Quarta-feira, 10 de Outubro de 2007

Pop Philosophy

Já ouvi gente da filosofia defender que a filosofia só pode ser ensinada a pessoas intelectualmente maduras. Nada mais tolo. Como é que alguém chega a ser intelectualmente maduro sem ser previamente estimulado? E, se esta possibilidade existir, quem lhe dará resposta não será provavelmente alguém da filosofia, ainda que seja alguém com formação em filosofia que possa testar a capacidade de raciocínio crítico. Ainda assim será que alguém que até nem é muito maduro intelectualmente, enquanto jovem, não pode ser estimulado ao pensamento crítico e à filosofia? Claro que pode e deve. Por essa razão é que a filosofia aparece nos currículos do ensino de muitos países, desde as crianças, até adolescentes e adultos.
Rolando Almeida
Claro está que, como em Portugal gostamos de ser originais, desde há uns bons anos que temos filosofia no ensino secundário como disciplina obrigatória e agora que ela possui um sucesso nunca visto noutros países, nós por cá vamos dando cabo dela. Mas esta falta de conhecimento de um determinado ramo do conhecimento acontece porque muitas das vezes os editores não cumprem com o seu papel de divulgação do que mais interessante se vai publicando no mundo, traduzindo boas obras de interesse público. Pelo contrário optam por um plano de edições muito duvidoso: ou publicam o altamente especializado que só os especialistas leriam, mas esses compram o original e dispensam a tradução – logo, não se vende; ou então, publicam o ridiculamente estúpido, literatura de trazer por mão que vende à imensa comunidade das tias deste país, regra geral, livros sobre filhas de actores famosos que comunicaram com o divino, ou de mestres astrólogos a fazerem previsões altamente previsíveis. Claro está que este mercado existe e os editores enchem os bolsos. Contra isso nada. A estupidez faz parte da natureza humana e não acabamos com ela sem educação. Mas é isto mesmo que está em causa: não acabamos com a estupidez sem educação, até porque não é por a estupidez existir que se torna desejável. E também é apostando em boas estratégias de divulgação do saber que estimulamos as pessoas à tal maturidade intelectual. Por essa razão, a escolha de livros criteriosos sobre as mais variadas áreas do saber - e que sejam, ao mesmo tempo, didacticamente poderosos - é uma tarefa à qual os editores portugueses não podem estar de costas voltadas. Claro está que poderíamos aqui pensar que os portugueses devem escrever os seus livros. Mas existe uma razão pela qual não podemos fazer essa exigência: é que, em Portugal muito dificilmente alguém consegue viver da venda de livros. Quem os escreve tem de conciliar o seu trabalho com a escrita. Ao contrário, em países como Inglaterra, por exemplo, as pessoas que estudam são desde cedo estimuladas a escrever porque, se o fizerem e obtiverem algum sucesso, podem dedicar-se, por inteiro, à escrita de livros. Pode-se viver disso. Em Portugal só muito excepcionalmente é que encontramos alguém que nos diz: “eu vivo do dinheiro que ganho com os livros que escrevo”, isto para não dizer já que raramente encontramos alguém que escreva (excepção feita à poesia, área que inexplicavelmente – ou nem tanto – produzimos todos bastante). Ainda a agravar esta situação existe uma paranóia quase colectiva nos portugueses (sim, porque só mesmo de paranóia se pode tratar) de que a cultura é algo que deve vir até nós, bater-nos nas costas o tempo todo enquanto bebemos umas cervejolas e pagar-nos bem para lermos. Possuímos uma falsa noção de que a cultura é a borlix. É desta forma que encontro muitos jovens, muitos deles licenciados, que me dizem que não compram livros porque são muito caros. O que é completamente falso. Caros são os telemóveis que usam, os automóveis que dirigem e as casas de 10 assoalhadas que compram mal arranjam o 1º emprego. Não podemos dizer que comprar As cidades e as Serras de Eça de Queiroz por uns míseros 5€ seja, nos dias que correm, uma exorbitância.
Tudo isto somado (e mais cerca de 400 mil razões à vista de todos e fáceis de resolver não fosse a preguiça aguda que por vezes nos assola), explica porque é que vivemos uma situação algo caricata no mercado livreiro: todos os dias vemos nas livrarias 5 ou 6 novidades, mas raramente encontramos novidades boas de áreas centrais do conhecimento e da cultura que saem às centenas em outros países. E isto coloca-nos fora do conhecimento, abrindo portas de forma escandalosa à iliteracia científica, artística, filosófica, mas colocando-nos a par do que se passa no universo da magia negra e da cartomancia. Esta especialização popular nas artes da adivinhação são o nosso cartão de visita em matéria de educação, uns incompetentes ao lado dos nossos congéneres europeus. E há responsabilidades claras nos editores.
Por estas razões, seria muito bom, uma grande felicidade para nós que, está bem, admitamos, se traduzisse as cartomancias bestas céleres…, mas que se traduzisse, pelo menos em igual número, os bons livros populares de ciência, filosofia, artes, matemática ou outras áreas centrais do conhecimento.
Uma colecção como a Popular Culture and Philosophy Series, provocaria de imediato um duplo efeito no meio editorial português:
1 – vendia bem porque os temas são populares.
2 – porque são temas populares, mas com tratamento filosófico enriqueceria e muito a média cultural dos nossos jovens (principalmente estes uma vez que a colecção é mais propicia para eles), reduzindo a iliteracia científica.
De resto, só espero que este texto acabe por produzir algum efeito. Caso contrário, mais vale estar calado e aprender inglês.
Nota final: Existe, com efeito, um esforço por parte de alguns editores. A esses este texto não é dirigido.
 
publicado por rolandoa às 02:40

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9 comentários:
De morfeu a 10 de Outubro de 2007 às 18:14
Agradeço ao colega a menção de livros e endereços que de facto não conhecia.Vou procurar ler e investigar o assunto.
Com toda a consideração
Morfeu
De rolandoa a 10 de Outubro de 2007 às 19:06
Colega,
Também agradeço as palavras e a visita. Estou convencido que a filosofia, acima de tudo, pode ser divertida (sem deixar de ser séria), pedagógica, útil e de interesse público. Tendo aprendido a experiência com algumas pessoas que tenho conhecido, estou igualmente convencido que vale a pena o esforço de mostrar às pessoas comuns aquilo que aprendemos com a filosofia. E é um gosto partilhar o que vou lendo, basculhando e aprendendo. A internet é um óptimo canal para esse fim. Com o blog tenho aprendido que as pessoas adoram aprender filosofia, se ela for divulgada de forma plausível.
Abraço
Rolando Almeida
De Marilia a 10 de Outubro de 2007 às 22:21
Caro coelga!

Gostei bastante do seu post. Partilho das opiniões~/preocupações que expressou.

Bem haja.
De rolandoa a 10 de Outubro de 2007 às 22:30
Marília,
obrigado pelas palavras. O bom mesmo era pressionarmos, usando os meios de comunicação disponíveis, os editores, para a tradução de obras que nos são tão necessárias. E, sobretudo, agir. A filosofia tem muito a dar.
Bom trabalho e volte sempre
Rolando Almeida
De Teresa Fidalgo a 15 de Outubro de 2007 às 11:55
Pois bem, também já ouvi muitas pessoas dizerem que não compram livros, LOGO, não lêem, porque os livros são caros...
E aí concordo em absoluto com o autor do post: Caros? Bela desculpa!
E então, porque não vão buscar livros à biblioteca, que são de borla? Porque não pedem emprestados? Porque não os compram em segunda mão, que às vezes encontram-se ao preço da chuva?
Quem não lê, é porque não quer.
Eu tenho 3 filhos (duas raparigas, de 6 e 7 anos, e um rapaz, de 3 anos) e a prenda que eles mais gostam de receber, é livros. No entanto, verifico, quando vão a alguma festa de anos de amigos, que são sempre os únicos a oferecer livros - as prendas que as outras crianças oferecem são, a maior parte das vezes, mais caras do que a que eles oferecem (normalmente o brinquedo da moda).
E é de pequenino que se adquirem os gostos pelas coisas... A criança quer saber, quer aprender, é curiosa, pergunta muitas coisas. Muitas vezes, nós pais e educadores, é que não estamos dispostos a transmitir esse saber.
Quando levei para casa o livro "Experiências com Balões", por exemplo, foi uma festa! Até o mais novo se mostrou interessadíssimo nas experiências. Passamos ali uns dias bem divertidos, e a brincar adquiriram conhecimentos.
De filosofia para crianças não conheço nada, falha minha por certo, mas não conheço, com muita pena.
Mas estou certa que, mostrando-lhes algo interessante dessa área, iriam delirar.
As crianças têm pensamento abstracto, se têm! E questionam-nos sobre tanta coisa, querem saber "tudo", que não tenho dúvidas iriam compreender os raciocínios filosóficos...
Cabe-nos a nós, pais, motivar os nossos filhos para o querer saber, mas não nos podemos esquecer do papel do professor e dos livoros escolares, tão importante, que ferquentemente é descuidado.
Parabéns pelo blog!
De rolandoa a 15 de Outubro de 2007 às 19:57
Teresa,
Obrigado pelo comentário. Antes de tudo só tenho a felicitá-la pela atitude que tem para com os seus filhos. As suas crianças têm sorte pela postura que com elas tem no que respeita à sua educação.
Escrevi em tempos um artigo sobre o tempo para ler aqui (http://criticanarede.com/html/ed135.html) -(é pago o acesso ao artigo). Defendo no artigo aquilo que a Teresa refere no seu comentário, a saber, que regra geral as pessoas quando se queixam que não têm tempo para ler, o que na verdade não têm é hábitos de leitura. Por regra não dizemos que não temos tempo para ver o jogo de futebol da selecção nacional e até fazemos esforços para nos mantermos acordados para ver a final da fóruma 1 que dá pelas 3 da manhã na TV. Acontece que fomos habituados a que toda a gente pare para ver futebol, mas não estamos habituados a "parar" as nossas vidas para ler.
Em relação à filosofoa para crianças, não é nenhum desleixo da Teresa não saber se existem livros bons, porque, infelizmente, eles praticamente não existem em língua portuguesa. Mas vamos fazer o seguinte: se quiser umas informações mais rápidas sobre o assunto, pode escrever-me para o meu e-mail que eu dou-lhe algumas sugestões (rolandoa@netmadeira.com). Em alternativa, assim que puder faço uns posts para divulgação destes livros e do melhor modo para os obter. Esteja à vontade.
Cumprimentos
Rolando Almeida
De renato martins a 4 de Dezembro de 2007 às 23:01
Ola Rolando, A Philosophy Now ja se anda a inspirar em ti para escrever artigos :-),
vê la o link: http://www.philosophynow.org/issue64/64lawrence.htm

Abraço
De rolandoa a 4 de Dezembro de 2007 às 23:20
Renato,
Thanks for the link. Não ia ver o artigo se não mo indicasses. Não estranho o artigo, é uma prática muito comum saber divulgar a filosofia. Nós por cá ainda temos muito a aprender. Mais vale 20 bons divulgadores que dois filósofos de topo.
Abraço
Rolando
De marcio camillo a 15 de Agosto de 2009 às 20:11
Aqui no Brasil a editora madras  (www.madras.com.br (http://www.madras.com.br)) publicou um grande número
de livros da coleção popular culture. Essa editora também publica livros de magia e bruxaria. Dá pra entender?

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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