Domingo, 20 de Maio de 2007

Manuais - análise

Pensar é Preciso, Adília Maia Gaspar, Lisboa Editora
Classificação: **
Adília Gaspar apresenta o objecto da filosofia deste modo: «podemos começar por dizer que a filosofia não tem um objecto específico de estudo, tem vários, ou, se se quiser, o seu objecto é o Todo. Isto é, tudo quanto existe, o que quer que seja, pode tornar-se objecto de reflexão filosófica, dependendo apenas da perspectiva em que é encarado e dos processos utilizados para o abordar. É nesse sentido que se diz que o objecto da reflexão filosófica é o Ser, conceito que engloba tudo quanto existe, desde os mais simples e vulgares objectos materiais até às mais complexas e refinadas criações do espírito humano. A arte, a religião, o comportamento do ser humano e os valores por que se orienta, a própria ciência, a linguagem, o domínio da acção política, são campos que a filosofia explora» (p. 9). Quando um aluno ao iniciar o estudo da filosofia se confrontar com uma definição desta natureza, o que ficará a pensar da filosofia? Cremos que o mais provável será mesmo fechar o manual e não voltar a abrir coisa tão aborrecida. Na verdade esta é uma ideia confusa e errada do que seja o objecto da filosofia. Claro está que o objecto da filosofia é a realidade. Mas será toda a realidade? Será objecto da filosofia saber como se desenvolve um cancro? Ou será objecto da filosofia saber se amanhã vai ou não chover? Ou quantos anos vai durar a torradeira nova? Que vantagem tem dar este tipo de explicação aos alunos? Mais adiante, a autora define Epistemologia do seguinte modo: «a reflexão, não já sobre o conhecimento em geral, mas mais especificamente sobre o conhecimento científico é o objecto da epistemologia; em grego, episteme, significa conhecimento científico (…)» (p. 24) Este é um erro elementar que infelizmente aparece com frequência nos manuais. A epistemologia trata da natureza do conhecimento em geral, distinguindo-se da filosofia da ciência que trata especificamente do conhecimento científico. Nem todas as questões sobre a natureza do conhecimento são questões científicas. Uma das limitações, também infelizmente habitual nos manuais de filosofia, é não apresentar as objecções às teorias limitando-se a exposição dogmática das mesmas. As teorias são banalizadas fazendo com que o manual se assemelhe a um caderno de apontamentos. O manual impõe uma ideia de que pensar é preciso sem mostrar como é que precisamos de pensar. Uma má opção.
 
 Pensar Azul, Fátima Alves, José Arêdes, José carvalho, Texto Editores
Classificação: **
Pensar Azul é mais um exemplo de um manual híbrido entre a tentativa de apresentar a filosofia como uma actividade de discussão racional de problemas e argumentos e uma ideia de que a filosofia trata de tudo e de todos «sem rei nem rock». Quando assim é, os erros aparecem. Por exemplo,  os autores elaboram a questão:
«em que se distingue a filosofia das outras ciências?» (p. 36).
Mas onde foram os autores buscar tal ideia? A filosofia é, agora, uma ciência? Com que base podemos afirmar tal coisa? Mas o manual segue com confusões que em nada beneficiam o gosto de aprender filosofia. Por exemplo, na unidade da Dimensão Religiosa, os autores começam por expor os argumentos sobre a existência de Deus. Expõem o argumento cosmológico, o argumento do desígnio e, depois, surge a “Posição de Kant sobre a existência de Deus” (p. 249). Não se entende se Kant tem ou não argumentos sobre a existência de Deus. E também não se perceber porque é que antes se falou em argumentos (mesmo que a opção dos autores seja a de não explorar todos os argumentos, como o ontológico, por exemplo) para logo a seguir se falar em posição em vez de argumento. Esta mistura de vocabulário cria confusões desnecessárias. Também não se entende a opção de apresentar determinadas unidades como problemas, teorias e objecções, se o método proposto na unidade inicial vai além dos problemas e objecções. Se não se ensina ao aluno algo tão básico como negar proposições, qual o sentido de lhe pedir, mais tarde, que objecte a certos argumentos? Quando, num manual, optamos por mostrar as objecções a uma determinada teoria, é para mostrar ao aluno como ele próprio pode objectar. Mas para que o aluno o chegue a fazer, é necessário dotá-lo da ferramenta que é a lógica. Se não fizermos isto, então das duas uma: ou vamos pedir ao aluno que faça aquilo que não lhe ensinámos a fazer ou, caso contrário, somente expomos objecções para o aluno decorar e repetir acriticamente. O Pensar Azul comete esta falha, o que faz dele uma má opção para ensinar filosofia. Pode tratar-se de um manual engraçado para informar o aluno sobre alguns aspectos da filosofia, mesmo cometendo erros e incoerências, mas é um mau manual para ajudar o aluno a desenvolver as suas competências críticas. Por exemplo, um lugar-comum nos manuais é o recurso às famosas características da filosofia: universalidade, radicalidade, historicidade e autonomia. Em que é que esta informação contribui para desenvolver o espírito crítico do aluno? Não será melhor expor os instrumentos para pensar e entrar directamente no conhecimento dos problemas, nas suas teorias e consequente discussão? Os autores do Pensar Azul têm opções muito discutíveis como, entre outras, afirmar que Stuart Mill propôs a felicidade global. Até se percebe a intenção dos autores, mas, em rigor, Mill não falou de tal coisa. Existe, em Pensar Azul, uma tentativa clara de aproximação à filosofia como actividade crítica, mas ainda falta apurar o manual. E isso consegue-se abandonando, sem reservas, alguns clichés habituais na concepção de manuais de filosofia e que não merecem mais a insistência dos autores porque foram esses clichés que transformaram a filosofia numa disciplina muitas das vezes aborrecida para os alunos. Um desses clichés presente no Pensar Azul é a infrutífera distinção entre ética e moral que não produz qualquer efeito para o desenvolvimento do pensamento crítico dos alunos. Sobre a questão dos Valores e Cultura, o Pensar Azul é completamente acrítico e mais se assemelha a um manual de sociologia. Não expõe o problema do relativismo cultural, nem o trata filosoficamente. Fica-se com a ideia que se deu ali uma qualquer informação sobre o assunto e nem sequer se percebe se se trata ou não de um problema da filosofia. Os alunos merecem mais e podem pensar com a cor que quiserem, mas com o rigor que a filosofia possui. Graficamente, o manual é de um gosto muito discutível, com imagens por vezes a roçar o piroso. Os esquemas-sínteses são pouco claros e podem conduzir à dispersão. De referir que os autores abusaram de textos que retiraram de sites, muitas vezes em português do Brasil. Não se vê particular vantagem nesta opção se podemos recorrer aos textos dos filósofos, onde os problemas são expostos. O manual é pouco rigoroso e dá uma ideia muito vulgar da filosofia. Explora problemas sem citar um único texto dos filósofos, a menos que exista tradução portuguesa de recurso.
 
 Um Outro Olhar Sobre o Mundo, Maria Antónia Abrunhosa e Miguel Leitão
Classificação: *
O manual de filosofia da Asa é uma opção errada a todos os níveis, desde o grafismo ao preço. Mas vamos ao conteúdo, ainda que em linhas muito breves. Folheando o manual da Asa dificilmente percebemos que estamos perante um manual de filosofia. Mais parece um qualquer livro confuso com informações avulso do que propriamente um manual. É escusado tecer aqui qualquer comentário elaborado sobre os esquemas-síntese, que mais parecem um novelo de fio completamente enrodilhado, sem modo de desfazer tanto enrodilho. Se um esquema serve para simplificar, com que intenção se apresentam esquemas que ainda confundem mais? Depois há uma série de opções que, talvez ao pretenderem a diferença, mergulharam no universo do fútil e do disparate. Vamos começar pelo fim. O manual não dá o direito de opção dos temas e problemas da filosofia. Os autores reduziram a escolha à imposição do tema “os direitos das mulheres como direitos humanos”. Basta folhear o manual para fazer logo uma pergunta: como é possível tratar um tema inteiro não abordando um único texto de filosofia ou de um filósofo? Ainda por cima, saiu em tradução portuguesa recentemente o livro de Stuart Mill, A Sujeição das Mulheres (Almedina, 2006). Temos razões de sobra para afirmar que não estamos perante um manual de filosofia. Qualquer jornalista faria melhor. Que interesse filosófico tem explorar um problema ignorando pura e simplesmente os textos dos filósofos? É uma opção desastrosa que em nada dignifica a filosofia. Mas há mais, infelizmente! Logo no início do manual, os autores apresentam a metodologia do pensamento crítico. Logo aqui deveriam apresentar a metodologia do pensamento filosófico, até porque há pensamento crítico que não é necessariamente filosófico. Referindo-se à lógica, os autores citam outros:
«quando pensamos, lidamos com uma série de conceitos que se combinam uns com os outros. Se os conceitos se coordenam entre si e fazem sentido, o pensamento é lógico. Se não se apoiam uns nos outros, se se contradizem e não fazem sentido, então não há lógica nenhuma.» (p. 9).
Daqui não se retira ideia alguma a não ser uma ideia completamente absurda do que é a lógica. A lógica não é uma relação entre conceitos, mas sim uma relação entre proposições. Repare-se a confusão:
«todavia, nem todas as proposições são argumentos. Uma proposição isolada não é um argumento. Só o é se, de facto, se relacionar e estiver a apoiar numa tese.» (p. 22)
Dá a ideia falsa de que uma proposição pode ser um argumento, quando sabemos que um argumento é um CONJUNTO de proposições. Isto é como pensar que uma pessoa pode ser uma nação porque um conjunto de pessoas pode ser uma nação. Se na metodologia do pensamento crítico apresentada no início do manual não se fala uma única vez de teses e argumentos, já nos elementos essenciais do discurso argumentativo (p. 37) se aborda a filosofia em termos de tema, tese, corpo argumentativo e conclusão. Nem vou tecer mais qualquer comentário relativamente ao que se diz sobre cada um destes elementos. É que no que vem a seguir não se fala mais nem em problemas, nem em argumentos. Maria Abrunhosa e Miguel Leitão fizeram um trabalho filosoficamente intratável, conseguindo, em 303 páginas, não apresentar um único problema filosófico relevante. Não se trata de um manual minimamente sério, nem de um manual de filosofia e qualquer pessoa com formação que não seja filosófica, perante este manual, é perfeitamente capaz de se questionar que relação tem o livro com a filosofia. O manual é um outro olhar sobre o mundo, mas não é um olhar filosófico de certeza.
 
 
Phi, Agostinho Franklin, Isabel Gomes, Texto
Classificação - *
Mais um manual que dá uma ideia errada e aborrecida do que é a filosofia. Se alguns autores seguem os bons exemplos, outros insistem teimosamente num modelo que já mostrou as suas insuficiências. Repare-se no disparate que um aluno de 15 anos vai ler logo na unidade inicial:
«A Filosofia é, pois, a disciplina onde vamos ter a oportunidade de ganhar consciência sobre as coisas; a filosofia vai permitir reflectir sobre o que já sabemos e, até, ajudar a criar pensamentos, ter ideias e ter consciência de que produzimos essas ideias e opiniões.
Temos então que:
- até ao 9º ano, esperava-se que se soubesse a matéria;
- até ao 9º ano, esperava-se que se tivesse um saber técnico sobre as diferentes matérias.
Agora, com a filosofia, espera-se mais. Espera-se:
- que se comece a pensar sobre essas coisas;
- que se comece a reflectir pessoalmente.
(…)
- começa-se, por isso, a construir uma personalidade própria, (re) analisando o que nos ensinaram na infância, olhando as coisas de outra maneira, encontrando novas soluções para aquilo que agora não está claro e reconhecendo os preconceitos do mundo em que vivemos.» (p. 17)
 
É impressionante como é que um manual pode dizer semelhantes disparates. Parece que agora sim, o aluno vai ser salvo da sua estupidez pela varinha mágica que é a filosofia. No módulo inicial, o manual pura e simplesmente ignora os instrumentos para pensar filosoficamente. Em vez disso, apresenta uma conversa fiada completamente inoperacional para a filosofia. Nem se percebe o que se pretende que o aluno saiba. Dá a ideia que o aluno deve ler e ficar muito sensibilizado para a filosofia! Um disparate que não augura resultados positivos. Colocam-se aqui sérias questões: o que beneficia um manual assim a disciplina? Como avaliar objectivamente os alunos se o que se lhes está a propor não tem nada de objectivo? Os autores nem sequer têm em consideração que estão a escrever um livro para alunos de 15 anos. Mas a ideia é: «a partir de agora estás salvo que tens filosofia» — e repete-se esta tolice das mais variadas formas até que o aluno se convença. Como sabemos, os resultados deste tipo de ensino da filosofia são manifestamente maus, sendo talvez esta a forma de abordagem da disciplina que fez com que a disciplina tivesse perdido praticamente todos os alunos no 12.º ano. O manual propõe exercícios que não passam de tolices, pedindo que se analise letras de canções, filmes, etc. O capítulo da acção humana começa com uma página com recortes de notícias de casos no futebol. Motivo para pensar que o apito dourado também é matéria filosófica. Qualquer pai minimamente sério que pegue neste manual é perfeitamente capaz de se questionar sobre que valor tem esta disciplina para a formação do seu filho. Desde José Mourinho aos Radiohead e Boss Ac, tudo cá cabe... menos a filosofia! É verdadeiramente intratável, este manual. Como é possível, sequer, tecermos aqui um comentário elaborado, se o manual parte de uma concepção de filosofia sem pés nem cabeça? Quem perde com manuais assim é a disciplina de filosofia que se mostra completamente esvaziada dos seus conteúdos. Graficamente, o manual acompanha o conteúdo e mais se assemelha a uma revista da moda. O manual tem um formato diferente da maioria dos manuais. É quadrado. O mais grave é que é também quadrado no conteúdo. Serve-se da ideia da barra lateral com indicações para o professor explorar as aulas, no caso, indicações completamente fúteis. O manual encerra com uma pequena história da filosofia que não consegue, sequer, captar o essencial. Termina com um glossário e nem aí o disparate é evitado. Neste pequeno glossário, que se pensava ser um glossário de filosofia, podemos encontrar palavras como “sub-reptício”, “encarnar” ou “ergonomia”. Já agora, por que não vender um dicionário de sinónimos como anexo ao manual? O phi não passa de Pulp Fiction.
 
 
 
 Filosofia 10, Maria Margarida Moreira, Areal Editores
Classificação - *
Quando lemos o manual Filosofia 10, ficamos com a impressão que o manual foi feito por uma aluna adolescente. Mais parece um conjunto de apontamentos dispersos sem qualquer ligação entre eles e com grandes imagens coladas para os decorar. Há imagens que ocupam uma página inteira. O texto é reduzidíssimo. Numa parte significativa das páginas, o texto mão ocupa mais do que um ou dois parágrafos. Mas vamos ao texto: «O que acabámos de aprender foi a identificar quais os problemas fundamentais que a filosofia coloca e que estes se situam na área da lógica. E isto porque a lógica se ocupa da investigação das regras que tornam o pensamento coerente, não do ponto de vista material, mas do ponto de vista formal.» (p. 20) Este é o omnipresente disparate de confundir validade com verdade, pois a idiotice da validade material é apenas palavreado caro para a verdade. E é também o disparate de pensar que a validade é a mesma coisa que a coerência, ignorando que as falácias são raciocínios perfeitamente coerentes. O resto da página é ocupado com uma imagem enorme (as imagens neste manual não possuem qualquer identificação), para, logo na página seguinte se ler o que a seguir citamos:
«Para já ficámos a saber que a filosofia coloca problemas de ordem lógica (…)» (p. 21).
Mais abaixo, seguindo uma outra imagem sem qualquer referência, pode-se ler:
 «Mas os problemas da filosofia não se restringem ao campo da lógica. Muito pelo contrário: a resolução dos problemas lógicos é fundamental, constitui os alicerces, as bases para a correcta formulação dos outros problemas, que são a essência da filosofia. Queremos com isto dizer que o pensamento filosófico se debruça sobre outras áreas, questiona, analisa, organiza e tenta responder a problemas que levanta.» (p. 21)
Pelo exposto ficamos sem saber se a filosofia é lógica e qual a relação entre a lógica e a filosofia. Ao longo de todo o manual é frequente os problemas nem sequer serem analisados. A ideia de que qualquer um pode fazer um manual dá estes resultados. Este não é apenas um mau manual. É inaceitavelmente mau. A última unidade, Temas e Problemas do Mundo Contemporâneo, nem sequer tem uma linha escrita pela autora. Resume-se a uma série de páginas com textos avulsos sem qualquer interesse filosófico ou outro. Não se compreende sequer como é que uma editora chega a publicar um manual com tão fraca qualidade e seria uma questão de respeito próprio e pela disciplina não apresentar publicamente um trabalho desta natureza. Mas o Filosofia 10 revela o valetudo em que está voltada a concepção de manuais escolares. O manual leva ainda o certificado científico de Álvaro dos Penedos, um professor jubilado da Universidade do Porto, Departamento de Filosofia, o que prova o estado em que a filosofia se encontra no nível superior.
 
 
Introdução… Carlos Sousa, Manuela Amoedo, Texto Editora
Classificação - *
Um aspecto difícil de compreender na concepção de manuais é o seguinte: se temos textos tão ricos em toda a história da filosofia, porque razão se apresenta sistematicamente a filosofia por textos que não são de filósofos? Um manual de filosofia não tem necessariamente de ser inovador e original. Se o for ainda melhor, mas o que exige num manual de filosofia é clareza e exposição dos problemas da filosofia e da filosofia como uma actividade crítica. O Introdução… arrisca-se ao propor explorar os autores portugueses e que escreveram em português. Ora nem que fôssemos alemães, que têm uma tradição em filosofia muito rica, não faria qualquer sentido fazer um manual de filosofia preferindo quase exclusivamente os autores que tivessem escrito em alemão. E tal não faz sentido porque um manual não pode propor-se fazer aquilo que a filosofia séria nunca pode fazer: defender uma qualquer causa com critérios arbitrários. Curiosamente o primeiro texto do manual é de Matthew Lipman, Pimpa e foi escrito para ensinar filosofia a crianças e não a adolescentes. Mas este Introdução… não traz qualquer novidade em relação a outros que aqui temos comentado e cose-se exactamente com as mesmas linhas, cometendo, por essa razão, os erros do costume. Os erros passam em desfile, não muito longe do habitual. No último ponto do programa, onde os autores poderiam livremente propor a exploração de um problema de modo filosófico, trata-se somente um problema sem o direito do professor optar, e remete-se para textos de bispos e padres no lugar dos textos dos filósofos. Isto acontece porque se confunde a filosofia com a antropologia, com a sociologia, o direito, etc. Por vezes chama-se erradamente a isto interdisciplinaridade. O Introdução… em quase todo o manual não introduz o aluno à filosofia e aos seus problemas nem estimula o sentido crítico do aluno. É, portanto, uma péssima opção. Graficamente não se distancia da maioria dos manuais. As imagens não produzem qualquer efeito senão o enfeite.
 
 
 Este Amor pelo Saber, Amândio Foutoura, Mafalda Afonso, A Folha Cultural Editora
Classificação - *
Este Amor pelo Saber é um manual pesado, caro e opta claramente pela linha hermenêutica para ensinar filosofia. O que temos aqui é mais do mesmo. Acriticamente, começa por apresentar ao aluno a filosofia como sendo o Logos, o argumento, a ironia e as ideias. Trata-se de uma lista pronta a ser decorada pelo aluno e repetida até à exaustão num exercício que, na melhor das hipóteses, desenvolve a memória do aluno, mas não a sua capacidade crítica. E é um desfilar de ideias comuns mas que já não se usam na bibliografia mais actualizada da filosofia que se faz hoje em dia, como por exemplo, Gnoseologia como teoria do conhecimento e epistemologia como reflexão sobre o conhecimento científico (p. 42). Se abrirmos o manual no tema dos valores, podemos confundir o manual com um qualquer manual de sociologia, dada a abordagem pouco ou nada filosófica proposta pelos autores. Inacreditavelmente a unidade sobre os temas e problemas do mundo contemporâneo, são 3 páginas (uma delas encerra o livro) com vários contactos e endereços electrónicos de diversas instituições. Nada mais. Nem um texto. Nem uma explicação. Nada. Mais valia apresentar uma lista telefónica como manual de filosofia. Se o aluno quiser saber, que consulte a lista, que contacte as instituições e as pessoas e que pergunte. Esta opção deve resultar da falta de espaço no manual. Mas tal acontece porque os autores ao longo das outras unidades abusaram dos textos sem qualquer interesse. Por exemplo na unidade da acção Humana, no final, aparecem 14 textos, fora os que aparecem na própria exposição. Ora isto conduz à dispersão. Além de tudo trata-se de uma ideia obviamente errada de como se deve fazer um manual. Nem um manual é uma antologia de textos, nem uma lista telefónica.  Este manual está chumbado.
 
 Filosofia, Marcello Fernandes, Nazaré Barros, Lisboa Editora
Classificação - *
Infelizmente para a filosofia e o seu ensino, esta proposta da Lisboa Editora não apresenta nada de novo. As limitações são as mesmas de sempre, os erros os mais comuns. Opta-se pelo recurso a novas traduções que vão saindo no mercado como as de Thomas Nagel e Nigel Warburton. São bons textos e bons autores, mas esses autores o que fizeram foram os seus manuais e para apresentarem os problemas não se citam uns aos outros. Pelo contrário citam os textos dos filósofos.
Podemos encontrar os erros comuns como:
 «a dedução é um raciocínio que conclui um facto particular de uma lei geral, apresentando-se sob a forma “se… então”». (p. 35)
Esta definição de dedução está errada e mais tarde vai conduzir a confusões, nomeadamente no 11º ano. E está duplamente errada. Primeiro, é errado afirmar que a dedução é concluir um facto particular de uma lei geral; e depois a dedução não se apresenta sob a forma da condicional. Fica a pergunta: se não se dominam as noções mais elementares da lógica, como é que se faz um manual de filosofia? Graficamente é um manual muito mau, com os títulos num amarelo que faz doer os olhos para ler. O manual termina de uma forma brusca e nem uma bibliografia possui. Não apresenta um único problema filosófico e não se percebe a opção de colocar indicações do grau de dificuldade dos textos no início dos mesmos. Não produz qualquer resultado. Perfeitamente dispensável.
Rolando Almeida
 
publicado por rolandoa às 19:13

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12 comentários:
De Jorge Canha a 30 de Maio de 2007 às 14:51
Que grande e bom comparativo!
Bom trabalho.
De rolandoa a 30 de Maio de 2007 às 19:38
Olá Jorge,
A ideia é a de ajudar os colegas a analisar os manuais. Claro que outros colegas podem publicar outros trabalhos. E essa ideia é até desejável.
abraço
Rolando Almeida
De Mafalda Afonso a 30 de Maio de 2007 às 21:57
Caro Rolando

Sou co-autora do Manual Este Amor Pelo Saber. Agradeço-lhe a sua crítica, mas permita-me o direito de resposta relativamente aos comentários realizados.
A última unidade não apresenta textos e não é por acaso. Entendemos que a Filosofia deve promover uma atitude crítica e autónoma face ao real, de forma que interpretamos o programa neste item como o momento ideal para operacionalizar aquilo que é advogado. A função do professor deve ser meramente orientadora na pesquisa que o aluno efectuar. A intenção era não condicionar.
Não quisemos um manual directivo, mas antes um manual que, através do integral respeito pelo Programa e mesmo pelas ex-OLP fornecesse "liberdade" para professores e alunos explorarem da forma como acharem mais pertinente, os conteúdos progrmáticos abordados. Apesar daquilo que afirma, de que nos centramos na dita corrente hermenêutica, geralmente entendida como a tradição continental ( predominante nos países francófanos e na Alemanha) em detrimento da Filosofia (dita) analítica, permita-me que discorde. Tanto quanto sei, a filosofia analítica explora exaustivamente os conceitos e aposta na argumentação esquecendo a contextualização histórica. Se reparar atentamente, damos importância aos conceitos, tanto que os destacamos no ínicio das temáticas programáticas, mas também não esqueçemos a vertente histórica. Isto porque não concebemos a Filosofia de forma abstracta e desligada da realidade e da experiência vivencial e histórica que a provoca. De forma que tentamos conjugar a tradição continental com a perspectiva analítica dominante no mundo anglo-saxonico. Depois os textos a que se refere, se os contabilizar bem não são 14, são bastantes mas não exactamente esse número. E os escolhidos tentam promover a análise com um cunho pessoal.
Bom, mas não quero que me interprete mal. Só lhe escrevo porque pretendia deixar claro a matriz que presidiu à elaboração do manual e lamento que não tenha sido compreendida. Pretendeu-se um manual apelativo, não directivo e que respeitasse a Filosofia na sua essência de amor ao saber e de respeito pela pluralidade de concepções legitimamente existentes.
Talvez e para me centrar nas suas observações, tenha havido uma falha, que registamos e anotamos para um próximo projecto, até porque são estas críticas como a sua, que nos podem dar algumas luzes sobre o que precisam certos professores .

Atenciosamente,
Mafalda Afonso
De rolandoa a 31 de Maio de 2007 às 02:24
Mafalda,
Antes de tudo obrigado pelo comentário. Foi muito cordial e aprecio a forma como comentou.
Não tenho qualquer preferência pela corrente analítica ou outra, mas tenho preferência por manuais científicamente rigorosos e didacticamente acertados. Os manuais no topo da minha lista não são analíticos e são bons manuais, apesar de muitas das vezes serem acusados de analíticos. Concordo com a Mafalda quando sugere que se pode fazer um manual com orientação hermenêutica e ser cientificamente rigoroso e didacticamente correcto. Mas discordo quando refere que a ideia dos contactos era a de dar maior liberdade ao aluno. É que não a dá. Dá-se maior liberdade ao aluno oferecendo-lhe informação sobre os problemas e os argumentos dos filósofos, estimulando-o a discutir os problemas. Sem esse conhecimento o aluno está muito mais limitado para entrar na discussão dos problemas da filosofia. Limitado na sua liberdade, é claro.
Uma nota final: é natural que os manuais tenham os seus erros e as suas limitações, mas a atitude da Mafalda é verdadeiramente louvável, porque admite algo de essencial: que é possível o esforço para fazer melhor. Esta sua atitude é desejável para o bom ensino da filosofia e para o bem dos nossos alunos.
Agradeço-lhe com reconhecimento do respeito com que se me dirigiu.
Até breve
Rolando Almeida
De rolandoa a 31 de Maio de 2007 às 02:31
Mafalda,
Esqueci, mas fica aqui o registo da sua correcção. na verdade não são 14, mas sim 10 o número de textos a que me referia. 14 é o número de textos que apresentam para a ética e não a acção humana.
Fica a correcção e peço desculpa pela mesma.
Rolando Almeida
De rolandoa a 31 de Maio de 2007 às 02:53
Mafalda,
Ainda uma outra nota que distraidamente me escapou. É falso que a filosofia de tradição socrática (analítica como muitas vezes erradamente lhe chamam) esqueça a tradição histórica. Se reparar os manuais que são acusados de analíticos são precisamente os que mais textos clássicos da filosofia usam. Curiosamente os manuais elaborados segundo a tradição hermenêutica usam muito menos textos dos filósofos clássicos e recorrem muitas vezes aos comentadores dos filósofos clássicos. Ora, cabe aqui uma questão: que sentido faz fazer um manual e citar os comentadores que, muitas vezes, não mais fizeram que uma espécie de manual? Era como se eu fizesse um manual e citasse o manual da Mafalda em vez de recorrer aos textos de Platão, Kant ou Mill. Nem os autores mais ortodoxos da ida filosofia analítica desprezaram o contexto histórico dos filósofos. Também não estou certo que seja possível conciliar a tradição socrática com a tradição hermenêutica, mas essa possibilidade está em aberto e não possuo resposta para ela.
Obrigado
Rolando Almeida
De Os Carolas a 21 de Outubro de 2010 às 11:39
Bom dia

Eu gostava mesmo era de ter o livro.Na turma do meu filho so tres alunos o tem. A Porto Editora aqui no Porto diz que a editora faliu!!!!!
Por acaso sabe onde o posso encontrar????~
alfredo.a.barbosa@gmail.com

 
De Amandio Fontoura a 6 de Junho de 2007 às 22:20
Caro Rolando

Talvez conseguisse uma análise ao Manual "Este Amor pelo Saber" menos limitada e redutora... Quando daqui a uns tempos descobrirem quanto ele é sóbrio, claro, eficaz e bonito, terá consciência como perdeu uma oportunidade excelente de revelar lucidez.
Vejamos a sua análise:
- "...linha hermenêutica..." - se esta espressão significa contextualizar, adequada e filosoficamente, as temáticas que são exigidas nas orientações para exame, estamos de acordo. Se quer dizer que não valoriza o carácter dialógico e argumentativo das temáticas, estamos em desacordo total. O manual não substitui o professor. É uma base de trabalho. A gestão dos espaços reflexivos e argumentativos cabe ao docente na sala de aula. Este é insubstituível nessa tarefa. E este manual dá-lhe a oportunidade e o lugar.
-"...mais do mesmo..." - não vou comentar. É uma observação comprometedora de quem está criticamente perdido e não sabe como se situar. Argumento sem fundamentação. Absolutamente vago. Quuase uma falácia Ad Hominem.
- " Acriticamente..." - se esta expressão significa abertura às diversas pluralidades de abordagem do real e às variadas sensibilidades que povoam o mundo filosófico, e aproveitar o que de melhor têm a oferecer, estou de acordo. Se se refere a uns pobres coitados que se esmiufaram na pastelice pequeno-burguesa de provarem que sabem fazer um manual escolar...bem, é melhor ficarmos por aqui!
-"... desenvolve a memória do aluno, mas não a sua capacidade crítica..." - observação subjectiva sem rigor. Um manual tem que fornecer bases cognitivas sólidas, uma problematicidade ajustada e uma orientação eficaz. Este manual está estruturado desse modo. Aconselho-o a examinar melhor os 5 parâmetros que constituem a exposição de todas as problemáticas. Descobrirá a explicitação dos conceitos, a exposição dos conteúdos programáticos, os textos documentais, os exercícios reveladores do essencial a reter, e a abordagem argumentativa da natureza da temática em questão, com orientações para a dissertação/texto argumentativo. Descobrirá também 3 linguagens paralelas ao longo do manual: as citações (que podem só por si orientar o curso de uma aula), as imagens integradas e o texto da problematicidade.
- "...lista telefónica..."- comentário infeliz e desajustado. Incrível como passou completamente ao lado da intenção. Deixo-o a pensar neste argumento do nível do comentário: 'é melhor dar um peixe ou ensinar a pescar?'...
Quanto ao chumbo, como se trata de uma brincadeira, não levamos a mal. Mas convém não abusar...
Fique bem.
Amandio Fontoura , co-autor do Manual e do Livro "Este Amor pelo Saber", Folha Cultural,Lisboa, 2007.
De rolandoa a 7 de Junho de 2007 às 02:10
Caro Amândio,
Antes de tudo obrigado pela resposta que lhe cabe em direito oferecer-me. Referi os objectivos da minha análise no início do meu texto. Curiosamente, até à data, é o único trabalho do género conhecido. Era bom que resultassem outros trabalhos semelhantes ao meu e até que reflectissem outros pontos de vista diferentes dos meus. Claro que a minha visão é redutora, porque estive limitado pelo tempo. Mas creio que, a alongar-me na minha análise, iria ser ainda mais desagradável para os autores de alguns manuais.
“Quando daqui a uns tempos descobrirem quanto ele é sóbrio, claro, eficaz e bonito, terá consciência como perdeu uma oportunidade excelente de revelar lucidez.”
Não procurei ver a beleza dos manuais, mas antes a sua capacidade didáctica para os alunos, de acordo com a minha experiência. Um aluno não pode ser obrigado a ver beleza onde eu vejo beleza, mas é-lhe exigido que seja rigoroso na sua argumentação. E, para isso, a filosofia possui os seus instrumentos de análise. Mas eu gostaria de ter visto já a beleza do seu manual. Porque é que tal beleza só me é acessível, a mim e aos outros, daqui a uns tempos? Mas que argumento é este? Futurologia?
"...linha hermenêutica...", reflecte o modo como se tem interpretado o ensino da filosofia em Portugal. Com isto não quero dizer que não se possa fazer um bom manual a partir da fundamentação ou interpretação hermenêutica. Acontece que, com esta opção, tem-se tornado a avaliação em filosofia muito mais subjectiva do que seria desejável. De resto, repito, é perfeitamente possível elaborar um bom manual na perspectiva hermenêutica.
“O manual não substitui o professor. É uma base de trabalho. A gestão dos espaços reflexivos e argumentativos cabe ao docente na sala de aula.”
Pois não substitui! E este é um erro comum. O manual nem sequer é para o professor, mas para o aluno. E para o aluno estudar. É a porta de entrada do aluno para a filosofia. E esta tem sido a minha preocupação fundamental. Estou certo que também é a preocupação de todos os autores, uns com mais e outros com menos êxito.
"...mais do mesmo..." - não vou comentar. É uma observação comprometedora de quem está criticamente perdido e não sabe como se situar. Argumento sem fundamentação. Absolutamente vago. Quase uma falácia Ad Hominem.”
Mas uma falácia ad hominem porquê? O Amândio é que a está a cometer no seu texto, acusando-me de falta de lucidez e que estou criticamente perdido! E acaba por optar pela posição menos filosófica. Não comenta e acusa de criticamente perdido… Mas vamos em frente!
“variadas sensibilidades que povoam o mundo filosófico”
A filosofia não é um vale tudo. Essa ideia do relativismo que invadiu a cultura filosófica a partir da segunda metade do Sec. XX é racionalmente insustentável. Se vale tudo e tudo se resume a uma pluralidade de sensibilidades então temos de aceitar todas as visões filosóficas, incluindo a visão filosófica de que a visão do Amândio não é filosófica e é falsa. Está a ver no que resulta pensar que a filosofia é uma pluralidade de visões relativas a quem as pensa?

“-"... desenvolve a memória do aluno, mas não a sua capacidade crítica..." - observação subjectiva sem rigor. Um manual tem que fornecer bases cognitivas sólidas, uma problematicidade ajustada e uma orientação eficaz. Este manual está estruturado desse modo. Aconselho-o a examinar melhor os 5 parâmetros que constituem a exposição de todas as problemáticas. Descobrirá a explicitação dos conceitos, a exposição dos conteúdos programáticos, os textos documentais, os exercícios reveladores do essencial a reter, e a abordagem argumentativa da natureza da temática em questão, com orientações para a dissertação/texto argumentativo.”
O Amândio fala em explicitação de conceitos, exposição de conteúdos e essencial a reter. Estas são precisamente as estratégias que conduzem a um ensino mecanizado e pouco estimulante do ponto de vista crítico. A liberdade do aluno poder pensar criticamente é dar-lhe a possibilidade de compreender os argumentos e confrontar-se com as objecções às teorias. Mas o Amândio não fala disto e opta pela conversa vaga de explicitação de conceitos e exposição de conteúdos. Mas a aula de filosofia não é uma exposição de conteúdos mas uma discussão viva dos problemas filosófico
De rolandoa a 7 de Junho de 2007 às 02:11
Mas a aula de filosofia não é uma exposição de conteúdos mas uma discussão viva dos problemas filosóficos, para tal, recorrendo às teorias dos filósofos, clássicos ou contemporâneos. Não se ensina filosofia como se ensina física, porque a filosofia não possui os resultados que a física possui.

“"...lista telefónica..."- comentário infeliz e desajustado. Incrível como passou completamente ao lado da intenção. Deixo-o a pensar neste argumento do nível do comentário: 'é melhor dar um peixe ou ensinar a pescar?'...
O Amândio até podia ter optado por ter deixado três páginas em branco com as melhores intenções filosóficas, Só que se arriscava a ser incompreendido. Alertei no meu texto que poderia ser uma imposição da editora. Quem ficou perplexo perante a opção fui eu, enquanto leitor do seu manual e professor de filosofia. E o Amândio vem-me falar em intenção? Como pretende o Amândio que o aluno use o seu manual para estudar esta unidade? De resto que sentido faz abordar toda uma unidade somente com uma lista de contactos?
“Quanto ao chumbo, como se trata de uma brincadeira, não levamos a mal. Mas convém não abusar...”
Não é uma brincadeira! Eu acho o seu manual uma má opção e foi isso que pretendi reflectir no meu texto. Mas não acho grave que o seu manual possua limitações. Todos possuem. Até aqueles que eu cotei como os manuais mais conseguidos possuem limitações várias, algumas delas que eu ainda não me dei conta. Mas quero aqui manifestar o meu desejo para que o Amândio possa continuar a escrever bons manuais. Eles são necessários e essa é a minha preocupação essencial. E reconheço o esforço e empenho de todos os autores. Mas não penso que estejam todos ao mesmo nível e creio que parte deles são até dispensáveis, uma vez que temos 14 em opção.
Em conclusão, em relação ao meu texto, eu é que fiquei espantado que somente o meu trabalho tenha sido tornado público. O desejável, como já lhe referi, seria que outros professores fizessem outros trabalhos com posições diferentes da minha e que até pudessem colocar as minhas posições em causa. Estranho que tal não tenha acontecido quando temos a liberdade e os meios para o fazer. E creio que os autores de manuais ganhariam muito com trabalhos como o que aqui apresentei. Reconheço que alguns autores não tenham ficado agradados com as minhas classificações e apreciações. Eu também nem sempre fico agradado com a ideia de ter de ficar agarrado a um manual durante anos que considero mau e não escolhi. A lei de adopção de manuais não deixa muita margem nem a muitos professores, nem a muitos autores. Mas tal não implica que não se façam bons manuais, até porque eles existem. E em 14 opções é natural que uns resultem mais felizes que outros, como todos os livros de filosofia, uns são bons, uns assim assim, outros maus.
Outra coisa: refere no seu manual que “é um facto que a filosofia tem vindo a perder, gradualmente, espaço na área de acção teórica.” (p.48) Isto é falso. Produziu-se e escreveram-se mais obras de filosofia durante a segunda metade do sec. XX que em toda a sua história anterior e nunca, a par da antiguidade clássica, a filosofia teve tanta vitalidade como hoje. Para o provar basta ver o número de obras que são publicadas e visitar os departamentos de filosofia das maiores universidades do mundo.
Obrigado
Rolando Almeida
De Anónimo a 7 de Junho de 2007 às 12:59
Caro Rolando
Aspectos em que estou completamente em desacordo consigo:
- eu não faço futurologia, nem quero entrar pelo auto-elogio. O que se passa é que o que é novo e diferente precisa de um factor extra: o tempo. Hábitos adquiridos, refrências habituais, nomes do mercado, terrenos conquistados, necessitam de timing próprio para a mudançao e adapatação. Sempre foi assim...
-não se deve confundir relativismo/pluralidade com valorização. Relativismo é meter tudo no mesmo pacote teórico, misturar e dar de novo;valorização é destacar e aproveitar o que é valorizável e possa contribuir para a qualidade reflexiva e analítica comum. É isso que fizemos no manual. A nossa posição? É clara e assertiva: se tem valor problematizador e enriquecedor serve, venha de onde vier.O resto não contemplamos.
-a aula não é só discussão viva. A discussão é um acto posterior. É necessário informação prévia ou vivencialidade adequada. Discussão pela discussão ou discussão no vazio é inútil e tem desacreditado a filosofia.E há imensas estratégias orais e escritas a explorar numa sala de aula para lá da discussão, que tem o seu importante lugar, como é óbvio.
-a quantidade suponho que nunca ou quase nunca foi sinónimo de qualidade. A explosão editorial, de curso universitários, de espaços temáticos, de proliferação de teses de mestrado, doutoramenos, nba's,etc...por si só não dão lugar á qualidade. Citar quem citou que citou e citou e citou...Onde nos leva em filosofia? Que vultos de vulto tem criado?...
E pode sempre aproveitar a sugestão de tomar um café e ler despreocupadamente o livro homónimo que foi retirado da escita original do manual. E já agora saboreie os títulos dos capítulos...
Fique bem.
Amandio Fontoura
De rolandoa a 7 de Junho de 2007 às 17:56
Caro Amândio,
Penso que o trabalho de autores de obras públicas devem conviver pacificamente com a crítica pública. O problema é ela aparecer tão raras vezes.
Em relação ao que posso vir a ver no seu manual, só lhe posso adiantar uma coisa. Sou professor há 12 anos. Nunca me preocupei com os manuais escolares. Qualquer um me servia porque os achava todos bastante maus e costumava dizer que fazer um manual assim, também eu o fazia com as carradas de fotocópias que arrastava atrás de mim para dar aos alunos. Só me preocupei realmente com manuais quando apareceu um que li e realmente vi nele clareza, poder didáctico e rigor filosófico. A partir desse dia, realmente, começei a preocupar-me com manuais porque finalmente reconheci que era possível apresentar-se bons manuais de filosofia. Mas não precisei de esperar para ver com o tempo que o manual era bom. Bastou-me pegar nele, Lê-lo e experimentá-lo com os maus alunos. De resto imagine que um aluno também tem de esperar pela maturidade para ver o quanto a filosofia é bela e boa! O melhor que pode resultar desta esperança é que o aluno, depois de estudar filosofia obrigatoriamente, jamais lhe volte a tocar. Eu não penso como o Amândio. Tenho urgência em praticar um ensino plausível que, em dois anos de estudo, possa mostrar ao estudante, as potencialidades de estudar filosofia. Não posso ficar à espera que o estudante se possa vislumbrar com o fascínio e beleza que também eu vejo na filosofia. É melhor, enquanto é tempo, fornecer-lhe as bases que ele depois, livremente e por si próprio poderá dedicar-se à contemplação que o Amândio fala. Além do mais penso que um jovem primeiro tem de aprender a fazer contas para depois possuir as ferramentas que lhe permite vislumbrar a beleza da matemática e das suas relações lógicas. Se não o ensinar a fazer os calculos, só me resta impor-lhe o fascínio sem que ele perceba porque é que se deve fascinar. O mesmo acontece na filosofia. Prefiro dar-lhe as regras. Desde que passei a fazê-lo nas minhas aulas, passei a ter muitos mais alunos fascinados pela filosofia e pelo seu poder.
Rolando Almeida

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