Segunda-feira, 14 de Maio de 2007

A racionalidade não é uma seita – O pseudo filósofo Bombista

Quando estamos na filosofia e pretendemos ser intelectualmente honestos não podemos defender uma qualquer bandeira atacando outra que julgamos ser perigosa por ser de uma cor diferente na nossa. A racionalidade filosófica exige a discussão argumentativa livre e constitui um desprendimento progressivo dos mitos, fanatismos e preconceitos. Nem a filosofia se faz só para agradar no grupo de amigos. É natural que entre as comunidades de filósofos, alguns se deixem seduzir pelo vedetismo ou qualquer outra inclinação menos racional. Mas tal acontece porque os filósofos estão sujeitos a todos os vícios que qualquer ser humano está sujeito, com a consequente que quem perde aí é a lucidez racional. Na filosofia dizer que gostamos mais de um filósofo que outro, da corrente x em vez da corrente y, significa que temos mais razões para acreditar em x do que em y, que os argumentos em favor de x são menos discutíveis do que os argumentos em favor de y. Em filosofia, defender a teoria y, se essa apresenta argumentos cujas premissas são manifestamente fragilizadas, tem o mesmo significado que continuar a defender o geocentrismo só porque se é da família de algum cientista atrasado, ou porque o presidente de um clube de futebol tivesse afirmado que o geocentrismo é que é engraçado. Numa palavra, defender a teoria y desta forma é o sinal mais evidente de falta de lucidez. Pode acontecer que, como sou amigo de um geocentrista, defendo a sua teoria com toda a energia, nem sequer querendo saber o que está por detrás do heliocentrismo. Passo a ver o heliocentrismo como o inimigo a abater, custe o que custar. Nas sociedades mais fechadas e preconceituosas, este efeito tende a suceder com muita facilidade trazendo ao de cima todos os fanatismos, ignorância e inveja associada. Deixamos de ter razões para defender o indefensável e, por ignorância, pegamos nas armas. Quando pegamos nas armas, acaba-se a discussão. Na história recente da filosofia já não se faz esta caça às bruxas de modo explícito, mas ela acontece muitas vezes velada com a figura da tacanhez e da inveja associada à ignorância, o que produz um efeito explosivo. Seguindo a via mais fácil, a ignorância, que é precisamente aquela que não exige trabalho algum, parte-se para a filosofia aos tiros intelectuais, com insultos baratos, despropositados e ameaças de alerta como se um determinado grupo de filósofos se tratasse de uma seita a abater, uma organização obscura e subterrânea, marginalizada injustamente pela sociedade, mas que é urgente defender atacando tudo e todos com insultos anónimos e hipócritas. Este é o verdadeiro espírito anti filosófico! Não há discussão, não há filosofia e, sobretudo, não há qualquer trabalho precisamente porque o trabalho dá trabalho e ler meia dúzia de bons livros de filosofia, ainda por cima se tivermos de o fazer com muito esforço numa língua diferente da nossa língua mãe, implica realmente muito trabalho. O insulto aparece como a opção mais imediata neste contexto. Perante o que é novo, mais vale insultar do que trabalhar precisamente porque o trabalho para compreender e descobrir o novo exige uma coisa que nunca se fez na vida, trabalhar. É curioso que esta atitude disparatada, regra geral, não costuma acontecer entre os filósofos profissionais. Não que eles por vezes não se aborreçam uns com os outros. Como já tentei mostrar, também alguns filósofos tem mau temperamento de carácter. Mas quando o que está em causa é a filosofia e a racionalidade que lhe cabe cumprir, a melhor forma de objectar uma tese que aparece como diferente é filosofar e não insultar. Isto é básico: o insulto não passa disso mesmo. É um insulto e nada mais. Uma ideia sustentada com fortes razões é muito mais que um insulto. É motivadora de progresso e inovação, se a ideia a defender for realmente apoiada em razões fortes. Mas para ter razões fortes é necessário reunir algumas condições, sendo as principais:
1 – Estudar os argumentos e teorias contrárias à sua; encontrar pontos frágeis na teoria a atacar.
2- Ter a mente aberta e lidar bem com a possibilidade do erro.
Este último ponto possui até um lado muito curioso. É que a tarefa do filósofo é encontrar erros de raciocínio nos argumentos, sabendo que essa é a melhor via para caminhar para a verdade. Também o futebolista procura encontrar erros nos treinos que faz para apresentar um bom rendimento no jogo a valer. Nenhum jogador de futebol com o juízo perfeito se limita a sentar-se na bancada no dia do jogo a insultar o adversário para o vencer. E porque razão um filósofo tomaria esta atitude em relação aos argumentos de um outro filósofo? Faz isto algum sentido? Ou porque razão um filósofo começaria a difamar outro somente por inveja? Não quero dizer que estas situações não possam acontecer mais vezes que as desejáveis. Caso contrário, não sentiria a necessidade de escrever este texto. A realidade é que acontece, não vale a pena escondê-lo. O que quero aqui mostrar são as insuficiências desta atitude e o desprestigio que tal atitude traz à filosofia, não a beneficiando em absolutamente nada. Isto é particularmente grave quando se passa com filósofos ou gente envolvida na filosofia. Quem o faz não se dá conta, tomado que está pela inveja e mesquinhez, que não está a destruir o adversário, mas antes a destruir a própria filosofia. A última coisa que um filósofo ou professor de filosofia deseja ouvir de um interlocutor é um “não sei, nem me interessa. Não quero saber e só penso o que me apetece”. Se esta atitude contraproducente parte de gente ligada à filosofia, que faz dela a sua profissão e que é pago para a divulgar, aquilo que se está a fazer é assassinar a própria filosofia. Por outro lado, como em qualquer saber ou conhecimento, há que reconhecer o que é realmente relevante em filosofia e acessório. E não há qualquer necessidade de insistir somente por teimosia no que é acessório ou irrelevante. Interessa sim, pensar racionalmente nos problemas. E isto porque a razão e o seu uso é livre e não pode ser confundida com uma seita que se defende irracionalmente. De resto este é um problema que já Kant nos tinha alertado, muito a propósito do que se estava a passar no seu tempo, o Iluminismo que, em duas palavras e só para que não esqueçamos, consiste num uso livre e indeterminado das nossas capacidades racionais.
Rolando Almeida
publicado por rolandoa às 10:52

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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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