Quinta-feira, 3 de Maio de 2007

«Não vale nada, é só palavreado»

Recentemente, num hotel de luxo, numa apresentação de um manual de filosofia, ouvi uma professora de filosofia, ao folhear um manual, afirmar: «isto não vale nada, é só palavreado». Curiosamente tratava-se de um manual que apresenta a filosofia de modo competente, não se alicerçando no circo habitual que mais não faz do que transformar a filosofia naquilo que ela não é. Mais adiante, a mesma professora, quando abre a unidade da estética e filosofia da arte, proferiu «Isto é arte?». Esta segunda pergunta parecia denunciar a mesma inquietação que um jovem adolescente possui quando confrontado com as questões da filosofia da arte. Desconfio, com efeito, da ingenuidade da questão feita, tal era a perplexidade perante o desconhecido.
Não partilho da opinião de que tudo o que é português não presta e que o bom é o que vem de fora. Curiosamente, grande parte dos maus manuais e por vezes mais adoptados nas nossas escolas mais não é do que a importação directa do pior que se faz noutros países. E, já agora, porque é que estranhamos tanto o que é bom e vem de fora? Seremos nós peritos na importação de lixo? Ou só importamos o mais fácil e imediato?
O contexto da filosofia é transfronteiriço. Quando muito podemos fazer uma divisão entre filosofia oriental e ocidental. E, numa confusão desnecessária, entre filosofia continental e inglesa e americana. Mas esta última divisão seria como optar entre ensinar o geocentrismo defendido na Patagónia e o Heliocentrismo das Universidades sérias onde mais se investiga com seriedade e se fazem os maiores progressos. Fazer filosofia ignorando o que se faz com os filósofos das universidades inglesas e americanas é como querer fazer ciência publicando os nossos resultados no jornal dos Brejeiros da Tijuca, o clube de futebol de pé descalço da favela onde vivia o Zé Carioca. Ninguém nos levaria a sério! Ignorar os centros mundiais onde se investiga mais filosofia e onde ela mais progride é, pura e simplesmente, ficar do lado de fora, ignorar o que se passa à nossa volta.
Apresento aqui mais um manual de filosofia para níveis secundários chegado de Inglaterra. Para que se note, este manual, que vem do país rico, não possui qualquer imagem. Só texto a preto e branco. Mas afirmar que este manual é mau porque é só «palavreado», seria cometer um grave erro e revelar total falta de curiosidade sobre o modo como os problemas filosóficos são nele expostos.
O manual termina com propostas de exames para treino das matérias estudadas e ainda com um pequeno glossário auxiliar em cada unidade, para além das habituais sugestões de leitura para aprofundamento. Organizado por Elizabeth Burns e Stephen Law (autor de vários livros de divulgação da filosofia, para além de director da revista Think), cada problema filosófico é trabalhado por um especialista em cada área. No início de cada unidade apresenta uma lista dos principais conceitos a considerar e ainda uma pequena e informativa introdução ao problema a analisar.
O manual está organizado com os seguintes problemas, pela ordem apresentada:
  1. Teoria do conhecimento.
  2. Filosofia Moral
  3. Filosofia da religião
  4. Filosofia da Mente
  5. Filosofia Política
  6. Filosofia da Ciência
O prefácio é de Nigel Warburton e pode ser lido aqui, (tradução de Desidério Murcho).
Este é um «palavreado» que serve muito bem o ensino da filosofia, uma belíssimo manual só com o fundo branco e o negro das letras, sem qualquer adorno para além da vivacidade e clareza com que os problema nos são apresentados. Em tempo de debate sobre a escolha de manuais de filosofia para o 10º ano, esta é uma boa luz que, pelo menos, nos escusa a habilidade ignorante de dizer disparates que em nada abonam a nossa disciplina.
 
Elizabeth Burns and Stephen Law (Edited by), Philosophy for AS and A2, Londres: Routledge, Reprinted 2006
Comprar e conhecer melhor aqui.
 
Rolando Almeida
publicado por rolandoa às 21:21

link do post | favorito

Rolando Almeida


pesquisar

 
Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

Posts Recentes

NOVO ENDEREÇO: http://fil...

Nova religião digital

Problemas again

Escolha um título,...

A censura na nova religi&...

Filosofia na web – ...

Mais um “AQUI&rdquo...

Uma situaçã...

E?

Exigências para se ...

Arquivos

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Favoritos

Relação entre a filosofia...

Luta na filosofia ou redu...

A filosofia não é uma arm...

Argumentos dedutivos e nã...

16 de NOVEMBRO DE 2006, D...

PAGAR NA MESMA MOEDA

Um ponto de vista comum n...

DILEMA DE ÊUTIFRON

O que é a validade?

Nova Configuração no Blog

Sites Recomendados

hit counter
Clique aqui para entrar no grupo artedepensar
Clique para entrar no grupo artedepensar
Contacto via e-mail
AddThis Feed Button
RSS