Terça-feira, 2 de Outubro de 2007

Quando a arte é bela, é bela para todos?

Um dos problemas da filosofia da arte começa quando pressupomos que o gosto é uma questão inteiramente subjectiva. Se os quadros de Paula Rego são ou não belos é uma questão de apreciação pessoal e assunto arrumado. Mas será que, quando olhamos para uma obra de arte, nada mais está lá do que o que conseguimos ver? Um sujeito muito mal formado jamais verá mais do que traços aleatórios numa tela de arte abstracta, ao passo que um outro com maior cultura e formação, vê algo mais na mesma obra. Se a arte fosse uma questão somente dependente da subjectividade, como seria uma obra aos olhos, por exemplo, de um porco?  
                                                                                              Rolando Almeida

O porco não deve ver beleza alguma no mosteiro dos Jerónimos, mas qualquer ser humano vê lá alguma coisa. Uma pessoa sem formação em química não vê átomos na realidade, mas um químico pelo menos compreende que a realidade é, antes de tudo, atómica. Mas será que a realidade deixa de ser atómica por um sujeito que não entende química não conseguir ver na realidade os átomos? Da mesma forma, uma obra de arte não deve deixar de ser bela se um sujeito não conseguir admirar a sua beleza. A ser assim quererá isto significar que a beleza não deixa de lá estar presente – na obra – se não a conseguirmos ver. Talvez seja necessária educação estética para aprender a ver a beleza onde não a conseguimos ver. Talvez até uma escola que ensine as artes e não as despreze seja uma boa escola na educação global de um sujeito. Quereria isto significar que a beleza das obras de arte poderia ser captada por todos os sujeitos se estes fossem educados a vê-la, a contemplá-la. Esta hipótese não é de deitar fora.
Existem duas saídas possíveis para o problema da objectividade da beleza na obra de arte. A primeira das saídas chama-se subjectivismo estético e a segunda saída, objectivismo estético. Por subjectivismo estético entende-se a teoria que defende que a beleza depende dos olhos de quem vê ou sente a obra, ao passo que por objectivismo entende-se que a beleza está na própria obra, muito para além dos olhos de quem a vê. Assim, segundo a teoria objectivista, quando sentimos emoção ao ouvir uma canção só o sentimos porque a canção é realmente emocionante. Significa que, ainda que um sujeito não sinta qualquer emoção (como eu com a música de Sting), a canção é, ainda assim, emocionante. Resta saber quem determina que a canção é realmente emocionante. Mesmo que esta hipótese nos pareça estranha (tal como eu acho estranho que alguém diga que sente emoção ao ouvir Sting), não podemos desconsiderá-la completamente, até porque a saída que ainda nos resta, o subjectivismo, está também imbuída em objecções fortes. Entre as principais objecções ao subjectivismo encontramos aquela que nos indica que, se afinal tudo não passa de gostos pessoais e subjectivos, que razões temos para discutir o gosto, por exemplo, sobre a música da Madona?Não faz qualquer sentido a discussão para além de anunciar que se gosta ou não e ponto final. E que razões há para dizer que a música pimba é de mau gosto? Ou, ainda, que razões temos para dizer que o equipamento suplente do Benfica, que é cor de rosa, é feio? É que, como já disse, tudo não passa de uma apreciação pessoal sem discussão possível.
O objectivismo estético é um dos problemas centrais da filosofia da arte e, para ele concorrem muitas teorias de filósofos, nomeadamente os contemporâneos, uma vez que a arte do sec. XX relança a questão sobre a beleza da obra de arte, com o aparecimento das obras conceptuais como o urinol, “a fonte” de Duchamp ou os famosos “4”33`” de silêncio de John Cage.
Uma boa fonte para quem pretende iniciar-se neste problema da filosofia da arte é o recente volume, O que é a arte? A perspectiva analítica, Dinalivro, 2007, organizado por Carmo D`Orey reunindo traduções de textos essenciais de autores como Clive Bell, Arthur Danto, Jerome Stolnitz, Morris Weitz e Nelson Goodman.
Algum conhecimento menos técnico sobre o problema pode ser encontrado em Nigel Warburton, Elementos básicos de filosofia, Gradiva, 2007 (2ª ed.)


publicado por rolandoa às 00:45

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7 comentários:
De Daniel Brisolara a 3 de Outubro de 2007 às 15:40
E sobre o fato da arte ter se desvinculado da beleza? Antes de definir se algo é belo ou não seria preciso dizer se algo é arte ou não, e sendo arte que pretende enquanto arte? Pretende despertar nos observadores o sentimento do belo? Pretende provocar sensações tão somente? Pretende coisa alguma, isso depende somente dos apreciadores?

Gostaria de ver mais discussões sobre arte como esta.

Cordialmente,

Daniel
De rolandoa a 3 de Outubro de 2007 às 22:30
Caro Daniel,
Sem dúvida que os problemas que aponta são problemas da filosofia da arte, desde o sentimento estético à própria definição de arte. Não existe um só problema da filosofia da arte. Eu próprio creio não conhecer todos os problemas filosóficos que existem na filosofia da arte. Contento-me com os principais, entre os quais , aqueles que muito bem aponta.
Volte sempre
Abraço
Rolando Almeida
De Cirurgia Estetica a 3 de Outubro de 2009 às 09:47
Gostei muito do artigo. Acho que é sempre dificil categorizar e definir a arte. Muitas pessoas não tem opinião formada sobre certas obras de arte, umas tem opinião demasiado exagerada e outros dizem o que os outros dizem. Acho que por vezes nem é preciso ter opinião, basta apreciar.
De Ricardo Oliveira a 8 de Outubro de 2007 às 19:35
Uma reflexão bastante interessante sobre a própria arte e o seu significado é a que este artista tem vindo a desenvolver. Vê o link:
http://www.eng.umu.se/litgrad/Innocenteye.gif
De rolandoa a 8 de Outubro de 2007 às 21:57
Caro Ricardo,
obrigado pela visita e pela sugestão.
abraço
Rolando Almeida
De Ricardo Magalhães a 6 de Janeiro de 2008 às 21:25
Julgo que o belo continuará a exprimir-se apenas e só pela emoção estética causada em quem a percepciona, o qual será o único caminho para chegar ao encontro de Obra de Arte, mas para isso, será sempre necessária a sensibilidade, que nem todos têm, mas que se melhora.

A imagem do link é mesmo muito interessante Ricardo.

Cumprimentos,
Ricardo Magalhães
De rolandoa a 6 de Janeiro de 2008 às 22:59
Caro Ricardo,
Neste momento temos já disponível em língua portuguesa um pequeno livro muito claro a expor esses problemas, que é o de Nigel Warburton, o que é a arte, Bizâncio, 2007. O problema de pensar que o belo está nos olhos ou sensibilidade de quem percepciona a obra, é que, nesse caso, não temos como discutir o que é e não é belo, pois eu posso dizer que uma pedra na rua é uma obra de arte belissíma sem que existam critérios que possam determinar que estou a dizer um disparate. Ou, sempre posso ouvir a música pimba dizendo que é belissíma sem possibilidade de alguém me contradizer, o que é uma chatice. :-)
Abraço
Rolando A

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