Sábado, 22 de Setembro de 2007

Relação entre a filosofia e o bom gosto

Muito tenho discutido aqui sobre os preconceitos criados em torno da filosofia. A razão para o fazer é porque ouço, diariamente, disparates em relação à filosofia e àquilo que ela é, bem como da atitude que, face a ela, podemos e devemos manter. Desde o típico, “os filósofos são todos loucos”, passando pela célebre, “a filosofia não serve para nada”, ou até o mais simpático, “os da filosofia são cultos e profundos” (uma espécie de demiurgo místico que vê mais que os outros e que ficaria muito bem com uma tenda numa qualquer feira de Vilar de Perdizes).
Rolando Almeida

Mas convém esclarecer que estas ideias sobre a filosofia não passam de idiotices que nem sequer uma ideia vaga conseguem transmitir. Regra geral até temos uma ideia vaga, mas aproximada do que é e para que serve a física ou a biologia. Quando estamos na filosofia, verifico que as pessoas muitas das vezes não só não tem ideias vagas, como são completos disparates que nada tem que ver com a filosofia. No máximo, poderíamos aqui tentar estabelecer um paralelo com o intelectual francês de finais do sec. XIX, mas ainda assim, a ideia que temos da filosofia e dos filósofos, mais não seria que a versão “chunga” do original francês, uma espécie de abajur comprado na feira de Carcavelos.
Mas o interessante é que andamos cheios de preconceitos sobre os filósofos e a filosofia, sem sequer nos questionarmos sobre qual a razão de ser de tal coisa? Por exemplo, pode ser estranho encontrar alguém que saiba muita filosofia e ao mesmo tempo tenha comprado a discografia completa dos Napalm Death. Mas que coisa estranha, pensamos… como é que tal coisa é possível? Como é que alguém como Colin McGinn gosta de fazer surf? Só pode tratar-se de um filósofo de brincar, daqueles analíticos, pensamos nós!!! Gostar da música dos terríveis Napalm Death e fazer surf é incompatível com a filosofia e, por essa razão, tais pessoas não serão nunca filósofas. Mais! Uma pessoa como o Colin McGinn parece completamente saudável, o que não se compatibiliza com a filosofia. O Slavoj Žižek sim, que é um autêntico “louco” (formado com Lacan e nas escolas francesas). Apesar de não se compreender lá muito bem as relações que estabelece, um pouco porque lhe apetece, entre política, poder mundial e cinema de David Lynch, a verdade é que reúne aquelas características que gostamos de ver num filósofo:
- É meio louco a falar e tem um ar suficientemente aéreo para ser filósofo.
- É difícil entender o que ele diz, pelo que não é acessível, logo é bom para a filosofia.
- Estabelece relações que só ele vê, um pouco como o bruxo de Fafe, que também tem algumas características para ser filósofo (não fossem aqueles casacos pirosos e os crucifixos).
Nada mais parvo, mas esta realidade acontece, infelizmente, ainda que Slavoj Žižek seja realmente um bom filósofo e diga coisas importantes. E estes preconceitos mesquinhos existem mesmo dentro da comunidade de gente formada em filosofia, o que é ainda mais de estranhar. Muitas das vezes, ser formado em filosofia implica gostar de cinema europeu, música alternativa, poesia marginal e ser, pelo menos durante a juventude, um radical anti sistema. Bem, uma espécie de artista diletante ou bailarino de Bolshoi a viver numa água furtada parisiense. Para terminar, a característica essencial é passar muitas e longas horas sentado no café a impressionar os outros, nem que seja com um ar solitário, de livro na mão e a tirar apontamentos. Uma vez perguntaram-me se tinha algo contra as conversas de café. A pergunta é boa, até porque aprecio muito uma boa conversa numa esplanada à beira mar. Simplesmente não é aí que se faz filosofia ou ciência. A investigação exige muito mais que uma cerveja na mão e um pires de tremoços, por muito agradável que nos possa soar a ideia. E a verdade é que, se a investigação e divulgação em filosofia nos pode despertar para as grandes obras humanas, ainda assim, não existe nenhuma relação de obediência entre ser comentador especialista de Platão e ao mesmo tempo contemplar o Requiem de Mozart. Apreciar Diamanda Galás, Sonic Youth ou Joy Division não possui relação directa com a filosofia, ainda que, no limite, alguns autores defendam que é impossível fazer, por exemplo, filosofia da arte, sem conhecer as grandes manifestações artísticas. Mas, neste sentido, facilmente podemos admitir que se possa gostar de Phil Collins (que para mim é pura e simplesmente um dos reis do pimba internacional e de um enorme mau gosto) e fazer filosofia da mente.
Na cultura europeia é estranho o modo como os norte-americanos fazem programas de rádio de filosofia, com guitarradas de bandas como Rage Against The Machine ou Stone Temple Pilots nos genéricos dos programas. Mas o curioso é que, quando ouvimos uma coisa destas, raramente ouvimos o conteúdo. Ele é, regra geral, consistente, muito informativo e bem construído. E divulga-se desta forma a filosofia. Exemplo disto são os programas da Guerrilla Radio sobre problemas filosóficos. Quando a filosofia está na ordem do dia e interessa as pessoas, tal como a medicina interessa a generalidade das pessoas (nem que seja só para saber o que se deve e não deve comer), ela vive não só nos meios universitários, bem como nos jornais ou programas de rádio e televisão. Quando se ignora a filosofia e o seu poder de actuação na vida prática, fazem-se debates sobre problemas cuja matriz é filosófica, mas nos quais ninguém presente sabe discutir os problemas filosoficamente. Mas os filósofos não aparecem nestes debates (como o exemplo recente do debate sobre a moralidade do aborto), não porque os problemas não sejam filosóficos, mas por pura ignorância tanto de quem organiza os debates, como dos próprios supostos filósofos nacionais. Ignorância do que se publica, do que dizem os filósofos acerca destes assuntos. Mas existe aqui ainda uma outra razão que é conveniente apontar. Diz respeito ao modo arrogantemente estúpido como se olha a própria filosofia: olha-se para a filosofia como uma espécie de revelação mística do ser, só acessível a meia dúzia de abençoados por deus – abençoando-os em grego e latim - e, por isso, inacessível à maioria das pessoas, ao comum dos mortais. Vamos pensar que isto é mesmo assim e colocar, então, uma questão: se a filosofia é para alguns eleitos, que possuem um talento especial que vem não se sabe bem de onde, qual o sentido de ensiná-la nas escolas e universidades? Poder-se-á pensar que é o espaço para os eleitos debaterem as questões filosóficas. Bem, eu, que provavelmente não tenho grande talento para filósofo (mas uma paixão irresistível para saber o que dizem os filósofos sobre os problemas), por que razão tenho de pagar com os meus impostos o luxo dos eleitos? Claro que estou a disparatar, mas regressando ao lado sério da coisa, é bom que se veja que os filósofos defenderem sempre que a filosofia deve ser ensinada. E esse foi o método de Sócrates.
Podemos estar à vontade com os nossos gostos para aprender filosofia. Só temos de ser movidos pela curiosidade no saber. Mas a curiosidade pelo saber educa-se e esta lição sabemo-la desde a antiguidade grega. Vamos dormir descansados com a roupa que amanhã vamos vestir, com os bonecos que enfeitam a nossa prateleira, com os discos que vamos ouvir nos próximos tempos, ou se somos amantes de surf, banda desenhada ou pela pintura de Mark Rothko. Para aprender filosofia o que nos faz falta é mesmo só a curiosidade pelo saber e o gosto pela liberdade de pensar e muito, muito trabalho. Com gosto.
Rolando Almeida


publicado por rolandoa às 21:12

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7 comentários:
De Vitor Guerreiro a 31 de Outubro de 2007 às 12:15
Talvez eu inadvertidamente contribua para essa imagem distorcida, espero que não, pois um dos meus locais favoritos para ler é a mesa do café. Não por qualquer neurose exibicionista mas porque há duas componentes dialécticas sem as quais me custa reflectir: cafeína e alguns sons humanos. Nunca gostei de estudar na biblioteca porque, por incrível que pareça, a ausência total de som (se é que isto existe, houve quem duvidasse e tivesse escrito, só para gozar, peças para piano só com pausas) desconcentra-me.

Contudo, não podemos culpar exclusivamente a credulidade e a ingenuidade do candidato a estudante de filosofia que entra no templo da FLUL , como eu entrei em 1997, deslumbrado com o professor que cita Parménides em grego num tom hierático. Afinal de contas, muito foi feito pela instituição para que esta sonolência mística se não desvanecesse tão cedo.
Desde ouvir disparates nas aulas do género "A ciência não explica nada" ou professores que vagamente divagam sobre o véu da Maia e as cuecas do Platão apresentarem-se como ontólogos ", quer dizer, acólitos do Ser. Estas pessoas não corrigem os nossos pecados adolescentes, que até são naturais e compreensíveis. Exigem-nos que "fundamentemos", nas provas orais, as coisas que afirmamos, sendo que este acto de "fundamentar" não é raciocinar, mas sim, na linguagem daqueles, mostrar que alguém muito importante já o disse ou qual a relação lógica da nossa frase com a tradição morta. Isso e afirmações energúmenas como "bem vindos ao melhor departamento de filosofia da Europa", mas não me vou esticar. A lista seria longa.

Em geral, basta umas cócegas no ego para conseguir a tão desejada notinha. Raras e abençoadas excepções se cruzaram no meu caminho. Obrigado a todos eles (contam-se pela mão), obrigado pelas horas de lucidez, pelas ferramentas que só depois de concluído o 4o ano, me permitiram perceber o disparate das coisas que em tempos me conseguiram seduzir e fascinar.

A academia e o modo português de fazer as coisas sufocam a subjectividade de muita gente que podia dar o seu contributo, em circunstancias normais, para algum progresso da disciplina. Nem todos conseguem sobreviver à parvoíce e ao culto da tradição, da personalidade, da peneirice e outras coisas que tais. Por vezes, quando acordamos do "sono dogmático" percebemos as coisas que deitámos pela borda fora sem saber, e lamentamos.

É assim.
De rolandoa a 31 de Outubro de 2007 às 16:23
Caro Vitor,
O problema no ensino universitário português é o excesso de formalismo. Ser professor universitário em Portugal, parece-me, para um número muito elevado de pessoas, uma reforma intelectual antecipada. As chamadas ciências humanas são particularmente vulneráveis ao discurso da pós modernidade, em que toda a gente fala para se exibir numa demonstração de poder sobre os outros e toda a gente concorda acriticamente com o que se diz, mesmo que paradoxalmente o que se esteja a dizer seja que devemos exercitar as nossas capacidades críticas. Isto conduz inevitavelmente a um ensino amorfo sem vivacidade. Ora, a minha experiência com os livros de filosofia e os filósofos é completamnete contrária, uma vez que vejo nos argumentos vivacidade e uma ligação indispensável à vida. O que se aprende num curso de filosofia em Portugal é alguma história da filosofia na maioria das vezes muito mal contada e um batalhão de teorias que muitas das vezes são decoradas nos únicos trabalhos académicos que os professores realizaram, as famosas sebentas (que mais não são do que resumos dos livros que chegam da Alemanha e da França). E esta realidade é inacreditável se pensarmos que há muitos professores do ensino superior que dão entre 9 e 15 horas de aulas semanais, sem fazer mais nada. Vejo muitas vezes publicações patrocinadas com dinheiros públicos que são trabalhos supostamente de alta investigação. Mas esta gente é incapaz de realizar trabalhos de divulgação. Depois é tristes vê-los a "pedinchar" mais filosofia com argumentos idiotas que a filosofia é essencial para a reflexãocrítica do cidadão e outras tontices. Uma actividade que produza justifica-se pelo seu produto, senão é perfeitamente legítimo que se pergunte para que raio serve. E qual o produto da filosofia ? precisamente o saber e conhecimento que são a base de desenvolvimento e progresso. Mas para que se veja este produto é necessário realizar um amplo trabalho de divulgação da filosofia. Por essa razão elogio com frequência o trabalho do colega Desidério Murcho, um raro caso que parece ter essa consciência.
Claro que se pode ler e aprender filosofia onde quisermos. O problema é que se ela não começa por se fazer nas escolas tenho duvidas que as pessoas se venham a interessar por ela e o Vitor corre o rico de ser uma espécie em extinção enquanto leitor de livros de filosofia no café.
Abraço
Rolando A
De Vitor Guerreiro a 6 de Novembro de 2007 às 11:16
Eu por mim dedicava-me a filosofia noutro contexto além do café. O problema é que ao acabar a licenciatura não tive muitas opções. Tive de me enfiar num armazem de tintas para poder ganhar a vida e os gajos não davam bolsas ao 5º ano. Os mestrados têm a desvantagem de só servir para dar dinheiro àqueles senhores que tão alegremente preservam a nossa ingenuidade para alimentar os próprios egos com a sua corte privada de seguidores, e pronto.

Assim, cá vou andando, já passaram 3 anos desde o fim da licenciatura, o emprego nas latas também foi há 2 anos, e aqui me perco entre traduções esparsas de romances e manuais de dvd´s para chineses, um pseudo-curso de design gráfico no Saldanha e umas ocasionais traduções para a Crítica.

Talvez no futuro venha a poder fazer algo na filosofia.

Abraço
De rolandoa a 6 de Novembro de 2007 às 11:37
É verdade Vitor! Bolas... mas a vida é mesmo isto, temos de nos safar. Eu acabei o curso, faz já mais de uma década e creio que já fui dos últimos a entrar no sistema de ensino. E fui dos primeiros do curso a ganhar um lugar de quadro, uma vez que resolvi vir para a ilha da Madeira, onde tenho agora residência fixa. Mas foi sofrível até chegar aqui. pelo menos conheci meia dúzia de pequenas cidades portuguesas.
Pois agora sei de onde conheço o nome do Vitor, da Crítica. Então isso significa que já li traduções suas. E devo ter lido livros inteiros, não sei. Andamos todos trocados. O que eu gostava mesmo era de saber bem inglês para poder traduzir. é verdade! Infelizmente o meu inglês não chega para traduzir livros inteiros. e já agora Vitor, eu comecei a ler inglês única e exclusivamente para ler filosofia.
Abraço e felicidades
volte sempre, tem sido uma agradável passagem
Rolando A
De Matheus Silva a 5 de Fevereiro de 2008 às 18:48
Anexei uma cópia deste texto num mural da universidade em que faço filosofia. Tem muitos pseudo-filósofos como esse na minha graduação. sabe o que fizeram? Arrancaram o texto, pura e simplesmente. É assim que eles reajem a críticas, de maneira irracional - fazem posses de intelectuais contemplativos e são iguais ou piores do que as pessoas mais simples.
De rolandoa a 5 de Fevereiro de 2008 às 21:09
Olá Matheus,
Estranha atitude vinda de gente da filosofia, essa de reagirem escondendo a crítica. Teria sido melhor objectarem criticamente. Mas temos de ser pacientes e divulgar alguma da boa filosofia, desmistificando ao mesmo tempo os maus dogmas que destroem a filosofia. Todas as disciplinas e ramos do saber tem os seus problemas. A filosofia é particularmente vulneravel a más influências. Brevemente vou ver se escrevoalgo sobre este tópico.
Abraço amigo
Rolando Almeida
De Matheus a 30 de Junho de 2009 às 02:28
Se uma pessoa lhe disser que filosofia para nada serve, responda-lhe  assim "Prove - me!" Então ele te provará. E vós lhe dirá: "Isto é filosofia!"

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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