Quarta-feira, 28 de Março de 2007

Um teste empírico, Uma experiência didáctica com manuais

A seguir publica-se uma experiência de um colega com o manual Arte de Pensar. A publicação neste blog é feita com o acordo do autor da experiência. A razão pela qual se publica este relato é porque se trata de uma experiência significativa evidenciadora das diferenças entre manuais. Muitas das vezes nós, professores, pensamos na escolha do manual com os nossos pressupostos. Tenho defendido uma ideia simples: tal como nós gostámos de aprender por bons livros, claros e rigorosos, é natural que os nossos alunos, adolescentes, sintam o mesmo desejo. As diferenças entre os manuais são enormes e, aqui, o Arte de Pensar fica em clara vantagem. A ideia não é defender o Arte de Pensar atacando outros manuais, mas que o Arte de Pensar possa constituir um bom incentivo para se fazer bons manuais, didacticamente acertados.
Agradece-se ao professor de filosofia e colega João Paulo Maia.
Rolando Almeida

Tenho, por vezes, feito inquéritos relativamente detalhados aos meus alunos.

Porém, desta vez decidi fazer uma coisa muito simples, a que se deverá
chamar talvez apenas «questão anónima» ou «eleição do melhor manual de dois». Não se trata pois de um inquérito com n itens, não tendo também elaborado um estudo na sequência do mesmo. Tentei testar apenas aquilo que intuía, utilizando uma coisa elementar (também no sentido de não sofisticada).
Expliquei aos alunos qual era o objectivo da questão que lhes era colocada: ajudarem-me, e indirectamente tentarem ajudar também os meus colegas, na escolha do melhor manual de filosofia que eles conheciam. A escolha seria feita pois com base nos dois manuais com que eles tinham contacto – o Arte de Pensar e o Manual adoptado pela escola. Mais: seriam eles a recolher os questionários, a fazer a contagem de votos e a elaborarem uma pequena acta sobre aquilo que se iria passar na aula. Como veio a suceder.
Os alunos tiveram contacto com o Arte de Pensar através de excertos, nomeadamente, na área da Ética mas não só: alguns deles consultaram várias vezes o site do Arte de Pensar no que se refere, por exemplo, a textos de apoio e ao glossário.
Creio que o que fiz não é nada de especial. É simples e permite-me ter uma ideia clara sobre o que os alunos pensam, dadas as duas alternativas em questão.
O texto do documento é pois uma coisa elementar. Passo a transcrever:
«Inquérito Anónimo – Qual é para si o melhor manual?
Na sua avaliação deve ter em atenção estes factores: clareza, rigor, exemplos utilizados, criatividade. Em síntese, diga qual é o manual pelo qual aprende mais e melhor. (Coloque uma cruz)

Arte de Pensar _____

XXXXX X XXXX _____

[Identificação da turma e data]»

O que está a X é o nome do manual adoptado na escola e que na pequena folha que entreguei aos alunos aparecia, obviamente.
Num dos casos, que passo a transcrever, fez-se a acta (a que os alunos
decidiram chamar Declaração), no dia seguinte:
«Declaração
Para os devidos efeitos, declaramos que no dia 19 de Março de 2007 os alunos da turma 10º F da Escola Secundária X fizeram a escolha do
melhor manual de Filosofia, por votos, com os seguintes resultados:

Arte de Pensar: 17 votos.
XXXXX X X XXXXXX: 1 voto.

Local x, 20 de Março de 2007.

(Seguem-se duas assinaturas – da delegada de turma e de outra aluna que
substituiu a ausência do subdelegado)»

Há quatro anos lectivos, creio, que o manual X está adoptado na escola e foi

escolhido porque os meus colegas entendiam ser um manual acessível para os
alunos que a escola tinha e continua a ter, com algumas alterações – por
exemplo: temos apenas a partir do corrente ano lectivo alunos do Básico.A Coordenadora de Departamento e do Grupo Disciplinar de então salientava este facto – o de se tratar de um manual acessível. Foi aliás através dessa nossa colega que vim a conhecer o Arte de Pensar, manual pelo qual se bateu quanto à sua adopção, no que diz respeito ao 11º Ano, decorria então o ano lectivo  de 2003/2004. Porém, não conseguiu fazer valer a sua posição pois, na reunião desse ano lectivo efectuada com o explícito propósito de escolher um manual para o 11º, o Arte de Pensar não era conhecido pelos restantes colegas (entre os quais, eu próprio). É provável, não sei, que o manual lhe tivesse chegado demasiado em cima dessa reunião e talvez por isso não o tivesse dado a conhecer com antecedência. O que sei é que tinha analisado uma data de manuais e apontou como sua escolha o Arte do 11º (falava na altura das vantagens, nomeadamente, do apoio on-line). Foi, à época, a única pessoa a votar no Arte. Essa nossa colega era uma pessoa solidária, de um coração enorme e que não se coibia de dizer o que pensava. Infelizmente já não a temos entre nós, tendo falecido há cerca de ano e meio. Perdi (perdemos) uma colega espectacular que, talvez sem querer, me deixou, entre muitas outras coisas importantes, a possibilidade de eu conhecer o vosso manual.

É comovidamente que digo isto.

João Paulo Maia
Professor de Filosofia do Ensino Secundário Público


publicado por rolandoa às 14:50

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Blog de divulgação da filosofia e do seu ensino no sistema de ensino português. O blog pretende constituir uma pequena introdução à filosofia e aos seus problemas, divulgando livros e iniciativas relacionadas com a filosofia e recorrendo a uma linguagem pouco técnica, simples e despretensiosa mas rigorosa.

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