Segunda-feira, 30 de Julho de 2007

Porque é que não se traduz?

Uma das áreas de maior investimento no que respeita a uma política educativa que privilegia a transversalidade é a do critical thinking. Em Portugal esta área é praticamente inexistente, com honra de excepção ao curso da Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências e Tecnologias. Como refere Luiz Moniz Pereira, um dos professores responsáveis pelo curso:
Paradoxalmente, o ensino da aptidão de pensamento crítico é raro, se não mesmo ausente dos cursos de Ciência ou de Engenharia em Portugal. Será excepção a cadeira de Pensamento Crítico que criámos na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Nova, seguindo recomendações de Bolonha de introdução de “Soft Skills” no Ensino Superior.”
Quer isto dizer que, mais dia menos dia, o Critical Thinking entra como disciplina obrigatória dos mais diversos currículos.
Em poucas palavras, em que consiste o ensino do critical thinking?
Rolando Almeida


Como explica Alec Fisher na sua obra introdutória e de referência, Critical Thinking, an introduction, (5th printing, 2004), a necessidade decorre dos professores de vários níveis de ensino se terem deparado que os estudantes até podiam assimilar bem as matérias das mais variadas disciplinas, mas não sabem pensar sobre elas. Muitos dos estudantes não eram mais do que uma espécie de analfabetos funcionais, com muita erudição, mas sem perceber qual a relação que o seu conhecimento possui com a vida humana. Curiosamente esta é uma das realidades muito presente no ensino português. Regra geral, os melhores alunos, ou com notas mais elevadas, são aqueles que reproduzem literalmente o que os professores ensinam, uma espécie de papagaios com boa memória e pouco mais. Curiosamente, esta tendência no sistema educativo português tende a agudizar-se. Ou temos o aluno “marrão” que desenvolve a sua memória , mas pouco a sua capacidade crítica, sendo que mais tarde, este aluno será um profissional que não sabe pensar quando em estado de perplexidade perante várias opções de solução. Ou, então, temos o aluno que queremos profissionalizar, dotando-o de muitos conhecimentos técnicos, mas nenhum teórico. Ainda há pouco tempo eu próprio falava com uma responsável pelo ensino profissional numa escola e a mesma desvalorizava completamente a formação teórica - científica dos alunos, chegando a confessar-me que alterava programas de disciplinas como Área de Integração, tornando-os completamente práticos. Estas confusões têm como resultado um mau ensino, de má qualidade e uma cultura de princípios falsos. Com estes princípios, o que vamos ter são técnicos mal formados que sabem usar uma ferramenta mas não percebem a relação do que estão a fazer com o mundo ou, num outro extremo, doutores dotados de muitos títulos académicos, mas sem qualquer capacidade de perceber o mais elementar dado da vida, sem saber relacionar o seu saber com a vida comum. É no que dá tomar posições extremas em matéria de educação. E bastaria olhar para os outros países para percebermos os erros e os exemplos. Acontece que muitas das vezes não dominamos a língua em que tais modelos são expostos e explicados. Se os livros de critical thinking começarem a ser traduzidos em Portugal daqui a 20 anos, vamos, nessa altura, pensar que se trata do último grito no que respeita à educação, tal como pensamos actualmente que o último grito se chama ensino profissional e computadores para todos.
Tal como explica Alec Fisher (2004), existe a necessidade de ensinar capacidades de pensamento crítico directamente e transversalmente, uma vez que uma das dificuldades mais comuns encontradas nos estudantes é a incapacidade na estruturação lógica do raciocínio e a falta de conhecimento das regras que conduzem a esse processo. O pensamento crítico envolve muito mais que isto, mas esta razão é por si só esclarecedora da necessidade do seu ensino desde cedo.
Numa altura em que cada vez mais países desenvolvidos investem no critical thinking, apostando em edições e estudos de qualidade, Portugal dá mostras da vontade de dar um passo atrás, ao querer impor novas possibilidades de ensino nas quais pura e simplesmente desaparece a disciplina que mais directamente está relacionada com o pensamento crítico, que é a filosofia. Ter a filosofia como obrigatória no ensino secundário é a melhor oportunidade para explorar as potencialidades do critical thinking e, até, de proporcionar o desenvolvimento das capacidades críticas de pensamento a outros níveis de ensino. Com efeito, insisto, assistimos à ideia ignorante de que um técnico de qualquer área não precisa de saber pensar. Esta discussão deveria ser absurda, mas está na ordem do dia em matérias pedagógicas.
Em síntese no pensamento crítico aprende-se a:
- Identificar argumentos
- Identificar premissas e conclusão nos argumentos.
- Compreender a validade do argumento.
- Identificar premissas cujo valor de verdade é ainda discutível.
- Negar proposições (afirmações), mostrando quando um argumento não pode ser válido e abrindo a possibilidade de refutar argumentos.
- Pensar com analogias, causa e efeito, etc……
- Saber pensar.
- etc…
O pensar criticamente é das maiores necessidades do nosso tempo. Muitas das vezes ouvimos falar no discurso político e empresarial ou económico de empreendedorismo . Mas como é que alguém pode ser empreendedor se não for autónomo a pensar? E esta relação é que muitas vezes parece não ser estabelecida. A tradução dos dois livros aqui em análise poderia constituir um importante avanço nesta matéria, até porque, no mercado português, pura e simplesmente não existe estudo algum publicado sobre critical thinking, o que é imperdoável.
Uma pequena nota final para a versão de bolso (a única que tenho disponível) de Richard Epstein, the pocket guide to critical Thinking, Second Edt.2003. Trata-se de uma ferramenta muito útil com a exploração das melhores e habituais regras para pensar com rigor, sendo uma obra muito mais curta que a de Alec Fisher, sem o enquadramento explicativo do que é e em que consiste o critical thinking. Ainda assim, o pequeno livro está cheio de bons exemplos e esquemas síntese no final de cada capítulo.
Em Portugal usamos muitas vezes uma expressão que é: “deve-se pensar duas vezes antes de agir ou optar”. O Critical thinking ensina como pensar duas vezes.
Fica aqui o apelo aos editores portugueses de uma área que é nova, comercialmente mais viável que muitas das áreas publicadas entre nós e com uma aplicabilidade prática que na nossa cultura raramente se atribui a saberes desenvolvidos pela filosofia e pelos filósofos.
 
 
Alec Fisher, critical thinking, an introduction, Cambridge University Press, 2001 (First published, reprinted 2004)
Richard L. Epstein, The pocket guide to critical thinking, Second Ed. , Wadsworth, 2003

publicado por rolandoa às 11:38

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6 comentários:
De Renato Martins a 30 de Julho de 2007 às 16:50
Gostei muito deste artigo Rolando. Acho que este problema tambem atinge muito os EUA onde há grande beneficio ao ensino tecnico. Em Portugal sem duvida temos esse problema. Muitas vezes deparei com alunos e colegas que eram dos melhores da turma mas no entanto nao gostavam da materia! Ja viste bem isto? Não gosto, mas sou o melhor nisto!!
Esse individuos tramam-se como dizes bem é nas situações novas, naquelas em que na foi ensinado a trabalhar.

Este critical thinking devia ser depressa generalizado, mas com o fim da filosofia...

abraço
De rolandoa a 30 de Julho de 2007 às 23:21
Renato,
Obrigado pelas tuas palavras. Nunca estive nos EUA, mas pela informação que recolho, a realidade nos EUA é muito diversificada. Existem os melhores e os piores exemplos. E creio que devemos aprender com os melhores exemplos que mais se enquadrem na nossa realidade e na realidade global.
O critical thinking decorre da limitação observada pelos professores de alunos que sabiam a matéria toda, mas não são capazes de pensar sobre ela. Estes livros que aqui recomendo dão boas luzes sobre como trabalhar o critical thinking.
Abraço
Rolando A
De miguel portugal a 9 de Agosto de 2007 às 16:32
Antes de mais, um louvor pelo serviço que presta à blogosfera em geral e, em particular, aos professores de filosofia que, com proveito, como é o meu caso, visitam o seu blog.
O problema da ausência de pensamento crítico é o facto de atingir a população estudantil em geral, mas também outras camadas da sociedade que ocupam lugares de relevância e responsabilidade públicas, como sejam os própios autores de reformas educativas.
A falta de competências de pensamento crítico dos estudantes advém, naturalmente, dos adultos que os vão fazendo ser. E nada melhor para agravar o problema do que espartilhar a disciplina criadora dessas competências no ensino secundário, como é a filosofia!
E naturalmente o escolho da língua estrangeira, em que são escritas obras de proa e de verdadeira qualidade e actualidade científica, completa a insularidade cultural de quem navega à vista.
De rolandoa a 9 de Agosto de 2007 às 18:33
Caro Miguel,
Obrigado pelas suas palavras. Partilhamos dos mesmos problemas, uma vez que somos colegas. Também sou professor do ensino secundário.
Em relação ao blog, ele é o meu contributo para mostrar ao público em geral o interesse da filosofia. Para além das questões educativas, o que mais me tem perturbado ao longo destes anos que ensino filosofia, é a ideia completamente errada que se espalha da mesma. Procuro, no blog, dar um contributo para uma ideia clara e rigorosa do que se faz actualmente na filosofia. Nunca partilhei daquela ideia de que a filosofia é um saber antigo, já ultrapassado pelos modernos avanços científicos. Essa ideia é completamente falsa e uma das principais razões de tal ideia é o desconhecimento do que se investiga na área, para além de uma clara falta de esforço das universidades em investir na actualidade. Não encontro outra razão que melhor explique a falsa concepção generalizada da filosofia e das suas potencialidades. A par desta razão, acolhe ainda que seguimos, no ensino universitário, modelos ultrapassados, na maior parte das vezes ignorando os mais recentes avanços da filosofia. Uma vez que as universidades pouco ou mal dinamizam a filosofia também não há necessidade de se traduzir as melhores e mais actuais obras. E deste modo a filosofia aparece como um saber caduco, de meia dúzia de tipos que até são mais inteligentes que a média, mas sem qualquer implicação na vida de todos nós. Isto nem sequer é uma ideia, é idiotice. Mas é fundamental que nós, profissionais da filosofia, é que devemos inverter o rumo das coisas divulgando a nossa actividade e mostrando a quem não sabe ou tem ideias falsas, o porquê da filosofia.
A política educativa é uma outra questão que afunda ainda mais a filosofia. Hoje em dia, em Portugal pensa-se que é com bons computadores e excelentes instalações que se melhora a cultura de um povo. Mas isto incorre num erro elementar, que é confundir o essencial com o acessório e, deste modo, estamos a investir no modelo, “um burro a olhar para um palácio”. E isto tem um preço a pagar. É que falta educar o burro a olhar o Palácio!!! Não penso que as políticas educativas sejam sempre mal intencionadas, mas há clara falta de visão política e social, quase de certeza, como muito bem refere o Miguel, por falta de capacidade crítica. E aqui temos um argumento cogente para que, em Portugal, se investisse mais na filosofia e no pensamento crítico.
Abraço
Rolando Almeida
De Artur Barz a 24 de Abril de 2012 às 07:47
A condição em que está a educação portuguesa é similar a brasileira, senão identica...
De Artur Barz a 24 de Abril de 2012 às 08:07
Percebi com os meus colegas exatamente o mesmo fenomeno mostrado em seu texto: ele decoravam...E podia se perceber isso atraves das apresentações deles, sempre maçantes e previsiveis...Sempre q iam redigir um texto disertativo, uma redação, um trabalho...As apresentações eram no minimo decepcionantes.

É claro, eu não fazia apresentações espetaculares, mas, diferente deles, apresentava a frente da turma sem papel ou cola nas mãos...Só me valia do que eu conseguia me lembrar sobre o assunto, e do que, tinha meditado sobre ele...Desde daquela epoca ja procurava compreender os textos que lia, assim, me indentificava com os textos e minhas opniões que eu tinha sobre eles eram mais espontaneos e peculiares, enquanto que meus colegas recorriam a uma máxima ou outra que o senso comum estabeleceu...

Uma vez, qndo eu estava na biblioteca, observei um grupo que fazia um trabalho de geografia e cada grupo tinha q falar sobre um determinado país...Esse grupo, em especial, tinha como tema falar sobre a Ucrania, mas a unica coisa que eles não fizeram foi extamente isso: falar e pensar sobre esse país.
Tentavam decorar detalhes como a capital, a extenção territorial, as maiores cidades. Era comico, se não dizer, trágico...
Eles podem saber a capital e a extenção do país, mas não me saberiam responder como a Ucrania surgiu como país e estado, e muito menos refletir sobre sua história...
No dia em que os alunos q fizerem um trabalho sobre a Ucrania aprendam a falar seu idioma, tenha ciencia de seus costumes e de sua história e considere a Ucrania como um objeto de estudo e reflexão, será o dia em que a educação brasileira terá passado por uma tenaz revolução...

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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