Quinta-feira, 10 de Maio de 2007

Logos - Uma opção competente

À medida que vão chegando os novos manuais escolares de filosofia para o 10º ano, vou-me dando conta daqueles que me parecem obedecer aos melhores critérios para o ensino da filosofia. Poderia fazer uma lista exaustiva dos critérios que me fazem pensar num manual como melhor em relação a outro. Nigel Warburton no seu livro, Philosophy: the essential Study Guide (Routledge, 2004) estabelece quatro requisitos fundamentais para a actividade filosófica:
- Leitura dinâmica
- Escuta dinâmica
- Discussão dinâmica
- Escrita dinâmica
Warburton defende uma ideia da filosofia como actividade crítica (é ela outra coisa?). Quer isto significar que o ensino da filosofia deve remeter o aluno directamente para uma actividade crítica, recorrendo ao conhecimento dos textos clássicos. Mas estes constituem o mote para a discussão e tomada de posição do aluno em relação aos problemas filosóficos e não a mera informação histórica de como os mesmos foram tratados. Esta ideia para o ensino da filosofia é muito estimulante. De outro modo devemos pensar que a filosofia aparece nos currículos do ensino secundário como formação geral. Quer isto dizer que devemos pensar qual a sua futura utilidade para alunos de cursos que não os canalizarão directamente - no futuro - para o estudo da filosofia. Dizer que uma boa formação cultural é essencial parece não constituir uma boa ideia para convencer jovens para o estudo na disciplina. A minha experiência revela-me que, entrando directamente nos problemas, estimula-se muito mais os jovens a estudar filosofia e constitui ao mesmo tempo a melhor via para ampliar a sua formação cultural. Todos os anos tenho alunos que compram livros de filosofia, pequenas introduções. E não é fazendo da filosofia uma disciplina de história que tal acontece. Esta é a ideia que defendo para o ensino da filosofia.
Voltando aos manuais, poderia estabelecer aqui uma linha divisória que terá tanto de verdade como polémica. Os manuais feitos animados pela filosofia e os seus problemas e os manuais a que chamo de «manuais do eduquês» que se servem de muletas para apresentar a filosofia, na maioria dos casos, com consequências desastrosas para a disciplina. Assim, um manual do «eduquês», em vez dos textos dos filósofos, apresenta uma letra de uma canção de um artista de hip hop. Em vez de uma imagem que ilustre um filósofo ou o problema que se está a discutir, apresenta uma qualquer fotografia de um artista televisivo. Em vez de um texto filosófico, apresenta um qualquer texto sociológico ou moralista ou ainda meramente histórico. O manual do «eduquês» chega a apresentar autênticas listas de compras no lugar dos textos dos filósofos. O manual do «eduquês» pretende animar a filosofia com aquilo que o «eduquês» defende, isto é, o apelo às vivências e conhecimentos directos do aluno. E esta é a forma como se pensa que o aluno vai entrar no mundo dos problemas filosóficos. Só que aqui enfrentamos alguns problemas óbvios. Primeiro desvirtua-se, como já referi, o que é a filosofia; segundo revela a filosofia como uma disciplina aborrecida onde se fala de umas coisas sem grande sentido ou estimulação intelectual. Anos de experiência no ensino da filosofia indicam-me que o modelo do manual do «eduquês» não traz qualquer benefício ao ensino da filosofia. Claro está que também nos manuais do «eduquês» há autores que se esforçam por fazer um bom trabalho, com qualidade e pesquisa fundamentada e outros que nem tanto. Bons e maus manuais há em qualquer um dos formatos.
Alguns novos manuais de filosofia parecem afastar-se progressivamente do «eduquês» filosófico e aproximar-se da filosofia e somente dela para apresentar os problemas. A verdade é que a filosofia, precisamente por não apresentar resultados ou apresentar poucos, é uma discussão animada em si e não necessita de qualquer muleta para se exibir. Naturalmente, com maior ou menor curiosidade, chocamos com os problemas filosóficos e a forma como os encaramos é a pedra base de toda a sofisticação futura que lhes possamos oferecer. A filosofia pode assumir essa vantagem em relação às outras disciplinas. Ela está directamente relacionada com as nossas vidas e com as questões que a vida suscita. E é neste sentido que defendo que a filosofia é animada em si, não dependendo de nada que a possa animar a não ser uma exposição clara e rigorosa dos seus problemas. O manual da Santillana/Constância segue este rumo. Paulo Ruas e António Lopes conseguiram um trabalho limpo e seguro, distante do «eduquês» e que faz com que o seu manual, Logos (2007) apareça como um projecto a levar em consideração. Os autores começam logo na Unidade 1 por apresentar de forma resumida as linhas com que a filosofia se coze, não se perdendo em discursos desnecessários que só confundem os alunos. No final do livro há ainda espaço para indicações precisas de como fazer uma dissertação filosófica, para além de uma apresentação sinóptica dos principais movimentos e correntes da filosofia desde a antiguidade aos nossos dias. O livro é acompanhado em todas as unidades por uma boa selecção de textos de apoio, por sínteses e propostas de actividades. As actividades são pensadas para uso dos métodos ensinados logo na Unidade 1, evitando, deste modo, a dispersão metodológica. Ao longo de todas as unidades os autores incluíram pequenos esquemas que elucidam de forma clara os problemas em discussão e as posições dos autores a analisar. De referir que estes esquemas são simples e assim é que devem ser. Muitos manuais apresentam esquemas que não mais fazem do que confundir o aluno. E convém não esquecer que como um professor gosta de aprender por bons livros, é natural que o aluno também goste sendo os manuais a porta de entrada do aluno ao saber e conhecimento.
Gostaria de salientar dois pontos menos positivos, ainda que discutíveis. Primeiro, o manual poderia tratar o aluno de modo mais informal, tratá-lo por “tu”. Segundo era bom no final fazer acompanhar uma bibliografia que pudesse não só orientar o aluno como o professor. Esta bibliografia vem no CD que acompanha o manual que, curiosamente, dista em qualidade de textos em relação ao próprio manual. Não se percebe porque foram autores diferentes a elaborar o caderno do professor. Mesma em falta disto a nota final é elevada.
 
António Lopes e Paulo Ruas, Logos, Filosofia 10º, Santillana / Constância, 2007
publicado por rolandoa às 18:57

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Rolando Almeida


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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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