Quinta-feira, 14 de Junho de 2007

Orwell revisitado no paraíso comunista

José Caselas
 
 
Este relato impressionante do jovem Hyok, escrito pelo jornalista Philippe Grangereau – Hyok Kang e Philippe Grangereau «Aqui É o paraíso!», Uma infância na Coreia do Norte, Ulisseia, 2007 – , conduz-nos ao interior de um regime totalitário actual, a Coreia do Norte, onde assistimos aos seus efeitos no corpo e na mente: produção contínua de vida nua, toda a aldeia, todo o país é um imenso campo, encerrado em si mesmo, meticulosamente estruturado para disseminar por todo o tecido social uma patologia de poder e levar à máxima submissão, ao comportamento conformista e, em caso de revolta, à punição infinita. Estamos, assim, diante de um livro para todos os interessados no fenómeno totalitário em geral.
Dominados pelos «quadros» ou elementos do partido, os cidadãos pouca margem de decisão possuem a não ser a repetição de palavras de ordem forjadas pela propaganda, que os transforma em autómatos e marionetas utilitárias.
            É impossível não evocar os mundos fechados de Orwell ou as personagens kafkianas neste universo concentracionário. As suas páginas dão conta da vigilância constante dos vizinhos e dos funcionários, das paradas orquestradas, da hierarquização da sociedade em torno do Partido e dos Líderes, num nepotismo interminável e sobretudo da fome omnipresente que devastou e continua a afectar milhões de seres. Com as condições duras de existência decorrem consequências psicológicas como a violência generalizada, a delação como forma de vida e a típica «caça às bruxas».
            Um dos aspectos que mais ressalta, são as tentativas de fuga para a China, apesar do escrutínio diário das polícias e das execuções públicas; tentar resistir contra a realidade politicamente opressora é ainda possível?
            Obra escrita no limite do pensável, a partir do ponto de vista de uma criança, impele-nos a questionar a racionalidade política e a sua força destruidora devido à insistência no poder, à vontade de o prolongar indefinidamente. Lembra-nos a advertência de Hobbes, segundo a qual todo o homem deseja o poder e essa apropriação fomenta uma vontade de preservá-lo a todo o custo. O culto da personalidade do «Grande Líder» (poderíamos dizer Grande Irmão) Kim Il-Sung e do seu filho, o «Querido Líder», Kim Jong-Il – todo o cidadão é obrigado a exibir um crachat na lapela com as suas fotos em sinal de reconhecimento divinal – revela o quanto estamos próximos dessa tentação na democracia liberal com as hagiografias apressadas aos chefes de ocasião, muitas vezes recrutados entre um qualquer oportunista que se destaca nas hostes dos partidos pela sua grandiloquência populista. Até que ponto é que as ficções políticas não se equivalem na sua mistificação da realidade? Não serão elas formas de eternizar o domínio dos indivíduos que nesse momento assumem a supremacia na Pólis?
            Sem cair no elogio fácil do capitalismo da Coreia de Sul para onde se evade, com a sua família, o protagonista dá-nos a ler e a pensar o que é viver o quotidiano rodeado de camaradas adoradores do Grande Líder. Confinadas a um «paraíso» comunista, as crianças comem cascas de pinheiro cozidas e ratos, sofrendo castigos irracionais nas escolas, despovoadas devido aos alunos que vão morrendo de fome. “As punições corporais eram correntes para aqueles de nós que não conseguiam arranjar um ramo de flores para os aniversários dos dois Kim.” (p. 61)
Obrigatória é a descrição dos campos de punição que lembram as purgas estalinistas; no «paraíso» coreano estas recaem sobre três gerações do indivíduo a punir. “Cada um tinha consciência de que um dia também ele podia desaparecer se cometesse uma imprudência ou se alguém da sua família mesmo afastada (um primo distante, por exemplo) caísse em desgraça.” (p. 80) Assim temos o «campo de controlo» como colónia penal para presos políticos, não existindo processo judicial, os «campos de reeducação» com processo judicial e os «campos de reeducação pelo trabalho» para os fugitivos repatriados.
Hyok Kang e Philippe Grangereau «Aqui É o paraíso!», Uma infância na Coreia do Norte, Ulisseia, 2007
 
publicado por rolandoa às 21:31

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Rolando Almeida


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