Domingo, 24 de Junho de 2007

Codex Arquimedes

Um palimpsesto é um livro em pergaminho, no qual se escrevia, raspava e voltava a escrever. Um milionário americano comprou um palimpsesto com orações, no qual se escondia textos de Arquimedes de importância fundamental para o mundo da ciência e que viriam a antecipar os desenvolvimentos mais tardios de Galileu e Newton. Reviel Netz e William Noel montam um trabalho imponente e notável, recorrendo aos melhores especialistas e às técnicas mais desenvolvidas para recuperar as obras perdidas do génio da antiguidade grega. O Codex de Arquimedes teve edição portuguesa em simultâneo com a edição mundial, num belíssimo livro em tudo igual ao original colocando as Edições 70 na corrida para uma das melhores edições de 2007. O livro é um verdadeiro tratado de ciência, mas também o relato de uma interessante história que moveu muita gente para recuperação dos textos originais de Arquimedes. A história faz-nos reflectir e pensar sobre a origem de determinados documentos e todo o trabalho que envolve até que eles cheguem ao nosso conhecimento na forma original. Uma boa leitura de verão.
“Em segundo lugar, este manuscrito é um palimpsesto. A palavra deriva dos termos gregos palim (outra vez) e psan (raspar), o que significa que o pergaminho usado para o fazer foi raspado por mais de uma vez” (p.25)
Reviel Netz e William Noel, O codex Arquimedes, Ed. 70, 2007 (Trad. Pedro Bernardo e Pedro Elói Duarte)
Rolando Almeida
publicado por rolandoa às 17:47

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6 comentários:
De Hermes a 7 de Setembro de 2007 às 23:01
Gostaria de saber o que tem a dizer sobre a logomaquia filosófica no Ensino Secundário. É uma provocação? É. Mas a verdadeira filosofia é uma provocação ou uma sucessão de tiranias ideológicas?
De rolandoa a 8 de Setembro de 2007 às 01:02
Caro Hermes,
Não sei ao que se refere quando diz "logomaquia filosófica no Ensino Secundário". Está a referir-se ao programa da disciplina? De outro modo,não sei mesmo identificar o alvo da sua provocação. Arrisco a pensar que se está a referir aos professores de filosofia. Aí sim, alguns podem praticar um ensino logomatico e outros nem tanto. Mas essa realidade também acontece na matemática ou química, para já não falar das disciplinas fruto do «eduquês», como áreas de projecto e outras. Posso adiantar-lhe que as minhas aulas não são logomáticas.
A filosofia não é nenhuma sucessão de tiranias ideológicas, tal como não o é a ciência. Aliás, a filosofia ou a ciência só é possível realizar-se sem o peso ideológico, caso contrário nem é filosofia, nem ciência, mas ideologia. Confundir ideologia com o saber (ciência e filosofia) é dos erros mais elementares que existem. Os Nazis fizeram sistematicamente essa confusão, mas fizeram-na precisamente porque 1º estava a ideologia e, em 2º, tudo o resto que deveria servir cegamente a ideologia incluindo a ciência e a filosofia. Parece-me também que a conotação que dá de provocação não é característica da filosofia. A filosofia coloca princípios elentares da nossa vida em casa, inclui ndo os preconceitos ou ideologias. E trata de problemas não susceptíveis de serem tratados empíricamente.
Espero ter clarificado
Rolando Almeida
De Hermes a 8 de Setembro de 2007 às 15:56
Caro colega, parece-me que tem uma ideia muito ingénua de filosofia, das escolhas pedagógicas e doutrinárias subjacentes aos programas e dos próprios professores, como se tudo isso estivesse bem acima dos interesses que movem o mundo real.
Não me estou a referir aos métodos e atitudes com que ensina. O colega pode personificar um caso de lucidez extraordinária que não se encontra na maioria dos professores, cuja ignorância das ciências e da vida do mundo os faz acreditar que tiram ideias do cérebro muito mais facilmente do que Atena foi tirada da cabeça de Zeus.
Cumprimentos e boas aulas.
De rolandoa a 8 de Setembro de 2007 às 18:55
Caro Hermes,
O que lhe disse é que se se está a referir ao programa, temos aqui conversa para dar. Se acompanha o que vou escrevendo no blog, de certeza que já "topou" que eu próprio tenho dado a cara para denunciar a ideologia do «eduquês» que está por detrás, não só dos programas de filosofia, mas de todos os programas no ensino português. Ingénuo seria pensar que o toque ideológico só estaria por detrás do programa de filosofia. Mas creio que não era isso que estavamos a discutir. Com efeito se quiser discutir a ideologia que subjaz ao sistema de ensino português, mesmo sem eu recorrer a qualquer teoria da suspeita como se tivesse comunicado com Deus e só eu soubesse de tal coisa, o Hermes facilmente verá que a minha ideia é tudo menos ingénua. É só uma questão de discutirmos o problema e para a discussão desde já manifesto a minha abertura.
Não manifesto qualquer caso de lucidez extrema. Só faço aquilo que me faz falta fazer e gosto de fazer: leio, estudo e trabalho, como concerteza o Hermes também faz.
Um abraço
Rolando Almeida
De Hermes a 12 de Setembro de 2007 às 01:01
Caro Rolando, acertou no facto de eu não acreditar nesta ideologia pedagógica operacionalista que, fazendo-se valer dos aspectos lúdicos de um ensino virado para a eficácia técnica, para o desenvolvimento de competências-meios de satisfazer as necessidades da luta global entre as empresas e não as necessidades múltiplas do desenvolvimento humano, atrai para esse caminho os jovens ao torná-los seus protagonistas. Essa pedagogia, por mais que fale em promover as competências do indivíduo, não abraça o projecto da sua realização integral com base no desenvolvimento económico e cultural, mas faz o inverso, faz crescer competências particulares fechadas no indivíduo, enviando-o de seguida para a unidimensionalidade de uma existência convertida em instrumento de trabalho que terá de continuar a ser até ao fim da sua vida. A satisfação das suas necessidades é a satisfação das necessidades do consumo, que reproduz a possibilidade e a vontade de trabalhar e que alimenta a produção transformada em fim. Porém, caro colega, nunca tendo criticado a excelência do seu blog, os meus comentários não visaram o eduquês " mas a existência da própria Filosofia no sentido clássico do termo. A famigerada filosofia da "suspeita" nunca se tomou por omnisciente, nem será, suponho eu, adequado atribuir-lhe tal epíteto. Quando muito, suspeita do ensejo à ingenuidade do começo puro pela Fenomenologia, que historicamente lhe sucedeu. Uma filosofia que não suspeita da sua vontade de alcançar um estado de não suspeição será talvez tão ingénua quanto a que declara a dúvida ser o próprio erro. Mas a atitude crítica, para o ser verdadeiramente, tem que mostrar que toda a dúvida e todo o desenvolvimento do conhecimento não pode porvir do próprio pensar, enquanto substância ou instância transcendental, que dormiria sobre si mesma, mas das contradições reais entre um sujeito concreto e um meio objectivo real. Daí que a Filosofia clássica, com a sua reificação da consciência como Ideia ou como "Cogito", de Platão, passando por Descartes, a Husserl , com a sublimação intencionalista daquela, o último dos filósofos originais (deixemos Russell e Carnap para depois), não passe de uma ilusão ao mesmo tempo ideológica e autoreflexiva . Só uma filosofia que nasça e reconheça nascer da prática e da ciência enquanto actividade cognitiva fundada na praxis , como reflexão sobre as suas condições e como procura dos possíveis (o real não é necessariamente racional), pode ser agora, após ter reduzido todo o real a si própria e portanto se ter reduzido a si própria ao nada que essencialmente é, pode ser agora, como disse, novamente respeitada com glória.
O meu blog também se encontra no Google e no MSN . Recomeçou o trabalho numa escola em que os professores fazem a maior parte dos actos de secretaria, numa escola relatada em reuniões e relatórios triplicados, numa escola informatizada formatada, em que os professores fazem de pais dos pais, em que a filosofia é um adereço em que convivem a reprodução da ideologia dominante e a ilusão complementar da função crítica. Por isso, tenho que reduzir a ambição dos meus blogs. Esperava mais retorno, estímulo para os enriquecer. Mas a blogosfera é o espelho amplificado da mediocridade geral. Que fazer? Cumprimentos, bom trabalho, boa diversão, e não tenhamos medo de dizer "boa vida".
De rolandoa a 12 de Setembro de 2007 às 13:23
Caro Hermes,
Que mais posso dizer? Não subscrevo integralmente a ideia que dá da filosofia, nem penso que a filosofia tenha alguma obrigação para reflectir contra poder. Mas porque razão terá de o fazer? Essa ideia foi muito promovida por autores do chamado pós modernismo. Faz sentido num determinado contexto, mas não em todos os contextos. A filosofia não tem de ser contra nem a favor do que quer que seja, mas pensar da forma mais incondicionada possível. E é isso que grande parte dos filósofos como Russell conseguiram fazer, retomando o espírito dos filósofos gregos. Com a filosofia e a atitude que ela implica é natural que o “establishment” por vezes abane, mas essa característica também não é exclusiva da filosofia, mas extensível a todo o saber. Não será necessário recordar as centenas de exemplos de cientistas “escorraçados” pelas suas ideias contra o sistema. De resto, como lhe digo, não reconheço qualquer razão para que a filosofia tenha de ser necessariamente aquilo que diz, apesar de, claro, muitas vezes, ter de o ser. Tenho alguma dificuldade em prescrever o que a filosofia tem de ser. E a prova do que lhe digo é existência de áreas filosóficas com muita actividade nas boas universidades do mundo de hoje e que nenhuma relação tem com o poder ou com o sistema de poder organizado. Diga-me lá o que é que o “hard conciousness problem” na filosofia da mente tem a ver com a ideia que me transmite da filosofia? Claro está que muitos autores usam a filosofia como uma arma de arremesso. Mas devemos questionar se, desse modo, lhe prestam um bom serviço? As características que atribui à filosofia são condições necessárias, mas não suficientes.
Em relação ao que me refere sobre o trabalho de professor, subscrevo tudo o que diz. Na verdade estamos transformados em burocratas da educação. Mas, centrei-me, pelo menos nos últimos anos, na questão final do seu texto, “que há a fazer?”. Fartei-me de estar de copo na mão a mandar bitaites sobre a mediocridade humana e procuro dia a dia fazer mais e melhor. Para tal, tenho de expor o meu trabalho e, obviamente, sujeitá-lo a todas as críticas, como a do Hermes, que a minha ideia do sistema é ingénua. Mas foi a minha ideia do sistema, provavelmente semelhante à sua em muitos aspectos, que me levou a trabalhar cada vez mais. Pelo exposto, facilmente adivinhará que não me espera vida boa, nem me reconheço nessa ideia de vida boa, pelo menos enquanto professor, uma vez que na minha vida mais privada também aprecio a boa mesa. Deste modo, não aplico as palavras “diversão” e “vida boa” ao meu trabalho, apesar do mesmo me dar mesmo muito gozo, enquanto professor de filosofia. Não é um privilegio fazer o que gostamos?
Já agora, pode fornecer-me o endereço do seu blog
Abraço e volte sempre
Rolando Almeida

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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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