Sexta-feira, 13 de Julho de 2007

Lógica e Filosofia nos programas de 10º e 11º - Parte I

INTRODUÇÃO
 
Este pequeno trabalho decorre da acção de formação, dinamizada pelo Sindicato Democrático dos professores da Madeira, entre os dias 22 e 26 de Maio de 2007, com o formador Desidério Murcho. Aqui pretendo mostrar algumas noções relevantes para o ensino eficaz da lógica para a disciplina de filosofia nos 10.º e 11.º anos de escolaridade. Ao escrever este trabalho, penso no desenvolvimento de todo o programa de filosofia uma vez que a lógica atravessa toda a argumentação racional e filosófica. Sem um conhecimento mínimo da lógica é impossível avaliar os argumentos dos filósofos, ainda que a um nível básico como o do ensino secundário. A lógica abre também a possibilidade do jovem estudante pensar autonomamente, podendo refutar proposições dos argumentos em análise, recorrendo aos textos e problemas da filosofia clássica e contemporânea. As noções que procuro tornar claras decorrem não só da acção de formação mas também da bibliografia em referência no final do trabalho. Aproveito para deixar uma palavra de agradecimento ao formador pela paciência aturada em ajudar os formandos a dissipar dúvidas e destruir falsas noções sobre a lógica e o seu ensino. Os disparates são da minha responsabilidade e espero não os cometer em demasia. Sendo que a lógica abre o lugar à crítica, deixo as minhas reflexões à prova.
Rolando Almeida
 

1.       E se vivêssemos sem argumentos?
 
A nossa relação com o mundo não é pacífica. Não somos uma máquina que regista os acontecimentos e problemas tal qual eles são. Esta é, aliás, uma questão metafísica que não vou aqui explorar. Mas é significativo compreender que o acesso a muitas questões da vida humana se faz pela argumentação. Na filosofia a argumentação tem um papel central, uma vez que a natureza dos seus problemas assim o exige.
Os problemas da filosofia não se resolvem pela via empírica, mas pela racional. E é da natureza da racionalidade o pensar. Como pensamos? Com argumentos. E usando a linguagem. Na filosofia, como nos restantes saberes, interessa-nos a verdade e não a falsidade. A argumentação é a porta de entrada da verdade filosófica e do mundo. A linguagem mediatiza toda essa relação, pelo que a análise lógica da linguagem se afigura imperativa.
O interesse deste trabalho é mostrar as bases da argumentação racional e filosófica, qual a relação entre a verdade e validade e, sobretudo, quando é que um argumento é ou não cogente. Em última instância desejamos, quando argumentamos, convencer o nosso auditório. Podemos recorrer a um mero exercício de retórica, mas aí afastamo-nos do interesse filosófico pela verdade. Quando desejamos discutir, por exemplo, um problema moral como os direitos morais dos animais não humanos, estamos genuinamente interessados em defender a nossa tese. E a nossa tese não é mais do que a proposição que figura como a conclusão a chegar. Mas a conclusão é o menos importante, precisamente porque não defendemos conclusões, teses, sem razões que a possam sustentar de modo articulado. Essas razões figuram no argumento como premissas. Os problemas surgem de duas formas principais:
 
a)      Estarão as minhas razões bem articulas com a minha conclusão?
b)      Que valor de verdade possuem, quer as minhas razões (premissas), quer as minhas conclusões? Até onde posso chegar quando pretendo discutir o valor de verdade de uma premissa? Não será essa premissa a conclusão de um outro argumento?
 
Defino assim dois níveis para a argumentação. Em a) tenho a argumentação dedutiva (ou não dedutiva) e uma preocupação pela forma lógica como o argumento se apresenta, se organiza. Em b) estou realmente preocupado com o conteúdo das proposições.
 
Para melhor compreender as relações entre verdade e validade tenho de começar por definir cada uma delas, explicar o que é uma proposição, saber qual a importância das proposições para a argumentação filosófica e, finalmente, procurar explicar de forma clara se é condição suficiente apresentar argumentos formalmente válidos, mas sem força persuasiva ou se, pelo contrário, é suficiente apresentar argumentos com conteúdos verdadeiros, mas formalmente inválidos. Quando partimos para os exemplos, estes são os principais problemas com que nos deparamos. Quando queremos argumentar com correcção, não podemos perdê-los de vista. Após a clarificação de como funciona a verdade e a validade, temos a base para partir para a análise dos textos filosóficos, a sua análise crítica. Sem isso, o desafio é quase vazio, não passando de uma interpretação muito menos objectiva e afastando-nos da verdade, abrindo caminho ao relativismo inconsequente da razão. O que se segue no meu trabalho é uma exposição sumária das noções básicas da lógica e da sua relação com a argumentação. Sei que consigo melhor efeito se for plausível nas explicações dadas e, com elas, mostrar a vitalidade da filosofia, revelando por que é que os seus problemas são abertos e, por essa razão, cheios de vitalidade. Se conseguir este efeito, argumentei bem. Se não conseguir, tenho de limar as arestas e corrigir pequenos pontos.
 
 
2.       Argumentos e verdade
 
Quando falamos usamos muitos tipos de frases gramaticais, desde as interrogações, exclamações e frases declarativas, algumas delas absurdas. O que nos interessa para a argumentação são as frases declarativas que não sejam absurdas. Há uma razão especial para isto e muito intuitiva. Somente as frases declarativas são capazes de transportar verdade ou falsidade. Notemos:
 
Se eu perguntar:
 
- A porta está aberta?
 
A frase em si não exprime nem verdade, nem falsidade. Estou somente a fazer uma pergunta. A frase é completamente aberta.
Mas se eu afirmar:
 
- A porta está aberta.
 
Neste caso posso confrontar a frase com a realidade dos factos e posso confirmar a verdade ou falsidade da frase.
A um nível intuitivo este passo é muito fácil de compreender, mas, como vou mostrar mais tarde, o problema da argumentação passa inevitavelmente pela verdade das proposições. Dou um exemplo breve:
 
1) Os animais não humanos não têm direitos morais.
 
É muito mais complicado determinar o valor de verdade desta frase. Como é possível saber se a proposição é verdadeira ou falsa? A primeira resposta que aqui ofereço é esta: não é possível! Ou melhor, temos de, para determinar o valor de verdade desta proposição, a conectar com outras proposições. Por exemplo:
 
2) Os animais não humanos não têm deveres morais.
 
Aqui já começamos a compreender a proposição 1). Afinal, os animais não humanos não têm direitos, porque não têm deveres. Quer isto dizer que quem não tem deveres morais, também não possui direitos. Vamos então encadear estas proposições encontradas:
 
 
 
Quem não tem deveres morais, também não tem direitos morais.
Os animais não humanos não têm deveres morais
Logo, os animais não humanos não têm direitos morais
 
 
 
Que temos então agora? Um argumento. Posso, então, partir para a sua análise.
 
 
 
 
 
 
3.       A dedução.
 
3.1. Argumentos e verdade.
 
Já mostrei que a verdade é uma propriedade das proposições e não dos argumentos. A validade do argumento não depende do valor de verdade das suas proposições, mas somente da sua forma lógica. Com efeito, não posso perder de vista que o que pretendo são argumentos persuasivos, que possam convencer. Logo, a verdade é uma condição necessária do argumento, mas não suficiente, pelo que há que estudá-la cuidadosamente. E isto independentemente de poder apresentar argumentos válidos com proposições falsas. Mostrarei também que, em filosofia, os problemas são abertos precisamente porque a verdade de determinadas proposições é muito discutível. Nesse caso falarei de plausibilidade, isto é, o argumento é persuasivo quando as premissas que o compõem são mais plausíveis que a conclusão. Nada disto se passa, por enquanto, quando falamos da sua validade lógica. Curiosamente, a validade é uma condição necessária à correcta argumentação, apesar de insuficiente. Mas vamos à verdade.
 
3.2.Negação de proposições
 
«Uma frase tem valor de verdade quando é verdadeira ou falsa, ainda que não saibamos se a frase é realmente verdadeira ou falsa»[1]
Uma das formas de sabermos o valor de verdade de uma determinada proposição é negando essa proposição. Para tal é necessário saber como se negam proposições, uma vez que a negação de uma proposição inverte o seu valor de verdade. Se a proposição de partida for verdadeira, a sua negação é falsa e vice-versa. Na argumentação, é pela negação de proposições que podemos refutar uma determinada tese.
A negação de proposições é um processo relativamente simples mas muito útil e podemos recorrer ao quadrado lógico das oposições para compreender como se negam proposições. As proposições são compostas por uma determinada quantidade e qualidade. Quando desejamos negar uma proposição temos de ter em atenção quer o seu quantificador, quer a qualidade da sua relação.
Alguns exemplos:
 
A negação de uma proposição com a forma «Todo o F é G», não é «Nenhum F é G». Se assim fosse, estaríamos a manter o quantificador universal. A negação correcta é: «Alguns F não são G». «Duas proposições são a negação uma da outra se, e só se, são ambas contraditórias – e não contrárias. A contraditória de uma proposição de tipo A é uma proposição de tipo O – e não uma proposição de tipo E[2]
Perante a proposição «Todos os homens são portugueses», a sua negação não é «Nenhum homem é português». Seriam ambas falsas. A sua negação é: «Algumas homens não são portugueses». Para negarmos correctamente uma proposição, temos de estender a negação à totalidade da frase e não só a parte dela. Caso particularmente interessante é a negação de condicionais. Vejamos a seguinte proposição:
 
«Se Deus existe, a vida faz sentido»
 
A sua negação não é:
 
«Se Deus não existe a vida não faz sentido»
 
Mas sim
 
«Deus não existe, mas a vida faz sentido»
 
O que queremos mostrar é que o sentido da vida não possui qualquer relação com Deus, pelo que não estaríamos a negar que a vida faça sentido porque Deus existe, afirmando que a vida não faz sentido porque  Deus não existe. O que pretendemos afirmar é que o sentido da vida é independente da existência de Deus. Estes erros são comuns e é necessário saber evitá-los se queremos argumentar correctamente. Negando correctamente proposições, podemos, então, mostrar que determinado argumento inválido e refutá-lo.
 
3.3.Validade dedutiva
 
Falamos de validade quando nos referimos aos argumentos e não às proposições. As proposições são verdadeiras ou falsas e os argumentos válidos ou inválidos. Por validade, entende-se a relação lógica entre as premissas e conclusão, sendo que a verdade das premissas, se o argumento é válido, assegura a verdade da conclusão. Considere-se o argumento:
 
Platão e Sócrates eram gregos,
Logo, Platão era Grego
 
Neste caso é impossível a premissa ser verdadeira e a conclusão falsa. Traduzindo na linguagem da lógica teríamos:
 
p Λ q
logo, p
Com efeito, se considerarmos o seguinte argumento:
 
Platão e Sócrates eram do Funchal
Logo, Platão era do Funchal
 
Verificámos que o argumento tem a mesma forma lógica e é dedutivamente válido, uma vez que a conclusão se segue necessariamente da premissa, mas é claro que a premissa e conclusão são ambas falsas.
Em conclusão temos:
 
 
a)      A validade de um argumento sem a verdade das suas premissas resulta num mau argumento.
b)      A verdade das premissas de um argumento sem a sua validade tem como resultado um mau argumento.
 
 
 
Temos então de introduzir aqui um elemento novo para compreender a utilidade da validade dedutiva no processo da argumentação. De que nos interessa um argumento como o meu segundo exemplo, se ele nada nos diz acerca da verdade do mundo, a não ser da sua coerência interna e lógica? O que mais nos interessa para a boa argumentação são argumentos que sejam válidos, mas que, ao mesmo tempo, nos garantam a verdade das premissas e, por consequência lógica, a verdade da conclusão. Desejamos argumentar validamente e com premissas e conclusão verdadeiras. O elemento novo chama-se solidez. Assim, um argumento sólido é um argumento que é válido e ao mesmo tempo tem premissas e conclusão verdadeiras, podemos dizer, tem um conteúdo verdadeiro.
Mas será que basta a um argumento a sua solidez para ser um argumento convincente? Não. Para que a argumentação resulte é necessário levar em consideração o estado cognitivo do auditório. Se eu fosse falar de física teórica para uma turma de alunos de 15 anos, poderia usar argumentos sólidos o tempo todo que o auditório não seria persuadido das minhas teses. A argumentação visa provocar no agente cognitivo a adesão a teses. Observo aqui uma outra condição para a boa argumentação, a sua cogência. Um argumento para ser bom tem de ser cogente. O salto dado entre a solidez e a cogência, é que a primeira reúne uma preocupação com a verdade, ao passo que a segunda reúne uma preocupação com a plausiblidade. Se no primeiro passo estamos perante um problema metafísico com a verdade, num segundo, estamos perante um problema epistémico.


publicado por rolandoa às 15:46

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2 comentários:
De Rafaela Nobre a 6 de Dezembro de 2007 às 21:43
quais sao as argumentações de platao sobre a argumentaçao da verdade e ser?
De rolandoa a 6 de Dezembro de 2007 às 23:57
Rafaela,
A pergunta que faz exige uma explicação muito longa e nem eu estarei à altura de lhe explicar todas as nuances que aparecem na obra de Platão, uma vez que não sou especilalista no filósofo. Mas, muito resumidamente, tanto a verdade como o ser, argumenta Platão, são explicados na teoria das ideias. Funciona mais ou menos assim: para qualquer caso em que A, B e C sejam P, Platão tem a tendência (uma vez que ele nem sempre aplica completamente o mesmo critério) de afirmar que estão todos relacionados com a ideia de P. Pelo exposto se compreende que tanto verdade quanto o ser se compreendem a partir da teoria das ideias. Seria necessário fazer a exposição da teoria das ideias para então, num passo seguinte, expôr como o autor argumenta em relação à verdade e ao ser. Mas eu continuo sem compreender porque é que se fazem estas questões (o que é o ser?) sem mais. Por exemplo, em Platão, é muito mais relevante a tese sobre o conhecimento. A tese do ser diz respeito aos existenciais. platão partia do principio que a metafísica era toda ela a priori, captável fora do mundo da experiência. hoje em dia, estas teses são controversas e são tomadas como modelos, mas não como verdades estabelecidas.
Espero ter dado um pequeno contributo
Rolando Almeida

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