Segunda-feira, 9 de Julho de 2007

Verdades necessárias e contingentes

Nesta altura estava muito interessado no conceito de necessidade, estimulado em parte pelo trabalho revolucionário de Kripke. Entre as coisas que são verdadeiras, algumas são verdadeiras de uma maneira especialmente forte — são necessariamente verdadeiras. Estas verdades diferem das verdades que poderiam ter sido de outro modo — aquelas que são apenas contingentemente ou acidentalmente verdadeiras. Por exemplo, é verdade que sou um filósofo, mas isso não é uma verdade necessária: é perfeitamente concebível que eu me tivesse tornado outra coisa — psicólogo, baterista, canalizador. 

A maioria das verdades é assim: apenas acontece que são verdadeiras, mas não são verdadeiras em «todos os mundos possíveis». Neste momento estou a beber café descafeinado, mas isto não é algo que seja inconcebível pensar que pudesse ser de outro modo. Compare-se este caso com o caso de o número dois ser um número par, ou com os solteiros não serem casados, ou tudo ser idêntico a si mesmo. Quando pensamos nisso vemos que esses factos não poderiam ter sido de outra maneira: o número dois não poderia ser ímpar e continuar a ser o número dois; os solteiros por definição não são casados, e por isso o conceito de solteiro que seja casado não faz sentido; um objecto não poderia deixar de ser idêntico a si próprio, por mais estranho que fosse. Estas são, assim, verdades necessárias — são verdadeiras em «todos os mundos possíveis». Há algo de inabalável quanto à sua verdade, uma incapacidade para ser outra coisa senão verdadeiras. Nem Deus as poderia ter feito falsas.
            Ora, quando perguntamos de que depende a necessidade de uma verdade necessária é natural responder do seguinte modo: resulta dos nossos conceitos, da nossa linguagem, do modo como descrevemos certas coisas. Assim, é parte do conceito de número dois que ele é par; e faz parte do significado da palavra «solteiro» que os solteiros não são casados; faz parte, pura e simplesmente, da própria ideia de objecto que um objecto seja idêntico a si mesmo. Num certo sentido, estas parecem tautologias triviais, algo como dizer que os triângulos têm três lados. Conhecemos estas verdades necessárias apenas em virtude de sabermos a nossa língua; não se trata de reflectirem um facto acerca da realidade que exista independentemente da linguagem. A palavra técnica para esta característica é «analítico»: estas verdades necessárias parecem analíticas no sentido em que dependem apenas da análise dos significados dos termos envolvidos, e não de algo que esteja fora da linguagem. As verdades contingentes, por outro lado, dependem de factos que estão fora da linguagem: o que faz ser verdade que eu esteja a beber um café descafeinado não é simplesmente o significado das palavras «café», «beber» e «eu» mas o facto de o mundo calhar ser de uma certa maneira. Assim, nunca poderíamos vir a saber que uma verdade contingente é verdadeira pela simples análise do significado das palavras que a constituem; temos de dar uma olhadela para ver como o mundo lá fora está organizado. Assim, é muito natural acreditar — e assim diz uma tradição dominante, a tradição a que se chama empirismo — que as verdades necessárias são meras verdades analíticas, uma questão de definições linguísticas, ao passo que as verdades contingentes são «sintéticas», o que significa que não dependem de meras definições mas de factos que estão para lá da linguagem.
            Contudo, Kripke pôs em causa esta bela ideia, argumentando que algumas verdades necessárias não dependem de significados linguísticos. O seu exemplo mais controverso diz respeito aos nossos antepassados familiares. Cada um de nós nasceu de um par particular de pais biológicos — no meu caso Joe e June. Claro que isto não depende do significado do nome «Colin McGinn»: muitas pessoas que sabem o meu nome não sabem quem são os meus pais, e não é possível analisar o meu nome para descobrir os meus antepassados. Mas quando reflectimos sobre isto parece que estamos a lidar com uma verdade necessária: eu não poderia ter outros pais excepto Joe e June. Temos de ter cuidado ao interpretar esta afirmação correctamente: claro que é possível ter havido um erro e os meus pais na realidade serem Jack e Ethel, mas Joe e a June levaram-me do hospital alegando que eu era filho deles — já aconteceram coisas mais estranhas. Mas dado que é mesmo verdade que Joe e June são os meus pais, isto não parece aquele tipo de facto que poderia ter sido de outro modo. Eu poderia ter nascido num hospital diferente ou em casa, sem comprometer a minha identidade, mas não é realmente possível que eu tivesse pais diferentes e continuar a ser eu. Estou ligado aos meus pais pela necessidade, e esta necessidade não surge da linguagem. É uma necessidade que depende da natureza das coisas — uma «necessidade de re», como dizemos tecnicamente. É apenas um facto sobre mim que eu não poderia ter tido pais diferentes, e isto nada tem a ver com o significado do meu nome. Assim, a própria realidade pode ter as chamadas «propriedades essenciais». Os objectos dão origem a necessidades independentemente da linguagem. Mesmo que não existisse uma linguagem continuaria a ser uma verdade necessária que tenho as minhas origens em Joe e June. Nem toda a necessidade é analítica. Isto destrói a tradição empirista que baseava toda a necessidade na linguagem.
 
Colin McGinn, Como se faz um filósofo, Bizâncio, 2007 (Trad. Célia Teixeira, Col. Filosoficamente)


 
 
publicado por rolandoa às 23:09

link do post | favorito

Rolando Almeida


pesquisar

 
Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

Posts Recentes

NOVO ENDEREÇO: http://fil...

Nova religião digital

Problemas again

Escolha um título,...

A censura na nova religi&...

Filosofia na web – ...

Mais um “AQUI&rdquo...

Uma situaçã...

E?

Exigências para se ...

Arquivos

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Favoritos

Relação entre a filosofia...

Luta na filosofia ou redu...

A filosofia não é uma arm...

Argumentos dedutivos e nã...

16 de NOVEMBRO DE 2006, D...

PAGAR NA MESMA MOEDA

Um ponto de vista comum n...

DILEMA DE ÊUTIFRON

O que é a validade?

Nova Configuração no Blog

Sites Recomendados

hit counter
Clique aqui para entrar no grupo artedepensar
Clique para entrar no grupo artedepensar
Contacto via e-mail
AddThis Feed Button
RSS