Domingo, 22 de Julho de 2007

10 falsas questões sobre a filosofia

  1. Descubra as 10 falsas questões mais habituais sobre a filosofia. um dos artigos mais lidos e citados do blog nos últimos meses.
  2. Rolando Almeida

  3. 1. A filosofia é difícil.
    É falso que se fale da filosofia como uma disciplina difícil. Ela é tão difícil quanto outra disciplina qualquer. Há ,certamente, disciplinas mais difíceis e outras mais fáceis. A dificuldade não ocupa um lugar de destaque mais na filosofia do que na física, biologia ou na matemática.
    2. A filosofia não serve para nada - Bem, isto só seria verdade se nos mentissem acerca da filosofia. Questionar sobre a utilidade da filosofia possui exactamente o mesmo sentido do que questionar acerca da utilidade da matemática, da física, química ou biologia. A filosofia tem exactamente a mesma utilidade que qualquer outra disciplina, só que a natureza dos seus problemas é diferente e exige metodologias específicas. Perguntar pela utilidade da filosofia é perguntar pela utilidade do saber em geral e a resposta não deve ser colocada somente aos profissionais da filosofia, mas também aos dos outros saberes. Curiosamente o mundo não seria o que é se os saberes não possuíssem uma utilidade.
    3. Em filosofia nunca se chega a conclusões  - É falso pensar que em filosofia nunca se chega a conclusões. Se assim fosse também o poderíamos dizer em relação à ciência. O que nós conhecemos da ciência são os resultados desta, porque as grandes questões da ciência ainda andam em investigação, tal qual as grandes questões da filosofia. A diferença é que ao passo que a ciência pode recorrer à experimentação, a filosofia não pode dada a natureza dos seus problemas que não são resolvidos empiricamente.
    4. A filosofia é um saber abstracto que não tem nada a ver com a vida. - Pelo contrário. A filosofia é talvez o saber que mais directamente se relaciona com a nossa vida prática e quotidiana, daí por vezes se fazer a confusão ao pensar-se que qualquer pessoa está a fazer filosofia ao se questionar sobre um ou outro problema. Os problemas da filosofia surgem porque a vida humana os levanta. Para isso existem muitos ramos do saber a fim de os estudar. A filosofia é um desses ramos.
    5. Todos somos filósofos - É falso. Não é qualquer pessoa que é filósofa, apesar de qualquer pessoa ser perfeitamente capaz de levantar problemas filosóficos a um nível intuitivo. De igual modo, também as crianças fazem muitas questões científicas e isso não faz delas cientistas. De que é feita a lua? Porque é que nunca apanho o arco irís, etc…. Podemos igualmente perguntar se Deus existe ou não, se o livre arbítrio faz ou não sentido, sobre o sentido moral do aborto, sobre o que é o tempo e a sua relação com o espaço, etc…., mas daí não decorre que sejamos filósofos. A filosofia faz-se e investiga-se nas mais avançadas universidades do mundo e possui altos níveis de sofistificação. Ser um filósofo profissional, implica publicar ensaios nas revistas da especialidade e contribuir de modo decisivo para o progresso e avanço da filosofia. E isso não está ao alcance de todos e exige um trabalho disciplinado e árduo. Mas daí não decorre problema algum. Também na matemática, sabemos muita matemática a um nível intuitivo e nem por isso somos matemáticos. Depende do nível de sofistificação que queremos alcançar. E os grandes investigadores precisam muito dos bons divulgadores, como é o caso dos bons professores.
    6. Em filosofia tudo é subjectivo. - Esta é uma outra ideia falsa que aparece muitas vezes em relação à filosofia. Pensa-se que a filosofia não é nada mais do que um grupo de gente tola, cada um a dar a sua opinião sobre um assunto qualquer. Mas a defesa da subjectividade é auto refutante em termos racionais. Se eu defender que a filosofia é subjectiva, o meu leitor pode defender que não, que é objectiva. Terei de aceitar a posição do meu leitor precisamente porque a posição do leitor é, para mim, subjectiva. E entramos num círculo racionalmente insustentável. Por outro lado, se a filosofia é subjectiva, então, qual a razão da discussão racional? Nada haveria a discutir dado que a verdade não passaria de algo muito subjectivo. Toda a discussão possível não passaria de uma mera e modesta troca de opiniões. Mas nesse caso não existiria qualquer progresso no saber e cultura humana. Não devemos esquecer que as grandes teorias matemáticas e científicas ainda estão por resolver, precisamente porque, tal como na filosofia, não existe progresso sem problemas e razões que apontem conclusões para esses problemas.
    7. A filosofia é algo que se faz quando se tem muito dinheiro e nada para fazer - Muita gente famosa parodiou este lado da filosofia, associando-a ao ócio que é precisamente o contrário do negócio (negar o ócio). Apesar da filosofia não constituir para a maior parte das pessoas uma necessidade vital, como é dormir, comer e beber ou respirar, a verdade é que ela se faz por necessidade de compreensão do mundo. A maior parte dos grandes filósofos pensaram sem grandes condições para o fazer. A riqueza material não tem necessariamente de andar associada à filosofia. É natural que se faça e publique mais filosofia onde há mais dinheiro, mas isso somente porque alguém pode viver da filosofia, pode ser pago para investigar e pensar determinado problema filosófico. Mas, novamente, esta é uma realidade que também se aplica a qualquer ramo do saber ou a toda a ciência. Não são as culturas material e culturalmente pobres que produzem e têm acesso à investigação. De modo que supor que a filosofia se faz quando não se tem mais nada para fazer e se tem muito dinheiro, é falso.
    8. Não é preciso ensinar filosofia nas escolas - Para mostrar o quanto esta afirmação é falsa, prefiro apresentar alguns exemplos. Uma boa parte dos países ocidentais até nem têm filosofia no ensino secundário como formação geral e obrigatória, como existe em Portugal. Mas têm o chamado critical thinkink que é uma área muito próxima dos modelos mais específicos da filosofia. Por outro lado esses países vêm garantido o sucesso da filosofia no ensino superior uma vez que possuem  uma cultura mais sólida que permite que as pessoas vão de encontro ao saber e à filosofia. Há um interesse e sucesso quase natural pela filosofia, especialmente após a segunda metade do sec. XX e livros de filosofia ganham quase todos os anos importantes prémios. Só se consegue ter ideias tolas como esta e a de que a filosofia não serve para nada, numa sociedade ignorante que não reconhece o valor intrínseco da educação. Olhar para a filosofia e afirmar que ela não serve para nada, é de uma ignorância tão tola que faz lembrar aquela pergunta: o que faz um burro a olhar para um palácio? Mas os seres humanos, muito mais que os burros, podem ser educados a olhar para palácios. Esta ideia pode existir e existe em alguns países, inclusive em Portugal, com relativa disseminação pública. Lembro-me de quando estudava filosofia, o fulano do banco onde tinha a conta aberta para a mesada, me perguntar com frequência para que servia o que eu andava a estudar. Estou convencido que tal acontece porque, em larga medida, o ensino superior é de má qualidade e os alunos saem das universidades muito mal formados. Uma vez saídos da universidade sem nunca terem compreendido as ideias centrais de Platão, Descartes ou Kant, o que é a filosofia da mente ou a filosofia da arte, sem leituras feitas e organizadas, este é o caminho mais certo para termos uma má divulgação da filosofia, misturando-a muitas vezes com as nossas percepções mais subjectivas, como astrologia, magia, poesia, etc…. E esta é a ideia que passa aos mais jovens, que estes passam a outros e por aí adiante até um determinado sistema educativo fechar de vez as portas a uma disciplina que, afinal, não possui sequer coerência interna. Outra das causas para este tipo de falsas ideias em relação à filosofia, aplica-se também a todas as outras disciplinas. É a ideia de que o próprio ensino não serve para nada e a consequente desvalorização da escola e das disciplinas que lá se ensinam. Em Portugal, fruto das péssimas políticas educativas do «eduquês», é isto que se tem passado. A sociedade em geral desvaloriza o papel que a escola pode ter no desenvolvimento do indivíduo. Daí a desmotivação geral e a frequente acusação de que o que se aprende não serve para nada. Na verdade se o que se ensina é tão pouco e tão erradamente, a escola acaba por ser muitas vezes uma perda de tempo, pensarão alguns e com alguma razão.  
    9. Em filosofia tem de se ler muito e escrever muito. - É evidente que para se saber filosofia temos de saber os argumentos dos filósofos. Imagine que vai ter com os amigos ao café e começa uma conversa sobre a justiça na distribuição da riqueza. Imagine ainda o leitor que na mesma mesa estão sentadas mais 4 pessoas além de si. Imagine agora também que começaria a debater argumentos sobre o tema não querendo saber das posições das outras 4 pessoas e ainda por cima afirmava que X e Y defendem a posição A, mesmo sem ter perguntado a X e Y que posições defendem. Uma das consequências mais prováveis é que o leitor poderia partir do princípio que:
    a)      As suas posições são a verdade absoluta sobre o problema da justiça na distribuição da riqueza.
    b)      Poderia o leitor estar a pensar que estava a ser muito original, quando X defende a mesma posição mas até com melhores argumentos. 
    Seria esta uma situação desejável? Mas vamos mais longe. Imagine que a conversa era sobre o cosmos e que o leitor estava a defender o geocentrismo por pura ignorância. Sem querer saber do que X e Y pensam e conhecem acerca do assunto, o leitor nunca descobriria uma verdade elementar: que está completamente errado, uma vez que o geocentrismo já foi refutado há muitos séculos atrás.  A mesma coisa sucede na filosofia, como sucede em qualquer outro saber ou ciência. Para discutir os problemas filosóficos de um modo profissional, temos de entrar em discussão com os argumentos dos filósofos e é por essa razão que precisamos de ler o que Platão ou Descartes pensaram acerca do problema, quais os argumentos apresentados. A prova de fogo pela qual o aprendiz de filósofo tem de passar é exactamente a mesma que qualquer cientista tem de passar. Tem de sujeitar os seus «insights» à crítica dos seus pares. Um charlatão não passa esta prova de fogo e está condenado a escrever os seus argumentos sem pés nem cabeça no jornal da terra. Neste contexto, o texto escrito e lido é obviamente um dos recursos fundamentais dos filósofos, apesar de não o único. Alguns filósofos conseguiram apresentar argumentos revolucionários e nem por isso escreveram muito. Wittgenstein é só um entre centenas de exemplos. Outros escreveram muito e nem por essa razão conseguiram ser autores centrais para a filosofia.
    10. Em filosofia tem de se ser muito profundo. - Em filosofia não tem de se ser mais profundo do que em matemática ou química. Em primeiro lugar deve-se privilegiar a clareza que nem sempre coincide com facilidade, dependendo do estudo que se realize. Obviamente se estamos a falar de filosofia como eu estou a falar neste texto, não se exige profundidade alguma. Exige-se clareza e rigor. A ideia da profundidade em ciência e filosofia, diz respeito à sofisticação dos problemas em análise. Se estamos numa área como a Lógica Modal, envolvendo a discussão de conceitos como possibilidade e necessidade, o mais provável é que a discussão não seja muito acessível a quem não possui qualquer preparação em filosofia. A mesma questão é atribuível a uma qualquer investigação em física ou química. Mas, regra geral, estas teorias mais profundas podem ser expostas a um nível mais intuitivo. E porque é que existe esta necessidade de explicar aos mais leigos os problemas mais sofisticados? Por uma razão muito simples. Somos seres limitados no tempo e um dia alguém vai ter de continuar os nossos estudos, desenvolvendo-os e possibilitando novas descobertas, por isso temos de ensinar aquilo que sabemos ou condenamos o saber à sua morte. Depois porque um filósofo só descobre as fragilidades das razões que oferece em favor das suas teses se um outro o puder estudar e refutar.
    Rolando Almeida





publicado por rolandoa às 17:45

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30 comentários:
De Shridhar Jayanthi a 23 de Julho de 2007 às 05:12
O item 9 deveria ter titulo "em filosofia _não_ tem de ser ler muito ou escrever muito", porque esta é uma lista de mitos e o seu parágrafo defende a leitura. Além disso o parágrafo só defende a leitura e não comenta sobre o por que das várias redações. Minha teoria é, resumidamente, o fato de que ao escrever, você tira a idéia da sua cabeça e é a primeira chance que você tem de analisar suas teorias e modelos como uma entidade externa. Mas eu não sou filósofo, hehe.
De rolandoa a 23 de Julho de 2007 às 12:09
O principal requisito para filosofar bem é ter «insights» talentosos que tanto podem ser escritos em 100 páginas, como em uma apenas. É evidente que se torna muito difícil entrar nos problemas da filosofia sem conhecer os argumentos principais que são comunicados nos livros. Mas tal não é impossível. Kripke, por exemplo, filósofo de formação matemática, não precisou de escrever muito para propor reformulações importantes. Parte da sua obra é a compilação das suas conferências. Por princípio, em filosofia, de resto como em todos os saberes, defende-se a leitura e a prática da escrita. O que pretendi mostrar é que tanto a leitura como a escrita, sendo condições necessárias ao bom filósofo não são, com efeito, condições suficientes.
Obrigado pela visita e pelo comentário muito pertinente.
abraço
Rolando Almeida
De Renato Martins a 26 de Julho de 2007 às 03:28
Caro Rolando:
Decorrente da discussão que houve pelo Café Filosófico de Évora não posso concordar com o seu ponto 5. Não que negue que haja um aperfeiçoamento filosófico que levará à publicação de ensaios de que fala. Contudo, gostaria que me dissesse qual é a fronteira entre o homem filósofo e o homem não-filosofo. Artigos cientificos? Capacidade de chegar a determinado nível de reflexão critica? O questionar é já por si um inicio evidente do filosofar. Claro que há filosofares ingenuos (a idade dos porques nas crianças por exemplo) e há filosofares maturos (como se vê nesses artigos publicados). Parece-me que a distinção que faz reside aqui: há filosofos "crianças" e filosofos "profissionais".
A capacidade filosofica não será uma das principais definições do que é ser-se humano? Temos que ver o filosofo sempre como um especialista?

Um abraço
De rolandoa a 26 de Julho de 2007 às 14:07
Olá Renato,
Então e qual a fronteira para o filosofar ingénuo e filosofar maduro? Podemos aplicar a mesma questão na ciência: qual a fronteira entre o cientista ingénuo e o cientista profissional ou maduro? Será que a criança que questiona de que é feita a lua é já cientista? Creio que temos mais facilidade em estabelecer a fronteira para a ciência. Porque temos dificuldade em estabelecer essa fronteira no caso da filosofia? À partida, estou convencido que, mais uma vez, se deve à natureza dos problemas da filosofia. É claro que o contribuir para o progresso e sofistificação dos problemas e argumentos filosóficos é um dos critérios para estabelecer a barreira entre o filósofos e o não filósofo. E é fácil compreender isto. Se o Renato quiser defender um determinado problema ou tese vai ter de a justificar entre os seus pares, nas revistas de especialidade, nos centros universitários mais desenvolvidos. Isto não tem nada que saber. Claro que o Renato pode vir dizer que existe o Quim de Travassos, q ue tem ideias geniais sobre essa matéria. Mas a que provas se sujeitou o Quim de Travassos? Do mesmo modo o Renato pode encontrar um violinista que lhe diga que tem uma melodia absolutamente inovadora e genial na cabeça. O Renato pede-lhe para reproduzir essa melodia inovadora e o músico responde que não é preciso porque a genialidade da melodia está na cabeça. Imagine agora que o Renato insiste e o músico acaba por tocar qualquer coisa que até nem parece nada genial. Mas como o Renato não é músico não vai arriscar a dizer se a melodia é ou não genial e revolucionária. A quem vai pedir o Renato para avaliar a melodia? Creio que vai pedir a músicos conhecedores, experientes e que estejam ligados a instituições credibilizadas. Imagine agora que o Renato encontra alguém que pretende vender-lhe uma pulseira em ouro. O Renato desconfia porque não percebe nada de metais preciosos. Mas o fulano que encontrou na rua garante-lhe que é especialista em metais preciosos e que aquela pulseira é de confiança e muito valiosa. O Renato não precisa de mais provas? Ou desconfia? Regressando à filosofia: indique-me uma razão para que as coisas na filosofia não se passem de modo análogo aos exemplos que aqui dou? Se o Renato me pede uma fronteira, eu dou-lhe uma resposta genérica, remetendo para as revistas da especialidade, boas universidades, etc… mas podemos especificar mais. O seu currículo é muito mais valioso se lá estiver escrito que foi aluno de Simon Blackburn do que se estiver lá que estudou com o José Madureira da Universidade de Moçambique. È que o José Madureira ainda não percorreu a travessia do Blackburn e, por essa razão, são autoridades a níveis muito diferentes. Não vejo razão alguma especial para não reconhecer as coisas deste modo.
Obrigado pela visita e abraço
Espero ter sido claro
Rolando A
De rolandoa a 26 de Julho de 2007 às 14:20
Renato,
ainda só mais um aspecto. As crianças fazem perguntas, cuja resposta pode ser dada pela filosofia ou ciência, mas as perguntas em si não são propriamente ciência ou filosofia. Fazer a pergunta, "de que é feita a lua?" não é em si ciência, mas a ciência permite enquadrar esta questão estimulando até a criança à curiosidade a partir das respostas. E este espanto inicial de qualquer criança saudável, não faz das crianças cientistas ou filósofas. Ao mesmo tempo é verdade que este espanto e curiosidade inicial é o ponto de partida para alguns desenvolveram mais tarde os estudos. Mas não é imperativo que assim seja. A realidade está cheia de contra exemplos.
Abraço
Rolando Almeida
De Renato MArtins a 28 de Julho de 2007 às 03:47
Caro Rolando:

Concordo que Simon Blackburn é um grande filosofo, e para comprová-lo está (na sua optica)o apoio que lhe é dado e que se materializa na redacção de artigos. Não concordo contudo que esse seja o modelo definidor de filosofo.
Na idade media eram os papas os grandes filosofos?
Um autodidacta pode ser filosofo?
Que sera feito do espirito de contestação se o rebelde, que parte debaixo nao pode ser considerado filosofo? o que é ele? um não-pensador?

Na minha optica a filosofia começa muito na pergunta sim (atenção: nao acho que perguntar-se as horas seja ser-se filosofico), sobretudo na pergunta do que nao esat alcançavel filosoficamente.

Acho tambem que todas as opticas que derivam deste assunto estao algo contaminadas pela noçao de filosofia que nos foi dada no secundario. Nesse caso urge definir filosofia. mas começa-se por onde? pelos filosofos? mas nem sabemos ao certo quem sao os filosofos...

Abraço
De rolandoa a 28 de Julho de 2007 às 11:17
Viva Renato,
Vou fazer somente um comentário. Perguntas se na idade média eram os papas os grandes filósofos. Mas o modo como fazes a pergunta é enganador para aquilo que queremos aqui discutir. Percebes tanto melhor se perguntares se eram os filósofos, os grandes filósofos, grandes papas, bispos, padres da igreja? E a resposta, por mais que gostássemos que fosse diferente, é que sim, na idade média, os grandes filósofos estavam ligados à igreja católica. E se não estivessem provavelmente não os conheceríamos hoje em dia. Talvez tivessem sido mortos, uma vez que os tempos eram mais radicais nos seus princípios culturais. Creio até que muitos para poder filosofar, se juntaram à instituição católica, como o caso de Santo Agostinho que andou uns anos na boa vida e quando teve algo a dizer, converteu-se.
Outra nota: o caso que falas, de uma marginalidade que rompe fronteiras abrindo novos territórios de criatividade é muito comum nas artes (música, literatura, pintura, etc…), mas não tanto quanto possas pensar para a filosofia. Regra geral, os bons filósofos estão ligados às instituições. E, se não estão, é lá que vão colocar à prova o que pensam. Olha o caso do Wittgenstein.
Mas há aqui algo que gostaria de te perguntar: porque é que não se pode ser criativo dentro das instituições? Claro que há instituições mais livres que outras, mas esta realidade acontece em todas as circunstâncias. Há grupelhos de anarquistas libertários, por exemplo, que são do mais intolerante e conservador que há face à inovação e criatividade. Recordo, por exemplo, do francês Guy Debord, que é ainda hoje considerado um guerrilheiro libertário, que conseguiu recrutar cerca de 500 pessoas para a Internacional Situacionista e conseguiu também expulsá-los um a um. Conheço instituições que jamais teriam uma atitude desta natureza.
Abraço
Rolando A
De Renato Martins a 29 de Julho de 2007 às 04:12
Caro Rolando:

Mal seria seria se sobretudo na area da filosofia nao se pudesse ter liberdade em instituições. Simon Blackburn o tera certamente, mas suponho que nem sempre seja assim. A ilha dos amores e o crime do padre amaro eram proibidos no tempo de salazar por exemplo. Estou certo que mesmo a filosofia no ensino secundario teria algumas censuras subtis na altura. Não estou a imaginar o Simon Blackburn tornar-se esoterico de repente, se tal acontecesse haveria certamente mal-estar na sua academia. Nem indo tao longe, ele mesmo que mudasse de dia para a noite e passasse a ser escolastico nao sei se permaneceria no seu cargo por muito tempo...
Apenas lhe pergunto como poderemos ser agora contestatarios com argumentos validos se mal somos filosofos . Temos que crer entao nessas verdades de quem tem artigos em revistas especializadas. Não digo certamente que tenho capacidade para vencer argumentativamente esses individuos , mas fico tambem sem possibilidades de o tentar, usando o seu ponto de vista.
O auto-didacta acaba tambem segundo o seu ponto de vista. O filosofo so o é profissionalmente. O Rolando acha que ser-se filosofo é uma profissao entao ? Se entendi bem...
Como se chama as pessoas então que indagam sobre as coisas do mundo? São meros curiosos? Como se chama aos individuos que condenam por exemplo, atitudes de governo, defendo uma outra ideologia politica?

Ficam algumas questões
Abraço
De rolandoa a 29 de Julho de 2007 às 14:35
Viva Renato.
Antes de tudo, mais uma vez agradeço as observações feitas. A vida das instituições passa por períodos de maior liberdade e outros de maior obscurantismo. Se olharmos para a história da ciência, filosofia e saber em geral, observamos algo muito curioso: nos curtos períodos onde se vive mais liberdade, o conhecimento e saber consegue evoluir mais do que, por exemplo, em 3 séculos seguidos. Estes períodos são muito curtos e é pena que assim seja.
Há um aspecto que, penso, devemos considerar. A filosofia e saber em geral não existem para combater ideologias, mas para a procura da verdade, ainda que ambos possam, em determinados momentos, constituir poderosos instrumentos para combater ideologias. Na filosofia não temos de ser contestatários, temos sim de avaliar criticamente argumentos. Não temos de contestar o teísmo sendo ateus, mas de encontrar razões que justifiquem o teísmo e ateísmo e ser capaz de mudar se nos forem oferecidas melhores razões que as nossas.
O facto do filósofo ter de ser ou não profissional, prende-se essencialmente com duas razões:
1- O filósofo não vive do ar. É natural que, segundo os padrões do mundo actual, tenha de sobreviver com o seu trabalho.
2- A filosofia, como qualquer outra actividade, faz-se em comunidade, em discussão aberta com pares. Para que tal aconteça é necessário garantir algumas condições, entre as quais: tempo para nos podermos dedicar à filosofia e ambiente cultural onde circulem mais pessoas que realizem trabalhos semelhantes ao nosso, para poder discutir e avançar nos nossos estudos.
Seria a mesma coisa para um futebolista: é claro que um individuo qualquer pode ser muito talentoso nos Brejeiros da Tijuca que é o clube lá do bairro, mas o seu talento só será verdadeiramente posto à prova quando entrar nas competições internacionais, com grandes clubes, onde jogará entre outros pares igualmente talentosos. E é esta simples realidade que acontece na filosofia. Não tem nada demais. Claro que existem instituições mais justas e ou menos justas. Mas isso também acontece para o futebolista ou para outra qualquer actividade, incluindo a ciência ou o saber. E é obvio que um futebolista inglês tem maiores possibilidades de brilhar que um senegalês, mesmo não sendo tão bom. Mas a realidade social dos países dá maiores oportunidades ao inglês. Mas que conclusão tirar daí? Por exemplo, o caso português é paradigmático. No meu ano de Universidade, o único aluno que foi convidado a dar aulas na universidade foi o filho do presidente do Banco de Portugal. Nem sequer era um aluno excepcional e foi convidado somente com a licenciatura. Como é um tipo pobre, tirou mestrado e provavelmente o doutoramento com licenças sabáticas e bolsas chorudas do dinheiro de todos nós. E que obra pública tem? Nenhuma….. deve trabalhar 8 ou 9 horas de aulas por semana e tirar 400 ou 500 contos. O Blackburn, coitado, além de proporcionalmente não ganhar mais que o português, teve de se sujeitar a provas rigorosas para chegar onde chegou e é obrigado a publicar com regularidade, além de ter de dar umas 20 horas de aulas por semana, mais tutorias, etc…. Só por aqui se vê as diferenças institucionais. Claro que o jovem português pouco ou nada tem a fazer para ser “o maior da nossa aldeia”. Mas fora da aldeia, ninguém lhe liga peva, mesmo que dentro da aldeia ele diga mal de filósofos como Blackburn (não sei se diz, mas é comum dizerem!!!!)
A contestação faz sentido quando as instituições são ou funcionam de modo injusto, como é o caso gritante de Portugal.
Abraço
Rolando
De rolandoa a 29 de Julho de 2007 às 15:18
Renato,
Ficou ainda um pequeno ponto por esclarecer: é claro que a atitude Punk, por vezes, daria muito jeito pelo menos numa cultura como a nossa. Este povo e as suas instituições parecem só mudar com revoluções e não reformazinhas. Só não associo esta atitude´ao trabalho da filosofia e dos filósofos.
Punks note dead :-)
Abraço
Rolando Almeida
De Renato Martins a 29 de Julho de 2007 às 17:58
Mas não acha o Rolando que a razão é fundamental para essa constestação? Para isso é preciso aprofundar os argumentos, teremos que ser filosofos não forçosamente profissionais.

De resto concordo na totalidade com o seu post relativo às discrepâncias economicas.

abraço
De rolandoa a 30 de Julho de 2007 às 02:44
Claro que sim Renato. Mas a razão não é uma propriedade específica da filosofia. Á filosofia cabe somente avaliar se os argumentos da contestação são ou não argumentos cogentes, independentemente do que se está a defender. O interesse da filosofia é a verdade e não a contestação em si. Até porque podemos contestar de modo menos racional. As actividades da Greenpeace, por exemplo, possuem muitos traços de irracionalidade, porque não são actividades que visem a verdade, mas um interesse particular de uma defesa de interesses. No caso da greenpeace toma-se a conclusão de muitos arfumentos como verdades estabelecidas. Na filosofia, pelo contrário, só a verdade das permissas garantem a verdade da conclusão caso o argumento seja válido. E não esqueçamos que para que este princípio da razão aconteça é necessária imaginação para pensar em mundos possíveis.
Abraço
Rolando A
De Miguel Archer a 23 de Agosto de 2007 às 07:31
Caros Rolando e Renato.

Comento bastante atrasado a vossa discussão mas digo que me despertou bastante interesse. Não sou licenciado em Filosofia e dou, obviamente, o devido crédito a quem o é, tal como deve ser. Nesta perspectiva estou perfeitamente de acordo com o Rolando. Mas tentando ser isento e conjugar argumentos válidos, inclino-me para a opinião do Renato. Ora, se uma pessoa licenciada em Filosofia, que a estuda e pesquisa com afinco, que publica os tais artigos, ja passou a "prova de fogo" dos pares (e que vai passando ao longo da vida), etc.; de qualquer modo, estes elementos todos nao nos podem garantir, nem nunca poderao, que esse filosofo sera livre de falhas em todos os seus pensamentos e ideias (ainda que mais esclarecido que a maior parte da populaçao). Por outro lado, a pessoa que nunca efectuou nenhuma das etapas que aquela toma e tomou, desprovida de quase todas as bases de informaçao, representa um modelo muito mais distante do filosofo completo.
Ambos apresentam margens de erro. Maior, a segunda pessoa claro. Mas se falharem os dois, nem que seja por uma vez, naquele momento, deixam de existir filosofos?
Onde eu queria chegar: hipoteticamente, esta ultima pessoa, ainda que nao dispondo de tantas e boas condiçoes para a "descoberta da verdade" como dispunha a primeira, pode dar um passo muito maior no campo da filosofia que o filosofo profissional/maduro. Obviamente, que as probabilidades seriam minimas. Porém, basta haver uma unica hipotese de o leigo "ultrapassar" o formado, que teremos que dizer que os homens sao todos filosofos. E nao se trata do filosofo ingenuo e do filosofo maduro, a meu ver. Nem é uma questao do filosofo talentoso nem da pessoa que se alega filosofa e nao tem talento nenhum. Trata-se antes do filosofo incompleto e do filosofo completo (que nao é absoluto). Mas o valor sempre presente é o de que o homem é sempre filosofo.
Tambem nao confundir o filosofo incompleto com falso filosofo (o nao filosofo de que o Rolando alega no ponto 5.) nem o filosofo completo com o verdadeiro filosofo (que é o filósofo, independentemente de ser incompleto ou completo: ambos o sao porque buscam o conhecimento).
Ora, o mau filosofo é o pensador que nao dispondo de informaçao suficiente, nem se mexendo para a alcançar, retira conclusoes precipitadas de premissas que nem sequer estavam correctas ao inicio. Seria o mesmo que tentar resolver uma equaçao de matematica em que a pessoa a copiou mal do enunciado, e depois disso ainda errou os calculos sobre ela. Porém, havera vezes em que ele acerta o enunciado e no minimo, parcialmente os calculos. Nunca poderiamos era chamar a esta pessoa "nao matematica". Ela dispoe do potencial que o matematico estudioso tem. Tem a mesma oportunidade que ele de acertar. Nao tem é a mesma probabilidade (mas tal como ja disse, ambos podem falhar, tal com ambos podem acertar). Essa pessoa é material em bruto. O estudioso será ja material refinado.
O mesmo se passa com o mau filosofo. Bastaria era tirar a presunçao e o preconceito ao mau filosofo para ele se orientar pelo modelo do bom filosofo: sao a causa da sua estagnaçao.
Quanto ao bom filosofo, creio que é o que o Rolando indicava como unicos filosofos no ponto 5.:
Estudaram, estudam e estudarao. Pesquisam incessantemente e sao postos constantemente a prova. Partem de enunciados correctos e procuram todos e mais alguns elementos para os resolver.

É sempre interessante discutir uma questão do genero ainda que eu nao componha o grupo dos "filosofos completos". Mas tentar isentar-nos, pelo menos, dos defeitos dos "filosofos incompletos", é o minimo que se pode tentar fazer.
Peço desculpa pela repetiçao excessiva de "filosofo"; e "filosofia".

Abraço
De rolandoa a 24 de Agosto de 2007 às 00:57

Olá Miguel,
Bem vindo à discussão e obrigado pela participação. Concordo com o ponto central do que o Miguel refere no seu comentário. É claro que o que eu inicialmente disse no meu texto não invalida que um indivíduo possa estudar e fazer boa filosofia à margem das instituições. Há imensos exemplos disso na história da filosofia. Só que essa característica não é exclusiva da filosofia, sendo extensível a todo e qualquer saber ou arte, pelo que não é pertinente discuti-la e essa é a razão pela qual enuncio que nem todos somos filósofos e existem critérios mínimos para o compreender. O que o Miguel diz é correcto, com efeito, o que pretendo no ponto 5 do meu texto é desfazer maus mitos que circulam em torno da filosofia. Como profissional da filosofia dou-me conta que muitas pessoas discutem filosofia comigo sem algum dia terem lido um livro a sério de filosofia, mas não se habilitam a discutir física com um professor de física, pelo menos com o mesmo ímpeto com que o fazem comigo. Creio que há duas razões para que tal aconteça:
1º os problemas da filosofia estão mais próximos das pessoas quanto os problemas especulativos da física ou da matemática. Curiosamente a maior parte das pessoas também repete pateticamente que a filosofia é demasiado abstracta e desligada da vida, o que é falso, apesar da filosofia possuir como qualquer saber os seus níveis mais avançados e sofisticados de estudo.
2º porque existe uma má formação naquilo que é a filosofia enquanto saber e investigação e é precisamente por esta razão que escrevo no blog. Escrevo do modo mais claro possível para poder atingir pessoas como o Miguel, que não é de filosofia, mas que provavelmente até poderia ter uma ideia errada da filosofia (o que, para o Miguel, pelo que disse, nem me parece que seja esse o caso), ideia essa derivada de um mau ensino da filosofia.
Resta-me dizer que é bom que pessoas como o Miguel se interessem pela filosofia, do mesmíssimo modo que eu leio livros introdutórios de física ou até matemática. E também eu penso em questões da física ou biologia, mesmo não tendo uma formação de base nessas áreas. Quando discuto um ou outro assunto de biologia, por exemplo, com gente formada na área, também me dou conta das suas deformações académicas, ou pelo menos no desconhecimento generalizado da bibliografia mais actual.
Abraço
Rolando Almeida
De Delcimetro a 3 de Setembro de 2007 às 14:24
Era só mesmo para deixar aqui um ponto, relativamente a discussão que vi iniciar acima...

Acho que andam os dois "as turras" quando é completamente compatível o que dizem.

Renato, Obviamente, que para alguém ser considerado um filosofo tem de ter dar provas disso, tendo contribuído "para o progresso e sofisticação dos problemas e argumentos filosóficos ". Acho que isto não pode ficar mais simples.

Rolando, mais obvio ainda é que para alguém SER (e não ser considerado) um filosofo, nada tem que provar ao mundo...
Gostei muito do teu argumento do Musico (ou pseudo-musico ), mas para contestar falo-te de steven hawking .. será que ele não teria sido um grande físico se por causa da sua condição não tivesse conseguido "por cá fora " nada do seu pensamento?
De rolandoa a 3 de Setembro de 2007 às 23:07
Delcimetro,
Obrigado pelo comentário. Mas vamos ver uma coisa: como é que se pode ser um bom jogador de futebol sem ser considerado como tal? Do mesmo modo, aceito, pode-se ser considerado um bom jogador sem, com efeito, o ser realmente. Não há problema algum em afirmar "ser considerado um filósofo"
Em relação ao músico e Hawking trata-se de expor e tornar público um trabalho. Nada mais.
Quanto às "turras" com o Renato: de acordo! :-)
Abraço e volta sempre
De Daniel Brisolara a 3 de Outubro de 2007 às 18:28
Essas questões davam tranqüilamente um livro.

Sobre a filosofia ser difícil talvez as pessoas queiram se referir ás especificidades de dificuldades que são mais ou menos intrínsecas ao lidar com filosofia, com argumentos filosóficos.

Num contexto dominado pelas ciências, onde aplicações práticas, tecnológicas são regra é difícil inserir a filosofia e justifica-la. E o saber em geral é orientado por essa praticidade sendo desprezadas pesquisas em ciência básica em detrimento de pesquisas em ciência aplicada, não? Que se dirá ainda de filosofia, com sua metodologia própria, ou de artes? Não seria preciso martelar mais nesse ponto atualmente? Aqui no Brasil vê-se os estados ridículos dos museus, galerias de arte, ou mesmo das academias brasileiras de filosofia.

Sobre esse comentário que de que a filosofia nunca chega a conclusões penso que se é complementar o comentário de que na filosofia o mais importante são as perguntas do que as respostas. Poxa, mas desconsiderar todos os esforços dos filósofos ao longo da história de construir obras que se tornaram clássicos, argumentos requintados, muito bem construídos, seria desprezar uma parte muito importante da filosofia. O esforço de construir um argumento deveria ser mais valorizado do que por-se perguntas. Sem dúvida que fazer a pergunta de maneira correta já é meio caminho para respostas criativas e interessantes, mas não há motivo de desprezar uma pela outra.

Sobre a interrogação quatro não seria bom explicar em que medida a filosofia mesmo surgindo de questões práticas pode ser altamente abstrata? Além de haver a distinção dentro da filosofia de áreas que lidam diretamente com a realidade prática (ética prática) e outras que apesar de explicar ou fundamentar realidades estão em nível altamente abstrato.

Nessa discussão sobre se é possível haver filósofos fora das academias, ou melhor dizendo, se é possível reconhecer alguém como filósofo fora das universidades e dos ambientes de pesquisa, pois não se teria critérios para avaliar isso a não ser por meio do reconhecimento entre pares é um pouco estranho - se é que entendi e me fiz entender. Não se está aqui a colocar o que é a filosofia? E quem são os filósofos? E como reconhecer objetivamente quem é e quem não é filósofo? Não estarias, Rolando, a dizer que são os pares, é por submeter artigos à revistas de publicação filosófica com reconhecimento internacional, ou doutorados, ou titulações de academias que no fim das contas seriam nosso critério para dizer quem é e quem não é filósofo, o que é e o que não é filosofia? Uma ligação muito forte entre filosofia, filósofos e instituições? Não haveria outro critério de objetividade para se saber quem são os filósofos? Ou ao menos para se saber que se está a filosofar, ou quando se está colocar argumentos e questões filosóficas? Para isso não bastaria recorrer à tradição? Desculpem se entendo erroneamente as questões e respostas dadas.

Não se poderia, falando que a filosofia é subjetiva, admitir que no fim das contas os exercícios filosóficos serviriam para estimular o pensamento sem pretensão qualquer de objetividade? Ou que ao menos, no âmbito da filosofia, admitir-se que a objetividade se poria como algo problemático? Qual seria o problema da filosofia ser "mera troca de opiniões"? Isso a desmereceria em que sentido? Acho muito problemática essa aproximação feita sempre em relação à ciência. Seria importante marcar mais as diferenças e caracterizar mais as especificidades do trabalho propriamente filosófico (diferença de objeto, método, diferença de noção de objetividade, diferença de noção de progresso, ...).

Por que considerar o critical thinking como filosofia?

O valor da educação clássica está sendo posto em xeque assim como o próprio modelo de educação. Não me admiraria se daqui a um tempo a escola básica se tornasse um laboratório de formação de funcionários com disciplinas cada vez mais técnicas. Como contabilidade e gerência do lar, computação, inglês para empresas, entre outras. Seria uma dificuldade determinar as disciplinas, mas sempre haverá técnicos dispostos a propor tal empreendimento. (...)
De Daniel Brisolara a 3 de Outubro de 2007 às 18:30
(...) Nesse contexto de questionamento ou de não compreensão do valor da educação clássica a filosofia, como todos os outros saberes, é chamada a se justificar, a dizer de que serve, o que se poderá fazer a partir dos conhecimentos filosóficos, etc. Reduzindo a filosofia a um conjunto de técnicas úteis para outras atividades mais louváveis, rentáveis e aplicáveis. Faz-se, então, se absoluta importância o desenvolvimento do marketing filosófico.

Essa idéia de que não é preciso ensinar filosofia nas escolas deveria ser posta em outros termos. Qual o objetivo da filosofia nas escolas? Aqui no Brasil diz-se que é para formar o cidadão crítico, mas ninguém aqui discute o que significa cidadania muito menos crítica, então falam abstrações que se os próprios políticos responsáveis pela volta da filosofia fossem interrogados ficariam a ver nuvens. Portanto não há clareza quanto ao papel da disciplina na escola para justamente aqueles que querem seu retorno. Isso é grave.

Uma outra questão sobre não ser preciso ensinar filosofia é que as matérias que estão aí os alunos já não aprendem, lembro sempre do dado recente de que 74% dos brasileiros são analfabetos funcionais, ou seja, compreendem apenas frases simples ou muito simples. Portanto se nem saber ler ou escrever conseguem em que sentido a filosofia poderia entrar aí? Poderia servir como mais uma disciplina para ensinar a ler e escrever decentemente. Estranho ainda imaginar que alguém que não sabe nem ler e escrever razoavelmente possa esperar-se que seja cidadão em qualquer sentido, e que seja "crítico".

Diz-se muito por aqui que inserir a filosofia seria inchar demais o currículo básico das escolas. Tendo em vista ainda a pouca formação de profissionais licenciados em filosofia e a pouca atração que a carreira de professor tem, seria questionável a inclusão da disciplina. No caso do Brasil veio acompanhada com a disciplina de sociologia para os ensinos médios brasileiros (3 anos).

Como é possível ser rigoroso sem ser profundo? O rigor não dependeria da sofisticação, apenas de tratar, seja em que nível for, da melhor forma possível? Ou da forma mais abrangente possível um problema, uma questão? Mas isso não implicaria maior profundidade? Desculpe, não entendi essa diferenciação entre rigor e profundidade.

Perdoe os comentários muito atrasados em relação ao post inicial. Só os li hoje, portanto não tive a oportunidade de responder o quanto antes. Como sei que o tempo é muito distante da publicação aceito sem problema algum a não resposta aos meus comentários demasiado extensos.

um abraço,

Cordialmente,

Daniel Brisolara
De rolandoa a 3 de Outubro de 2007 às 22:24
Caro Daniel,
Obrigado pelas visitas e sobretudo pelos comentários. Não lhes responder seria pouco elegante da minha parte, até porque os seus comentários merecem algumas contra respostas.
1ª questão: é claro que a filosofia possui valor intrínseco e não instrumental. Quer isto dizer que não é fácil a uma cultura compreender a utilidade da filosofia. Mas o que acontece em culturas mais sofisticadas é que a filosofia tem muito sucesso, pela razão que as pessoas compreendem qual o seu valor intrínseco e as consequências na vida prática do seu estudo.
Agora não creio que a filosofia se deva estudar unicamente pelo seu valor histórico, mas antes, ela deve-se estudar pela sua importância no desenvolvimento cultural e científico de um povo. De resto é inegável que a tradição da filosofia nos deixa um grande tesouro que é importante não negar. Se a filosofia vivesse à sombra da sua história não se faria filosofia hoje em dia. A filosofia está muito viva, mas, como lhe disse, está viva nas culturas que estão à altura de compreender o seu valor intrínseco. Não esqueçamos que em países como os EUA livros de filosofia são muitas das vezes campeões de vendas e recebem valiosos prémios.
3º A filosofia não é completamente abstracta. Na filosofia, como nos outros saberes, existem problemas mais práticos e outros menos práticos. Por exemplo, não cabe à filosofia responder quando uma mulher deve ou não abortar um feto. Mas cabe à filosofia procurar razões que nos possam indicar caminhos sobre o que é moralmente certo e errado no problema moral do aborto. A filosofia não possui uma dimensão meramente discursiva. Usa e preocupa-se com o discurso porque ele é o modo como expressamos o pensamento, tal como o carpinteiro se preocupa em saber manejar o serrote para cortar a madeira. Mas saber utilizar o discurso é a ferramenta para chegar à verdade. Neste sentido compreendemos facilmente que há filósofos que se preocupam com o problema da linguagem, tal como há matemáticos que se preocupam com os métodos e leis e calculo matemático para poder ser aplicado na física, química, etc…
4º Penso que é aceitável que exista outro meio, além das academias e revistas da especialidade, para determinar quem é e não é filósofo. Mas qual é esse meio? A verdade é que não existe. Quer dizer, pelo menos não é credível. E , ainda assim, note que existem muitas academias que não são credíveis. As universidades portuguesas, que são muito más no ensino da filosofia, dificilmente poderiam credibilizar alguém como filósofo. Será difícil a um filósofo português mostrar as suas ideias e debatê-las no seu circuito académico. Para comunicar com os seus pares, teria de publicar numa revista e numa língua que pudesse ser lida pelos maiores especialistas. Claro que podem fazer muito trabalho a nível interno, mas diga-me, conhece actualmente, a título de exemplo, algum especialista português em alguma área avançada da filosofia? A verdade é que estão arredados da discussão dos problemas e fora do circuito é complicado fazer boa filosofia pela simples razão de que as nossas ideias não são sujeitas ao crivo da crítica dos que mais sabem. Mas ainda assim defendo que as universidades não precisam de ter bons filósofos para ser uma boa universidade. Um bom departamento de filosofia já fará um trabalho acima da média se puder divulgar bem e com rigor os autores actuais, os problemas centrais da filosofia, etc…
5º o problema da objectividade na filosofia ou ciência prende-se com um outro, com o da relatividade. E este é um dos vícios da filosofia. Se a filosofia enveredar por aí duvido que possa ser mais do que comentário acrítico de textos. Mas a vitalidade da filosofia exige crítica activa dos argumentos das principais teorias filosóficos. Como é que é possível fazê-lo se todas as teorias são subjectivas e relativas. O subjectivismo ou relativismo (uso aqui no mesmo sentido ambos os termos) esgota a possibilidade de discussão activa de ideias e argumentos. Rorty, por exemplo, defendeu o relativismo, mas rapidamente viu as suas teorias afundarem-se pelos argumentos que o próprio usou. O problema do relativismo é que ele é racionalmente insustentável.
De rolandoa a 3 de Outubro de 2007 às 22:26
6º o critical thinking é a área mais transversal da filosofia e que é de interesse mais geral. Trata-se de usar as metodologias socráticas de discussão crítica nas mais diversas situações da vida humana. È como usar a matemática em áreas como a física ou o desporto. E há muitas vantagens em fazê-lo.
7º sem dúvida que as questões da educação merecem e devem ser debatidas. O que acontece num sistema educativo muito técnico é que corremos o risco, nesse sistema, de formar técnicos de engenharia muito competentes a criar micro ondas que não servem para nada porque não possuem qualquer relação com o ser humano. Pensar que o ensino não passa de ensinar uma quantidade de conhecimentos mais técnicos é um erro da mais rotunda ignorância e que não tem consequências boas em lado algum. Além do mais, de que nos serve, socialmente, ter técnicos muito bons, mas desprovidos de capacidade de pensar? Além do mais sou muito céptico que se possam formar técnicos muito bons sem treino intelectual, mas estou convencido que é perfeitamente aceitável que um sujeito que saiba pensar com correcção, se venha a revelar um bom técnico. Não podemos formar bons técnicos sem a base estar assegurada. Isso é construir sobre pés de barro e é uma visão muito empobrecida de um sistema de ensino.
Em relação ao marketing filosófico, pessoalmente, não tenho nada a opor. O marketing é uma actividade que pode ser positiva se conduzir as pessoas a relações de interesse com o mundo. Será que haveria algum problema se se falasse de filosofia na TV em horários nobres, com debates interessantes? Será negativo promover os livros de divulgação de filosofia, fazer programas de tv, rádio, etc….? Pessoalmente não vejo problema nisso. Afinal, Carl Sagan fez isso para a ciência e, com essa sua postura de marketing, já conseguiu cativar milhares de jovens para a ciência. Foi bom? Estou convencido que sim.
8º não conheço o sistema de ensino no Brasil, pelo que não posso discutir. Mas, segundo sei, o ensino da filosofia no Brasil tem sido retomado recentemente em graus de ensino para jovens. E é positivo que tal aconteça, mas é natural que esse ensino tenha de ser maturado solidificando-se. Como é que isto se faz? Com o empenho de todos. A tradução de obras de qualidade é um passo importante.
Se a filosofia é necessária ou não no ensino, ela é tão necessária quanto a matemática, a física ou a química. Pensar que estas disciplinas não são necessárias em proveito de outras de carácter mais técnico tem sido a política educativa de, por exemplo, Portugal. Mas este ritmo desacompanha aquilo que acontece em países mais evoluídos. Retirar a possibilidade aos jovens de aprender os conteúdos essências da filosofia, história, física ou química é um dos crimes mais bravos que existe contra o conhecimento, uma vez que se está a retirar a possibilidade aos sujeitos de crescerem e evoluírem em liberdade de conhecimento. Infelizmente esta é a tendência em países mais pobres, mas não nos mais avançados. E os países mais ricos não são mais ricos porque ensinam filosofia ou física, mas ensinam filosofia ou física para serem mais ricos. Fui claro? Ao que me diz, nada disto se passa no Brasil.
9º Daniel, que os alunos sejam analfabetos funcionais não é razão para não lhes ensinar filosofia, mas exactamente o contrário: deve-se-lhes ensinar filosofia precisamente porque eles são analfabetos funcionais, que são pessoas que até sabem ler e escrever, mas não são capazes de pensar. E existem regras básicas para fazermos um raciocínio. Não nascemos com essas regras, nem com outras. Aprendemo-las.
De rolandoa a 3 de Outubro de 2007 às 22:27
10º a questão da profundidade e do rigor prende-se mais com a realidade portuguesa. Por aqui existe a ideia que o filósofo é um ser que tem pensamentos abstractos e supostamente muito profundos, mas vazios de aplicabilidade prática. Ora, esta ideia é claramente errada. Claro que se entendermos por profundidade ser capaz de objectar posições e argumentos fortes dos filósofos, aí, profundidade é uma mais valia filosófica. Mas não creio que assim seja: pode-se expor uma boa ideia de uma forma muito clara e intuitiva, assim como, do mesmo modo pode-se fazer uma grande baralhada supostamente profunda. É por essa razão que uso profundo no meu texto com uma conotação negativa. Ser-se profundo não é uma característica necessária ao bom filosofar.
Espero ter dado respostas que ajudem a clarificar algumas das ideias que exponho no meu texto. Agradeço os seus comentários e as suas questões, nalguns casos, iluminantes. O que escrevo está e deve estar, sujeito à crítica. Por essa razão publico. E fez bem o Daniel em comentar e criticar.
Volte sempre e um abraço
Rolando Almeida
De Daniel Brisolara a 4 de Outubro de 2007 às 18:30
Caro Rolando,

Primeiro de tudo:

Muitíssimo obrigado pelas respostas. Agradeço principalmente pelo tempo despendido.

Sobre a 1a. questão teria ainda a dizer que acho particularmente interessantes as análises que buscam ver como conceitos filosóficos foram se desenvolvendo ao longo da história e como estão presentes ainda em questões discutidas recentemente.

Mas qual seria esse valor intrínseco da filosofia? Ser essa atividade viva de discussão e debate onde a história é mais vista como conjunto de argumentos e problemas?

3a. Mas a filosofia teria como chegar a uma conclusão filosoficamente satisfatória em problemas morais como o aborto? A filosofia não ajudaria mais no sentido de esclarecer o que está se discutindo e os pressupostos que se está assunto ao defender uma visão ou outra? Lembro de ter lido um texto de Pedro Madeira e não ter ficado muito convencido da parte positiva da argumentação, apesar de ter achado interessantes as críticas.

Você quis dizer com essa resposta que a filosofia porque não se debruça tão somente sobre a linguagem, mas, sim, sobre fatos no mundo não seria somente abstrata? Gostaria de entender aquela frase de Derrida que diz que "tudo é texto" e em que medida poderia ser usada para contestar seu comentário. Mas como não sei de Derrida deixo pra lá.

4a. O único autor português que inclusive lemos algo na graduação foi João Branquinho sobre ontologia. É considerado o "papa" da filosofia analítica em Portugal.

Segundo este seu critério de um bom departamento teria que considerar que o departamento ao qual pretendo fazer minha pós-graduação aqui no Brasil não é bom, pois não se fala muito (ou quase nada) dos autores mais atuais que vejo com freqüência citados no site criticanarede ou no blog dererummundi.

Mas e quanto às pessoas fora da academia terem a pretensão de discutir filosoficamente os assuntos? É possível que uma pessoa mesmo não tendo lido livros filosóficos possa levantar bons questionamentos e que possa fundamentar bem uma idéia, ou construir bem um argumento. O que seria difícil em áreas como a física ou a química. A única dificuldade pra essa pessoa será de não ter certeza de que tipo de questionamento ou argumento ela está fazendo (isso é filosofia? ou seria psicologia? ou lógica?...).

5a. Mas aí penso que seria importante uma discussão de meta-filosofia. Para saber em cima de que critérios julgar os argumentos apresentados. E não seria essas discussões em meta-filosofia que teriam que estabelecer uma objetividade para a filosofia ou isso não é preciso na sua visão?

6a. Mas por que chamar essa discussão argumentativa de filosofia? O que há de propriamente filosófico nisso?

7a. Saber pensar seria saber vincular seus conhecimentos ao mundo? Seria saber voltar atrás? Dominar as regras de lógica formal e informal? Assumir as conseqüências pelo que pensa? Que conceito de pensar estar por trás desses comentários?

Admito que quando falei em marketing pensei num mau sentido. Mas reconheço que há bons sentidos, principalmente os livros, ou programas de divulgação que citas.

8a. Sim, sim, foste claro, sim. No Brasil com certa luta se voltou com o ensino de filosofia no ensino médio. Os desafios agoram são muitos, está tudo por fazer. E a tradição brasileira dificulta a mudança de visão da filosofia. Agora que Desidério anda por cá poderá ver um pouco dos materiais produzidos por aqui e ter uma idéia da filosofia que se ensina nos ensinos médios.

Não tenho certeza se apenas jogar disciplinas no ensino médio seja o caminho. Dependeria do apoio do Estado, de várias instituições e órgãos responsáveis (sindicatos, universidades, associações de professores, ministério da educação, etc). Esse engajamento todo é que parece ser um grande empecilho para mudanças substanciais que lá na frente realmente contribuam para o desenvolvimento da nação.

9a. Concordo.

10a. Mas não seria problemático por a clareza como regra? Essa seria mais uma regra objetiva dessa meta-filosofia?

Novamente agradeço as respostas, os comentários esclarecedores e o bom debate,

um abraço cordial,

Daniel Brisolara
De rolandoa a 5 de Outubro de 2007 às 00:38
Caro Daniel,
1- Há que estabelecer uma diferença básica: uma coisa é história da filosofia e outra a própria filosofia. Logo, uma coisa é fazer história da filosofia, outra, filosofia. Para se fazer história da filosofia temos de relatar os feitos e as ideias dos filósofos, datando-as e contextualizando-as. Para se fazer filosofia temos de discutir activamente essas ideias. Claro está que é impossível fazer filosofia sem conhecer a história da filosofia, mas, ao contrário, já é possível fazer história da filosofia sem filosofar.
2- A filosofia não pretende esclarecer argumentos dos outros filósofos. A filosofia usa a argumentação porque não possui as possibilidades empíricas da ciência. Se a filosofia possuísse essas possibilidades deixaria de ser filosofia para passar a ser ciência. A especificidade dos problemas filosóficos é que eles não resolvem recorrendo à experiência. Não cabe à filosofia decidir, por exemplo, quando uma mulher deve e não deve abortar. Essa decisão é individual e somente cabe á própria mulher. Á filosofia cabe reflectir em torno da moralidade do abordo, nada mais. De resto, que nos dá se aconteceram 100 ou 500 mil abortos no último ano? Neste sentido a filosofia é incondicionada pela acontecimentos do mundo, mas não por ser abstracta ou se desinteressar pela vida dos seres humanos. É assim, porque é uma actividade racional pura que, depois, se aplica à vida ou não. É exactamente algo parecido que acontece com a matemática e parece que não se coloca problema algum nisso. A matemática não está a explicar se morreram 500 ou 1 milhão de pessoas com cancro do pulmão, mas é claro que precisamos dos números para contabilizar o número de mortes ocorridas. E não é por essa razão que nos revoltamos contra a matemática ou achamos que ela não serve para nada.

3- …………………..

4- Não sei se João Branquinho é o pai da filosofia analítica em Portugal. Eu próprio não tenho uma formação na chamada filosofia analítica. Mas tenho por hábito colocar esta questão noutros termos: aquilo que me ensinaram na universidade foi tudo menos filosofia. Isto de dar a impressão que existem duas filosofias parece-me absurdo. Pessoalmente não ando a defender bandeiras. Não tenho razão alguma para tal e procuro demonstrar isso no meu blog. A filosofia, como qualquer saber, evoluiu e a filosofia que hoje em dia se faz e produz é, na verdade, aquela que é devedora da tradição analítica e socrática. Mas esse é o percurso natural que um saber como a filosofia acaba por ter. Não há nada de especial nisso. Não existe razão para revoltas ou mais discussão. Se uma universidade ainda se limita a ensinar discursos de Heidegger que ninguém entende muito bem sem, por exemplo, ensinar as regras elementares de lógica proposicional, então isso só nos indica que essa universidade precisa de se actualizar urgentemente porque o modelo que ensina está esgotado. Mas as coisas são mesmo assim. Sempre foram. Há universidades que são boas e se actualizam e a maior parte são muito más e continuam com os modelos que sempre tiveram. Acordam tarde demais para a mudança. Quando as academias portuguesas adoptarem o modelo das academias inglesas ou americanas, já o comboio vai mais longe. Que se há-de fazer? Trabalhar e estudar, pois. Claro que num curso de pós graduação não se pode falar de todos os filósofos, mas o mínimo que se pode exigir é que se fale dos clássicos. Eu, por exemplo, nunca estudei Russell numa formação de 4 anos, o que me parece muito infeliz, quando ouvi falar de Heidegger os 4 anos. Não tenho nada contra Heidegger, note-se, mas fiquei com a impressão que a academia portuguesa despreza autores centrais da filosofia contemporânea como se não lhes dissesse nada. Mais tarde percebi que nem sequer os conhecem. De um modo geral, um departamento que não aborde parte da filosofia contemporânea é um mau departamento. Imagine um departamento de Biologia que pura e simplesmente ignora os modernos avanços da biologia? Seria atrasado, não? O mesmo serve para explicar o que na filosofia se passa.
De rolandoa a 5 de Outubro de 2007 às 00:40
5- Claro que uma pessoa sem formação em filosofia pode argumentar muito bem. Mas, apesar de raro, a mesmíssima coisa pode acontecer na matemática, física ou química. Quem lhe disse que não acontece? A física está cheia de boas teorias que foram pensadas por não físicos. A matemática está cheia de boas equações pensadas por não matemáticos. Mas estes casos, sendo até algo comuns, não são para toda a gente. O que defendo é que não se pense que saber filosofia decorre de ter ouvido umas conversas engraçadas sobre os problemas da filosofia. Isso é um disparate. Saber filosofia é exactamente igual a saber matemática. É preciso entrar nela e pensar.
6- É claro que saber filosofar não é dominar as regras da lógica formal e informal. Mas, Daniel, tente lá pensar desobedecendo a regras de lógica formal e informal. O mais provável é que acabe a dizer disparates, apesar de disfarçados de palavras caras. Quem mais se preocupou com o discurso foram os filósofos, quem primeiramente se preocupou com a lógica foram filósofos. De maneira que não se compreende porque é que se pode filosofar ignorando a lógica. Já leu Kant no prefácio à Crítica da Razão Pura? É o que diz Kant, que a lógica não é um fim em si, mas um meio para argumentar.
Um argumento é um raciocínio. Não existe problema algum nisso. E pensamos, filosofamos com argumentos. Isto é elementar. Então, Daniel, se não é com argumentos que pensamos é com quê? O que há de filosófico na discussão e racionalidade argumentativa? Confesso que a resposta é óbvia e intuitivamente fácil de compreender: a filosofia só é possível se existir discussão activa, se existirem ataques e objecções ao que existe de errado nos argumentos. É que, na falta de prova empírica, só mesmo argumentando caminhamos para a verdade. E é essencial saber distinguir os argumentos mais fortes dos menos fortes. E a lógica auxilia nessa tarefa.
Pessoalmente fico feliz de saber que o Brasil instituiu o ensino da filosofia no ensino médio. Pelo menos em Portugal existe um comportamento que é muito negativo e espero que não exista no Brasil: sempre que há uma novidade, toda a gente diz mal. Daniel, mais vale aproveitar. Ter a filosofia no ensino médio é o que de melhor pode acontecer para cativar público para a filosofia no ensino superior, para publicar e traduzir filosofia. Existe todo um comércio muito positivo com a filosofia no ensino médio. Agora é preciso trabalhar e cumprir com os objectivos.

10- a clareza não tem de ser uma regra. É um princípio de bom senso. Quando pensamos fazemo-lo para comunicar o conteúdo do que pensamos. E é sensato que saibamos fazê-lo de modo claro.

Felicidades para a pós graduação
Abraço
Rolando Almeida
De rolandoa a 5 de Outubro de 2007 às 00:42
Daniel,
somente mais um comentário. a realidade da filosofia no brasil não me é indiferente. Falamos Português e uma cultura sólida em filosofia num dos países traria reflexos muito bons para o outro. e este comércio é importante que aconteça.
abraço
Rolando
De sara a 26 de Janeiro de 2008 às 04:55
Enfim, há que saber escolher os professores com os quais se quer aprender, a verdade é que não podemos negar as preferências de certos professores. Se não se informou acerca do programa das cadeiras que frequentou, ou se não tentou propor uma cadeira do seu interesse ao conselho pedagógico da sua universidade, pior para si. Andar a falar mal do ensino de Filosofia em Portugal de "boca cheia", acho isso um bocado triste, quando no Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da UL se encontram hoje em dia, e também em tempos anteriores encontraram, se encontram grandes nomes da Filosofia em Portugal (como por exemplo o Prof. Dr. Branquinho, com o qual tenho o prazer de ter aulas). De qualquer forma...quem acha que o Peter Singer é um grande filósofo da actualidade, não tem um critério muito credível para essas afirmações.
De rolandoa a 26 de Janeiro de 2008 às 10:56
Olá Sara, como está,
O professor Branquinho é, sem dúvida, uma grande referencia. O Peter Singer é um dos maiores nomes na actualidade no ramo da ética aplicada e a Sara, se estuda filosofia, deveria saber isso. Entre dezenas de outros trabalhos relevantes, é o Peter Singer quem organiza os companhions de ética aplicada que, como deve saber, são obras importantes de filosofia. A Sara estuda filosofia e não sabe isso? Estranho que os seus bons professores não lhe digam isso. Provavelmente são como os que tive: não publicavam nada, não conheciam as bibliografias mais actuais, mas diziam à boca cheia mal deste e daquele filósofo. Sem dúvida que os cursos de filosofia em Portugal tem gente com valor (eu disse o contrário?), mas é inegável que são cursos cheios de problemas. pergunte ao professor Branquinho. Ele saberá, melhor que eu até, indicar-lhe alguns dos problemas de formação, básica, dos cursos de filosofia nas universidades portuguesas.
Obrigado pela visita
Rolando Almeida
De julia machado a 6 de Julho de 2008 às 20:22
Parabens, escreves divinamente, lucido, gentil e sereno, com uma fluencia farta e solta....parabens!! Dias de alma ensolarada!
De julia machado a 6 de Julho de 2008 às 20:24
Parabens , escreves divinamente, lucido , gentil e sereno, com uma fluencia farta e solta... parabens !! Dias de alma ensolarada!
De rolandoa a 6 de Julho de 2008 às 20:43
Júlia,
Obrigado pelas suas palavras
Abraço

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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