Terça-feira, 17 de Julho de 2007

Metallica e Filosofia: um acidente no decorrer de uma cirurgia cerebral

Perante este tipo de edições aparece sempre as perguntas da praxe: “o que é que os Metallica tem a ver com filosofia?” Ou comentários como: “isso não vale nada; a filosofia não tem nada a ver com essas coisas mundanas”. Bem, poderia desde já perguntar se a filosofia não tem a ver com as coisas do mundo, tem a ver com quê? Com coisas sobrenaturais? Mas nesse caso a filosofia seria reduzida a uma banalidade, ou uma conversa sem coerência lógica, como é o caso da astrologia. Numa cultura descomplexada e sem preconceitos, a filosofia é talvez a disciplina que, a determinados níveis, melhor desce à rua. Isto claro se a filosofia for feita segundo as suas metodologias específicas. Segundo o editor desta obra, William Irwin, as letras dos Metallica encerram uma riqueza enorme e podem constituir o mote para a reflexão filosófica.  Nas palavras de Irwin, «os Metallica convidam constantemente a usar o pensamento, e este livro constitui o guia para pensar através da banda sonora da tua vida», claro está, referindo-se à sua banda de eleição, os Metallica.
Rolando Almeida

O livro está dividido por 5 capítulos como se fossem 5 discos dos Metallica e o livro no seu todo, uma caixa com os discos. O primeiro capítulo, «On trough the never», remete para os problemas da filosofia moral e das emoções. O segundo, «Existensica: Metallica meets existencialism», propõe uma reflexão em torno de alguns dos problemas centrais da filosofia da existência. Repare-se no título de um dos artigos, no caso, de Philip Lindholm, «A luta interior: Hetfield, Kierkegaard, e a busca da autenticidade». O disco 3 (leia-se, capítulo 3), aborda a questão do sentido da vida, em parte em continuação do disco anterior. Leva o título de «Living and Dying, laughing and crying». Destaque para o artigo de Jason T. Eberl, «Viver e morrer como alguém: o sofrimento e a ética da eutanásia».
O disco 4, remete para os problemas da metafísica e epistemologia, com uma excelente entrada com o artigo de Robert Arp, «Acreditar, enganar: Metallica, percepção e realidade». O último disco, o 5, está mais virado para alguns problemas da ética prática, com um artigo de Robert Delfino sobre a conhecida polémica que envolveu a banda e o Napster.
Este livro merece a nossa atenção, quanto mais não seja, para compreender que a filosofia deve ser arrancada a um certo lugar obscuro que durante muito tempo, em determinadas culturas, tem estado agarrada e pode, porque não, descomplexadamente, mostrar-se ao mundo, mesmo partindo de uma inspiração como o gosto pela música de uma banda rock. Não sou um confesso admirador da obra dos Metallica. Preferia muito mais, talvez, ver a obra com o nome: «Sonic Youth and Philosophy» ou, num caso mais recente, «The White Stripes and Philosophy», mas em boa verdade os autores dos artigos conseguiram relacionar o universo de uma banda rock com o universo dos filósofos, sem perder pitada de rigor. Por esta razão o livro já merece a nossa leitura. E, mais que isto, merece uma tradução em português. Não considero a obra das mais acessíveis que conheço do género para jovens adolescentes do secundário, mas estou certo que o facto de merecer os Metallica como destaque, deixaria com certeza muitos jovens com o apetite aberto para a filosofia.
Todos os autores deste volume são professores universitários de reconhecidos méritos e obra publicada.
William Irwin (Edited By), Metallica and Philosophy, a crash course in brain surgery, Blackwell, 2007,260p.


publicado por rolandoa às 00:15

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11 comentários:
De António a 23 de Julho de 2007 às 12:37
Olá Rolando!
Esta ideia de associar os mettalica à filosofia, não é uma espécie de "eduquês" que tanto tem refutado?
Abraço
António
De rolandoa a 23 de Julho de 2007 às 13:35
Olá António,
De modo algum. Creio que o António está a fazer uma confusão algo habitual nos nossos meios académicos e que consiste no seguinte: pensar que o que é sério nada tem a ver com as coisas do mundo. Repare: sobre os Metallica podemos escrever um mau livro de filosofia ou um bom livro de filosofia. Basta olhar para os manuais de filosofia e observar o que se passa. Um manual do 10º ano começa a sua exposição com um poema de Boss Ac, mas não levanta qualquer problema da filosofia a partir dali. Mas outros manuais, pegando nos exemplos mais banais do mundo, conseguem introduzir o aluno nos problemas centrais da filosofia.
Por outro lado, se me pergunta se relacionar os Metallica com a filosofia não é “expremer” um pouco a ver se a coisa cola? Sim, estou parcialmente de acordo. Mas repare ainda que existem excelentes livros de filosofia escritos, por exemplo, a partir do filme Matrix. No caso, os Metallica são um ponto de partida para uma série de artigos de filosofia, compilados no livro que aqui apresentei.
Mas António, a ser sincero, acho a sua pergunta muito bem colocada. E, obviamente, merece a minha explicação.
Abraço e volte sempre
Obrigado
Rolando Almeida
De Renato Martins a 29 de Julho de 2007 às 04:15
Concordo inteiramente com o que diz Rolando. O Nuno Crato parece-me de facto meio avesso a exemplos, mas eu pessoalmente acho que quando sao bem dados valem a pena. A abstracção parte depois dos proprios alunos.

Abraço
De Carlos Almeida a 19 de Agosto de 2007 às 22:40
Muito interessante! :)
De Carlos Almeida a 19 de Agosto de 2007 às 22:55
Eu estou bastante curioso e tenho vontade em ler esta obra, não apenas por ser um fan de Metallica, mas sobretudo porque sempre apreciei Filosofia.

Não sou um especialista na matéria, tive no Secundário e na Faculdade algumas cadeiras relacionadas, mas creio que é possível ser científico partindo de áreas tão diversas como a música, o desporto, a pintura, o cinema, etc.

A criatividade aliada ao rigor é sempre uma ferramenta de elevado valor pedagógico.

Muito interessante!
De rolandoa a 20 de Agosto de 2007 às 12:02
Viva Carlos,
pelo menos é possível divulgar a filosofia ou a ciência a partir de áreas como a música.
Obrigado pelo comentário
abraço
Rolando A
De paHetfield a 26 de Setembro de 2007 às 03:10
Olá! Sabe quando o livro será lançado no Brasil?
De rolandoa a 26 de Setembro de 2007 às 18:42
Olá,
Na verdade não sei quando haverá possibilidade de edição no Barsil deste livro. Era bom que tal acontecesse, mas não há nada melhor que contactar os editores brasileiros a convidá-los a traduzir o livro. Eu faço isso aqui em Portugal.
Abraço
Rolando Almeida
De Marcos Ludwig a 12 de Abril de 2008 às 20:54
Rolando, a tradução correta de "Crash course" é "Curso intensivo", ou "Curso rápido", no sentido de ser um curso de curta duração para obter conhecimento sobre determinada disciplina.

Então ficaria: "Curso intensivo de cirurgia cerebral". Saudações do Brasil.
De Anónimo a 22 de Setembro de 2008 às 21:16
O livro "Metallica e a Filosofia" foi lançado no Brasil pela editora Madras.
http://www.madras.com.br/exibir_produto.asp?idprod=1239
De Andrew a 13 de Março de 2009 às 21:04
Estou adorando a maneira com a qual o autor faz os comparativos das letras das músicas e a filosofia. Somente os mais avançados no estudo da filosofia, não gostarão do material. Para a maioria, trata-se de uma excelete leitura. Porém advirto; quem for ler o livro deve conhecer um pouco da musicalidade do Metallica, senão poderá achar muito chato a correlação.

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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