Terça-feira, 4 de Setembro de 2007

Manuais que custam dinheiro

Recentemente, com o fim do verão e a abertura do novo ano escolar, relançou-se, na imprensa portuguesa, a questão dos manuais escolares e do custo que os mesmos têm para as famílias. Já é do domínio público que a venda de manuais em Portugal é um grande negócio, obtendo a maior fatia do mercado no que respeita à venda de livros. Deveria ser ao contrário. O mercado seria tanto mais agitado e interessante se existisse uma grande competição na edição de livros, desde o romance àqueles de divulgação científica e filosofia e os manuais ocupassem somente 1/3 das vendas de livros.
Rolando Almeida

Com efeito a realidade não é esta e acontece que o produto mais vendido tem de ter o melhor aspecto, uma vez que é a esse que cabe a competição desenfreada com os seus congéneres. Isto quer dizer que os manuais escolares portugueses, sendo os livros que mais vendem e rendimentos dão aos livreiros e autores, são dos livros nos quais mais se investe no aspecto gráfico. Assim, qualquer manual para alunos do 7º ou 8º ano possui a qualidade gráfica muitas das vezes só encontrada nas melhores enciclopédias ou edições de luxo. E esta brincadeira tem um alto preço a pagar, preço esse que aparece na factura familiar na abertura de cada ano lectivo. Ao mesmo tempo, sendo o negócio livreiro o que mais rende, é natural que comecem a surgir os subprodutos, quer dizer, os maus manuais, muitas das vezes muito bonitos, graficamente apelativos ou pimbas (outro mercado muito forte), mas de conteúdo muito mau, onde os erros aparecem e são graves ou, pura e simplesmente, onde se imitam outros manuais sem qualquer decoro. Até aqui tudo aparentemente bem. Se existem maus produtos não os compramos. Tal como no sketch do Gato Fedorento, no qual o cliente não queria comprar “Kunami” e “Funami” (nomes para fruta podre) ao mesmo tempo que o vendedor o tentava convencer sorrateiramente que o produto era de alta qualidade. O maior problema, quando pensamos em maus manuais, é que numa boa parte dos casos, os maus são os que mais e melhor vendem, salvo honrosas excepções que vão salvando o bom nome do ensino. Mas ainda se coloca aqui um outro problema, talvez mais grave: é que, neste caso, não são os consumidores que escolhem o produto que vão consumir, mas alguém, os professores, é que escolhem esse produto. E, por diversas razões, muitas vezes, escolhem mal. Há que o assumir! Tal como muitos médicos, algumas vezes, escolhem o pior medicamento para um determinado problema, também muitas vezes os professores escolhem maus manuais para o ensino. Sei que pode soar politicamente incorrecto da minha parte, que sou professor, assumir que muitas vezes os professores não fazem as melhores escolhas, tal como em algumas vezes eu próprio não fiz as melhores escolhas. Mas a prova do que aqui digo, que existem maus manuais e que, ainda assim, são muitas vezes escolhidos em muitas escolas, é o próprio Ministério pretender criar uma entidade independente que os certifique. E isto acontece porque o Ministério pretende vender somente os bons manuais (as questões que aqui se colocam não são para debater neste momento). As más opções em matéria de selecção de manuais não resultam em responsabilidade dos grupos editoriais. Estes existem para vender e erguem enormes e eficazes campanhas de marketing com apresentações dos seus projectos em Hotéis de Luxo, oferecendo uma recepção de encantar aos professores. Mas devo referir que, para além desta faceta do Marketing, os grupos editoriais fazem, muitas das vezes, o próprio trabalho do Ministério, indo de encontro aos professores, atendendo às suas necessidades e anseios, disponibilizando materiais, oferecendo manuais. Apesar de todo este aparato, o que resulta? Manuais impressos em papel de alta qualidade, a cores e com elevada qualidade fotográfica, com adereços como recursos em DVD ou CD, cadernos extra para professor e aluno, etc… mas ainda assim, como foi referido, uma boa parte e, no caso que melhor conheço, o da filosofia, a maior parte, fica aquém da qualidade mínima no que respeita à exploração dos conteúdos, no fundo, a única razão da existência dos manuais. E estas são as principais razões que explicam os preços dos manuais escolares, ou, pelo menos, são as que engrossam o seu preço. A contrastar com este ambiente frenético dos manuais (repare-se, a título de exemplo que, no final do ano lectivo passado existiam cerca de 15 manuais diferentes para adopção na disciplina de filosofia, sendo que os maiores grupos editoriais chegaram a apresentar 3 manuais diferentes), temos o exemplo dos manuais ingleses. Estes, que conheço relativamente bem, são modestos na qualidade gráfica, sendo na sua maioria impressos a letras pretas com fundo branco mas são destinados a um sistema de ensino de um país rico, dirigidos a uma população que no futuro lerá 100 ou 200 vezes mais que a população portuguesa, o que por si só demonstra que não é por ser colorido que é mais atractivo. Se existem diferenças factuais evidentes e indesmentíveis, essas diferenças são explicadas pelas coordenadas que norteiam cada sistema de ensino. E as coordenadas que norteiam o sistema de ensino luso já possuem nome, o «eduquês». Aqui encontramos uma razão mais subtil, porque mais difícil de descodificar, que explica a existência de muitos manuais que são muito bonitos, mas fraquinhos de conteúdo, vulgo pobres de espírito, ao mesmo tempo que muito caros para o que valem. Essa razão é a própria nomenclatura em que se pensa e ergue o sistema educativo português, com a cultura do facilitismo e do vale tudo, com programas escolares onde se ensina tudo menos conteúdos precisos e científicos, uma cultura que valoriza o saber fazer menosprezando hipocritamente o saber saber, como se fosse possível saber fazer alguma coisa sem saber saber. Uma cultura de ensino que fez sentido e produziu algo de bom em determinado tempo, mas que se desajusta completamente às necessidades reais do mundo actual e dos seres humanos.
Os manuais são o desenlace infeliz do quadro do sistema educativo. Como mudar esta realidade? Em primeiro lugar seguindo os bons exemplos, estar informados e atentos, perceber que o saber e a ciência que se faziam no Sec. XVIII teve continuidade e existem upgrades muito interessantes e sérios. Tal exige actualização bibliográfica (a este respeito observe-se os lugares comuns dos manuais que há anos consecutivos repetem a mesma fórmula). Deixar de optar por manuais que seguem modelos pedagógicos que já deixaram de dar frutos. Optar pela competência e profissionalismo e, sobretudo, exigir. Exigir a quem? Aos alunos, ao Ministério, às Universidades, às editoras. Esta exigência tem um rosto: exigência pelo saber e pela ciência. Não há outra! Só numa cultura de exigência é que nos é possível ter uma educação ao nível da excelência e por muito gracioso que seja comprar um computador por 150€ patrocinado pelo Ministério da Educação, essa factura vamos pagar bem mais cara se não começarmos a perceber que não é com computadores topo de gama que melhoramos o sistema de ensino, mesmo que os computadores sejam uma ferramenta de valor inegável. Mas é preciso saber saber antes de saber usar.


publicado por rolandoa às 14:52

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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