Sexta-feira, 22 de Junho de 2007

Essência e Existência em Tomás de Aquino

As dificuldades suscitadas pela noção de transubstanciação não põem em causa, é claro, os conceitos gerais de substância e acidente fora desta sua particular, e talvez perversa, aplicação teológica. Mas a análise aristotélica da mudança levanta outros problemas sobre os quais Tomás de Aquino se debruçou. Se a mudança acidental deve ser entendida como uma e a mesma substância que assume vários acidentes, e se a mudança substancial deve ser entendia como uma e a mesma matéria que assume várias formas substanciais, será que devemos entender a origem do próprio mundo material como um caso em que uma e a mesma essência passa da não existência à existência? É claro que esta questão não se colocou a Aristóteles, que não acreditava na criação a partir do nada; mas alguns aristotélicos posteriores levantaram a questão e responderam-lhe afirmativamente. Tomás de Aquino rejeitou firmemente essa ideia: a criação é completamente diferente da mudança e não deve ser entendida em termos de uma existência ligada a uma essência.
            Contudo, Tomás de Aquino aceitava a terminologia da essência e da existência e utilizava frequentemente esses termos na sua metafísica. Em todas as criaturas, ensinava ele, a essência e a existência são distintas; em Deus, porém, são idênticas: a essência de Deus é a sua existência. Esta conclusão é frequentemente entendida como o resultado de um sublime discernimento metafísico. De facto, parece apoiar-se sobre um equívoco.
            Devemos distinguir entre a essência genérica e a essência individual. Se entendermos «essência» no seu sentido genérico (como uma realidade que corresponde a um predicado, como «...é Deus», «...é humano», «...é um Labrador»), então é verdade que existe, em todas as criaturas, uma distinção real entre essência e existência. Ou seja, o facto de existirem ou não exemplares de uma certo categoria de coisa é uma questão muito diferente daquilo que são as características constituintes de uma coisa dessa categoria — por exemplo, o facto de haver ou não unicórnios é um tipo de questão diferente da de saber se os unicórnios são mamíferos. Mas se entendermos «essência» neste sentido, a doutrina de que a essência e a existência são idênticas em Deus é um disparate: corresponde a dizer que à questão «A que categoria pertence Deus?» se deve responder «Deus existe».
            Por outro lado, se entendermos «essência» no sentido individual pelo qual podemos falar da humanidade individualizada que Sócrates e só Sócrates possui, então a doutrina da distinção real nas criaturas torna-se obscura e infundada. Como Tomás de Aquino muitas vezes afirmou, para um ser humano, existir é continuar a ser um ser humano; a existência de Pedro é a mesmíssima coisa do que Pedro continuar a possuir a sua essência; se ele deixar de existir, deixará de ser um ser humano e a sua essência individualizada desaparece da natureza das coisas.
 

Anthony Kenny, História concisa da filosofia ocidental, Temas & Debates, 2003, pp.191-92 (trad. De. D. Murcho, F. Martinho, M. J. Figueiredo e Pedro Santos)

publicado por rolandoa às 15:31

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Rolando Almeida


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