo de perto as Orientações para a Leccionação do Programa, ficam, ainda assim, aquém do Arte. Não existe uma explicação que justifique porque os dois manuais, Pensar Azul e Contextos, tenham sido mais adoptados que o Arte. A razão mais plausível não a encontramos nos dois primeiros lugares do pódio, mas precisamente no 3º lugar. A razão, creio, está dentro do próprio Arte. Como é diferente e mais ousado, exige mudança na prática lectiva. E é natural que essa mudança leve o seu tempo a acontecer. Mas sublinho que é desejável que a mudança aconteça. A bem do ensino da filosofia, que é necessário libertá-lo para apanhar ar fresco.
Uma palavra final para os bons atletas que, ainda assim, por razões várias (entre as quais algumas que aqui mencionei), não mereceram lugar no pódio. Um deles, até muito bem classificado, é o Filosofia 10 (Plátano Editora), um manual que, sem ser fiel ao modelo por exemplo, do Arte de Pensar, acaba por ser muito competente do ponto de vista didáctico para além de dar também uma lavagem mais que merecida ao ensino da filosofia. Mais próximo do Arte de Pensar está o Criticamente (Porto Editora), ainda assim com muitos toques de personalidade própria. Sendo um estreante, a próxima edição pode superar as expectativas. E, finalmente, o Logos (Constância) apresentou-se como uma das melhores opções. Qualquer uma destas opções supera o 1º classificado.
Observação final: neste meu texto apenas me dou conta de uma ou duas razões que considero justas para preferir um a outros manuais que até obtiveram mais adopções. Não me prendi neste artigo com questões de pormenor, técnicas ou científicas. Estou consciente que qualquer um dos manuais aqui mencionados possui unidades melhor exploradas e outras menos bem conseguidas. Isso é natural acontecer em qualquer manual ou qualquer trabalho. Do mesmo modo considero natural a crítica pública de trabalhos que são públicos, como os manuais escolares. É bom que ela surja e que até possa ser contrária à minha, uma vez que não tenho a verdade embrulhada para oferecer aos leitores deste blog.


publicado por rolandoa às 20:41

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Rolando Almeida


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