Quarta-feira, 12 de Setembro de 2007

A filosofia não é uma arma de arremesso

A propósito do comentário de um leitor, lembrei-me de escrever algo mais sobre aquilo que a filosofia não é. Pelo menos o que ela não é intrinsecamente, ainda que possa ser usada instrumentalmente para vários fins. Podemos usar uma faca para cortar uma maçã ou para matar. Sabemos bem das distâncias da nossa acção, mesmo tratando-se do mesmo objecto usado, a faca. Mas tal não nos permite pensar que, quando entramos numa loja de utensílios de cozinha e vemos que se vendem facas, que entramos numa loja de armas. Se assim pensássemos, do mesmo modo poderíamos pensar tal coisa quer para facas, esferográficas, lâminas de barbear, garrafas, cadeiras ou todo e qualquer objecto que nos permita usá-lo com violência ou arma de arremesso para matar pessoas. O mesmo se passa com a filosofia, ainda que, no caso, seja mais complicado pensar que a filosofia sirva para matar. Mas até isso podemos pensar. Não foi isso que pensaram os ditadores dos regimes totalitários?
Rolando Almeida

Mas é preciso notar que os regimes totalitários servem-se da filosofia do mesmo modo que se servem da ciência, ou das facas. Tudo está ao serviço do regime para o impor de modo coercitivo. Daqui se depreende que seria errado pensar que Sócrates era fascista somente porque um qualquer ditador se lembrou de o citar. O ditador usava o filósofo do modo como lhe apetecia para realçar a grandeza do seu regime e a sua própria grandeza. Do mesmo modo, o regime nazi usou a ciência para perpetuar o seu poder. Mas daí não podemos pensar que quem racionalmente defende a eutanásia é nazi. Tal é incorrer numa falácia elementar do discurso argumentativo, que é a falácia da precipitação do juízo. O exemplo de Peter Singer na Alemanha é sintomático do que aqui estou a descrever. Quando o filósofo australiano foi à Alemanha em apresentação dos seus argumentos racionais, foi irracionalmente insultado pelo público, sendo que os ofensores eram na sua grande maioria grupos de defesa dos direitos dos deficientes. Ora, em lado algum da sua obra, Singer defende que os deficientes devam ser eliminados. Somente coloca o problema da moralidade do aborto ser defensável se o feto não puder vir a ter um futuro como o nosso, como um projecto de vida consciente. E coloca esta possibilidade para casos limite como os de crianças que venham a nascer com anencefalia. (a este propósito ler  este post). Daqui a acusar o filósofo de nazi e de pretender uma eugenia totalitária, vai uma distância que tem tanto de injusta como de irracional, a mesma distância que observamos nos mais poderosos ditadores.
Na verdade as pessoas comungam facilmente de uma atitude, - ou sou contra ou a favor - e isto muito antes de reflectir sobre o problema em causa, como se tivéssemos de, para qualquer acontecimento da vida humana, pura e simplesmente ser contra ou a favor, sem mais. Em filosofia aprendemos a defender ideias com razões bem sustentadas racionalmente. Claro que com a complexidade de muitos dos seus problemas e as limitações do género humano, não nos damos ao luxo de falar das coisas como se tivéssemos a verdade no bolso. Em filosofia, tal como nos outros saberes, a procura pela verdade é um imperativo, mas a procura pela verdade significa tão somente isso mesmo, uma procura. Nada mais! Mas a procura pela verdade implica uma outra coisa muito significativa: a honestidade intelectual nessa procura. E aqui é que a filosofia ou a ciência se distingue de tudo o resto: não admite no seu processo interno a mentira e ainda que esta aconteça muitas vezes, acaba sempre por ser descoberta nem que para tal se leve séculos a descobrir. A ciência ou filosofia é, neste sentido, o estar de lado a lado com a verdade, sendo que a verdade é sempre resultado do esforço da razão humana. Neste sentido é claramente ilegítimo pensar que a filosofia deve servir este ou aquele interesse particular a um tempo e a um espaço, quanto muito a um grupo de pessoas. Pensar que a filosofia é essencialmente uma luta contra poder é, neste sentido, fazer da filosofia uma arma de arremesso. A filosofia não é nem nunca foi a arma política do povo ou seja de quem for. A filosofia é contra poder se existirem razões para tal que estejam comprometidas com a verdade. Não é contra poder porque se tenha de ser contra poder ou porque ser contra poder é algo que esteja na moda desde a última revolução florida. Quanto muito a filosofia permite-nos a abertura mental suficiente para nos dar a lucidez de compreender como são erguidos mecanismos de opressão humana. Mas isso é tão válido como afirmar que a filosofia serve para nos possibilitar a lucidez de quando a liberdade é oferecida de forma anárquica e desorganizada. A filosofia não pode ser vista como ao serviço de uma clique ou ao serviço das nossas crenças mais elementares. Estar na filosofia exige disponibilidade para questionar as nossas crenças mais básicas e isto independentemente das nossas crenças mais básicas do ponto de vista político passarem pelo autoritarismo ou anarquismo libertário. Diferente é o autoritarismo político ou anarquismo libertário servirem-se da filosofia para defenderem os seus interesses ideológicos. Mas aí não estamos na filosofia, mas sim na ideologia. E esta é a diferença.


publicado por rolandoa às 18:17

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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