Quinta-feira, 31 de Maio de 2007

O fácil no ensino da filosofia

Uma das queixas habituais da parte dos professores de filosofia em relação aos manuais é a de que determinados manuais até são bons para o professor pesquisar, mas não para o aluno estudar, uma vez que não é um manual fácil. Este argumento incorre em falsidades que pretendo aqui esclarecer.
1º Os manuais escolares não são bibliografia do professor, mas bibliografia do aluno. Coitado do professor que prepara as suas aulas e apura a sua formação filosófica, com base em manuais escolares. Além disso, se um professor confia num manual, cientificamente rigoroso, para preparar as suas aulas, porque não confia nele para os seus estudantes estudarem? Isto não faz sentido. O professor que assim julga está profundamente errado, até porque manifesta a sua desconfiança em relação às capacidades cognitivas do aluno, remetendo-o muitas vezes para um manual que diz e aborda banalidades pensando que essa é a melhor forma de o ajudar. Como é que professores responsáveis preocupados com a qualidade do ensino e o insucesso escolar compactuam com esta mediocridade? E isto é duplamente falso. O aluno deixa de ver interesse na disciplina uma vez que ela não passa de uma série de banalidades com palavreado mais complicado do que aquele que se usa no dia a dia. O professor que compactua com esta situação, concorre directamente para que a sua disciplina deixe de fazer sentido no quadro do ensino secundário como formação geral. Cabe ao professor a responsabilidade de lutar contra esta dura realidade. E combate-a eficazmente se começar por exibir os conteúdos próprios e científicos da disciplina e não fazendo dela, como muitas vezes se ouve falar, «senso comum esclarecido». Qual é o Ministério da Educação que despende uma grossa fatia do seu orçamento para pagar a professores que ensinam «senso comum esclarecido»? É isto que muitos professores de filosofia pretendem para os seus próprios filhos?
2º Um manual que só diz banalidades (como a maior parte), fugindo aos métodos e conteúdos próprios da filosofia, falando de generalidades recorrendo a textos não filosóficos, não torna o estudo mais fácil para o aluno. Regra geral, este tipo de manuais incorrem nos mais variados erros e confundem o aluno não lhe apresentando os conteúdos centrais de forma rigorosa e coerente, mas antes uma manta de retalhos desconexos e confusos. Há manuais que chegam a disparates como afirmar que, perante um jogo de futebol, cabe ao filósofo perguntar, «o que é um jogo?) (Introdução…, Texto Editores, p.32). Não conheço na extensa bibliografia filosófica um só filósofo que tenha questionado tal coisa. E não há razão alguma para cometer este tipo de disparates, a não ser pela hipocrisia intelectual e profissional de pensar que assim o estudante se interessa mais pela disciplina.
Existe ainda uma outra razão intelectualmente desonesta para se tomar a opção por um manual falsamente fácil para o aluno. E essa prende-se com a ideia de que o aluno não é capaz de mais e que é muito difícil estimular o aluno para o estudo. . É falso que o aluno não seja capaz de mais, mas até é verdade que é tarefa complexa estimular o aluno para o conhecimento e discussão crítica dos problemas da filosofia. Mas não é para estimular o aluno ao conhecimento e à reflexão crítica que recebemos um vencimento ao final do mês como professores de filosofia? E se não cumprimos minimamente com este objectivo que sentido faz continuar a pagar-nos?
Finalmente, a ideia que um manual cientificamente rigoroso é difícil não passa de outra falsidade. É precisamente o rigor científico que abre caminho à clareza e inteligibilidade e não o contrário. Pensar que um manual que diz uma série de banalidades ao modo do «eduquês» facilita a vida do estudante é uma falsidade. E esta ideia está generalizada, mais gravemente ainda quando se trata de professores de filosofia cuja tarefa é crítica e não a mera aceitação passiva de imposições ideológicas. Revela irresponsabilidade para com a própria disciplina. Aceitar este estado de coisas é embarcar ingenuamente na política do «eduquês», principalmente quando nos são oferecidas de bandeja alternativas melhores. Curiosamente os argumentos que o «eduquês» tem a seu favor são o insucesso escolar, o facilitismo que todos os professores não desejam, alunos mal preparados e o desinteresse generalizado dos estudantes. E os filósofos nada fazem para contrariar esta tendência para além de um suave lamento em reuniões de conselho de turma, para, logo na oportunidade imediata, aceitarem acriticamente a cultura e ideologia do facilitismo na educação. A ideia final é que aquilo que se pensa ser facilitismo, não o é, corroendo o valor fundamental da educação que é formar cidadãos livres e responsáveis.
Ainda uma outra observação final. Parece claro o argumento que um manual pode ser cientificamente rigoroso e mau didacticamente. Não é, com efeito, o caso dos manuais que faço referência no topo da lista de manuais de filosofia do 10º ano que publiquei neste blog.
 
Rolando Almeida
publicado por rolandoa às 14:20

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4 comentários:
De Sérgio Pestana a 31 de Maio de 2007 às 23:11
Infelizmente é o Ensino que temos. Num país em que a Educação é nivelada sim...mas por baixo, também sou da opinião em que os professores de filosofia, até pelo sentido reflexivo que a própria disciplina traz, concordo que os professores da disciplina ensinem aos seus alunos a serem críticos e valorizem o conhecimento pelas coisas. No entanto, devido ao "tão bem" estruturado sistema de Ensino, os alunos não são avaliados por esses factores, mas sim por manuais que ensinam tudo menos esses aspectos que mais tarde serão úteis. Não havendo mudanças no actual quadro educacional, cabe aos professores um esforço extra de saberem e conseguirem conciliar esses aspectos tão importantes para o desenvolvimento humano com as matérias impostas nos livros e transmiti-lhas aos alunos.
De rolandoa a 1 de Junho de 2007 às 01:34
Caro Sérgio,
Obrigado pela sua visita ao blog. Acredito que todos os autores de manuais façam esforços para fazer o melhor, mas não posso compactuar com aqueles que correspondem a uma corrente ideológica que tem deteorado o ensino, o «eduquês». E é esta a razão que me faz defender um tipo de ensino em relação a outro e uma relação de equilibrio com a qualidade.
Abraço
Rolando Almeida
De Sérgio Pestana a 1 de Junho de 2007 às 23:23
Obrigado pela resposta.
Concordo consigo. Vem-me à memória dois grandes autores, cientistas, um astrofísico/ astrónomo, Carl Sagan e o outro neurocirurgião, o nosso português António Damásio, que com as suas obras tornam acessíveis às grandes massas, temas que no "eduquês" estariam votadas a ser entendidas só para uma pequena elite.
Você faz-me lembrar o professor do "Clube dos Poetas Mortos".
Uma pedra no charco
Parabéns
De rolandoa a 2 de Junho de 2007 às 00:03
Viva Sérgio,
Nem mais. Jamais me compararia a Carl Sagan ou A. Damásio, mas confesso-lhe que aprendi muito com Sagan e admiro-lhe a atitude. Infelizmente o eduquês parte do princípio que as pessoas são limitadas e tem de se lhes facilitar a vida. Mas a liberdade é dar conhecimento aos que ainda não sabem. Como professor do ensino secundário, encontro os alunos muito limitados pelo que a escola lhes oferece, mas muito curiosos pelo saber. É para eles que trabalho, para que não sofram das limitações de formação que eu sofri. A minha experiência faz-me acreditar que vale a pena o esforço. De outro modo também não saberia viver. Por certo que nem sempre vou ser agradável, pelo menos naquilo que escrevo, mas o «eduquês» é uma ideologia em que muitos ingenuamente estão embrenhados e procuro fazer um alerta.
Obrigado pelas suas palavras que encorajam o meu trabalho.
Abraço
Rolando Almeida

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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