Terça-feira, 18 de Setembro de 2007

Luta na filosofia ou redução ao absurdo de argumentos

 

Não são raras as vezes que observamos lutas e disputas entre diversas correntes filosóficas, como se de autênticas rivais se tratasse. A expressão deste aspecto é manifesta nos departamentos das universidades. “Não se deve dar muita confiança aquele porque é analítico”; “Ai, aquele esteve a fazer uns seminários nos Estados Unidos e agora acha que sabe tudo”; “Olha, o tipo passa a vida a citar em alemão e grego, mas é só para se evidenciar, porque não sabe nem alemão, nem grego”, etc.

Rolando Almeida

 

 

 


Este comportamento por vezes vai tão longe que se criam verdadeiros ódios de departamento disfarçados de pós modernos versus analíticos. Ora bem, não pretendo aqui mostrar que, afinal de contas, we are the world, we are the children e o que faz falta para animar a malta é a fraternidade e amizade, como se tudo tivesse lugar em tudo e tudo passasse a valer por igual medida. O que está aqui em causa é que a má atitude a ter, tanto em filosofia como em qualquer outro saber, é a de se criar ódios de estimação sem indagar porque é que este ou aquele filósofo, esta ou aquela corrente, não presta. Esta má atitude assenta na base expressa do seguinte modo: ou sou a favor de X, ou sou contra X. Se sou a favor, vou ler tudo sobre X. Se sou contra, então não leio uma linha sequer porque pura e simplesmente não vale a pena. Por outro lado, podemos desde já esquecer a pretensão de nos tornarmos ao mesmo tempo especialistas em filosofia analítica, pós-modernismo, grego e alemão. Este imenso saber só está ao alcance de muito poucos, se é que o está verdadeiramente para alguém. Temos, antes de tudo, de saber viver com as nossas limitações e, sobretudo, ter boas orientações para saber por onde começar. E há dois bons pontos de partida para aprender filosofia:
1-      Conhecer um pouco a sua história
2-      Saber o que actualmente está na ordem do dia da investigação filosófica.
Para começar, no que respeita ao ponto 1, provavelmente não faz sentido começar a estudar por uma história da filosofia que esteja desactualizada. Uma boa introdução à filosofia, mais ou menos extensa, é um bom ponto de partida para conhecer o desenvolvimento dos principais problemas da filosofia. Um dicionário de filosofia ajuda muito neste primeiro passo. E assim começamos a dar os primeiros passos. Normalmente uma boa história da filosofia, bem organizada, vai directamente aos problemas e autores centrais, indicando bibliografia primária e secundária para, mais tarde, aprofundarmos os temas que mais nos interessam.
Para saber o que mais se investiga actualmente em filosofia, uma boa fonte, é consultar os departamentos de filosofia das melhores universidades do mundo. Só a título de exemplo, se fizermos tal exercício, verificamos que estudar Heidegger ou o pós modernismo em filosofia hoje em dia, ocupa somente 10% de toda a investigação feita, pelo que podemos depreender que os autores pós modernos ou Heidegger, apesar de podermos sofrer de orgasmos intelectuais com estes autores, não são, na verdade, aqueles que mais se aprofunda e investiga em filosofia, nem aqueles que se cita na bibliografia mais relevante actualmente. Não quero com isto dizer que um autor como Gilles Deleuze não seja importante. É-o certamente. Muito mais é Heidegger. Acontece que estes autores são motivo de investigações muito específicas para podermos começar a estudar filosofia por eles. E é um erro pedagógico grave começar a ensinar filosofia pelas investigações mais específicas e particulares, quando temos um enorme campo de investigação noutras áreas que podem mais tarde despertar interesse para um autor ou outro. No caso, o facto destes autores serem motivo de interesses mais específicos, não é porque sejam autores mais difíceis que Descartes, David Hume ou Daniel Dennett. Acontece que possuem menos relevância para o campo de investigação que hoje se faz. Saber o que as grandes e melhores universidades do mundo investigam é um apelo à autoridade, mas se não confiarmos em quem sabe e mais trabalha, que vai ser de nós e do nosso estudo? Como em tudo na vida, também em filosofia, não podemos ter a pretensão que podemos partir do topo, desconhecendo por completo a base. Recorrendo a um pequeno exemplo, não faz grande sentido estar a discutir argumentos de Heidegger sem saber, sequer o que é um Modus Tollens. Podemos pensar que em momento algum da sua obra, Heidegger se referiu ao Modus Tollens, mas acontece que, para discutir argumentos temos de saber as regras da discussão e essas envolvem regras simples como o Modus Tollens. Por esta razão, se nos dispomos a discutir Heidegger desconhecendo a gramática da discussão racional, acabamos por fazê-lo de modo obscuro, ininteligível, muitas das vezes roçando um lado romântico e poético, como se filosofar dependesse única e exclusivamente deste talento que nem todos possuem. Talvez por esta razão, alguns departamentos de filosofia, produzam mais talentos em poesia e teatro do que propriamente em filosofia, imagem lírica, bonita, mas completamente errada da filosofia e que por aí prolifera.
Mas uma coisa podemos ter como certa: alguém que se disponha a discutir a filosofia de Heidegger, tem de ler a obra de Heidegger, pelo menos os textos de referência. Disto ninguém duvida. Do mesmo modo que alguém que queira discutir os argumentos de Peter Singer ou Bertrand Russell, terá de ler os seus livros mais importantes. Caso contrário não saberá do que está a falar e mais não faz do que a expressão de um ódio de estimação qualquer, denunciando uma má relação com o saber. E a relação é má porque se estudou Heidegger só para se evidenciar e não porque é movido pela curiosidade intelectual e está realmente preocupado com os problemas. Quem, recorrendo a mais um exemplo, está interessado em estudar metafísica, pode e deve ler as obras de Heidegger, mas não pode ignorar a obra de Russell. Se o faz passa somente por conhecer uma terça parte do problema. Se não o faz (como eu que não li a maior parte da obra de Heidegger) deverá assumi-lo claramente, mostrando que o seu interesse no estudo da metafísica é, por enquanto, x e não y. Se quiser avançar no estudo, o mais provável é que tenha de ler Heidegger, mais que não seja, para compreender que a obra do autor não é a mais relevante, se assim for.
Mas, independentemente do estudo que possamos fazer em filosofia, a atitude que nunca é de esperar, é a de banalizar os autores e a filosofia, ou pelo menos parte dela, como se estivéssemos a falar de um vizinho que não gostamos somente porque comprou um Mercedes quando nós nem dinheiro para um Renault temos.
As consequências de pensarmos que descobrimos a verdade somente porque lemos uma parte de um dos livros de Platão em Grego, são devastadoras, pelo menos se formos professores e pretendermos ensinar algo do que sabemos. E são devastadoras porque não incentivam os neófitos ao estudo da filosofia. O melhor que pode provocar no jovem aprendiz é maravilhar-se com a sabedoria do professor e pouco mais. Ensinar envolve os nossos afectos, mas creio que os envolve no sentido da maior imparcialidade no que temos a ensinar e no modo como o fazemos. Quem gosta realmente de ensinar, mantém a atitude de ir para além daqueles que são os seus autores preferidos, sempre com o objectivo de revelar ao aluno esse grande universo que é a filosofia, partindo de uma base que seja sustentável para alguém que quer começar a aprender filosofia. Tudo isto, para além dos nossos gostos e ódios de estimação. A filosofia pertence a todos e a todos deve ser ensinada de modo imparcial. E para objectar argumentos podemos sempre recorrer a uma redução ao absurdo.


publicado por rolandoa às 16:40

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7 comentários:
De jacintoleite a 19 de Setembro de 2007 às 14:21
se isto não é infantilizar a filosofia não sei o que será. Obrigado pelo mau serviço. Com amigos assim...
De rolandoa a 19 de Setembro de 2007 às 17:37
Caro Luís,
Não explicou porque é que "isto" é infantilizar a filosofia. A ironia é mesmo essa, não percebeu? é que, pelo modo como se trata a filosofia em Portugal, isso sim, é infantilizá-la.
Volte sempre
abraço
Rolando
De rolandoa a 20 de Setembro de 2007 às 02:22
Correcção: trata-se de Jacinto Leite a quem me dirijo e não Luís. Por lapso escrevi Luís. Correcção feita.
Rolando A
De Daniel Brisolara a 3 de Outubro de 2007 às 22:02
Estranho o usar como critério o número de pesquisas atualmente desenvolvidas. Por que isso seria critério para se ensinar ou não determinados autores? E se atualmente as academias mais importantes estejam envolvidas em modismos que não interessem em absoluto à pessoas que buscam a filosofia? E se as pessoas estejam interessadas na filosofia existencial de Heidegger e outros que vão na mesma linha? Estranho nesse seu comentário desconsiderar a história de uma nação. Isso não deveria ser levado em conta? Isso não seria um fator importante, por exemplo no sentido de motivar os alunos, ou também no sentido de coloca-los a par das discussões que movem um grande número de pessoas nesta nação. Não que seja para doutrinar ninguém, mas estudar ver acertos e erros.

Mas qual o objetivo dessa maneira de ver o ensino de filosofia? Instruir os alunos para que possam se associar posteriormente a uma parte que seja realmente importante da filosofia?

Não entendo esse argumento seu de achar que existe uma "gramática da argumentação". Heidegger por exemplo nunca se encaixaria nisso. Como ficaria? Seria o que chamam de pós-moderno? Seria irracional? Já discutimos certa vez sobre assuntos semelhantes, mas infelizmente não acho os argumentos, ou não vi ainda argumentos realmente fortes m nome dessa filosofia que se aproxima da ciência, que tem certa objetividade clara, que se usa de lógica formal e informal para construção de argumentos, que crê num progresso mesmo que não-positivista, que a filosofia não seria mera atividade exegética ou poética, mas sim que seria uma atividade de discussão permanente, de uma ênfase acentuada nas problematizações e argumentos muito mais do que na história das idéias etc. Quais os argumentos sólidos, rigorosos e profundos que sustentariam essa visão de filosofia?

Cordialmente,

Daniel Brisolara
De rolandoa a 3 de Outubro de 2007 às 23:39

Caro Daniel,
Essa filosofia que falo é a filosofia de Sócrates, Aristóteles ou Kant. Veja o método socrático, a lógica aristotélica ou as concepções de Kant. Não estou a inventar aqui uma qualquer filosofia que se oponha a outras. Desde a antiguidade que a filosofia se interessa pela problematização pela verdade e pela objectividade científica. Do que falei no meu texto foi do conhecimento mínimo e básico das regras da argumentação. Ou acha o Daniel que a argumentação filosófica é pensar do modo como convém a cada um, sem discussão entre pares? E isto não significa esquecimento ou omissão da história da filosofia. Significa outra coisa: que em filosofia não temos de fazer obediência cega à sua história. Imagine o Daniel que faz obediência cega a Ptolomeu e ainda acredita que a terra é o centro do universo? Porque razão temos de o fazer em filosofia? Imagine que faz obediência histórica à lógica de Aristóteles ignorando os recentes desenvolvimentos da Lógica? Faz isto algum sentido? E qual é o problema em aproximar a filosofia da ciência se essa aproximação sempre foi feita pelos próprios filósofos? É claro que o Daniel pode ainda não ter visto argumentos fortes em relação a uma posição negativa face aos efeitos do pós modernismo, mas acaso já os viu em sua defesa? Não lhe vou expor aqui toda a argumentação que coloca em causa os autores pós modernos, mas não podemos ignorar que ela é extensa. Mas note um aspecto, Daniel: quando se fala que o modelo proposto pelos autores pós modernos falhou, não se quer dizer que os autores pós modernos são todos uns aldrabões que quiseram fazer mal à filosofia. Esses autores são importantes e ainda hoje existe uma grande discussão em relação à objectividade ou subjectividade da própria noção de verdade. Não se trata aqui de fazer guerras e inimigos. Trata-se de discutir problemas. E note ainda que este meu texto que o Daniel comenta é uma ironia ao comportamento das pessoas ligadas à filosofia nos meios académicos. Se reler o texto vai perceber que não se coloca nenhum filósofo em causa. Pessoalmente não vejo qualquer vantagem didáctica em ensinar Heidegger em níveis de ensino mais elementares quando temos autores que cumprem muito melhor essa função. De resto, nada tenho a opor a Heidegger ou à sua filosofia, até porque não sou um estudioso de Heidegger, nem tem sido um autor que desperte muito a minha atenção. Mas com isto não estou a desbeneficiar a sua filosofia ou pensamento. Também não tenho particular interesse em ler a Summa Teologica de S Tomás de Aquino e, com efeito, não estou a dizer com isso que seja uma obra desinteressante, bem pelo contrário. E isto não significa que mais tarde não venha a dar a atenção merecida a esses autores e às suas obras, até porque são autores que, academicamente, já me obrigaram a algumas leituras.
Abraço
Rolando Almeida
De cristina a 11 de Fevereiro de 2009 às 18:19
muito bem Prof. . rolando a manter o nível Summa Teologica de S Tomás de Aquino será a minha próxima aquisição . tudo pela imparcialidade da filosofia....sem contar às criancinhas o que gostamos ou não .</a> . o que acreditamos ou não .</a> desde k lhes sejam incutidos valores e entendam o k se passa com o mundo... não .</a> sou Prof. de filosofia nem de outra disciplina... descobri as vantagens de pensar e vi que era capaz de o fazer... estou muito orgulhosa de mim e acredito que ao brincarmos um pouco aprendemos mais... não .</a> estou a gozar nem a criticar ate que considero este site o melhor na maneira de expor a filosofia a mim uma mera leiga na matéria . beijos
De rolandoa a 11 de Fevereiro de 2009 às 20:00
Cara Cristina
é sempre bom ter gente da Madeira a visitar o blog.

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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