Quinta-feira, 27 de Setembro de 2007

A Teologia Natural de Tomás de Aquino

O mais famoso contributo de Tomás de Aquino para a filosofia da religião são as Cinco Vias ou provas da existência de Deus a que se refere na sua Summa Theologiae. O movimento no mundo, argumenta Tomás de Aquino, só é explicável se existir um primeiro motor imóvel; a série de causas eficientes no mundo devem conduzir a uma causa sem causa; os seres contingentes e corruptíveis devem depender de um ser necessário independente e incorruptível; os diversos graus de realidade e bondade do mundo devem ser aproximações a um máximo de realidade e bondade subsistente; a teleologia normal de agentes não conscientes no universo implica a existência de um Orientador universal inteligente.
Anthony Kenny

Algumas das Cinco Vias parecem sustentar-se num tipo antiquado de física, e nenhuma delas foi até hoje reafirmada de um modo totalmente liberto de falácia. Recentemente, o interesse filosófico voltou-se para o longo e complicado argumento a favor da existência de Deus apresentado na Summa contra Gentiles, e será interessante descobrir se pode ser reafirmado de modo a persuadir os não-crentes.
            A parte mais valiosa da filosofia da religião de Tomás de Aquino é a sua análise dos atributos tradicionais de Deus, como a eternidade, a omnipotência, a omnisciência e a benevolência. Tomás de Aquino esforça-se ao máximo na exposição e resolução de muitos dos problemas filosóficos levantados por esses atributos. No quadro mais vasto da filosofia da religião, o contributo mais influente de Tomás de Aquino foi a sua explicação da relação entre a fé e a razão e a sua defesa da independência da filosofia relativamente à teologia. Segundo Tomás de Aquino, a fé é uma convicção tão inabalável como o conhecimento, mas, ao contrário deste, não se baseia na visão racional; depende, sim, da aceitação de algo que se apresenta como uma revelação divina. As conclusões da fé não podem contradizer as da filosofia, mas não são derivadas da argumentação filosófica, nem constituem a base necessária da mesma. A fé é, contudo, um estado de espírito razoável e virtuoso porque a razão pode demonstrar a justeza da aceitação da revelação divina, ainda que não possa demonstrar a verdade daquilo que é revelado.
            Para Tomás de Aquino é essencial que tenhamos em mente a distinção, hoje familiar aos filósofos, entre teologia natural e teologia revelada. Suponhamos que um filósofo apresenta um argumento a favor de uma conclusão teológica. Podemos perguntar se qualquer uma das premissas do argumento afirmam registar ou não revelações divinas específicas. São algumas dessas premissas avançadas porque ocorrem numa escritura sagrada ou porque foram alegadamente reveladas numa visão privada? Ou, pelo contrário, são todas as premissas apresentadas como factos da observação ou como verdades directas da razão? No primeiro caso, estamos a lidar com teologia revelada; no segundo, com teologia natural. A teologia natural faz parte da filosofia; o mesmo não acontece com a teologia revelada, apesar de os teólogos poderem usar capacidades filosóficas ao procurarem aprofundar a sua compreensão dos textos sagrados.
            Tomás de Aquino pensa que existem algumas verdades teológicas que podem ser alcançadas pelo simples uso da razão: por exemplo, a existência de Deus. Outras podem ser apreendidas ou pela razão, ou pela fé; por exemplo, a providência divina e a bondade. Outras só podem ser conhecidas por revelação, como a Trindade das pessoas de Deus e a Incarnação de Deus em Cristo. Entre as que só podem conhecer-se por revelação, pensava Tomás de Aquino que se encontrava a verdade de que o mundo criado tivera um princípio. O seu tratamento filosófico da questão possui uma sofisticação nunca ultrapassada, nem antes nem depois; por meio de um paciente exame, Tomás de Aquino refutou não apenas os argumentos aristotélicos a favor da eternidade do mundo, como também os argumentos avançados por muçulmanos e cristãos para demonstrar que o mundo fora criado no tempo. Nenhuma das proposições, afirmou ele, podiam ser demonstradas por meio da razão, e a filosofia deve ser agnóstica quanto a esse assunto; devemos acreditar que a criação teve lugar no tempo apenas porque o livro do Génesis no-lo diz.
 
 
História concisa da filosofia ocidental, Temas & Debates, p.187


publicado por rolandoa às 23:33

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Rolando Almeida


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