Domingo, 3 de Junho de 2007

Escravos do «eduquês»

«Eduquês» em Discurso Directo disseca com rigor e impiedade os lugares comuns em educação. Mostra o vazio dos conceitos que têm dominado a pseudo-pedagogia do laxismo e da irresponsabilidade. Explica a ideologia frouxa que está por detrás da linguagem mole e palavrosa a que se tem chamado eduquês.

Depois de ler este livro, ninguém pode continuar a aceitar acriticamente expressões tão comuns como «aprender a aprender», «ensino centrado no aluno» ou «aprendizagem em contexto». Percebem-se as ideias nocivas por detrás dessas expressões aparentemente inócuas.

Minuciosamente documentado com delirantes citações de responsáveis pela política educativa, apoiado em referências críticas da psicologia e da pedagogia, este livro não deixa pedra sobre pedra no edifício ideológico do eduqês.

Nuno Crato é um professor de matemática preocupado com a educação. Armado de uma vasta cultura científica, de uma experiência de docência em vários países e de fundamentadas preocupações filosóficas, empreende neste livro a primeira crítica sistemática da pedagogia romântica e construtivista que em Portugal ficou conhecida como eduquês.

É a primeira obra no género no nosso país. Destina-se a professores, pais e todos os que se preocupam com o futuro. O ensino é um problema demasiado sério para ser confiado exclusivamente aos teóricos da pedagogia.

«Esta obra presta um serviço público inadiável e devia ser de leitura obrigatória para todos os responsáveis pela educação em Portugal»

Vasco Graça Moura in Diário de Notícias

(Retirado do site da Gradiva)

publicado por rolandoa às 02:03

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8 comentários:
De Elisa Seixas a 3 de Junho de 2007 às 12:48
Caro Rolando:
É efectivamente uma obra a ler. Contudo, faz-me espécie que se chame de ideologia "ao eduquês", sabendo que em Portugal se aplicaram múltiplos "princípios educacionais", muitas vezes contraditórios. Não estamos perante uma ideologia, mas perante uma manta de retalhos.

Elisa Seixas
De rolandoa a 3 de Junho de 2007 às 15:55
Olá Elisa,
Antes de tudo obrigado pela visita e pelo comentário. No meu post não sou eu quem chama "ideologia" ao «eduquês», uma vez que o post faz referência a parte de um artigo de Vasco Graça Moura no Diário de Notícias. Com efeito, também lhe chamo ideologia. Toda a política educativa em Portugal, mesmo contrariando as políticas de outros países, vai no sentido de esvaziamento de conteúdos específicos das disciplinas, eliminação de exames das disciplinas específicas e gerais, substituição de disciplinas com conteúdo científico como química ou física, tornando-as opcionais, por outras de carácter técnico, como educação para a cidadania, sexualidade, TIC ou área de projecto, tudo conduzindo a uma desvalorização crescente do conhecimento e do saber. O caso da filosofia é evidente, talvez por ser uma disciplina sem conteúdos mais técnicos, é fácil esvaziá-la na conversa fútil. Concordo com a Elisa que os sucessivos Ministérios não possuem uma ideia coerente do que seja um sistema educativo, mas repare que todas as reformas vão bater no mesmo: esvaziamento dos conteúdos precisos e científicos, eliminação de exames, etc… mas o «eduquês» é mesmo isso, a falta de uma ideia coerente de educação. De resto, não há evidência científica que prove que os filhos dos pobres, ciganos ou negros não possam aprender conteúdos precisos como os filhos dos ricos e de pais com formação. Admito a ideia que as escolas e professores podem ser autónomos para fazer as suas opções de ensino, mas tal só funciona quando estamos perante uma cultura sólida de raíz, o que não é o caso português onde a cultura científica, literária, filosófica, é ainda tão pobre. Aqui a ideia da autonomia resvala com facilidade para o vale tudo e irresponsabilidade. E o «eduquês» é ideológico na medida em que impõe o facilitismo como forma de dar formação aos mais desfavorecidos. Com efeito, não é pela falta de formação científica sólida substituída por conversa de rua que optamos em liberdade. Não é retirando aos desfavorecidos a possibilidade de uma cultura sólida que contribuo para a sua possível emancipação como seres livres. Nisto consiste todo o processo ideológico.
Obrigado
Votos de bom trabalho
Rolando Almeida
De Elisa Seixas a 3 de Junho de 2007 às 17:01
Muito obrigada pela pronta resposta. Concordo com muito do que diz. Mas volto a insistir: não me parece que tenhamos sequer uma política de educação. O objectivo dos sucessivos Ministérios não tem sido a de apostar na educação - ou sequer na aprendizagem. E, até vou mais longe, nem em qualquer género de adestramento.
Temos um País obcecado com resultados - que se querem imediatos e taxados em rankings. Daí que absurdos como os que sucederam este ano nos exames de aferição aconteçam.
O risível de toda esta situação está bem patente nas avaliações que temos: por um lado, falamos em "competências", em componentes importantíssimas como por exemplo a de "saber ser" ou "saber estar" (o que quer que isso seja) e depois, no final deste percurso caótico do "saber qualquer coisa" e afins, exigimos coerência entre uma classificação interna com o exame que afere, supostamente, conhecimentos adquiridos.
Mais esquizofrenico que isto é impossível.

Quanto à disciplina de filosofia, o quadro mais negro (na minha perspectiva) reside na desimportância que o Ministério lhe atribui. Neste momento - e parafraseando o que ouvi a um colega - a filosofia quer-se como o "perfume do currículo". A extinção do exame nacional aí está para o comprovar.
Mas há que conceder; golpe de génio, quando se quer cidadãos muito pouco activos ou críticos.

Cumprimentos.


De rolandoa a 3 de Junho de 2007 às 17:53
Elisa,
Concordo com o que diz relativamente à forma atrapalhada como os sucessivos Ministérios decidem e abortam decisões. O caso das OLPF são um exemplo. Aprovaram-nas, para logo de seguida as desaprovar e, ainda a seguir, elaborar um documento com base nelas para ser aprovado. É de facto muito confuso.
Ainda em relação à ideologia, o problema maior é que as ideologias são perniciosas precisamente por não percebermos que estamos dentro delas. É a diferença entre educar para a liberdade e autonomia e doutrinar. A filosofia é, sem dúvida, um caminho fácil para a doutrinação. Vou-lhe dizer algo politicamente incorrecto, mas entristece-me ver que muitos colegas de filosofia se deixam levar pela corrente, entrando facilmente no caminho da doutrinação. Mas que há a fazer? Temos de trabalhar no sentido de ir fazendo a palavra chegar a todos. O meu blog surgiu com essa intenção, a de divulgar a filosofia tal como ela é, sem depender de outras disciplinas ou adornos idiotas. Trabalhar com bons manuais, ler bons livros, dar boas aulas é o melhor caminho a seguir para a disciplina que amamos. E olhe que lhe digo isto com um grande sentido de optimismo. Há trabalho a fazer e temos de o fazer, como podemos, com as nossas limitações, mas com um forte impulso para melhorar o que não vai nada bem. Creio que com trabalho sério, muito distante do que o Ministério impõe, os resultado aparecem, não disfarçados, mas sólidos.

Até breve
Disponha
Rolando Almeida
De Epicuro a 3 de Junho de 2007 às 19:43
Em Portugal não há uma política de ensino - basta ver como nos programas, nos manuais e nas leis se foge da palavra «ensino» como o Diabo da Cruz - mas há uma política dita «da educação».
Não creio que esta política seja uma manta de retalhos. Se se esconde por trás desse jargão incompreensível que é o «eduquês», não é por não ter objectivos definidos: é por ter objectivos inconfessáveis.
O primeiro desses objectivos é controlar o aparato lexical e conceptual dos alunos de modo tornar literalmente impensável tudo o que saia dos limites do «pensamento único» nas suas duas vertentes ortodoxas: o «Politicamente Correcto» e o discurso neo-liberal das inevitabilidades.
O segundo é formar «recursos humanos» segundo as necessidades e as exigências do mercado de trabalho em detrimento das suas próprias necessidades e exigências - afinal por isso se lhes chama «recursos humanos» em vez de se lhes chamar «pessoas».
Daqui que se pretenda transmitir o máximo possível de «competências» e «saberes» eliminando ao mesmo tempo todos os conhecimentos que permitem articular e dar coerência a esses conteúdos. A Filosofia, a História cronológica, o texto literário, a música, a arte são afastados dos currículos e a sua função atribuída à «Área Projecto» - ou seja, a coerência do conhecimento é retirada ao campo da abstracção e confinada ao acidental-concreto.
Ao campo de concentração do acidental-concreto dá-se o nome de «realidade» -doravante, para um aluno saído do sistema, não haverá outra «realidade» que não seja a da produção e do trabalho.
«Ensino ligado à realidade» é isso mesmo - não o que é útil à pessoa, mas o que é útil a quem se vai servir dela.
De rolandoa a 3 de Junho de 2007 às 20:03
Caro Epicuro,
Está a dar-se conta de um erro de palmatória que o nosso sistema de ensino tem vindo a cometer, que é precisamente a desvalorização do conhecimento e do saber. Isto decorre, em grande parte, porque sofremos de um saber muito livresco no pior dos sentidos. Desde os tempos de universidade que nos habituamos a decorar uma série de teorias que vem nos livros, sem compreender qual a sua relação com a nossa vida prática. Por essa razão é habitual ouvir da boca de muitos licenciados, que a teoria nada tem a ver com a prática ou que uma coisa é teoria e outra a prática. Este é um sinal evidente da má formação científica e cultural de uma parte significativa dos nossos licenciados que olham para o saber ou a ciência como algo muito formal e desligado da realidade de todos os dias. Esta é a infecção do «eduquês» no nosso sistema de ensino, precisamente, a de encarar o saber e conhecimento como algo formal desligado das nossas vidas. A capacidade empreendedora vem da criatividade e capacidade de pensar os problemas, as teorias e a ciência. Sem essa tarefa não aparecem resultados. Imagine o que é um engenheiro molecular que vai investigar numa equipa nos EUA e, de repente, se vira para o cientista orientador da investigação e lhe diz “Ai, eu não dei isso no curso, pelo que não sei!”. E é um pouco este o retrato do que temos. De todo o modo, pelo menos para mim, a situação tem já um bom diagnóstico, pelo que há muito trabalho a fazer e não podemos estar eternamente dependentes do Estado Pai para deitar mãos à obra ou chorar quando nos põem na rua. É necessário criar resistência e creio que essa se faz pela responsabilização dos professores em todo o sistema de ensino. Não para derrubar o poder, mas para mostrar qual o caminho mais seguro a seguir. Sermos passivos e críticos de circunstância é uma opção muito mais ignorada por quem governa. Todos temos a nossa responsabilidade.
Obrigado pelo seu comentário
Abraço
Rolando Almeida
De José Carrancudo a 5 de Junho de 2007 às 09:51
Quaisquer que sejam os princípios alegadamente aplicados pelos promotores das políticas educativas em vigor, o essencial pode ser reduzido aos dois pontos principais, no que diz respeito aos métodos de ensino usados:

(1) o método global de ensinar a ler, aplicado pelos professores pouco competentes de forma absolutizada, com consequência de um aluno médio a não aprender a ler, em tempo útil;
(2) a exclusão completa dos exercícios de memorização do currículo escolar, com consequência de impossibilitar o desenvolvimento da memória e da capacidade de pensamento abstracto, de um aluno médio.

Assim, um aluno médio tem competências manifestamente insuficientes em Português e Matemática, e notas inflacionadas em todas ao outras disciplinas, onde tipicamente está a ser avaliado pelos critérios que nada têm a ver com os seus conhecimentos, o que lhe permite ter notas melhores em disciplinas menos "exigentes".

A nossa análise encontra-se disponível em
http://educacao-em-portugal.blogspot.com/
Na mesma página temos proposto medidas concretas e urgentes que conduzirão à reconstrução do nosso sistema educativo, a começar pela escola primária. No seu estado corrente, e Escola está a reproduzir a Ignorância, numa escala cada vez mais alargada.

Não basta queixar-se. Devemos exigir ao Governo que actua adequada e urgentemente.
De rolandoa a 5 de Junho de 2007 às 10:18
José
Obrigado pela visita e esclarecimentos dados. Eu diria mais: não basta exigir ao governo que actua adequada e urgentemente. É necessário nós próprios actuarmos, tendo consciência que nestas matérias não precisamos de revoluções desastrosas, mas de dar passos no sentido de reformar os erros já cometidos.
Obrigado e abraço
Rolando Almeida

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Rolando Almeida


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