Segunda-feira, 11 de Junho de 2007

Ser silenciado na Alemanha

Quem argumenta que é sempre um mal decidir que uma vida humana não vale a pena ser vivida teria de dizer, também, para ser coerente, que deveríamos usar todas as técnicas da moderna assistência médica para aumentar ao máximo a vida de todos os bebés, por muito desesperadas que fossem as suas perspectivas, ou por muito dolorosa que fosse a sua existência. Uma afirmação cruel demais para ser apoiada por qualquer ser humano. (...)
 Actualmente, parece que todos aqueles que estão envolvidos no debate sobre a eutanásia na Alemanha se apressam a publicar um livro sobre o assunto. Com excepção de duas obras, de Anstötz e Leist, que apresentam argumentos éticos genuínos, as que foram publicados até hoje só têm algum interesse para quem quiser estudar o pensamento dos alemães que se opõem à liberdade de expressão e nada mais. Na sua maioria, cada um desses livros parece ter sido escrito de acordo com uma fórmula semelhante a esta:
 
1.     Citar algumas passagens da Ética Prática seleccionadas de modo a distorcer o significado do livro.
 
2.     Exprimir horror pelo facto de alguém ter a coragem de fazer semelhantes afirmações.
 
3.     Pôr sarcasticamente em dúvida a ideia de que tal coisa possa passar por filosofia.
 
4.     Traçar um paralelo entre o que foi citado e o que os nazis pensaram ou fizeram.
 (...)
Infelizmente, os aspectos negativos destes acontecimentos talvez tenham maior peso. De tudo isso, o mais ameaçador são os incidentes descritos no início deste apêndice, bem como a atmosfera de repressão e intimidação que evocaram. Na Alemanha de hoje, qualquer professor que dê um curso baseado na Ética Prática corre o risco de sofrer os mesmos protestos e ataques pessoais com que o professor Kliemt se confrontou em Duisburgo. Há pouco tempo, um filósofo de Berlim confessou-me que não é possível dar um curso de ética aplicada nessa cidade — quer faça referência ao meu livro quer não —, porque esse curso estaria condenado à partida.
(...)
Tudo isso não augura nada de bom para o futuro da discussão racional, na Alemanha e na Áustria, das novas e polémicas questões éticas. Além dos países de língua alemã, o estudo e a discussão da bioética está em rápida expansão, em resposta ao reconhecimento da necessidade do exame ético de numerosas questões novas suscitadas pelo desenvolvimento da medicina e das ciências biológicas. Outras áreas da ética aplicada, como o estatuto dos animais, as questões da justiça global e da distribuição de recursos, a ética do meio ambiente e a ética empresarial, também são alvo de muita atenção. Na Alemanha e na Áustria, porém, é preciso muita coragem para trabalhar em ética aplicada e ainda mais para publicar alguma coisa que possa ser vítima do escrutínio hostil daqueles que desejam silenciar o debate. Os professores que não desfrutam de um vínculo académico permanente temem não só os ataques pessoais, como também a diminuição de oportunidades de progredirem na carreira académica. Os acontecimentos de Hamburgo lançam uma nuvem negra sobre as perspectivas de abertura de lugares nessas áreas. Não existindo cargos para preencher, os alunos de pós­‑graduação evitam trabalhar em ética aplicada, pois não faz sentido dedicarem-se a uma disciplina que não oferece perspectivas de trabalho. Há mesmo o perigo de, para evitar controvérsias, a filosofia analítica como um todo vir a sofrer um retrocesso. Actualmente, um grande número de novos cargos estão a ser criados nas universidades da antiga República Democrática Alemã. Os filósofos interessados em filosofia analítica estão preocupados com a possibilidade de esses cargos poderem ser todos oferecidos a filósofos que trabalham com temas menos melindrosos como, por exemplo, os que se centram nos estudos históricos, ou os seguidores de Habermas, que em geral guardaram silêncio sobre essas questões éticas sensíveis e sobre os obstáculos colocados à discussão de tais questões na Alemanha de hoje.
(...)
 É evidente que os alemães lutam ainda com o seu passado, passado esse que chega quase a desafiar a compreensão racional. No entanto, observa-se um tom especial de fanatismo em alguns sectores do debate alemão sobre a eutanásia que vai além da oposição normal ao nazismo e que começa, em vez disso, a assemelhar-se à própria mentalidade que tornou o nazismo possível. Para observarmos essa atitude na prática, examinemos não a eutanásia, mas uma questão que, para os alemães, está estreitamente ligada a ela e constitui um tabu igualmente arreigado: a questão da eugenia. Como os nazis praticaram a eugenia, na Alemanha actual tudo o que tenha qualquer ligação com a engenharia genética, por mais remota que seja, fica marcado por associações ao nazismo. Esse ataque inclui a rejeição do diagnóstico pré-natal, quando é seguido de aborto selectivo de fetos com síndroma de Down, espinha bífida ou outras deficiências, e chega mesmo a rejeitar o aconselhamento genético destinado a evitar a concepção de crianças portadoras de deficiências genéticas. Esta atitude levou o parlamento alemão a aprovar, por unanimidade, uma lei que proíbe todas as experiências não terapêuticas com o embrião humano. O parlamento inglês, pelo contrário, aprovou recentemente uma lei, por maioria substancial nas duas câmaras, que permite as experiências não terapêuticas com embriões até 14 dias após a fertilização.
(...)
Como já afirmei, as minhas ideias não ameaçam ninguém que, ainda que minimamente, tenha ou já alguma vez tenha tido consciência do facto de ter uma possível vida futura que pudesse ser ameaçada. Mas existem pessoas que têm interesse político em impedir que esse facto elementar se torne conhecido. Essas pessoas estão actualmente a jogar com as angústias dos deficientes para as usar como frente política para outros fins. Em Zurique, por exemplo, os que mais se salientavam entre os grupos de não deficientes que gritavam «Singer raus» (Singer, Rua!)eram os Autonomen, ou «Autonomistas», um grupo que se finge anarquista, mas que não tem interesse algum pelas teorias anarquistas. Para esses grupos políticos de não deficientes, impedir Singer de falar, seja qual for o tema, tornou-se um fim em si mesmo, uma forma de arregimentar os fiéis e atacar todo um sistema onde tem lugar o debate racional. Ao deixarem-se instrumentalizar por tais grupos niilistas, os deficientes nada têm a ganhar, mas muito a perder. Se for possível fazê-los perceber que os seus interesses são mais bem servidos pela discussão aberta com aqueles de cujas opiniões discordam, talvez seja possível dar início a um processo no qual tanto os especialistas em bioética como os deficientes consigam ouvir-se mutuamente, dando início a um diálogo construtivo, e não destrutivo.
(...)
Esse diálogo seria apenas um começo. A reparação dos danos feitos à bioética e à ética aplicada na Alemanha vai levar muito mais tempo. Existe o perigo real de continuar a recrudescer a atmosfera de intimidação e de intolerância que passou da questão da eutanásia para toda a bioética e, com os acontecimentos de Hamburgo, para a ética aplicada em geral. É imprescindível isolar a minoria que se opõe activamente à livre discussão de ideias académicas. Também neste caso o que aconteceu em Zurique pode servir de exemplo a ser seguido por outros países de língua alemã. Em contraste total com o silêncio do reitor da Universidade de Dortmund, ou com a patética afirmação de que «Não fazíamos a menor ideia de quem ele era», proferida pelo director do curso de medicina da Universidade de Viena, o professor H. H. Schmid, reitor da Universidade de Zurique, publicou uma declaração onde expressava «o repúdio da universidade face a essa grave violação da liberdade de expressão académica».Os professores do Instituto Zoológico e o reitor da Faculdade de Ciências também condenaram, inequivocamente, a interrupção violenta da minha palestra e os principais jornais de língua alemã de Zurique fizeram uma cobertura objectiva dos acontecimentos e das minhas ideias.
      Enquanto isso, tanto no que diz respeito à vida académica quanto à imprensa, alemães e austríacos demonstraram um lamentável desrespeito pelo compromisso exemplificado pela célebre frase atribuída a Voltaire: «Não concordo com o que diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo». Até ao momento, ninguém precisou de correr um risco de morte para defender o meu direito de discutir a eutanásia na Alemanha; mas é importante que muitas mais pessoas estejam preparadas para correr o risco de uma certa hostilidade por parte da minoria que está a tentar silenciar um debate sobre problemas éticos fundamentais.
 
 
Peter Singer, textos retirados do apêndice da obra Ética Prática, pp. 363-382 (as notas do texto foram retiradas, mas podem ser consultadas no texto original)

 
publicado por rolandoa às 22:18

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1 comentário:
De Viagens Alemanha a 2 de Julho de 2010 às 15:39
É realmente um ataque contra a liberdade de expressão!

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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