Sábado, 8 de Setembro de 2007

Grandes questões filosóficas

Existem alguns motivos curiosos pelos quais destaco aqui o mais recente volume da colecção da Gradiva, Ciência Aberta. Antes de mencionar alguma motivação específica, qualquer volume desta colecção merece destaque. Trata-se de uma colecção responsável pela formação científica de muitos leitores portugueses, incluindo a minha. Sem a Ciência Aberta estaríamos muito mais arredados do que é a ciência e as suas grandes questões, bem como do poder pedagógico da sua divulgação.
O volume mais recente, Grandes questões científicas, é organizado por Harriet Swain, jornalista de profissão e que já organizou outros volumes, tais como, Grandes questões da história. O trabalho de Harriet Swain consistiu em reunir um número razoável de artigos (20 no total) de cientistas sobre aquelas que são consideradas as grandes questões da ciência na actualidade.  Não pude deixar de notar o preço do volume (14.40€, preço de editor) que, comparado com outros volumes de igual dimensão (cerca de 250 páginas) , é um pouco mais baixo.
Rolando Almeida

Penso que a razão do preço mais baixo é explicado pela “missão” do editor da Gradiva na divulgação científica. E isto explica-se também porque este volume contém informação sobre ciência actual condensada pelas mãos de nomes consagrados com créditos confirmados. Mas o ponto mais curioso de todos é que esta obra acaba por nos revelar que as grandes questões da ciência são, antes de tudo, questões da filosofia. Depois do prefácio da organizadora do volume e a introdução de John Maddox, o primeiro artigo, de John Polkinghorne, ex presidente do Queens`College, de Cambridge e pastor anglicano, chama-se “Será que deus existe?”. O artigo consiste numa reduzidíssima introdução ao problema da existência de Deus, com a limitação óbvia do problema não ser tratado filosoficamente, ficando-se por uma breve exposição de 5 páginas ao tema. Outros artigos aparecem no volume com títulos como: “Como começou o universo?”, “o que é o tempo?”, “o que é um pensamento”, “como evoluiu a linguagem?”, “em que é que os homens e as mulheres diferem entre si?”, “poderemos acabar com a fome?”, “continuamos a evoluir?”, terminando com um artigo de Steven Rose, professor de biologia da Universidade Aberta e professor adjunto de física do Gresham College, com o título, “qual o sentido da vida?”.
O que temos aqui? Nada mais do que um livro de grandes questões da filosofia, tratadas pelos olhos de cientistas. Porque razão tal acontece? Precisamente porque os problemas da filosofia são os que aparecem nas margens da ciência propriamente dita. Não é de estranhar, portanto, que os cientistas manifestem vontade em pronunciar-se sobre estas questões e problemas, tal como sentem vontade em escrever livros e artigos sobre laboratórios, telescópios ou outras questões que estejam relacionados com o seu universo profissional. Desde a tradição grega que as grandes questões filosóficas são as que acabam por organizar um corpo de ciência. Somente uma formação errada em filosofia não nos possibilita esta compreensão da estreiteza de relações entre filosofia e ciência. Se a biologia ou a química são elos do corpo científico, a filosofia aparece nas margens da própria ciência, não se confundindo, portanto, com a investigação empírica a que a ciência, posteriormente, se sujeita.  Esta obra apresenta-nos os cientistas preocupados em reflectir sobre a investigação primeira da filosofia. Mas estão a laborar em terreno alheio e, por essa razão, apesar do volume ser precioso em termos de informação, acaba por soar, na maior parte dos artigos, incompleto e insuficiente. Claro que os cientistas tem uma palavra a dizer sobre problemas e temas filosóficos, mas fazem-no fora da sua área específica de intervenção, numa boa parte dos casos, tendo que se socorrer da bibliografia filosófica. Aliás é algo como isto que acontece com o recente best seller de Richard Dawkins, God Delusion (ver recensão na Crítica – pago).
É útil ainda tirar mais um apontamento: uma parte significativa das mais recentes respostas da ciência, devem-se aos problemas filosóficos ou à forma como os mesmos foram pensados e colocados, mas as respostas científicas vieram a colocar renovadas questões para a filosofia. Um pequeno exemplo encontrámo-lo na Filosofia da Mente, em que os desenvolvimentos das neurociências vieram a ser reveladores da necessidade de reposicionamento das questões filosóficas. Mas os neurocientistas pouco têm a adiantar às questões mais centrais da filosofia da mente, por uma razão muito simples de compreender: as questões e problemas filosóficos são aqueles que não possuem explicação científica. E, se algum dia a tiverem, deixam de ser questões e problemas para a filosofia.
Em conclusão, a obra constitui uma leitura muito agradável sobre as grandes questões filosóficas… perdão, científicas. É conveniente não confundir…
HARRIET SWAIN é jornalista de Times Higher Education Supplement.
Harriet Swain (prg.), Grandes questões científicas, Gradiva, col. Ciência Aberta, vol. 163, 2007, Trad. Maria José Figueiredo


publicado por rolandoa às 18:56

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2 comentários:
De miguel portugal a 10 de Setembro de 2007 às 23:27
Há dois dias atrás, por acaso ou talvez não, estive com o livro nas mãos. Fiz uma análise rápida e uma leitura circunstancial. Fiquei com uma impressão idêntica: tratar-se-ía de uma obra de cientistas de proa sobre... questões filosóficas, questões que se colocam quando o investigador se põe a meditar de modo mais aprofundado; mas também me pareceu que, pelo menos algumas questões, eram abordadas de modo um pouco incompleto. Não retira isto, naturalmente, valor à obra de divulgação nem, pois, a esta edição traduzida da consensual editora de batalha contra a iliteracia científica em Portugal, que é a Gradiva.
De rolandoa a 11 de Setembro de 2007 às 02:47
Caro Miguel,
Completamente em acordo. Na verdade a obra é muito interessante, com a particularidade de serem cientistas a tentar filosofar. E, de resto, até nem há nada de errado nisso. O meu texto ´pretende alertar o leitor desprevenido para esse facto. Mas é confortável saber que o Miguel também percebeu na obra o que eu percebi. Só mais uma coisa: para um leigo como eu em ciência, estas obras assentam que nem uma luva.
Obrigado pela visita
Até breve e abraço
Rolando Almeida

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Rolando Almeida


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