Segunda-feira, 15 de Outubro de 2007

Argumentos, premissas e conclusões

 Para compreender o que é um argumento vamos começar por ver o seguinte exemplo:
 
João — Este quadro é horrível! É só traços e cores! Até eu fazia isto!
Adriana — Concordo que não é muito bonito, mas nem toda a arte tem de ser bela.
João — Não sei… por que razão dizes isso?
Adriana — Porque nem tudo o que os artistas fazem é belo.
João — E depois? É claro que nem tudo o que os artistas fazem é belo, mas daí não se segue nada.
Adriana — Claro que se segue! Dado que tudo o que os artistas fazem é arte, segue-se que nem toda a arte tem de ser bela.
 
         A Arte de Pensar

A Adriana está a argumentar que nem toda a arte é bela. Estamos perante um argumento sempre que alguém apresenta um conjunto de razões a favor de uma ideia.
 
Um argumento é um conjunto de proposições em que se pretende que uma delas (a conclusão) seja apoiada pelas outras (as premissas).
 
 O argumento da Adriana percebe-se melhor se o escrevermos assim:
 
Premissa 1: Nem tudo o que os artistas fazem é belo.
Premissa 2: Tudo o que os artistas fazem é arte
Conclusão: Nem toda a arte é bela.
 
 O argumento da Adriana tem duas premissas e uma conclusão. Mas os argumentos podem ter apenas uma premissa, ou mais de duas; contudo, só podem ter uma conclusão.
 
 Uma premissa é uma proposição usada num argumento para defender uma conclusão.
 Uma conclusão é a proposição que se defende, num argumento, recorrendo a premissas.
 
Um argumento é um conjunto de proposições. Mas nem todos os conjuntos de proposições são argumentos. Para que um conjunto de proposições seja um argumento é necessário que essas proposições tenham uma certa estrutura: é necessário que uma delas exprima a ideia que se quer defender (a conclusão), e que a outra ou outras sejam apresentadas como razões a favor dessa ideia (a premissa ou premissas).
Se nos limitarmos a apresentar ideias, sem as razões que as apoiam, não estamos a apresentar argumentos a favor das nossas ideias. E se não apresentarmos argumentos, as outras pessoas não terão qualquer razão para aceitar as nossas ideias. Argumentar é entrar em diálogo com os outros.
Um raciocínio ou uma inferência é um argumento. Raciocinar ou inferir é retirar conclusões de premissas.
 
 
Vários Autores, A arte de pensar, 11º ano, Didáctica Editora, 2004


publicado por rolandoa às 23:41

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10 comentários:
De Vitor Guerreiro a 31 de Outubro de 2007 às 00:07
O exemplo é ilustrativo e comunica bem a ideia do que significa um argumento, que um argumento e um raciocínio são a mesma coisa, a distinção clara entre premissas e conclusão e o processo de inferência.

Contudo, o exemplo talvez fosse melhorado substituindo "belo" por "bonito" ou um adjectivo similar. Isto porque a natureza do belo é um problema em aberto em estética e filosofia da arte e o argumento usado como exemplo parece estar comprometido com uma ideia vaga e popular do que seja o belo. Não é que o "verdadeiro" belo seja aristocrático, aliás, desconfio do que seja isso do "verdadeiro" belo, tal como desconfio dos partidos "verdadeiramente" democráticos.

Em todo o caso, o exemplo é melhor e mais instrutivo do que muita trampa que vai por esse mundo dos manuais fora.

Abraço
De Vitor Guerreiro a 31 de Outubro de 2007 às 00:15
Pensando bem, o melhor é não complica. O próprio texto já estabelece um uso trivial de "belo", tal como de "bonito", "que agrada à vista", etc.

Tábua rasa do último comentário.
De rolandoa a 31 de Outubro de 2007 às 00:33
Vitor,
Sim, não me parece problemático o uso aqui de "belo". Este texto foi aqui colocado para os meus alunos do 11º ano e o facto é que entendem muito bem o que é um argumento. Este manual tem esta vantagem: rigoroso, simples e muito bom para os alunos. Farto-me de dizer isto, mesmo que muita gente me dê porrada por isso :-)
Abraço
Rolando
De Vitor Guerreiro a 31 de Outubro de 2007 às 01:03
Dão porrada porque a clareza não é o valor mais apreciado no planeta da "cultura" em Portugal.

Gerou-se a ideia idiota de que é preciso "defender" uma mitológica autonomia das "humanidades" face à "ameaça" da ciência. Então, nesta linha de raciocínio, a filosofia tem de se entrincheirar num discurso obscuro, hermético, "profundo", tão profundo quanto pateta.

A minha observação foi deslocada precisamente porque o exemplo se destina a alunos do 11º e porque foi algo precipitado. Além disso, estava a complicar onde não há que complicar.

Bom trabalho,

De rolandoa a 31 de Outubro de 2007 às 10:45
Vitor,
Nem mais. É essa a análise que faço. Aliás, o Vitor viu bem a razão pela qual fiz um blog que é precisamente dar o meu contributo para a desmistificação da filosofia e das ideias patetas que em volta dela circulam. Claro que, tal como nos outros saberes, também a filosofia tem os seus níveis de sofistificação, mas em Portugal ainda se publica muito para o próprio umbigo e o resto da malta fica a ver navios. E para que queremos alta sofistificação se nem a base temos construída? Por essa razão, nos meus tempos sem trabalho, ocupo-os a escrever textecos que pretendem apontar no sentido oposto, o de divulgar a filosofia a quem não tem conhecimento dela.
Thanks
Abraço
Rolando A
De Pedro Marinho a 19 de Outubro de 2009 às 10:51
Bem! No meu livro nem imaginas a confusão que me fizeram só para perceber estas coisinhas.. Cheguei aqui e percebi logo o que era uma premisa, uma conclusão e um argumento! De génio! Muito Obrigada!
De Jorge C. a 3 de Novembro de 2007 às 01:04
Se pudessem também simplificar muitos livros de matemática, estavamos bem melhores.

Bom artigo.
De rolandoa a 3 de Novembro de 2007 às 02:26
Jorge,
Tocaste num ponto essencial. É claro que o ensino se torna muito mais atraente quando temos boas fontes para poder aprender. Em matéria de educação, em vez de se discutir estatutos de professores e alunos, devia-se discutir a qualidade do que se publica e o interesse que tal tem para as pessoas.
Abraço
Rolando Almeida
De Jorge C. a 4 de Novembro de 2007 às 23:11
É claro que fazer os professores sentirem-se seguros e felizes é uma matéria de extrema importância, contudo, e ao longo da minha vida percebo que a qualidade de publicação e o modo como se explica determinadas matérias, deveria levar uma boa lavagem .
Percebo que são aquelas partes que nós conseguimos praticar e desenvolver que ficam connosco .
Pelos livros que tenho estudado, há muito a tendência de inserir pequenos anexos na matéria (ao que eu chamaria de "lixo") que só complicam e enchem o nosso cérebro. O pior de tudo é que nos fazem decorar essas pequenas coisas só para preencher um teste e depois esquecer.
Perdoem-me se foi um bocado fora do tema do post mas tinha de referir isto. Haverá com certeza muita mais a falar sobre os conteúdos dos nossos manuais ,mas fico por aqui pois falta-me tempo. :)

~ Jorge Canha
De rolandoa a 4 de Novembro de 2007 às 23:55
Jorge,
A divulgação do saber e da cultura é a base de uma cultura sólida. Precisavamos de mais 20 mil Carl Sagan no mundo.
abraço
volta sempre
Rolando Almeida

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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